31.12.11

2011

A areia revolvida nas canelas, as flores brancas jazendo nas ondinhas, sob os pés dos mais festivos, oferendas desprezadas por Iemanjá e vítimas da maré, os pingos de chuva que dão vontade de lamber o céu. Num instante, um rapaz de sorriso lépido estende as mãos e deseja sem nenhum compromisso Feliz Ano Novo. Ele não me conhece. Tampouco os amigos dele, que fazem o mesmo ritual. Noutro ponto, uma voluptuosa garota se despe de seu vestido, instigada pelas amigas, a fim de cumprir alguma promessa, fica seminua, a pele lisa iluminada pela luz da Lua. Passo encarando seus seios e faço um gracejo, mas somente uma das amigas ri. Meu chinelo gruda na areia. As garrafas, seja de Sidra Cereser ou Dom Pérignon, se amontoam sob o trajeto. É preciso tomar cuidado com os cacos de vidro. Uns grupos cantam, pulam, outros se abraçam, a minha fila indiana caminha. No mar, os transatlânticos nos saúdam, vaidosos.

Quando olho para trás, seja hoje ou naquele dia, percebo quão grande foi o caminho percorrido. Atravessar Copacabana minutos depois dos famosos fogos do Reveillon ou rememorar 2011 são tarefas que deixam rastros de pegadas no chão atrás de mim.

Essas cenas que parecem coisa de sonho são minhas primeiras lembranças de 2011. Naquela noite eu estava como eu estou todos os dias da minha vida: apaixonado, tímido, criativo. Melancólico talvez, mas sempre meio esperançoso. Alguém que baixa o Panamá sobre os olhos para poder pensar direito. Temo terminar o ano da mesma maneira que o comecei.

Naquele Janeiro distante eu sentei na poltrona de um consultório. Comecei uma terapia. Fui lá reclamar que “daquele jeito” não dava mais. Foi trabalho de formiguinha, pedacinho por pedacinho, me reconstruindo, agregando e juntando, fui me afastando de todo o lixo atômico.

Agora no final do ano ela, a terapeuta, quis fazer um balanço do processo. Eu, friamente, acho que não deveria mais voltar lá, me sinto bem, apesar de não me sentir tão bem. Mas depois penso que todos deveriam fazer terapia e acabo voltando lá para tentar descobrir mais alguma outra coisinha que me faça pensar, Eu me conheço, eu sei meus limites, eu sei onde eu posso ir.

Eu namorei e desnamorei, eu fiquei e desfiquei, eu tive umas paixões platônicas e na mesma proporção me desapaixonei. Eu descobri que essa coisa de estar no último ano de um curso continua sendo o maior clichê, é como se num passe de mágica eu passasse a existir para todas as demais garotas calouras. Não que eu esteja reclamando.

Eu tive a melhor das turmas e eu vi essa turma sangrar e morrer aos poucos. Cada um se isolando no seu canto, distante de mim. Eu, que outrora dizia que amava e fazia de tudo para juntar todos debaixo das minhas enormes asas, dessa vez me senti cansado e deixei passar. Esse ano, descobri que às vezes estou melhor sozinho.

Em certo ponto eu vesti um terno e apresentei um trabalho que me custou suor e muita preocupação. Nesse dia, eu descobri que gosto de falar em público. Foi um dia só meu, um dia com elogios e abraços. Quando me despi do terno, entendi o que significa “valeu a pena”.

Noutro dia, saí do banho, eu estava pelado e ia me vestir para sair, coloquei uma música no winamp velho-de-guerra e só por curiosidade atualizei o facebook. Todos estavam comemorando, então eu fui conferir o resultado e lá estava, aprovado na OAB. Nesse dia, eu pulei pelado pela minha casa.

Quando a faculdade acabou, eu me dei conta do que estava deixando para trás. Creio que se tirassem o globo das costas de Atlas, a única coisa que se passaria na sua cabeça seria, Que porra eu vou fazer com estas costas arqueadas?

O que eu vou fazer sem a vida acontecendo?

Eu ganhei mais um sobrinho, um lindo tigrinho de olhos-azuis chamado Frederico. E descobri que gosto mais de crianças do que pensava.

Na outra ponta da vida, eu perdi um avô e chorei algo que estava preso durante muito tempo dentro de mim.

Eu tive inúmeros desentendimentos e corri atrás para salvar todos aqueles relacionamentos que eu julguei essenciais na minha vida. Esse é um processo que espero sempre melhorar.

Agora 2012 vai chegando, algo misterioso. Meus planos são inúteis, eu não sei nada do que vai acontecer. Mas enquanto não acontecem, eu vou sonhando e perseguindo meus sonhos. Pelo menos eu descobri o que eu sou por dentro e eu sou alguém que gosta de lutar pelos outros.

Meu único arrependimento é ter vacilado quando eu não deveria ter vacilado, afinal, é melhor dar com a cara na parede que viver na expectativa de situações irreais.

Hoje eu falo, eu olho e eu me expresso. Esse blog nasceu em 2011, sem nenhum receio de me expor e de expor as minhas ideias, pois é tudo isso que me restou, é tudo isso que possuo.

E se não posso compartilhar, que graça tem?

Pode vir, 2012, eu não tenho mais medo de você.

17.12.11

Bom dia, devedor

“Garoto…”, ele disse num tom de desprezo, “…vê se aprende como se faz essa merda”, e deu com o pé de cabra no joelho do homem. Era um cara de uns quarenta anos, uma barba ainda rala, e cara de bicheiro, o que não tinha de pelo no rosto, tinha de sobra no peito. Ele gemeu alto, mas tentou aguentar como alguém que ainda tinha algum resquício de dignidade. Não durou muito, porque logo começou a chorar e a balbuciar uns troços incompreensíveis, “na-na-na, bu-bu-bu, eu pago, eu pago”, era o que dava para entender. É engraçado como a parte da aceitação conseguimos compreender perfeitamente, mas para todo o resto, e nisso incluo as desculpas sobre a família, a mulher, a amante, a vó, a mãe, as dívidas mais importantes, enfim, toda a enrolação, isso não escutamos não, e é claro que você pode presumir que as dívidas conosco são as mais urgentes. É porque somos muito bons em cobrar, e disso era testemunha o filho do cara, o quarentão que se contorcia na minha frente, um pivete de uns dez anos, que assistia tudo meio assustado, meio lacrimejando, com o dedo na boca, aquela cara de criança tonta que não entende nada.

Quinze anos depois eu lembro persistentemente dessa cena que, à época, embrulhava meu estômago e me enchia duma excitação esquisita, uma coisa que fazia meu coração tremer e minha pernas parecerem geleia. E não vou ser hipócrita, eu achei muito justo aquele devedor cretino receber o que merecia.

Foi com vinte anos que fui contratado pela Gimenez & Levi Assessoria Contábil. Um estagiário prestativo e atencioso, ouso dizer ingênuo e babaca, que logo no primeiro ano de casa foi levado a entender o grosso do trabalho, e nisso me refiro ao que acabo de recordar. É claro que com dois nomes assim como sócios, um espanhol e um judeu, a essência da empresa não seria outra, e nisso eu sinceramente mando ir à merda quem me acusar de preconceito, senão a de uma fachada para algo que eu sempre gostei de chamar de “Dois muquiranas, sovinas, desgraçados que adoram foder a vida dos outros à base de usura”. Mas é claro que eu nunca sugeri que modificassem a razão social do escritório para algo do gênero.

Não demorei a adquirir o know-how da vida empresarial dos meus empregadores e logo tratei de não me fazer de rogado. As pessoas nos contratavam para convencer os outros a pagarem. Conversa mole e call center não adiantariam. Sangue e alguns móveis destruídos, contudo, eram extremamente eficientes. Eu, um representante honrado da geração Y, preenchi o ideal da firma com a criatividade típica da minha geração. Era muito comum, por exemplo, que meus chefes acreditassem que somente a força bruta resolvesse tudo. Mostrei a eles, então, a eficiência do terror psicológico. Eu comprovei estatisticamente como fingir ser amigo do devedor, para depois subrepticiamente fazê-lo perceber a cagada que seria ficar devendo para nós, era extremamente eficiente. Tudo na base da palavra, da conversa que vai mexer com os brios do devedor. Pouco esforço, muito lucro. Isso evitava da polícia nos encher a paciência também.

Assim, um ano e pouco depois da minha contratação, eu já tinha liberdade para uns trabalhinhos solo, arrecadando a grana para os clientes e fazendo a fama da empresa. Na minha primeira “visita”, lidei com uma drogadita que se achava a esperta, capaz de enganar até a própria mãe. Ainda lembro daquelas olheiras fundas que marcavam seu rosto, as mãos ossudas. Ela tentou me enrolar com um papinho furado. Depois, vendo que eu não era otário, tentou negociar. Eu não estava lá para negociar. Resolveu reclamar, pois. Eu não era ouvidoria para receber reclamação. Xingou, então. Aí ela recebeu o primeiro tapa. Tentou me bater e levou mais alguns tapas. Chorou e tremeu. Eu a segurei forte, fiz ela olhar para os meus olhos de cobrador. Estava lá para cobrar. Falei da família dela, falei do que ela tinha para a vida dela. Falei da minha própria família, muito embora eu nem tivesse uma (apenas um pai que morava longe). Falei, enfim, que ela devia olhar para um espelho. Ela se calou e pareceu lembrar de algo, de alguma decência. Chorou mais um pouco, foi até um canto que achava ser seguro, onde escondia o que sabia que poderia precisar um dia (que finalmente havia chegado), de onde tirou um maço sujo de dinheiro. Drogada inútil, achou que me enganaria. Antes de ir embora, belisquei sua bochecha e sorri cretinamente, a fim de que ela se lembrasse que nessa vida, ou você é uma drogada ossuda e fedida, ou um cobrador eficiente, como eu era.

Eu poderia muito bem listar os trezentos e vinte e seis casos de cobrança que enfrentei nesses quinze anos de firma, coisa que muito me aprazeria, mas a verdade é que, como eu disse, eu era um cobrador eficiente.

Sinto-me um broxa aos trinta e cinco anos de idade.

Após quinze anos crescendo dentro da firma, a ponto de ver meu nome figurar entre os dois mãos-de-vaca na placa da sede, comecei a decair. Finalmente era um sócio! Mas um sócio broxa, incapaz de tirar um centavo que fosse de uma velhinha, ou um doce de uma criança inocente.

Acho que me esgotei, cheguei em alguma espécie de limite, uma porta fechada. Meu método talvez seja coisa do passado. Hoje em dia, diante de uma proposta minha, pegam o telefone e deixam o dedo em riste, pronto para discar 190, ou como outro dia, quando falaram de ligar para a imprensa. Os mais graduados já ligam logo para o advogado da familia. Eu sou bom no que faço, mas sou incapaz de superar um advogado.

Comecei a voltar de mãos vazias para o escritório. Os dois boçais me olhavam enviesados, como se eu tivesse defecado em cima da escrivaninha de mármore deles, e com muita cerimônia e várias meias-palavras não titubeavam em demonstrar como eu estava sendo prejudicial para a empresa. Nessa hora, cessava qualquer respeito, aquele puxa-saquismo de quando eu triplicava o faturamente da espelunca, e voltavam a me tratar como um moleque.

Gimenez, com sua pança e bigode que se anunciavam séculos antes que ele viesse a adentrar qualquer recinto, logo me ameaçava com uma redução no rateio dos lucros. Levi, por sua vez, o responsável por me mostrar como as coisas funcionavam no primeiro dia de trabalho, só balançava a cabeça, depois, muito sarcasticamente, tratava de fazer alguma comparação:

“Essa sua geração é muito precipitada. Bando de moleques. Acham que sabem tudo, não sabem bosta nenhuma. Não viveram qualquer guerra ou ditadura que fosse, não sabem o que é inflação, vivem no bem-bão desde bebês, como vão saber o valor do dinheiro?”, era o que ele despejava sobre mim, enquanto cofiava a barba negra.

Aqueles olhinhos negros dele caçoavam desproporcionalmente de mim. Agora eu era o garoto, o bobo que nada sabia fazer. De salvador da firma a peso morto. Quanta ingratidão.

Escrevo esse desabafo unicamente para me livrar do ódio que se apossou de mim ante a citação que recebi um dia atrás. Quando abri a porta e me deparei com o oficial de justiça, imaginei que a sensação dos meus acossados talvez fosse semelhante. Devidamente citado para responder a uma ação de dissolução de sociedade. Os dois velhotes me queriam fora. Eu tenho essa coisa, sabe, eu guardo meu rancor, a minha raiva, e depois passo pro papel. Elas podem ficar bonitinhas num pedaço de papel, apenas para efeitos terapêuticos. Apenas.

Mas eu me dei conta de que tenho um dom, sou muito grato a Gimenez e Levi por mo terem revelado. Não posso esquecer, contudo, que estou diante de dois trastes. Assim, essa caneta que me enerva, onde despejo minha bílis, me ajudou a tomar uma decisão.

Amanhã será um grande dia. Eu vou acordar, tomarei um suculento desjejum, dirigirei até o escritório e provavelmente assobiarei no trajeto, darei um tapa na bunda da secretária de vinte e dois aninhos a qual nem lembro o nome, entrarei na sala do Levi sem bater na porta e o convencerei a chamar Gimenez até sua sala. Vou olhar para os dois e fazê-los se sentar para me ouvir.

Eu terei um sorriso na cara e, apesar do desrespeito, do destrato e da citação, eles pensarão que eu sou um amigo, um bom amigo. Aquele jovem em quem sempre confiaram.

Então eu farei eles pagarem.

14.12.11

O padrinho Lancelote

Tinha essa taça de vinho tinto, muito brilhante, eu não sei se era coisa do luar ou da minha cabeça, mas ela brilhava soberbamente. O minuano refrescava minha nuca, meu cabelo cacheado sempre me fez suar mais do que gostaria, mas de qualquer maneira eu divagava a respeito da cor do vinho, coisa que tinha aprendido com uma garota, quando percebi que eu devia ser realmente muito introspectivo para ficar pensando em tais coisas, e sozinho, numa festa de casamento. Eu ali, na sacada, entre a lua e o vinho e as pessoas dançando despreocupadamente na pista, lá dentro.

Posso estar errado, mas pouco tempo antes uma gordinha tinha passado por mim, rebolando dentro de um vestido apertado, eu a olhei de esguelha passando por mim, com seus tornozelos grossos. Era muito bonita de rosto e a essa altura eu já estava me perguntando se o fato de eu querer ir para a cama com ela era coisa do álcool ou um gosto novo muito democrático de alguém outrora esteta.

Ela não me olhou nem nada e por mais que me esforçasse mentalmente para fazer seus olhos repousarem sobre os meus, só o que consegui foi ficar entre a lua e a taça e pensar na cor do vinho. Depois disso eu fiquei pensando que talvez não sejamos muito diferentes, ou pelo menos eu, já adianto, daqueles cachorros que espreitam por entre nossas pernas e ficam nos olhando com aquela cara de abandonados. Será que minha cara era assim? Mas eu não queria, necessariamente, um pouco de comida ou afago, ou talvez quisesse, de maneira que não consegui concluir se existe de fato alguma diferença entre os homens e os cachorros. É provável que não.

Tive que segurar bem forte minha taça de vinho, pois por volta das duas da manhã, e era essa hora que eu refletia a respeito dos cachorros, o meu grande amigo me deu uma gravata, quase quebrando meu pescoço e me deixando desleixadamente desarrumado. Com isso ele queria dizer “eu te amo” na linguagem corporal masculina. O que é muito preferível a ver ele parar na minha frente e proferir com olhos lânguidos “eu te amo”, o que seria em absoluto muito estranho e um tanto quanto inaceitável pelas práticas morais das pessoas heterossexuais, dentre as quais me filio.

Ele perguntou “O que você está fazendo aqui fora, seu viado?”, e eu menti, enquanto arrumava milimetricamente minha gravata, falando que havia recebido uma ligação de uma mulher que estava comendo, ou fazendo amor, se seus olhos forem muito sensíveis ao que escrevo (mas isso estou falando a vocês, não ao meu amigo), enfim, uma comissária de bordo que veio da Argentina e tinha esbarrado em mim numa fila de aeroporto qualquer e com isso eu só queria provocá-lo, porque ele sempre quis ter comido, ou feito amor, com uma argentina, e muito embora nem soubéssemos como eram as argentinas, ainda assim ele queria uma delas.

“Ah, uma argentina”, ele disse meio intrigado.

“É, uma argentina, mas veja só, hoje você é o grande homem, você escolheu uma brasileira e agora as argentinas são só minhas”, retruquei.

E ele ficou olhando para o dedo anular dele, onde horas antes a agora esposa dele tinha enfiado sem lubrificante nem nada uma pesada aliança de casamento, enlaçando eternamente a vena amoris do meu dito amigo. Depois ele botou essa mesma mão no meu ombro e com muito orgulho disse que eu era o padrinho mais filho da puta que já existira na face do terceiro planeta contado a partir do astro solar.

Sem querer ou talvez por querer - deixo isso para Freud descobrir - , eu lembrei como eu invariavelmente detestava aquele cara. Eu não lembro bem porque alguma vez na vida o considerara meu melhor amigo, mas a inércia deu conta de perpetuar isso por mais de quinze longos anos, essa crença inabalável de que somos inseparáveis e que eu era algum tipo de Lancelote ao seu lado.

Ele se esqueceu, involuntariamente, presumo, que há treze anos atrás comeu, ou fez amor, com a minha ex-namorada, assim, como num passe de mágica, logo depois que a vadia, ou a mulher sem escrúpulos, me largou. É bem verdade que não estávamos juntos, mas ele devia saber de outra regra da etiqueta masculina: amigo não pega ex. Casos passageiros e espécimes deliberadamente passadas adiante são permitidas, mas ex, aquela ex lazarenta que faz o cara sofrer e tudo, essa é intocável. Se mulher de amigo é homem, ex então deve estar na mesma posição de um travesti que sai correndo pelado gritando “eu tenho gonorreia!” em meio a uma creche infantil.

De maneira que eu não sei ao certo porque mantive a amizade, ou o que aparentasse ser amizade, com o recém-casado. Não, mentira, eu sei sim, eu sou um mal-caráter. Não tentem gostar de mim, eu estou ao lado dele apenas para tomar vantagem em diversas situações. É, é isso mesmo.

O protocolo, contudo, me ordenou ser um padrinho correto e abençoar a relação dele com a imbecil que ele escolheu para ser mulher. É certo dizer que ela me detesta, talvez tenha cheirado algo de ruim na minha amoralidade que, combinemos e falemos bem baixinho a partir de agora, eu deixo em segredo aqui com vocês, somente vocês, não espalhem!

Enquanto conversávamos sobre todas as bucetas, ou os órgãos genitais femininos, que ele deixaria de conhecer a partir daquela noite, os participantes da festa começaram a nos chamar para voltar à bagunça. Estávamos quase naquele ponto onde algum bêbado coloca a gravata na testa e começa a constranger a tia mais puritana da noiva, e eu cheguei a pensar mesmo que eu gostaria de estar em qualquer outro lugar a permanecer ali, dali eu levaria somente a minha taça e o meu vinho tinto soberbo.

Antes de entrarmos e dançarmos com alguma quarentona, ele me parou e me deu um longo abraço sentimental e falou por uns sete minutos sobre o quão importante eu era para ele, quase um irmão, sempre mostrando o caminho correto para ele seguir, que eu era extremamente imprescindível na sua vida, e que um homem só seria completo se tivesse uma boa mulher, um emprego decente e um amigo verdadeiro. Ele fez um longo discurso sobre como eu tinha tornado os dias da faculdade dele mais agradáveis, como era maravilhoso que eu o tivesse indicado ao atual emprego, e creditou a mim até mesmo o fato de ter conhecido a megera da mulher, coisa que eu não consegui encaixar na ordem dos fatos.

Dei uns tapas na bunda dele e disse que a sorte de tê-lo como amigo era minha, completamente minha…

Ele entrou no salão novamente e eu quase o ia acompanhando, porém por outra porta uma negra de lábios carnudos acabara de entrar, estava procurando o cigarro na bolsa, magra e deliciosa como um felino; percebeu minha presença e olhou curiosa para os meus olhos meio bestas. Olhou direto.

Ela sorriu para mim com grandes dentes brancos, eu sorri de volta. Não dancei aquela noite, não em pé.

6.12.11

Uma crônica de cinco anos

Se por uma brincadeira do destino ou por um tremendo avanço tecnológico eu pudesse, apenas hipoteticamente, voltar ao passado e me deparar com o garoto de 18 anos -  no caso, eu mesmo -  que pisou pela primeira vez em Londrina para cursar ingloriosamente Direito, eu não perderia tempo me aconselhando sobre as melhores matérias a estudar, sobre como conseguir as mais amáveis garotas ou sobre as festas mais infames, eu apenas daria alguns tapinhas em minhas costas e diria com tom superior, “meu amigo, você vai mudar pra caramba”.

Escrever cinco anos num único texto curto e que faça jus a cada experiência vivida por mim nesse tempo de universidade é talvez uma tarefa impossível, por isso eu gostaria de focar nessa diferença dos olhares.

Aquele rapaz de 18 anos chegou em Londrina tendo deixado para trás um namoro intenso, os melhores amigos e, obviamente, a família. Ele achou que ia se deparar com um local de debates e ideias e experiências das mais sórdidas. Bem, ele encontrou, mas ainda assim ele ficou meio decepcionado.

Esse rapaz tinha um olhar acelerado, atento, que clamava por parâmetros, já que ele não possuía nenhum num lugar onde era tudo novo. Meio perdido, ele ficou muitos meses indo de lá pra cá procurando onde morar, foi assaltado na primeira semana residindo na cidade e, quando chegou em casa tremendo, descobriu que a namorada, a que tinha ficado na cidade-natal, tinha terminado com ele por e-mail.

Esse rapaz não imaginou que o inverno podia ser tão frio nem que fosse tão difícil achar amigos como os que ele tinha onde morava antes da faculdade. Ele descobriu que pagar conta é de fato uma mágica e que lidar com os problemas alheios não só é um bicho de sete-cabeças quanto também é terrivelmente necessário.

Ele se apaixonou um milhão e cinquenta e cinco vezes, aproximadamente, e demorou demais para aprender, ou talvez ainda esteja aprendendo, que Londrina, de fato, tem uma mulher bonita a cada três metros caminhados.

Ele já sabia sobre o álcool, vou pular essa parte.

Mas ele ficou contente com a sua turma. Heterogênea, no mínimo: pessoas engraçadas, pessoas sérias, pessoas debochadas, nerds, playboys, outros mais pé-no-chão, uns rockeiros, outros peões, alguns ambiciosos e também uns que se despreocupavam sobre o amanhã. É bem verdade que foi duro para ele ter visto a pessoa que ele achou que seria a sua melhor amiga para o resto da vida ir embora assim, sem muita cerimônia, para outra universidade mequetrefe, mas, se tem algo que ele aprendeu, é que a vida pode ser uma bosta às vezes, ou frequentemente, ou quase sempre, bem, ele aprendeu algo, ao menos.

Nessa turma ele teve a chance de um recomeço e fez isso valer a pena. Riu, se divertiu, fez amizades, aprendeu, desaprendeu e guardou as mais variadas experiências. Por uma conversa boba no dia do trote, ele acabou fazendo dois grandes amigos por todo o resto do tempo do curso e, por que não, para a vida.

Demorou muito tempo, é verdade, para que ele se sentisse realmente acolhido. Mas, quando se sentiu, bem, aí ele pôde escrever esse texto. Diferente do olhar atroz do garoto de 18 anos, o olhar desse que agora escreve é um olhar de quem sabe que as coisas mudam e que o tempo existe para agregar, não para destruir.

E não é por um clichê que eu falo que esses cinco anos foram os melhores da minha vida. Bem, muita merda aconteceu nessa época. Brigas, notas baixas, desentendimentos, frustrações, o fim de um namoro que, mesmo a contragosto, eu julgava que era coisa pro resto da vida, bem, dá para listar uma porção de coisas ruins, assim como, proporcionalmente, eu posso enumerar diversas situações maravilhosas.

Não é o número de coisas boas ou ruins que definem esse quinquênio como especial. É o fato de, perceptivelmente, eu ter sentido na pele cada vivência, cada experiência, cada choro ou risada, amor ou frustração, é ter abraçado os amigos e ter colocado os inimigos nos seus devidos lugares, é ter aprendido tudo sobre uma cidade tão diferente quanto Londrina, suas ruas, seus prédios, sua terra vermelha, além de ter respirado aquele ar da UEL, puro e que deixará saudades, é ter visto os raios de sol entre as árvores do calçadão, reclamado das salas do CESA, comido o almoço do RU, xingado o preço do salgado do Pinguim, é ter brigado por nota, ter estudado muito ou ficado com preguiça de ler mais uma linha de juridiquês.

Enfim, eu me perderia em lembranças inúmeras se eu apenas não concluísse que eu tive o melhor período da minha vida, até agora, porque percorrendo cada segundo desses últimos cinco anos eu posso dizer: eu vivi tudo isso.

3.12.11

Boina e Panamá

Dia desses estava sentado num banco de praça carcomido, encarando um cachorro de rua carente, quando um amigo meu, outro escritor, chegou ao meu lado e se sentou sem cerimônia. Ele estava com sua boina, e eu com meu panamá e uma barba de dez dias.

“Você está um caco”, observou ele.

“Obrigado pelo elogio, eu realmente me esforço”, respondi satírico.

Tirei do bolso um maço de cigarro intacto e o entreguei ao meu amigo - “Feliz aniversário atrasado”, emendei, com um sorriso forçado.

“Que ironia!”, riu-se o bastardo, abrindo o maço e fazendo questão de assoprar a fumaça na minha cara após acender o seu marlboro fedido.

“É, é uma ironia, eu comemorando o seu nascimento e o matando um pouco mais”.

“Eu adorei”.

“Realmente não entendo como você consegue aproveitar essa vida de lixo e achar bonitas as coisas mais sujas desse mundo”, desabafei, enquanto espantava o cachorro com um pontapé na bunda.

“Qual o problema agora? Mulheres de novo?”, indagou a mim, brincando com a fumaça no ar.

“E teria algum outro tipo de problema nesse nosso planetinha?”.

“Fome, desemprego, doenças, guerras, posso ficar um dia inteiro aqui listando os males que saíram da Caixa de Pandora”.

“Aí está, meu caro, a caixa é de uma mulher, todos os problemas descendem das mulheres”.

Esse meu amigo era um bom escritor, mas, diferentemente de mim, era extremamente apegado ao sujo e ao decaído, não que eu fosse diferente, mas eu ainda via, ou insistia ver, esperança em algum tipo de luz no fim do túnel, algum traço transcendente nas coisas bobas que escrevia. De qualquer maneira, tanto eu quanto ele víamos nas coisas feias tudo o que havia de mais bonito no universo.

“Como está a fulana?”, perguntei, mudando o foco.

“Não deu certo, está com outro”. E ele não estava triste com isso.

“Por que você não fica triste com isso?”.

“É direito dela”.

“Meu amigo, você e aquele cachorro sujo ali não são muito diferentes”.

“Não, não, é você que acha que tem poder sobre alguma coisa”, sentenciou ele, sem emoção alguma na voz.

Pensando bem, se eu fosse nos comparar a alguém, diria que ele é o Winston de 1984, resignado e cínico, e eu o Selvagem de Admirável Mundo Novo, alarmado e inconformado.

Ele deu uma última tragada e apagou impacientemente a bituca na madeira do banco velho.

“Ok, me desculpa, estou sendo insensível, fale algo”.

“Eu e você somos dois ferrados com essas moçoilas, meu amigo”.

“Sim, sem dúvida. E ainda dizem que nossa geração não sabe lidar com frustração”.

“Somos escritores, ora”.

E continuamos a conversar sobre coisas feias e desilusões amorosas, sobre rostos bonitos e atitudes tiranas, tendo algumas ideias, das mais abjetas, sobre o que escrever sobre as mulheres, e achando isso tudo, obviamente, muito bonito. Afinal, que graça teria escrever sobre um mundo feliz, contente e bem-resolvido?

27.11.11

Contos amorosos: o amor platônico

Júlia viera juntar-se a ele; juntos contemplavam, com um certo fascínio, a figura reforçada da prole. Fitando a mulher na sua atitude característica, os braços grossos alcançando o varal, as ancas muito salientes, fortes, como as de uma égua, ele achou, pela primeira vez, que ela era bonita. Antes, nunca lhe havia ocorrido que pudesse ser belo o corpo de uma mulher de cinqüenta anos, ampliado a monstruosas dimensões pelos partos sucessivos, depois enrijada, calejada pelo trabalho até ficar grosseira como um nabo muito maduro. Mas era, e afinal, pensou ele, por que não? O corpo sólido, sem contornos, como um bloco de granito, e a pele vermelha arrepiada, representavam o mesmo, em relação ao corpo de Júlia, que o fruto de uma rosa brava junto à rosa de jardim. Por que seria o fruto considerado inferior à flor? - Ela é bonita! - murmurou ele.

(trecho de “1984”, George Orwell) 

A minha ideia de “você” sempre foi superior à sua própria existência. A bem da verdade, acho que a imagem que tinha de você era infinitamente maior e melhor do que toda a sua carne, o seu sangue, seus fluídos, ossos, e tudo o mais.

Eu nunca pensei, sinceramente, em tê-la. O que sinto por você nunca nasceu como nascem todos os amores, com a curiosidade, com o fascínio, a dúvida, a emoção, e mesmo a mais pura raiva. Meu amor nasceu no dia em que quase morri, e não estava necessariamente para morrer fisicamente, antes poderia falar que estava no fundo do poço: esquelético, deprimido, pessimista e cínico. Foi a sua mão que me segurou aquele dia, que me puxou para cima e me fez enxergar alguma luz. E desde então tenho caminhado, sou grato.

E mesmo a partir dessa gratidão não senti atração alguma. Sua existência sempre foi nula, assim como todos os seus problemas emocionais, que, diga-se de passagem, são monótonos e insípidos. Você é um desastre, garota.

O que seria isso então, que me enche de alegria e virtude, toda vez que ouço sua voz, pois? Eu estaria de alguma forma mentalmente comprometido após tanto tempo acreditando na escuridão? Um daqueles casos pervertidos de homens que se assanham sobre as qualidades mais negativas das mulheres? Eu acho que não.

Eu acho que você me mostrou um toque de pureza e isso originou o amor. Não que você seja santa, anjo ou tenha sido abençoada pelo Espírito Santo ou algo parecido, eu só penso que, despreocupadamente, num certo dia, você viu alguém quase indo pelo ralo e se condoeu: “oh! o que é esse fiapo de ser humano se esvaindo? volte aqui, criatura”. Eu voltei, e quando a olhei, vi ternura sem comprometimento e, acima de tudo, vi a beleza divina da comiseração.

Muitos vão pensar que é perda de tempo chamar isso de amor ideal, vão indagar onde está o romantismo, o carinho, a cena tórrida de paixão? Isso não é amor platônico, são apenas um ensaio para a grande arte do amor carnal, ou do amor que vai gerar filhos, ou do amor da novela mexicana, de qualquer amor, enfim, que não o baseado na pura virtude de nos tornar mais humanos.

Winston, personagem principal de “1984”, vive o amor mundano com Julia, vive o amor paternal, violento e contrastante, com o Grande Irmão, vive o amor melancólico pelo passado que ele esquece, mas é com uma mulher gorda e ignorante, deteriorada pelo tempo, que ele encontra o sublime da vida, que ele encontra o refúgio não conquistado mesmo num quarto supostamente livre da opressão. É na cantoria do ser socialmente mais abjeto da distopia orwelliana, contudo, que Winston compreende o mundo e a esperança de salvá-lo.

Se eu posso finalizar o meu texto de forma mais paradoxal possível, eu diria que você, meu amor virtuoso, acima de todas as conquistas, é a minha mulher gorda do pátio, e por ter salvado minha alma, eu me regozijo em afirmar: você é bonita.

26.11.11

Quebra-cabeça e tudo o mais

Algumas lágrimas trilhavam o rosto de Lilian em fila indiana: vinham quentes e com emoção, coisa que as tornavam muito dignas da dona.

- Como amo você, Matheus!

E dizia isso com aquele brilho nos olhos que comove até banqueiro.

Matheus não dizia muita coisa em troca. Não era lá o tipo de sujeito de se esperar fina ternura, porém, a doce Lilian não dava bola para isso - triste sina das mulheres que amam demais! amam tanto que amam por si e pelos outros. Que seja. Ela estava mais preocupada em enquadrar a sintonia que o corpo de Matheus, o insosso, pudesse lhe fornecer.

Foi assim que ela se encantou com o suor das mãos dele, bem como com sua leve tremedeira. Para completar, essas mãos tremeliqüentas e molhadas estavam na mais mórbida frieza. Sem falar no ligeiro gaguejar das poucas palavras que este rapaz pronunciava! Era o Céu para a encantadora Lilian.

Prometeu a si mesma que iria rezar cinco ave marias quando chegasse em casa em agradecimento a esse sublime momento. Não que estivesse longe de casa. Estava bem ali, prostrada ao portão. Namoro de portão.

"Matheus mostra como está apaixonado por mim. Será que estou respondendo à altura? Vejam só essas mãos" - e voltava seu brilhante olhar de cachorro pidão para as mãos do insosso, enquanto as acariciava como se fosse um diamante de um milhão - "Suam de nervosismo, tremem de excitação, gelam de ansiedade! Ele é um doce...ele é...é o homem da minha vida!"

O amado Matheus, entretanto, não contara à Lilian que sofria de sudorese (o que lhe conferia um extra na cota de suor das mãos), problemas neurológicos (que o presenteara com a tremedeira e a gagueira, além do tique do olho direito, que piscava cento e cinqüenta vezes por minuto, um recorde mundial; mas isso não interessa, já que nossa romanticazinha não tivera tempo de se aperceber de tamanha façanha, visto que despendia tempo enorme amando) e, para finalizar, pressão baixa, o que explicava aquelas mãos geladas.

Foi essa mesma pressão baixa que ocasionou uma tremenda dor de barriga em nosso amigo. Talvez ele não tivesse uma inteligência dessas de arrancar aplausos, como essas em que se descobre que a energia é igual à massa vezes o quadrado da velocidade da luz, mas não conheço ninguém que não se torne um exímio gênio na hora de arranjar uma desculpa para correr ao banheiro. Nessa hora, Matheus se revelou um experto e, então, uma arguta justificativa de que tinha que aplicar a injeção do antibiótico na mãe, que estava muito, muito doentinha, tadinha, e ela tinha medo de aplicar sozinha, ah sim, ela tem, mas volto amanhã, com certeza, minha querida...me acompanhar? hum acho melhor você ficar e ajudar sua mãe na cozinha, ok, ok ,pode me acompanhar até lá, mas não quero que você se contamine, então só acompanha até o portão, tá? surgiu. Imagino que, quanto maior a pressão intestinal no sentido de...saída, maior a utilização das sinapses. Enfim, lá se foram caminhando alegremente ou, no caso dele, desajeitadamente, quase correndo.

Lilian não se preocupou muito com a rápida despedida de Matheus, pelo contrário, achou fantástica a cara de dor que ele fazia, "como sofre na hora da despedida, meu amor!", regozijou-se internamente, "não agüenta a dor do adeus e por isso corre, mas sabe que tem toda a eternidade para me amar, bem, pelo menos depois que nos casarmos!".

E é assim que a Lilian ia amando. Pensava, pensava, idealizava, idealizava. Acordava e logo pensava em Matheus. O café da manhã tinha a cara dele, a escola a fazia pensar nele, o almoço, a louça, a tarefa (doméstica e da escola), as amigas dela, e até ele mesmo tinha a cara dele quando a vinha visitar no final do dia, o jantar, a novela das 9, o travesseiro e assim um círculo vicioso, sem fim.

Foi nesse pensar, pensar...que ela cruzou com o Tião e até achou que ele também lembrava o Matheus, se bem que achou que todos os homens no buteco onde o Tião estava também parecessem com ele, e o dono do bar e a garrafa de cerveja e até mesmo a salsicha em conserva (mas aí era um Matheus meio sujinho).

A verdade verdadeira era que o Tião nada tinha de Matheus. Arrisco-me a dizer que era exatamente o inverso: cabra-macho, homem de decisão, de pegada, o próprio protomacho encarnado, vivo em função do pênis. Para falar a verdade, quem se chamava Tião era o pênis dele, mas isso é detalhe irrelevante.

Importante mesmo era o desejo que a Lilian causava no Tião. Também, quem pudera: branca de um branco rosado, não pálido, daquele tom que não dá pena da brancura, mas vontade de perverter, como Lúcifer deve encarar o branco das penas das asas dos anjos ; pezinhos nem pequenos nem grandes, de dedinhos redondinhos, com aquela leve vermelhidão na sola; pernas firmes, não roliças, mas revelando a sustenção de um belo corpo, como o são as colunas do Pártenon; corpo escultural, envolvido por um vestido branco (uma intromissão à mais do que desejada nudez dela!), a começar nos ombros - não sem antes deixar escapar um decote mínimo, mas atiçador - e terminar pouco antes dos joelhos (esses muito bonitinhos, por sinal). Chega. Sinto-me cansado de descrever a moça, portanto, imaginem apenas que o rosto e o resto eram também de esplendorosa beleza. E não ousem dizer que exagero, pois mulher bonita, no Brasil, é coisa da qual não se pode desconfiar, ao contrário de político honesto e ex-gay.

É lógico que o Tião não havia pensado nisso tudo quando a vira, mas seu tesão respondera no mesmo grau. E no grau, aliás, era ele quem estava, pois já tinha virado sete biritas. Coisa de macho.

Não pensou muito (coisa que era fácil para ele). Saiu andando atrás da branqüela, como leão atrás de antílope:

- Hei guria!

- Bem me quer, mal...ah, sim, Tião?

- Cadê seu namorado, Lili?

- Foi cuidar da minha sogra.

- E te deixou assim sozinha?

Incrível como o Tião agia normalmente nessas ocasiões. O Tião. O outro estava bêbado.

- Estou indo para casa, disse ela, começando a se assustar.

Tião já estava muito cansado de diálogo. Não queria desperdiçar sua energia com isso. Não preciso dizer que a rua estava deserta no momento e que havia um beco escuro por perto. Essas coisas, nessas horas, se não existem, constroem-se, pois é muito difícil parar um homem decidido.

Muito menos os "não! pára!" dela obtiveram algum resultado nesse sentido, embora depois de minutos ela tivesse parado de pronunciá-los. A partir daí, foram advérbios de afirmação que tomaram espaço e o mais engraçado, para ela, é que seu primeiro orgasmo foi acompanhado da imagem de Matheus sendo desmontado, como se fosse formado por peças de quebra-cabeça.

Só não acendeu um cigarro depois porque fumar era pecado.

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(originalmente postado no Zaratustra tem que morrer)

21.11.11

Contos amorosos: o amor desencantado

Nem todas as mulheres experimentam os mesmos sentimentos. Encontrareis mil almas com mil maneiras diferentes. Para as conquistar, empregai mil maneiras.                                        (Ovídio)

 

Quando você vai embora após um beijo de despedida, eu tranco a porta da casa, volto para o meu quarto e encaro os lençois bagunçados sem muita preocupação. Revirando o chão encontro os seus fios de cabelo espalhados, são loiros, ruivos, pretos. Também o suor que impregna meu colchão tem cheiros distintos e ninguém pode me acusar de não ser asseado, pois troco a roupa de cama semanalmente, para evital a tal da rinite alérgica. São todos cheiros seus.

Na penumbra, não vejo em você um rosto definido, e mesmo que acendesse a luz, tenho a impressão de que ele se evaporaria. À meia-luz, tudo o que sinto são suas carícias, que, a bem da verdade, são como pontos de luz longínquos, talvez saídas a se denunciar na escuridão. Eu fecho meus olhos porque fico cansado, lembro então um pouco da adolescência, quando não ficava cansado (pelo contrário), mas não sinto saudade alguma.

Já cogitei em lhe dar um nome, criatura, mas isso seria por demais vil. E se por acaso não lhe agradasse a identidade? Tudo que lhe agrada, e nós dois sabemos muito bem disso, são meus dedos e a minha língua e é por isso que eu mantenho minha boca ocupada, só falando quando necessário, quando as palavras são realmente úteis para algo mais, para o que você quiser.

Eu estive pensando recentemente nas moscas, essas que circulam a nós e ao lixo. Era um dia de calor esfumaçante, se me lembro bem, suávamos sem delongas no chão gelado. Uma mosca desatenta viu graça na cena e resolveu participar, pousando nas suas costas arranhadas e suadas. Fiquei imaginando se ela estaria bebendo seu néctar, sua essência. Será que somos diretamente responsáveis pela vida curta desses insetos? Será que nosso veneno visceral impedem as moscas de viverem mais que trinta dias?

Pensei nisso porque tudo que nos circula é efêmero. Mais que meia hora do nosso amor é extenuante e, para ser bem sincero, tem vezes que eu gostaria que você sumisse no momento posterior ao meu gozo: saísse, voasse junto às moscas, para longe. Apenas desaparecesse, e voltasse uma meia hora depois, quando, sem fumar cigarro algum, eu já teria relaxado o suficiente para aguentar sua presença.

Você não tem rosto, não tem cheiro, seus cabelos são de todas as cores, você mata as moscas, você é formada por inconsistências insuperáveis e ainda assim eu vejo algo de repetitivo em todas as suas curvas. Como eu posso reconhecer um rosto que não existe? Como eu, sem esforço algum, consigo adivinhar o começo, o meio e o fim do que fazemos e mesmo assim procurar incessantemente toda essa história já contada e recontada pelo animal homem?

Ovídio, o da citação, era o mestre do amor libertino. Eu não chego aos pés do romano, mas em casa eu tenho uma gaveta onde guardo meus amores. Os que foram e os que virão. Eu não gosto de lembrá-los ou de imaginá-los, mas sinto que despedaçá-los seria um crime hediondo. Ovídio, mais esperto, os cantava ao mundo, sem medo ou exaltação, apenas descortinando a natureza que nos foi dada.

Esses amores me fazem refletir sobre a necessidade, o frêmito. Talvez eu encare a vida como um projeto a ser descartado, como um cientista faz com um rato que não reagiu ao tratamento. Eu poderia ter seguido outro caminho e creio mesmo que ele exista dentro de mim, assim como Dr. Jekyll não deixa de respirar enquanto vive Mr. Hyde. No entanto, por algum motivo eu vim parar aqui, onde eu me declaro orgulhosamente um animal, um leão, uma cobra, um coelho.

Não vou negar que esse caminho é o mais tortuoso. No caminho que eu escolhi, não só a camisinha vai para o lixo ao final do dia, como também os seus fios de cabelo e, quiçá, num dia de extrema coragem, toda a minha gaveta inútil de amores.

15.11.11

A casa das cinco mulheres

D. era uma senhora nos seus cinquenta e poucos anos. Não era bonita e nem se imaginava que algum dia tivesse sido. Tinha os cabelos mal-ajambrados e em tudo, das rugas às roupas, parecia que tinha estacionado na década de 60. Me olhava com olhares ora tristes, ora inquisitivos e até hoje não consigo decidir se dela sinto pena ou medo. D. era dona da pensão onde um dia morei por necessidade.

Despedidas são sempre coisa triste. Eu saí do meu ninho com 18 anos de idade, a cabeleira recém-raspada, um idealistazinho arrogante e imaturo, deixando para trás uma cidade do interior paulista, quente e insossa. Fui despejado numa república em Londrina pela minha mãe e essa despedida por si só já seria suficientemente triste, não fosse o fato de que não foi a única despedida, e por certo não a despedida da qual falarei aqui.

A despedida a que me refiro aconteceu no dia em que pela segunda vez minha mãe teve de partir e deixar o filho que criara com zelo. Eu era um errante, pulando de moradia em moradia, trocando os livros da faculdade pelos classificados de aluguel e as presenças da chamada pelas visitas aos imóveis. Ainda hoje estranham como eu, um estrangeiro, consigo conhecer tão bem a cidade que os próprios nativos desconhecem e o motivo é simples: a necessidade faz o homem.

No momento em que a situação ficou insustentável, minha mãe interveio, visitou Londrina, de onde escrevo, e me arranjou essa pensão, a pensão da D., que de pensão nada tinha. Era a própria casa da mulher, com algumas adaptações. Ela alugava dois quartos no fundo da casa.

Era uma casa de um andar, simples, porém bem construída. Uma velha árvore ficava em frente à residência. Suas raízes haviam destruído a calçada. O portão era de um vinho descascado. Havia um jardim mal-cuidado e por aí sempre circulavam duas meninas muito obedientes, a Sharon e a Nathalia, uma pitbull malhada e uma cocker spaniel de pelo sedoso, respectivamente.

Além da dona, residia na casa a sua filha, uma garota que após uma cirurgia mal-sucedida, ficara com problemas motores. No outro quarto além do meu, morava a G., uma bonita e enigmática garota do sul do Paraná.

Não que seja relevante. Porém, para que se compreenda o peso da despedida, minha mãe, sempre afetuosa, comprou mantimentos e alguns utensílios de cozinha, para que eu não ficasse na mão naquele lugar. Até hoje quando entro no lugar onde ela comprou as coisas e lembro da sua angústia de não poder me prover um local mais apropriado, me sinto mal.

A vida na pensão era estranha. D. alugava os quartos claramente por precisar de recursos para manter o tratamento da filha e ao mesmo tempo em que procurava tratar bem os hóspedes, num gesto de agradecimento, não se demorava a demonstrar algum desprezo por se ver naquela situação, tendo que abrigar dois estranhos no seu espaço. Eu, obviamente, muito me incomodava com isso e a evitava ao máximo, pouco saindo do meu quarto.

Durante esse período, pude perceber um estranho fenômeno social. Vivíamos num microestado: eu e G. éramos o povo, D., o Poder, e a casa, o território. Nas aulas, eu aprendia que onde há sociedade, há o Direito e não demorou muito para que ali no nosso “Estadozinho” logo surgissem as “leis”. Em praticamente todos os cantos da casa existiam pedaços de papeis nos instruindo a fazer ou deixar de fazer algo. A sanção estava implícita. As regras eram duras. Não devíamos usar os produtos de limpeza da D. Não devíamos chegar tarde. Não devíamos usar muita energia. Devíamos nos abster de levar visitas ao local. Barulho era terminantemente proibido. Para cada nova situação, um papelzinho diferente, um mandamento específico. Aquilo me sufocava.

Eu gostava de conversar com a G., a garota sulista. Ela, extremamente prolixa. Eu, por minha vez, fazia o que sei fazer de melhor: escutar. Ela falava do noivo, falava das qualidades do noivo, falava dos defeitos do noivo, falava do seu absurdo ciúme pelo noivo. Ela falava e eu escutava. Eu não creio que cheguei a me apaixonar por ela, acho até que passei longe disso, mas a admirava muito. Certa vez, ela me mostrou a grande cicatriz que tinha na perna, presente de um acidente em sua cidade, e nesse momento, eu a achei extremamente linda.

Em algum momento ela foi embora, o tal noivo finalmente tinha vindo para Londrina. Foram morar juntos, não muitos meses depois se separaram, ouvi dizer, e depois não tive mais notícias.

Quando ela se foi, me senti extremamente solitário. D. a cada dia parecia mais complexa na sua loucura de meia-idade. Em todo esse tempo, não vi sua filha, que permanecia trancada na penumbra da casa principal, como se fosse o sumo da vergonha da mãe. Diz a D. que fora bonita, a filha, e que ao tentar implantar silicone nos seios, ficou com esse problema, que a deixara boba como uma criança. Uma vaidade besta, e que custou a plenitude da menina.

As cachorras me deixavam feliz. Mal divisava o portão da pensão e já as via lá, coladas na grade, abanando os rabos, felizes em me ver e me farejar. A pitbull, Sharon, era grande e pesada, não tinha vez que não me sujava com suas patas, uma bobona dada. A cocker era mais tímida, mais recatada. Eu chamava a pensão de A Casa das Cinco Mulheres, as cadelas incluídas.

A verdade é que logo que entrei na pensão, já fiz planos de sair. Percebia uma enorme carência na dona, uma mulher abandonada, com o peso do mundo nas costas, esperando sabe-se lá o quê. Ela não respeitava muito minha situação financeira, às vezes majorava os preços ao seu bel-prazer e isso me irritava. A própria G. tinha seus momentos desagradáveis, com seu excesso de palavras, seu ciúme exaltado. A cozinha dos pensionistas era no quintal, apenas coberta, mas não fechada num cômodo. Não era fácil lavar a louça no inverno do sul. E não posso esquecer das baratas, que nenhum veneno mantinha longe o suficiente.

Após um semestre, saí de lá para montar uma república do zero, outro projeto fracassado, mas que não vem ao caso aqui. Agradeci à D. de coração, pois vi nela mais uma ajuda do que um empecilho, apesar de estar aliviado de abandonar aquele intrigante lugar. Vi estampado em seu rosto que ela não queria que eu fosse embora.

E agora, se posso explicar o porquê de todo esse falatório, gostaria de ressaltar que o motivo de escrever esse texto é a culpa. Esse sentimento que julguei ausente em mim durante muitos anos, mas que descobri escondido, em algum lugarzinho esquecido. Essa culpa que não propriamente me acomete naquela acepção dramática e aniquiladora, mas que vai corroendo aos pouquinhos, e me envergonhando perante meus próprios olhos. Se eu posso justificar esse texto, o faço no próximo parágrafo.

Muito tempo depois de ter deixado a pensão, resolvi ir a uma festa de república, distante apenas um quarteirão da pensão. Para chegar à festa, era caminho passar pela casa em que morei. Estava escuro, a lâmpada do poste em frente à moradia estava apagada. Ao meu lado, uma dezena de pessoas, gritando e rindo. A pé, passo quieto e receoso, olho fixamente para a casa que me abrigara e vejo quatro vultos parados na calçada, do outro lado da rua: uma mulher mais velha, uma garota e duas cachorras. Sei que me olham do escuro, me fixam e me encaram. Esse tempo em que trocamos olhares dura mais do que deveria: um, cinco ou quinze minutos? Tempo que não basta para eu me decidir se as cumprimento ou se finjo não conhecer. Tempo o suficiente para eu virar a cara e seguir reto, em direção à festa, angustiado, sem jamais saber se tinha sido reconhecido. Tempo, esse grande vilão, que, longo ou curto, jamais é remediado pela indecisão da nossa mente ou pelos raciocínios que nos afastam de tudo que já viu, ainda que por breve período, um pouquinho da nossa fragilidade.

Despedidas são sempre muito tristes, é verdade, mas piores são aquelas em que nos calamos, aquelas em que ao menos damos chance ao outro de saber que dissemos adeus, e abandonamos o lar, mesmo que precário, no silêncio, na ponta dos pés, como um fugitivo que não responde por crime algum.

13.11.11

Elegia

No dia 10 de Novembro de 2011 faleceu o meu avô Athayde de Araujo Teixeira, em virtude de um grave câncer que lhe tolheu as forças em menos de um ano. Com meu vô, partiram também inúmeras histórias cheias de detalhes minuciosos que ele habilmente guardava em sua memória.

Eu gostaria de acreditar que o tal 11.11.11 não significou coisa alguma. Mas não bastando a coincidência da data, foi às 11:11 que o último tijolo foi acomodado no jazigo da família para selar seu túmulo, segundo um primo meu.

Sob a pedra e o epitáfio também se encontra minha falecida avó, que já não está mais por aqui há 14 anos. Eu tinha 8 ou 9 anos quando ela morreu e aquela foi a primeira vez que lidei concreta e conscientemente com a morte.

Na ocasião, não velei seu corpo. Não sei dizer o motivo. Na minha mente ora infantil eu a tinha mandado para um lugar confortável, um lugar que a livraria de todo o sofrimento que os constantes tratamentos infligiram a seu corpo. Vê-la talvez arruinasse tudo isso, talvez fizesse levar embora a lembrança do cheiro e da textura da pele dela que tenho até hoje.

Quando recebi a notícia do falecimento do meu avô, suspirei e pensei na minha família, em especial minha mãe, que viu os olhos dele se abrirem pela última vez e sentiu o calor de sua mão se esvair para não mais voltar. Naquela manhã, eu tive a objetividade, para não dizer a frieza, de pagar as contas do mês e de deixar o feijão que eu descongelara no dia anterior para uma vizinha boazinha. Eu peguei o ônibus faltando cinco minutos para que ele partisse e seis horas de viagem nunca pareceram tão longas.

Preferi ir direto para o velório. Agora crescido, seria necessário que eu desse uma boa olhada no meu vô, talvez redimir o descaso que tive para com minha avó. Abracei pessoas de olhos inchados, fiquei em silêncio, é bobagem falar nessas horas. Com 8 ou 9 anos, eu não entendia o porquê das lágrimas, triste era sofrer numa cama de hospital! Quatorze anos depois, eu entendi que se chora mais pela ausência do que pela concretude da morte.

Essa ausência se justificou quando visitei a casa de meu vô no dia seguinte. Ele sempre abria o portão, com seus passos tortos e apressados. Ele me dava um abraço rígido e desajeitado e aquele beijo de avô que teve de aprender na marra o que é o afeto.

Ninguém abriu o portão dessa vez. Ninguém me abraçou desajeitadamente. Não ouvi nenhum sermão sobre como eu jamais deveria me tornar um advogado criminalista e nem pude acompanhá-lo falar mal dos políticos locais ou contar uma daquelas inestimáveis histórias “da época do Getúlio”.

Mais para o final de sua velhice de 89 anos, meu avô sempre fechava os olhos para falar. Parecia estar buscando no fundo de sua mente todas as palavras, concentrando todo o esforço que possuía para verbalizar as memórias resistentes. Gosto de pensar que esses olhos fechados eram um exercício, um treino, de como ir deixando esse nosso mundo para trás, e ver na escuridão de sua solitude toda a torrente de vida que ele já havia cumprido: os caminhos percorridos e os segundos esgotados.

Em vida, trabalhou em diversos empregos, mas prefiro pensar nele como um dos homens que pavimentaram o progresso do nosso país, carreando as ferrovias que chegaram ao interior paulista e trouxeram desenvolvimento, trilho a trilho, estação a estação.

Eu tinha em mente muitas perguntas para o meu avô: pretendia escrever um amplo texto sobre os meus antepassados, e até as vírgulas que ele viesse a me confidenciar teriam para mim o valor mais inestimável.

Fiquei sem respostas, fiquei sem meu vô.

Por tudo o que ele deixou neste mundo, e nisso incluo meus tios e tias que sempre me fascinaram; por todo o sofrimento pelo qual passou nos últimos meses; mas, sobretudo, por aquele homem que jogava bola comigo no corredor apertado do quintal, que me transformou num dos únicos corinthianos da família e que sentia o maior orgulho ao ouvir minha mãe contar das minhas conquistas, por esse homem eu dedico esse texto e as lágrimas que verti reservadamente no colo de minha mãe.

Vai com Deus, vô.

18.10.11

O cigarro da cobra

Salas de espera de hospital sempre me pareceram abatedouros. Todos se acomodam cordiais, calmos, consumindo revistas cheias de imagens chamativas, naquela devota expectativa de um nome a ser chamado, o momento em que todos olham para cima, à espera de Deus, digo, de um médico. Eu, contudo, só olhava para meus sapatos, meus puídos sapatos.

Olhar para os pés não era uma tática muito recomendada na Itália. Provavelmente levaríamos dois balaços cada na cabeça, sem nem ao menos ter a dignidade de saber a origem do tiro de misericórdia. O sargento então não cansava de nos lembrar com sutis incentivos no queixo – um dia quase mordi a língua e então aquele filho-da-puta veria o que é insubordinação – a ficar com o olhar atento, a cabeça ereta.

A bem da verdade, insubordinação era o que rondava meus miolos naquele momento. A ideia de sair em disparada, fugir da consulta, me parecia tentadora. O abatedouro era o de menos, pior era me encontrar com ele.

Que tipo de perguntas faria?, não ajudava o fato dos antigos companheiros de farda me negarem a informação, aquela omissão torturante das palavras veladas, palavras que diziam o vazio e fugiam de suas bocas assim como seus cérebros escapavam da minha indagação.

Era uma ordem direta. Vão ter que se consultar com um psiquiatra! Vamos nos consultar com um psiquiatra. E se dissessem, Vão usar calcinhas e dançar cancan!, usaríamos calcinhas e divertiríamos os combatentes inimigos na mais resoluta obediência. Defendemos a pátria.

Mas ainda assim me pergunto, o que ele quer saber? Será que se parece com outro médico qualquer? Um desses engomados com sorriso branco de lobo faminto? Aquela capacidade de dizer que tenho a doença tal e tal sem olhar para a porcaria da minha cara? Sou um expedicionário, protejo a porcaria do país e meu país vem investigar meus miolos.

Tentei acender um cigarro, não tinha fósforos. A velha encalacrada ao meu lado me estendeu um isqueiro e como num passe de mágica começou a falar de sua doença, algo a ver com rins, mas que depois passou para o esôfago e depois para as pernas. Parei de ouvir quando percebi que a doença estava em todo seu corpo. O que eu fazia naquele purgatório de enfermeiras rabudas e velhas que mereciam a morte súbita?

Dei uma baforada para o alto. Outros pacientes do abatedouro faziam o mesmo. A fumaça me lembrava aqueles dias. Não devíamos estar lá. Podíamos ser alguma espécie de Suíça, mas algum engraçadinho afundou nossos navios e submarinos. Não importa se a arte era dos americanos ou dos alemães, só nos queriam lá, matando gente em algum lugar.

Havia muita fumaça em toda parte. Fumaça e ruína. Para ser sincero, cada vilarejo percorrido era pura miséria. Civis e militares, tudo em frangalhos. Só nos restava derrubar focos de resistência que não eram desafio nem para o meu pequeno que nunca pegou numa arma na vida. E mesmo assim, alguns morreram.

O engomadinho vai querer olhar dentro da minha cabeça e vai perguntar quantos cabras eu matei. Ele vai achar que eu sou burro porque todo mundo acha que praça é burro, mas eu não tenho a menor vontade de contar para esse pederasta que eu sou sim alguém que conhece pelo menos as letras, alguém que já leu, alguém que lê. Posso não ser doutor, mas a minha esposa é professora, minha mãe foi professora, e, muito embora eu não tenha tido a chance de aprender tudo o que quis aprender, dei conta de saber me cuidar e até de matar uns fascistas para que ele continuasse com seu rabo sentado numa poltrona confortável, esperando alguma bonequinha para traçar.

E eu com essa esposa e um filho chorão dependendo de mim e esses bastardos me mandam segurar um rifle, dançar cancan e mostrar o que sinto pros doutores de cérebro. Como posso dizer o que aconteceu lá? Por que querem saber? Eu sei porque li: os gregos cantavam seus mortos. Combatentes que eram alçados a semideuses e nós, nesse nosso tempo morno, somos pulgas dissecadas num laboratório.

Era um dia ensolarado. Fazia muito sol no Mediterrâneo, aquele sol seco. Estávamos acampados atrás dum monte qualquer, gozando das benesses de uma vilinha que felizmente nos via como salvadores. Aconteceu duas semanas antes de Monte Castello. Eu mais dois éramos batedores, com o objetivo de circular o monte atrás de algo que nem lembro mais. Estávamos cansados e suados. Paramos debaixo de uma árvore torta. Eu fui mijar e acabei me afastando, não sei porquê, tava cansado, tava puto com aquilo tudo, com aquela guerra de merda, que me podara o casamento, o filho, a chance de uma vida com estudo, a falta de cigarros. Fui mijar e tropecei num barranco encoberto por folhas secas. Escorreguei alguns metros num declive e então o vi. O uniforme verde, o porte alto, o cabelo claro. E o símbolo no braço. A suástica. Sozinho como eu, um batedor. Tive apenas cinco segundos para olhá-lo nos olhos e foram longos cinco segundos. Segundos nos quais pude ver um desespero tão grande quanto o meu, um susto, uma decepção. A raiva de estar em um lugar ao qual não pertence e o enorme desejo de estar longe, aninhado nos braços de uma mulher resmungona e limpando a bunda dos filhos. Vi em cinco segundos que aquele homem era como eu. Que não importava o uniforme que vestisse, pelos seus olhos, aqueles olhos azuis que me perseguem desde então, pude ver que era humano.

Cinco segundos de troca de olhares foi o tempo que precisei para sacar a navalha, segurar o braço que ele tentava levar ao gatilho de seu fuzil e furar sua jugular. Joguei sua arma longe e tapei sua boca com a mão ensanguentada, abafando qualquer gemido ou súplica, sentindo seu corpo estrebuchar sob o meu, as lágrimas vertidas pela humilhação de morrer de forma tão estúpida. Ele se foi rápido, o que foi bom, porque seu sangue borbulhava para fora do pescoço e aquele cheiro de ferro me dava vontade de vomitar. O sangue da raça pura!, disse para mim mesmo dias depois, pensando nos idiotas do meu querido país que queriam perpetuar pessoas como aquela em quem eu tinha enfiado uma lapa de metal. Só Deus sabe como consegui sair dali e retornar ao acampamento para informar a presença de forças inimigas próximas.

“Senhor Osório Pereira! Senhor Osório Pereira”, chamou uma voz nalgum canto daquele corredor branco.

“Ele foi embora”, respondi de cabeça baixa, me levantando e ajeitando meu chapéu.

30.9.11

Trator

Você caminha sobre o que antes eram petit-pavés brancos e pretos, num desenho bem característico. Uns dizem ser histórico, outros não ligam tanto. Agora, caminha-se sobre um concreto cinza sem vida e pelo resto do lugar, a grande parte, vê-se nada mais que chão de terra batida, terraplanada, pronta para receber os pavers, aqueles que definitivamente evitam acidentes com mulheres vaidosas de salto alto.

Tudo foi abaixo, não restou nada. É a ordem natural da força. Eu não ligo propriamente, mas ali havia algo que me era caro. Existia ali, no meio do calçadão em reforma, uma chopperia. Era um quiosque escondido entre o burburinho dos que passam-cá e passam-lá.

Foi demolido há não muito tempo, talvez um ou dois anos. E talvez um ou dois anos antes eu me sentava ali, sozinho, na tarde quente, numa das mesas vazias e começava a olhar as pessoas que passavam.

Era minha diversão secreta. Observar sem ser notado todas aquelas pessoas em seus passeios habituais. A tia gorda cheia de sacolas; o homem apressado com o maço de cigarro no bolso da camisa; a jovem punk e sua mochila muito pesada.

E todos eles, ao seu modo discreto de quem anda sem ligar para o mundo ao redor, foram se incorporando em mim, parte de mim, parte da minha pena. É óbvio que eu não uso uma pena para escrever, mas eles faziam parte da minha pena.

Entre um chopp e outro, eu também me tornava parte daquele pedaço de chão, dito histórico.

Mas os homens são só vítimas dos tiranos, ou o contrário, não sei ao certo, e num dia, ou dias, de decisões políticas, um homem – muito embora há quem diga que não é bem homem… – decidiu que tudo aquilo ali ia ser posto abaixo.

E a chopperia e o petit-pavé e a cafeteria e as árvores e todo meu ritual de observação foram demolidos por retroescavadeiras e homens de martelos. Ou retromartelos e homens-escavadeiras. Ou retrohomens e martelo-escavadeiras. Ainda fiquei de decidir essa parte. Todos tão sisudos que não seria difícil de entender o significado do verbo “tratorar”.

Eu já li em algum lugar que o tempo destroi tudo. Depois eu li que o tempo corroi tudo. Por fim, me disseram que o tempo mata tudo. E acabei ficando o tempo todo sem dar muita bola para essas construções sintáticas e essa variação verbal., muito embora eu observasse tudo, entre um chopp e outro.

Mas agora que se pisa no chão de terra batida, terraplanada, pronto pros pavers anti-mulheres-acidentadas, eu fico me perguntando, onde estão meus personagens? Onde estão as gordas, os homens infelizes, as punks fedidas e aqueles engraxates que se alegram só com o assobio do vento?

Será que tratoraram todos eles também?

17.9.11

Vamos fingir que ela se chama Helena

A uma grande amiga.

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Baby, I love you
But if you wanna leave, take good care
I hope you make a lot of nice friends out there
But just remember there's a lot of bad and beware

(Cat Stevens)

 

A porta do banheiro vacilou, fechando-se atrás de si. Tão logo se viu sozinha, suspirou, aliviada. Andou calmamente em direção à cuba da pia e apertou intranqüila o dispositivo da torneira. Foi com alegria que molhou o rosto. Estava tensa.

Como lhe irritava gente fraca! Realmente não fora feita com o dom da tolerância, muito embora se visse como um pilar de sustentação. Pilar de uma família, de uma casa, de uma vida.

Quando por fim se sentiu refrescada pela água, decidiu abrir seus olhos. O espelho, imenso, encarava-a.

Não se sentiu bonita. Odiava tantos centímetros de seu corpo quantos lhe fossem possíveis odiar. Se bem que não raro, sentia-se bem com seus cabelos, quando não teimavam em lhe desobedecer, ou seus olhos. Sim, seus olhos eram seu trunfo.

O exercício de se encarar no espelho lhe parecera útil, relaxante. Antes isso a estar lá fora.

Quem diria? Depois de tantos anos rodeada por aquelas pessoas, envolta por um laço familiar que lhe parecera tão custoso, mas ao mesmo tempo tão terno, agora iria partir, sozinha, sem ninguém para lhe aborrecer, sem ninguém para lhe ralhar. Sozinha, sozinha, gostava de repetir isso.

A Itália era seu destino. Seu vôo partiria em menos de uma hora e, lá fora daquele tranqüilo toalete, estavam seu pai e seu irmão. Dois marmanjos chorando antes mesmo que pudesse se despedir apropriadamente. Que cena! Não que fosse insensível, jamais, até julgava sentir mais que a maioria, mas realmente não era o fim do mundo passar um bom tempo fora do país, pronta a vivenciar novas experiências e fugir de todo esse peso que aturava.

Não queria pôr sobre os ombros o peso das lágrimas do pai. Esse homem que mudou tanto. Não queria encarar o irmão que lhe olhava com olhos estranhos, como se fosse sentir saudades de algo que ela jamais quisera fazer: ser guia da vida dos outros.

E, no entanto, estava sendo guiada agora, guiada para longe, para além-mar, para um lugar desconhecido que lhe seria confortavelmente experimentável. Nunca foi de se arriscar, prefere pisar no concreto.

Mas essa sensação chata, não quer admitir, talvez esteja cultivando uma saudade desde já, de tudo sobre o que já caminhou, das coisas sobre as quais já deitou seu olhar perspicaz.

Nunca entendeu o motivo de gostar de viajar por mundos oníricos, distantes, mas ao mesmo tempo só se sentir segura em paisagens já gastas e conhecidas. Como fotografias há décadas guardadas em baú velho.

O importante é que está indo embora, resolveu-se, enquanto retocava a maquiagem do olho esquerdo. Mas volta. Logo volta, talvez seja essa a segurança. A certeza concreta.

Será que lá as pessoas são mais maduras?, ela sonha. Não é lá muito de tolerar as pessoas da sua idade. Olha seus pares com o desdém de uma aristocrata, mas não por relapso de sua personalidade ou mesmo por inexistência de um caráter condizente com seus belos olhos, não, é que ela já viveu. Já viveu demais. Em tão pouco tempo, viveu mais que todos, e agora não tem paciência de esperar que lhe alcancem. Por que tão longe? Por que tão distante? Me alcancem! Me entendam! Porém, tudo o que colhe é decepção. Mais um moleque de fraldas que finge lhe prometer os Céus. Mais uma amiga envolta em problemas estupidamente insolucionáveis. Mais uma cena nessa família tão dramática quanto um seriado televisivo. Tudo está longe, como a Itália, e, entretanto, ela quer tudo tão perto, como a Itália.

Perto e longe. Leve e pesado. Novo e velho. Paciência e paixão. Ela não se decide entre os extremos dos quais prova. E os prova com tanta elegância e resolução! Sempre tão determinada, tão decidida do que quer da vida. Se a vida lhe aborrece e se mostra distante do ideal, tudo bem, não há queixas. Levará a vida de uma ermitã. Se, contudo, a paixão lhe alcança, e suas noites são repletas de luzes, de sons, de álcool e de risadas estrondosas, é porque decidiu viver conforme a Noite lhe ordenou. Não é escrava de ninguém, seu olhar reprime qualquer tentativa de subjugo. Não. Ela é das ressacas, das ondas, do mar. Ela vai e volta. Ela se enfurece e se acalma. E sua complacência é tamanha que nada lhe sai do controle. Se tentam lhe arrematar às braçadas, ela logo afoga os afoitos. Se tentam lhe navegar cegamente, sem dúvida irá naufragar as certezas alheias, as quais detesta. Somente existe paz na calmaria. E se se zanga, é porque é papel do mar mostrar aos mortais quão imperial é.

Já se esquecia que além dos cabelos, quando obedientes, e dos olhos, quando reluzentes, também gosta das mãos. Elas, que lhe fornecem a liberdade das artes, que lhe garantem a certeza do tato, que podem mostrar sua seleta luxúria, sua raiva recôndita ou mesmo seu raro afago. Suas mãos lhe orgulham.

Sentiu afeição pelo espelho que lhe suportava as agruras naquele banheiro de aeroporto. Jamais revelaria a ninguém tantos detalhes. Aquele espelho era, agora, seu fiel. E aos diabos que lhe mostrasse apenas seu reflexo. Não era ego. Era solidão.

E as solidões, todos sabem, a gente afoga no meio do mar, a caminho de outro país, de outro mundo, onde as mãos, das quais ela tanto se orgulha, podem se entrelaçar com o coração, sem medo de feri-lo, sem medo de magoá-lo, como numa aventura que só diz respeito a ela.

Despediu-se do espelho e empurrou a porta decidida a dar um longo abraço naqueles que deixaria para trás. Eles mereciam.

11.9.11

O platô

O cara mais para o lado de lá do balcão olha para mim com cara de perdedor durante uns dois minutos e diz:

- Você sabia que o homem nunca mais atinge o nível de excitação que teve aos 18 anos?

Eu não via nenhuma mulher por perto para conhecer, nenhum amigo para sacanear e, a bem da verdade, eu me sentia sozinho sem ter com quem trocar ideias despropositadas, ainda que minha cerveja estivesse esforçadamente tentando cumprir esse papel.

- Não, eu não sabia. Que droga, hein, respondi desinteressado.

- É uma coisa triste, rapaz, significa que estou há 17 anos em declínio.

- Como todo grande império.

- Não que eu tenha sido um, reconheceu o homem.

- Talvez sejamos como o macho da viúva-negra, você sabe, meros alimentos depois da cópula.

O homem riu lembrando-se de algo.

- Me parece que é isso mesmo. Somos Deus por uns bons minutos, e depois alimento pra fêmea insaciável.

- “Deus”, essa é uma visão interessante, já ouvi falar que Rasputin tentava chegar até Deus através de orgias, emendei.

- Dúvida cruel, sexo é religião ou algo pior que o crack?, ele me perguntou

- Talvez seja as duas coisas, talvez essas duas coisas sejam a mesma coisa, uma coisa só. Por fim, talvez não seja nada disso.

- A sua bebida acabou.

- Minha bebida acabou!, lamentei.

- Minha mulher me largou.

- Bem notei.

- O que faço, rapaz?

- Arrependa-se, mesmo que esteja certo, eu acho.

- Maldita viúva negra.

- Não temos muito a fazer, meu senhor, só nos resta ir atrás daquele gozo dos 18 anos, tentativa após tentativa, caso contrário, vamos virar comida de aranha.

O garçom nos serviu conhaque sem que alguém tivesse pedido e continuamos bebendo e lamentando a vida desgraçada e amaldiçoando todas as limitações do mundo, como qualquer outro indissociável e imprescindível ciclo humano que se preste.

8.9.11

As exiladas

Eu estava em um McDonald´s, com uma atendente espinhenta e de bunda farta me encarando. Ela articulava as palavras no mesmo tom pastoso e robótico para todos que se enfileivaram esperando fazer seu pedido e ao me olhar, eu podia dizer que ela estava olhando para todas as tarefas que ela teria de fazer mais tarde naquele dia, talvez fazer sua avó tomar os remédios, passar a roupa, lavar a geladeira, ninar uma criança?, sabe-se lá, mas ela não olhava justamente para mim. Ao meu redor, pessoas com cara de carneiro não disfarçavam a fome. As que mais me chamavam a atenção eram as mulheres de trinta ou quarenta anos. Você não sabe dizer hoje em dia quantos anos tem uma mulher e é por isso que elas chamavam a minha atenção. Eu diria sem má-fé que uma delas tinha 25, mas aquela perua já tinha uma filha de cinco anos (eu posso dizer a idade de uma criança) e olhando mais detidamente ela tinha todos os trejeitos de uma trintona. São mulheres para uso irrestrito. Elas engravidam e nunca perdem o falso charme, são sempre bem produzidas e ouso dizer que o objetivo é ter a segurança de um marinheiro que sabe que pode abandonar o barco quando bem entender porque pode nadar todas as milhas que seus braços aguentarem. Que se danem as crianças e os maridos com cara de pastel, elas sempre podem ter um instrutor de academia ou um malandro de boteco que as faça gemer (desde que elas lhe emprestem um trocado aqui e outro ali).

Esse longo primeiro parágrafo, contudo, não tem nada a ver com a história. Ou tem, mas isso depende da sua capacidade de interpretar um texto. Alguém nessa fila grotesca usou a palavra “leviano” enquanto eu esperava meu lanche. Eu não gosto da palavra, “leviano”. Eu não sei porque disseram “leviano” e eu sinceramente não dou a mínima, mas a memória me veio certeira e inclusive bem rápida, como uma lembrança fast-food.

Há um bom tempo atrás, uma garota me chamou de “leviano”. Era um leviano. Eu não sabia o que era leviano e isso, na ocasião, me fez lembrar de uma garota que  disse ser eu um cara “sistemático”. Eu também não sabia o que era sistemático. As garotas são muito boas na arte de me adjetivar e de me deixar perdido com isso. Vamos nos concentrar no leviano, entretanto.

Depois que li o significado de leviano, tive de dar o braço a torcer. Era um leviano. Eu tinha uma namorada, mas eu fazia pouco caso dela (o que a fazia ser louca por mim). Fazendo pouco dela, eu fazia muito de outras garotas. Uma delas era, pois, a que me chamou de leviano (e com razão).

Eu gostava especialmente dessa garota. Gaúcha, magrela, um rosto engraçado, sabia dizer as coisas certas e de um jeito meio misterioso. Ela parecia vinda de outra época e isso me agradava. Eu gosto de me iludir. Sei que sou filho-da-puta, mas enquanto tenho lucidez, finjo que me apaixono e tudo mais. Se dizem que os iludidos são completos idiotas, o que falar dos que se autoiludem?

Mas não era só a gaúcha. A bem da verdade, era toda uma comunidade. Trinta garotas, chuto. Todas muito especiais. Tinha apreço por todas. O que posso dizer? Eu era o… guia delas. Sim, um guia. O único homem capaz de fazê-las entender o universo masculino, essa coisa genuinamente primitiva. Era um acordo justo. Eu dava colo e conselhos e elas me retribuíam reconhecimento, o que para um leonino é muita coisa.

Todas tinham um ponto em comum: possuíam alguma paixão platônica. Umas menos, outras mais. Uma delas era realmente obcecada por seu “alvo”. Outra, sempre me contava dos caras com quem transava. Era engraçado imaginar que ela possuía alguma paixão platônica sendo tão boa na cama. Como eu disse, era meu papel mostrar o caminho para elas, guiá-las para que o platônico deixasse sorrateiramente o mundo das ideias e virasse qualquer coisa palpável. Pode-se dizer que eu estava lá na Caverna, arrastando-as pelos cabelos para o lado de fora, para a luz, coisa que nem sempre as agradava.

Essas garotas eram meu segredo mais precioso. Eu não podia deixar que a namorada soubesse delas. Não que fosse perigoso. Pense objetivamente: eu não transava com nenhuma, eu ao menos cheguei perto disso (eu devia!). Frequentemente eu cedia boa parte de mim para um relacionamento que, no final das contas, foi para o buraco mesmo, portanto, guardar intacta aquela relação que eu tinha com minhas mulheres era uma questão de sanidade. Era um pouco de mim, do real eu, que tinha de ficar longe, muito distante dessa partilha visceral que é o relacionamento com uma mulher.

Mas um dia a namorada descobriu a história.

Dramática que era, fez do episódio uma questão tão relevante quanto Fukushima ou o crack de 2008. Lágrimas, acusações, brigas. Se bem me lembro, ela tentou me bater uma ou duas vezes, honrando a histeria feminina.

Eu tinha uma decisão em mãos. Algo clássico: “elas ou eu”, foi o ultimato.

Os filmes de espionagem sempre possuem um ponto, não necessariamente o clímax, onde o agente duplo tem de ceder e escolher o lado que efetivamente quer proteger. Ao fazer isso, ele abre mão de uma das vidas que experimentou e, invariavelmente, sempre trai alguém que aprendeu a amar.

Eu traí 30 pessoas de uma só vez.

Muito tempo depois, eu, já um proscrito entre as 30 garotas, fiquei sabendo da terrível sentença. A gaúcha, a minha preferida, tinha dito, com todas as letras, se referindo a mim e ao que eu supostamente sentia por ela: “leviano”. Um leviano.

A namorada, entre altos e baixos, por fim acabou me deixando. Os mais objetivos vão dizer: “mas foi você que terminou”. Eu a entendo, uma mulher “traída”, ainda que meu pau não tenha visitado nenhuma outra enquanto estive com ela, jamais poderia me perdoar, e foi com maestria que ela conduziu o restante do namoro até que eu, e não ela, dissesse “chega!”, e a eximisse desse encargo, pesado fardo.

Eu fiquei reparando na bunda da atendente do McDonald´s indo para lá e para cá atrás do balcão. Quantas coisas ela não teria de fazer em casa depois do serviço, talvez lavar aquele rosto oleoso e descansar suas pernas cansadas, contabilizar as contas atrasadas e os débitos que o marido não quita porque não sabe arranjar um bom emprego. Não importa o quanto ela seja infeliz, ocupada, ou se suas espinhas são uma real preocupação, para mim, e talvez só para mim, ela e a bunda dela ainda são assustadoramente reais.

28.8.11

Barbancourt

A distância entre a lua e o Pachuco era de aproximadamente trezentos e oitenta mil quilômetros. Quando eu olhava pela janela da espelunca, contudo, a paisagem pobre, com o nobre satélite coroando-a, tornava tudo sufocadamente próximo. Não que fosse esse exatamente meu pensamento naquela noite de comemoração, mas teimava em ficar pensativo, mesmo com copos a serem tornados, logo à minha frente.

Gorila encheu meu copo de Barbancourt e olhou direto para mim, esperançoso.

“Vamos, Cabo, seu grande viado. Agora é sua vez de contar sua última grande aventura no Brasil”, debochou Gorila, a sobrancelha espessa arqueada e os olhos dum vermelho risonho.

Estávamos no famoso Pachuco, um boteco qualquer numa zona segura, de luzes fracas e louça suja.

Ouvira os relatos dos outros um tanto quanto entediado, mas sem, jamais, deixar de sorrir em condescendência à putaria compartilhada. Se ninguém conhecia o remédio para a depressão, eu o tinha na ponta da língua: “finja alegria”, dizia, quando me permitiam. Gorila começara o jogo, comentando a respeito das duas garotas que conhecera num hotel, noite antes do embarque. Encantadas com a farda, logo se propuseram a conhecer os segredos que por debaixo dela se ocultariam. Em realidade, Gorila não precisava de muitos motivos para ficar pelado, para desespero dos outros oficiais, que procuravam se manter distantes de sua profusão de pêlos negros. A diversão de Gorila, entretanto, era pensar basicamente em duas coisas: sexo e como matar o maior número possível de membros das gangues de Cité Soleil, isto é, basicamente um amigo leal.

Já Geórgia, uma dessas corajosas mulheres que encaram o coturno, sob muitos protestos, revelara cada detalhe do que fizera com seu superior. Após meses de negativas e tortura psicológica, presenteara-o com aquilo que ele mais desejava, como forma de recompensá-lo pela convocação. Nem eu nem ninguém nunca entendeu muito bem como Geórgia realmente queria estar no Haiti, mas aparentemente empunhar um FAL era uma vocação da nossa Joana D´Arc. Não era especialmente bonita. Nariz grande, seios que sumiam sob o treino rigoroso, mas aquela bunda era digna de uma ginasta olímpica, ou uma dessas garotas do vôlei. Imagino como seu superior, um grisalho de corpo talhado, segundo ela, deve ter suado frio cada dia em que teve de ensiná-la a empunhar uma arma. Bem, talvez ele tenha ficado orgulhoso.

Nosso último companheiro da noite, Yakissoba, um japonês nordestino, foi a grande sensação do momento confidencial. Engraçado por natureza, conseguiu criar uma fábula em que talvez a única verdade existente fossem as vírgulas. Um virgem, eu diria. Mas um virgem com imaginação. Sua história envolvia uma tia, uma prima e uma vizinha. Três mulheres tão inverossivelmente surreais quanto o fato de, sabe-se lá porque, compartilharem do mesmo sentimento maternal de se despedir de maneira… cordial do nosso querido soldado niponordestino, fazendo-lhe muitos e muitos agrados que só o pedaço de terra que presenciou o encontro antropofágico dos índios e portugueses poderia descrever.

Os jordanianos, três deles, me olhavam de soslaio de um canto escuro do bar. Todos temos um certo tipo de medo dos jordanianos. Sérios demais. Corajosos demais. Ótimos matadores. Não há negro que tenha ficado de pé se do lado certo do gatilho havia um desses árabes. Não sei bem se são árabes, mas parecem com eles. Talvez queiram ouvir minha história, como se de repente entendessem português, mas acho que só querem nos analisar, esses brasileiros desregrados, que bebem em plena guerra, que copulam com as negras de bunda grande que oferecem seus préstimos nos cantos escuros de Porto Príncipe e que, o pior, se condoem com os corpos que se amontoam entre o lixo e servem de alimento para os urubus.

Eu toquei inconscientemente o cano do meu rifle, encostado ao meu lado, sempre presente. Não queria contar minha história. Triste história, dessas que não combinam com soldados, fuzis e jordanianos.

“Eu só transei com minha namorada”, menti, para o desencanto dos três.

Gorila e Yakissoba ainda insistiam em saber se ao menos eu havia feito sexo anal com ela ou ainda um digno sessenta e nove para eu me recordar durante os dias solitários na base, mas Geórgia se contentara em apenas me chamar de gay. Os jordanianos ainda encaravam assustadoramente o resto das tropas que se divertiam no Pachuco.

Desistiram de me atormentar quando Geórgia resolvera revelar todos os segredos de um boquete profissional, passo a passo, meu copo meio cheio, o Barbancourt esvaziando na garrafa, a gente esquecendo as coisas ruins, os dias em serviço. A noite de folga se esvaindo e eu contando as moedas no bolso, como se toda a felicidade que pudesse existir no meu coração dependesse do tilintar de mais algumas moedas que significariam outra doce dose de Barbancourt.

Voltei a fitar a janela, a lua sumira. Haviam roubado até a coroa.

21.7.11

Toque

É engraçado pensar que ainda exista pureza no mundo. Os céticos logo torceriam o nariz, "pureza o escambau", diriam, crentes, sim, crentes, de que a desvirtude é um caminho sem volta. Amorais, talvez, ser-lhes-ia inútil imaginar algo como a pureza. Algo tão medieval.
Mas nem só de medievalidade, cristianismo, humanismo ou qual seja o prefixo, o radical e o sufixo, vive a pureza. Quando estamos atolados numa lama pegajosa chamada "descrença", situações singelas podem reavivar a noção de puro de que todos precisamos.
Sim, pode ser que eu esteja soando como um escritor de livros de auto-ajuda, um desses débeis que pretensiosamente imaginam uma fórmula para o buraco em que nos enfiamos.
Porém, eu não quero ajudar ninguém. Antes disso, quando eu escrevo, eu espero sinceramente estar atrapalhando o máximo possível meus leitores. Eu quero deixar todos com dor de cabeça. Com um galo tão grande em seus cérebros miúdos que a única saída desse inferno seja: refletir e compreender.
Crescemos e perdemos qualquer tipo de pureza que possuímos em algum momento esquecido de nossas vidas. Longe de mim afirmar que as crianças são puras. Elas não são. Em algum momento ou circunstância, contudo, muitas são, muitas foram. Eventualmente, somos agraciados com um desses momentos, se com o intuito de que recobramos algum sentido em meio ao caos ou simplesmente como um belo tapa na cara a fim de que nos toquemos de nossas babaquices, eu não sei; o importante é o sinal que esses momentos passam: nem tudo é trevas.
Foi com grande pesar que acordei às 7 horas da manhã, no meu período de férias, após ler até às 3 da matina, para fazer alguns exames. É de se imaginar que uma pessoa que está de jejum, com sono e sem vontade nenhuma de ficar sentada encarando outras pessoas também de jejum e com sono numa sala de espera de consultório, esteja em seu ápice de misantropia, capaz de expressar rugas de poucos amigos como nem o mais habilidoso dos atores conseguiria.
Depois de muitos minutos insuportáveis esperando a boa vontade dos técnicos laboratoriais que iriam extrair meu precioso sangue, fui chamado por uma mulher para ser atendido. É engraçado como esse pessoal que trabalha em laboratório é sempre igual. As mulheres sempre são atarracadas, morenas, meio flácidas. Daria meu braço para afirmar que elas provavelmente sustentam boa parte da família capenga que possuem e que, obviamente, são evangélicas. Por receio da horda dos politicamente corretos, entretanto, não cederei meus membros numa aposta, mesmo nessa minha generalização tão caduca.
Sentada ao meu lado, havia uma mulher já com seus trinta e tantos anos, com alguma beleza desejável, também aguardando a seringa. Atrás dela, agitada, tinha uma garotinha ruiva, a filha. Se com 11 ou 14 anos, não saberia dizer: a mocinha possuía algum tipo de retardo mental e uma nítida incompletude física, muito embora se expressasse com desenvoltura e fosse linda à sua maneira, esbanjando aquela beleza com que toda ruiva propriamente alegra o mundo, ao exibir suas rubras madeixas.
Ela encarava curiosa os objetos do laboratório. Parecia ver um mundo fantástico por trás de tanto branco, tantos instrumentos e placas de orientação. Em certo momento, ela me fixou com seus olhos divertidos e pareceu se indignar.
Veio andando na minha direção e agarrando firme meu pulso, pousou-o sobre a almofada onde dele seria tirado sangue. "Põe o braço aí!", disse com tanta autoridade que desatei a rir na mesma hora. Sorri para ela, mas ela ainda estava séria.
Nesse momento, a morena atarracada vestida de branco fez um nó em meu braço com um fio grosso de borracha para achar a "veia mais suculenta", como ela disse em tom jocoso, o que me fez imaginar aquele ser com cara de sapo pulando em meu braço e chupando ávido todo meu sangue.
Meu pensamento idiota, contudo, foi afastado por um toque inesperado.
A garotinha agarrou minha mão e de olhos suplicantes e num tom preocupado, como se o mundo fosse acabar dentro de dez segundos, disse, se dirigindo ao sapo vampiro: "isso vai doer?!".
Não teria realmente maneira daquelas agulhas me magoarem depois disso. Provavelmente nem o murro de um lutador do MMA seria capaz de me ofender depois daquela cena.
Ela só sossegou quando sua mãe assegurou a ela que eu era um rapaz forte e corajoso e que eu não ia me machucar. Fiz questão de mostrar a ela que nada daquilo me ferira, já que ela seria a próxima vítima das injeções. Já mostrar que eu sou forte e corajoso seria abusar da inocência da pequena moça.
Eu de fato não tenho o menor pavor de agulhas. Tampouco padeço de alguma frescura em relação a sangue. Estou tão acostumado à dor, à revolta, ao lixo, que minha resistência para o que há de pior e mais incômodo na vida me tornou um... escritor. Ou pior, talvez um futuro advogado.
Eu só não estava preparado para a pureza de uma criança que se preocupou comigo de maneira tão doce.
Oh, não, eu não estava preparado.

10.7.11

Mil labirintos

Num desses sábados frios, é bem verdade que fiquei acometido de um resfriado. Não chegava a ser uma gripe. Talvez fosse apenas alergia. Eu não iria ao médico por uma coriza e uma tosse leve. Preferi escrever uma crônica ao invés.

A motivação surgiu com ele. Com nós, devo dizer, e logo entenderão. Deveria ter previsto: quando ele some por muito tempo, é porque prepara uma entrada triunfal. Surge espalhafatoso, causando rebuliço e sempre me dando calafrios. Quando ele aparece, penso que é hora ir para o hospício, muito embora não existam mais hospícios.

Enrolado em montes de cobertas, eu relia um trecho de Contraponto, do Huxley – sim, eu o chamo pelo sobrenome, para que vocês acreditem que somos íntimos. É um ótimo livro, mais prolixo que Admirável Mundo Novo, carregado de tintas que pintam os anos 20 daquilo que outrora fora o Império Britânico, mas o mérito mesmo está em retratar a hipocrisia humana.

Enquanto lia, pensei ter visto um movimento atrás do livro. Abaixei-o. Nada. Novamente. Abaixei-o. Nada. Novamente. Abaixei-o. Nada. Novamente. Abaixei-o. E pá! Lá estavam os cabelos pretos, os olhos castanhos, o nariz grande, a bocarra. Um espelho, um autorretrato, uma miragem. Nada. Novamente. Um espelho, um autorretrato, uma miragem. Nada disso. Era eu mesmo. Eu, outro de mim.

Os mais incautos não devem estar familiarizados com a presença dele, ou com a nossa presença. Mas o eu, meu outro-eu, por vezes surge para incrementar minhas estórias. São momentos muito perturbados em que fica impossível estabelecer se a personagem vai narrar na primeira pessoa do singular ou do plural, se ao falar dele estou falando de mim, ou se ao falar de mim estou falando dele – de nós – ou de mim, o que dá na mesma. Ah, sim, não se pode olvidar do grave indício de esquizofrenia em estágio avançado, mas isso pode ser perdoado pelo bem da Arte. Talvez eu enfim tenha conquistado a tal da licença poética.

Vamos estabelecer algumas regras, portanto. Vamos nos tratar por “nós”. Não vamos usar aspas ou travessões para os diálogos – ou monólogo? –, e o mais importante. Bem, não tem nada importante, esse é um só um texto entediado.

E como eles saberiam que estamos conversando sem as aspas ou os travessões? E o pior, como saberiam distinguir o que está escrito para eles daquilo que é nosso papo?

Eles que se esforcem.

Que seja, o que estamos lendo?

Contraponto, do Hux. Sabe, eu abrevio o sobrenome dele para parecer…

Nós já sabemos disso, não precisa revelar. Mas nós queríamos dizer, o que especificamente estávamos lendo?

Seria interessante transcrevermos o trecho?

Seria.

A poesia pode ser demasiadamente verdadeira. Pura como água destilada. Quando a verdade não é nada senão a verdade, ela é antinatural; uma abstração que com nada se parece do mundo real. Na natureza há sempre tantas coisas estranhas misturadas à verdade essencial! Eis por que a arte nos comove – precisamente porque está depurada de todas as impurezas da vida real. As orgias verdadeiras nunca são tão excitantes como os livros pornográficos. Num volume de Pierre Louys todas as raparigas são jovens e têm formas perfeitas; não há soluços de bebedeira, nem mau hálio, nem fadiga, nem tédio, nem lembranças súbitas de contas a pagar ou de cartas comerciais a responder; nada disso para interromper os arrebatamentos. A arte nos dá a sensação, o pensamento, o sentimento absolutamente puros – e isto é: quimicamente puros. E acrescentara com uma risada: - Não moralmente.

Ele está falando da raiva de não sentir a pureza daquilo que aprende em livros, em quadros, em esculturas. Uma vida pela metade, de sensações incompletas, nunca tão maravilhosas quanto parecem nas linhas, nas tintas, no mármore.

Natureza de obviedades estranhas. Uma realidade tão verdadeira que, para ser crível, deve ter íncita uma dose de bizarrice, do inacreditável, do incomum. Todos os sistemas devem prever sua taxa de risco, sua falha inerente. Nunca ouvimos falar de sistema perfeito.

Pela casa fria, ficamos andando de lados opostos. Há tempos querendo falar de personagens e sua criação. Intrigante que a oportunidade surgisse justamente quando a personagem não fosse outro senão nós mesmos.

Mas tudo nasce como uma folha em branco. A motivação veio com ele. Eu sou eu, mas nós somos os escritores. Eu tenho a caneta na mão, mas nós riscamos o branco para fazer nascer uma figura que entrete e diverte, que irrita ou entristece. Do branco nascem nossas contradições, nossos defeitos, virtudes, problemas, doenças e dúvidas. Talvez por isso mesmo, pelo branco ser branco, tenhamos essa necessidade tão premente de sair riscando-o.

Com uma de nossas mãos eu continha o espirro, com a outra, ele assoava nosso nariz.

Nós nos indagamos se escrever para buscar a si mesmo ou se se revelar em demasia, e ainda em dobro, não seria um atentado à assepsia da sanidade. Cobram-nos isso. Forçam-nos a cobrir essa vergonha.

Querem nos encontrar nestas linhas. Querem nos desvendar em palavras. Porém, escondemo-nos muito bem e sabemos como ninguém criar mil labirintos até o ponto final.

Todo texto é a miséria de um ser humano. A comédia é a capacidade de rir da miséria. O drama é a miséria hiperbólica. A tragicomédia é a miséria em toda a sua versatilidade. Querem que os façamos rir. Querem que os façamos chorar. Querem que nossas mãos criem o milagre da reflexão.

Não temos poder algum. Somos só o risco inerente da natureza na forma de um risco num papel. Somos um contraponto, tanto em si, quanto em relação à arte e aos desejos e principalmente a vocês.

Somos só um caminho até o ponto final.