Ruinaria

2.12.15

O inimigo

A corporação está convocada. A ordem veio do sargento, do tenente, do major, do coronel, ou até mais de cima, dizem, então é colocar a farda e assumir a tarefa, o dever para com o povo paranaense.
A missão é cercar um prédio público. O patrimônio público é importante, pensa o miliciano. Mas por que ele deve ser cercado? Não interessa, responde um superior hierárquico. A tarefa é clara: cercar o prédio. Fazer perguntas demais não soa bem, melhor obedecer. Com a tropa na rua, o clima é festivo, toda a corporação fazendo um grande cordão em torno de uma bonita construção. Quase desejou que estivessem todos de braços dados. Uma comunhão em defesa do bem público.
E quem são aqueles que nos afrontam? O inimigo, claro. Os vagabundos, subversivos, insubmissos, aquele povo encostado que só sabe sugar. O que eles querem? Eles querem atacar, ora! Depredar, saquear! Parem de fazer perguntas, apenas impeçam o avanço das tropas inimigas.
Os comunistas avançam. Gritam palavras de ordem. Não entende nada. Um deles se aproxima. Os olhos inchados, um pano na cara, um giz na mão. Justiça, salário, casa do povo, consegue distinguir entre a gritaria. Não entende nada. Alguém resolve lhe aplicar um corretivo. Faz sentido. É a missão. A ordem vem de algum lugar: avancem. Um inimigo do povo cai e se rende. Tire a máscara, é a ordem. Tire! Ele trêmulo, como que arrependido da brincadeira de lutar por qualquer coisa, tira o pano da cara e meio envergonhado diz: não me machuca, pai.
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Originalmente publicado no Correio 7 de Março, 2ª edição (Jul/2015).

7.5.14

Marcos Peres, Borges e o Projudi

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A primeira vez que li sobre Marcos Peres foi na seção de notícias do Tribunal de Justiça do Estado do Paraná. A notícia não era sobre os feitos dos desembargadores, as estatísticas de produtividade dos juízes ou qualquer outro assunto de pauta jurídica, mas sobre o vitorioso do Prêmio SESC de Literatura no ano de 2013.

Então veio a primeira surpresa: o escritor era um técnico judiciário. Sim, aquele cara que faz seu processo ir de um lado para o outro no sistema, das mãos do advogado para as do juiz, o famoso “bate-carimbo”.

Ainda que eu estivesse me deparando, talvez, com um desses exemplares raros de burocratas escritores, mais proeminentes no nosso passado (um Lima Barreto, Graciliano Ramos etc), tal fato, na minha cabeça, só poderia se dar na capital do Estado, Curitiba, cidade que, a despeito de concentrar o maior número de pessoas mal humoradas por metro quadrado no país, teria tamanho e dinâmica suficientes para fazer grassar tamanha excentricidade (brinco com a surpresa porque é de praxe o funcionalismo público ser visitado pelo tipo menos artístico possível).

Mas me permitiram tampouco esse preconceito. O cara é de Maringá.

A inveja bateu forte, isso eu garanto.

Sendo razoável, todavia, contive-me e passei a procurar conhecer Marcos Peres. Um sujeito na casa dos 20, funcionário público, residente em Maringá (se você nunca ouvir numa das mais belas cidades planejadas do país, bem, então vá pesquisar sobre), ganhador do prêmio com o livro “O evangelho segundo Hitler”. Um título bombástico, que não deixa ninguém indiferente. É um livro nazista? Tem a ver com o Saramago? O cara é doente e detesta o cristianismo? Não. É um livraço, claro, cheio das suas limitações de estilo, mas que mescla na mesma estória Hitler, Jorge Luis Borges e heresias gnósticas dos primeiros séculos do Cristianismo, com seu suspense de timing perfeito e criatividade ilimitada. Enfim, estapafúrdio (e recomendado).

Estapafúrdio, aliás, foi o adjetivo empregado por André Sant´Anna, outro escritor, jurado do Prêmio SESC e um dos admiradores de Marcos, ao escrever a orelha do livro.

Estive a ver ambos em debate promovido pelo projeto “Autores e Ideias” do SESC Paraná.

André Sant´Anna é pessoa experimentadíssima, com a desenvoltura daqueles para quem a arte não assusta. Domou o debate com seus trejeitos malucos e fez um panorama um tanto quanto triste do nosso tempo, seja pela via política, social, econômica ou artística. Talvez um desencantado.

Já o Marcos me pareceu uma dessas pessoas que conhecemos sentadas ao nosso lado em uma viagem de avião. Uma intimidade regrada, ensaiando para passos maiores, que só dependem da atitude dele assim que o avião pousar. Sua timidez casou com seu juridiquês e formou uma figura única: o escritor do interior, funcionário público, amarrado pelas limitações do mundo em que vive.

Peraí, mas esse não sou eu?

É, sou eu mesmo, com as devidas adaptações. Não foi difícil estabelecer a empatia. E, confesso, é para isso mesmo que eu estava lá.

Num de seus momentos mais descontraídos, Marcos Peres passou a detalhar seu estranhamento durante o curso de Direito: enquanto seus pares mergulhavam em Constituição Federal e Código Civil, ele se via acompanhado das palavras de Borges. Em momento semelhante, enquanto contava sobre o momento em que recebeu a notícia de que era vencedor do Prêmio SESC, detalhou a curiosidade de seus colegas de trabalho sobre sua, digamos, “vida secreta” de escritor.

Bem, poucos podem entender o desassossego de se saber escritor em um ambiente formal.

A existência de Marcos como escritor que desponta no cenário nacional, entretanto, é alento desses que nos (me) faz seguir confiante e esperançoso de reconhecimento, mas, principalmente, de alcançar a sensação de realização enquanto artista.

Nesse ponto, entra o pano de fundo do debate, a questão que ficou no ar, tangenciada, mas distante, é possível viver de arte no Brasil?

A vida e experiência de Marcos e André mostram que não. Muito além do talento e da possibilidade de marcarem “escritor” no check in do hotel, são um técnico judiciário (Marcos) e um publicitário de propaganda eleitoral gratuita (André).

Eu gostaria de ter perguntado a eles: “vale a pena?”. Não perguntei. Talvez por já saber a resposta.

Essa vida dupla, de qualquer maneira, é angustiante para qualquer homem e nos expõe a certos ridículos. Disse Marcos que no último ano de sua faculdade queria porque queria escrever uma monografia envolvendo Borges e o tempo. Seus professores juristas não engoliram a ideia. “Tempo? Você quer falar sobre a morosidade do processo?”. Não, ele não queria falar sobre isso. “Sobre prazos recursais?”. Menos ainda. “Borges, o escritor, e tempo, a ideia filosófica”, ele indicou. “Não, isso não é possível”, burocratizou o jurista-professor. Nosso sistema de ensino superior não quis se expandir, pelo contrário, fagocitou Peres e o conformou ao seu feitio.

Uma desinibida na fileira da frente arriscou: “E escreveu sobre o que, afinal?”.

Marcos abaixou a cabeça, mais uma vez tímido: “sobre processo eletrônico”.

Não deixo de pensar no meio acadêmico (e em todos os ambientes formais, com seus ritos tradicionais, como de costume) como uma certa morte do espírito e do corpo. Morte do espírito porque tirânico, morte do corpo porque engessado.

Por terrível coincidência, no mesmo dia estava a ser instalado no meu trabalho o famigerado Projudi, o processo eletrônico da Justiça do Paraná, que veio para enterrar os processos de papel que tanta alegria e alergia me deram. Veio para tornar meu trabalho mais eficiente, para tornar minha força de trabalho mais rentosa, para azeitar a máquina pública.

Uma vida dupla, eu insisto, difícil de lidar, como duas ideias tão contraditórias que afinal insuperáveis: Borges e o tempo de um lado e processo eletrônico do outro. Pensar e cumprir prazo. Escrever e se conformar. Voar e rastejar. Viver e morrer.

Vale a pena?

13.10.13

Eu gosto mesmo é de pobre

1

Algumas classes sociais separam Caco Antibes, aquele do “Sai de Baixo”, do Ruço, de “Pé na Cova”, ambos programas televisivos de humor. De comum, no entanto, está o mesmo homem na pele dos dois, Miguel Falabella.

Que não cogitem aqui que vou me alongar em discussões sociológicas a respeito da sociedade carioca, mesmo porque dela nada sei, dada a sua complexidade, mas o espaço é suficiente para uma constatação básica: eu gosto mesmo é de pobre.

É, isso mesmo, pobre, pé-rapado, zé-ruela, necessitado, carente. Aquele terço da nossa população que habita em sua maioria a periferia das manchas disformes que convencionamos chamar de cidades e cuja mente e modos são também habitados pela periferia.

A origem dessa predileção surgiu sabe-se lá aonde. Não posso dizer aqui que já fui hostilizado pelas classes mais abastadas ou me traumatizei com os nobres. Nada disso, eles me recebem de braços abertos, posso assegurar, mas alguns olhares de desconfiança, cônscios da minha verve média.

Mas não queiram que eu dobre os joelhos para os ricaços. Sobrenome para mim é aquilo que você herda de seus pais e tanto pior para os poderosos se o que carregam traz em si mais do que letras.

Atentem, o texto é sobre a habilidade do carioca Falabella em lidar com os pobres. Versátil, já figurou como um malandro metido a socialite, cuja ojeriza aos de baixo era sua maior fonte de humor. Antes de estigmatizar os subalternos, como querem fazer crer os que o citam, Caco Antibes era um personagem de fina crítica à classe média brasileira. Seu “horror a pobre” era uma caricatura tão decadente de nossa sociedade que esta, sem entender coisa alguma, ria aos montes, não se dando conta de que a piada era ela mesma.

Já com o Ruço o buraco é mais embaixo. Sua ousadia não seria de todo perdoável pelos ricos. Afinal, com “Pé na Cova”, Falabella humaniza os pobres, mostrando que, a despeito de sua falta de modos e do conhecimento acadêmico, buscam os mesmos objetivos de todo e qualquer outro ser humano, independentemente de sua faixa econômica: viver antes de morrer. E viver, creio eu, não depende dos penduricalhos da civilização que tentamos erigir.

Ruço é o “homem médio” a quem tentamos sempre imaginar no ideário popular. Dono de uma funerária (“F.U.I.”, Funerária Unidos do Irajá), sua casa parece um circo de horrores, não pela proximidade com o funesto, mas pela vida que esbanja de seus membros: uma ex-mulher alcoólatra e tanatopraxista (Marília Pêra, sensacional com seus 70 anos), a esposa atual, jovem e voluptuosa, uma filha stripper e lésbica e um filho político e pedante, além da fauna que reside na vizinhança, como a Luz Divina, as irmãs gêmeas de pais diferentes (uma negra, outra branca), o Tamanco (Mart´nália, como “marido” de Odete Roitman, a stripper) e os vizinhos reacionários, obviamente fazendo o papel dos evangélicos mais raivosos de que temos tido notícias ultimamente.

Muito mais que humor, “Pé na Cova” oferece uma visão que vai de encontro com tudo o que a Globo sempre construiu em termos de cultura. Se da manhã até às 22h30 sua programação é voltada para a conformação da personalidade dos brasileiros, de maneira que aceitem a imposição do status quo, como, por exemplo, o papel da mulher tranquila, brincalhona e burra que as donas de casa devem ter pela manhã, passando pela juventude apolitizada e egoísta de “Malhação”, ao sujeito classe média obediente ao grande capital, de todas as novelas do canal, das 18, 19 e 21 horas, sem exceção, é certo que com a exibição de “Pé na Cova” isso se inverte, ainda que de maneira muito dissimulada e tímida, pois é ali que os estereótipos ganham um novo padrão (seria de se esperar muito que o perfil do verdadeiro brasileiro fosse mostrado), permitindo uma demonstração da pulsão de vida e morte a que as classes menos assistidas estão mais habituadas.

Dessa forma, não é sem assombro que a faxineira da trama revela aos patrões que toda sua vizinhança foi exterminada por traficantes na favela em que mora, enquanto ela dava graças-a-deus por ter sobrevivido. As formas esculturais da filha stripper (Luma Costa) se exibem igualmente, sem pudor, provocando os crentes que não suportam a ideia de saber que ela cria uma criança adotada junto de outra mulher. No seriado já fizeram a defesa da PEC das domésticas e do bolsa-família, bem como se expôs ao ridículo parlamentares risíveis como Marco Feliciano, o que não deve agradar sobremaneira Ali Kamel e sua obstinação política.

Com isso, cria-se uma glamurização da pobreza, coisa que “A Grande Família” fazia sem muito empenho. Ruço e sua ex-mulher dançam na sala apertada, ao som de A Whiter Shade of Pale. Ruço, corajoso, beija na boca seu ex-melhor amigo (morto) enquanto este jaz em seu caixão. O ambiente é aconchegante, as amizades imperam na vizinhança, revelando uma matriz de solidariedade no discurso oculto do texto, em contraponto ao ódio exacerbado das reviravoltas novelescas e os amores insossos e irreais dos casais globais, exibidos pouco antes na faixa de horários do canal.

Poderia ficar horas tecendo loas a “Pé na Cova” e a programas similares, como o inglês “Shameless”, que vai ainda mais fundo na representação do lado oculto da sociedade, da imensa sombra que cerca o ponto ínfimo da iluminada riqueza. Cumpre antes, porém, destacar meu papel tão solene nessa predileção, destacando que este aqui, como não poderia deixar de ser, é corinthiano maloqueiro, socialista de botequim, agnóstico por preguiça e admirador de todos os que lutam diariamente para se manter de pé neste planeta.

E é por isso que compreendo a ideia de Falabella com seus trejeitos mesquinhos de Caco Antibes e a brutalidade gentil do Ruço. Há um quê de sujeito perdido num espaço de distorções na obra do carioca, alguém criado em meio a relativo conforto e desacostumado com a pompa dos ambientes “bem-frequentados”. Não muito diferentemente, acho que posso afirmar com carinho que me sinto melhor acolhido no buteco da esquina que no evento dos juízes ou no espaço de comércio das grandes grifes.

É um bicho isso, um desassosego com a diferença e um assombro com a indiferença. Um olhar trêmulo que não se acostumou a vislumbrar a sombra pálida no fundo luxuoso da caverna, mas almeja descer fundo nos grotões, em busca de esperança.

E a esperança, já dizia Winston em 1984, só pode estar nos proles.

17.8.13

Tu és Deus

Leio com a surpresa de um leitor de ficção científica a notícia dos cem mil inscritos como voluntários para colonizar Marte. Uma viagem sem volta. São muitos os que querem se livrar da Terra, deixando tudo para trás a fim de entrar de vez para a História interplanetária.

A notícia me faz lembrar de outra equipe selecionada para visitar Marte. A nave Envoy partiu do planetinha azul direto ao vermelho carregando quatro casais, todos especialistas em algo. Depois de interrompida a comunicação com a base terrestre, outra nave foi enviada para averiguar o que ocorrera. A nova tripulação não encontrou nenhum sobrevivente da Envoy, exceto um rapaz: filho de um dos casais, Valentine Michael Smith. Estou a falar de "Um estranho numa terra estranha”, de Robert Heinlein.

Smith foi trazido à Terra como um tesouro, um objeto a ser dissecado pelo cientistas terráqueos. Criado por marcianos, estava deslocado de toda a lógica e de todas as idiossincrasias humanas. Por isso mesmo, com sua percepção ingênua, acaba por desvelar toda a fragilidade de nossas convenções, aprendendo-as do zero e descartando-as por sua completa ausência de sentido.

O marciano vive sua trajetória um tanto quanto “siddarthiana”, construindo seu próprio entendimento das relações humanas, do sexo, da confiança, da amizade, do sacrifício, do amor, da doação, do afeto. As páginas correm enquanto ele tenta “grokkar” os homens e as mulheres. Marcante o momento em que se escandaliza com um ser humano que o convida a pisar a grama (um ser vivo), até que se dá conta de que a grama está ok com isso.

O momento chave do livro é a criação, por Valentine, da Igreja de Todos os Mundos, cujos dogmas são tão simples quanto o deveriam ser os dogmas de outras igrejas que por aí se proliferam. Sua mensagem é simples: a alteridade é o meio da humanidade se salvar. A empatia, o segredo de nossa coexistência. O “amor ao próximo” levado às últimas consequências.

A parábola não escapa do roteiro tradicional de nossa humanidade: Smith é linchado por uma turba enfurecida, que lhe clama a carne e o sangue enquanto ele resume seu olhar a um gafanhoto. Ao se entreolharem, o marciano proclama, sábio: “Tu és Deus”.

Os terráqueos que querem se ver livres deste nosso planeta, que ainda julgo belo, talvez necessitem construir um novo mundo, longe daqui, oculto de nossas convicções espirituosas. Um mundo de religiosos-políticos, cheio de indiferença, preconceito e segregação. Onde o amor ao próximo esbarra na barreira intransponível da diferença, da distinção, da contrariedade. Religiões totalitárias, incapazes de aceitar o outro. Não estamos a nos expandir, a nos desenvolver. Estamos insistindo em nos dobrar, fetalmente, desejosos de voltar a um útero podre.

Esses seres que daqui querem escapar, eles estão cobertos de razão. Que o planeta vermelho os receba de braços abertos, com toda a sua beleza árida.

Eu continuo no planeta azul, um tanto quanto espantado, olhando para todos e exclamando: “Tu és Deus”.

15.6.13

Strogonoff

“As risadas vão surgindo do pequeno grupo, um amontado de couro e tecido verde que se prosta perante uma chama fraca em meio à vastidão branca, de gelo, e negra, de terra revirada e revolta, da trincheira que chamavam de lar. Era uma distração de boa índole, porque o Oficial, que por sorte era destacado à cozinha, viera a ali se perder e a se isolar com o pequeno grupo da cavalaria, bloqueados pelo avanço dos poloneses e pela densa tempestade que os atingira duas semanas atrás. Os cavalos foram minguando, seja pela fraqueza, pelo frio, ou, o que mais irritava o Oficial, pela sua lâmina, que agora se dispunha a pelar o animal, atrás de sua carne negra e gelada. Era gostoso ouvir o som entrecortado dos risos curtos, mas longos o suficiente para quebrantar o frio”.

Eu cortava a cebola, as mãos salpicadas de pedacinhos do fruto e os olhos de lágrimas, quando ele me abraçou por trás, beijando minha nuca e apertando meu seio esquerdo. Um tremor de repulsa percorre minha espinha e ele confunde isso com um prazer incontido, me dando um tapa na bunda.

- Estou cozinhando, protesto.

Ele me pega o queixo e analisa meus olhos.

- Por favor, não chore. Sei que sentiu minha falta, mas aqui estou.

- Bobo.

Deixando a cebola de lado, esparramo os bifes de alcatra sobre a tábua. A faca dezliza pela fibra sem resistência, separando gordura de músculo. Ele me vê executando a tarefa e começa um papo sobre um programa de TV.

- … precisa ver o que ele faz com os cachorros, é inacreditável!

- Eu imagino.

Ele apanha uma cerveja da geladeira, não sem antes apalpar minha bunda novamente, e ressalta que fico muito gostosa de calça de lycra. Põe-se ao meu lado enquanto eu fatio a carne vermelha em tiras.

- O que você tem hoje? Parecia fria.

Olho para ele com pena. Com a faca na mão, beijo-o no canto da boca. Não, não sou mais capaz de sentir paixão por este homem. Ele não me traiu, não me fez mal, não me bateu. Ele me escreve uma música pelo menos uma vez por ano e me elogia e me dá flores. Seu sorriso é bonito. Mas …

- Estou com cólica.

- Ok, estressadinha. E me aperta a bochecha.

Depois que a margarina derrete, jogo a cebola na panela. O delicioso cheiro invade a cozinha enquanto ela doura. Já translúcida, é a vez de acrescentar as tiras de carne. Sambo a colher de pau, fritando-as. O barulho da carne crepitando é o sinal de que preciso.

- Tenho uma surpresa para você, querida, ele me diz, empolgado.

- O quê.

Ele me mostra uma fotografia de uma praia e diz que é o nosso próximo destino. Sorrio e viro a cara.

- Espera, amor, senão perco o ponto.

Despejo conhaque sobre a carne, o cheiro de álcool invadindo as narinas. Ele ainda me encarando, como um cachorro aguardando aprovação. Seguro um fósforo. Acendo-o e o jogo à panela. As chamas sobem altas, mais atrativas que todo o resto do mundo.

“Conhaque aquece o mundo e faz esquecer que a guerra nos espreita, dizia algum comdiv a eles, e entre um gole e outro, o Oficial olhou a garrafa e o creme azedo que tinha à sua frente, e por uma decisão impensada derramou o líquido sobre a caçarola, onde fervia a carne do trotador orloff, cortada em tiras para render mais. O cheiro animou seus companheiros. Rodion deu-lhe tapinhas nas costas pelo prato que prometia um banquete em meio ao inferno. Qualquer alegria era a maior das alegrias. Qualquer esperança era a porta do Céu”.

Sentados à mesa, ele me explica que o vento e o mar vão nos fazer bem, que sente saudade em me ver de bikini, e que mal pode esperar pelas caipirinhas. Eu gosto dele? Insisto? Ele teima em sorrir, mostrando os dentes, e talvez eu me arrependa de seguir adiante o plano. Quando prova o prato, fecha os olhos e se finge de dramático, elogiando até a terceira geração da minha família, congratulando-os pela genialidade em ter me gerado. Um prato tão simples esse…

Ele me assistindo encarar a panela, pergunta o que foi.

- E se estivesse envenenado?, questiono.

Ele ri.

- Hein.

- Para de brincar assim… não é legal.

Fico séria.

Ele larga o garfo e coça a garganta.

- Você …?

Explodo em risadas e ele me segue, voltando a comer. Mas eu não acho graça. Meus músculos da face estão tensos, minha boca se escancara, há um som repetido saindo das minhas cordas vocais, mas não há graça alguma.

“… o lobo encosta o focinho na tigela congelada e fareja a novidade. Funga de desgosto. Uma pata sua verifica a consistência da carne congelada. Mas para chegar até ela… tantas indumentárias, tanto couro e metal! O banquete nada tem de digno de uma fera. Uiva para o nada, para o branco da neve”.

- Felipe.

- Oi, querida?

- Eu quero a separação.