10.5.11

Memórias de fungo

É sempre o ranger de grades que cheiram a mofo, ou a escuridão que oprime as narinas, o gosto da água metálica que está no teto e no chão, o calor modorrento de som nauseante. São um milhão de sinestesias e todas invasoras. O cheiro fica e não se vai, o gosto amarga e não adocica, a visão se apaga e não retorna, os ouvidos escutam mais do que querem, tocamos coisas inimagináveis. É impossível se livrar da sensação. É desumano não lembrar do que é dignidade.

Eu tenho esta tosse que adquiri visitando meus nobres clientes. Lembro bem de quando ela me assomou. Era um lugar úmido, veja só, e nem um só preso deixava de tossir. Os mais sortudos já expeliam sangue nos seus travesseiros mal-lavados. Não me surpreenderia se toda a prisão virasse uma colônia de fungos, afinal, já não era patente o senso de coletividade desses seres que lá residiam forçadamente?

“Lembro bem”, eu disse agora há pouco. A tosse é uma memória, mas me acompanha presentemente, obrigando a me curvar diante de triste sina. Eu trabalho, eu pago. Essa é a lei dos servos. E, no entanto, ainda tenho minhas memórias. Mesmo que sejam  memórias de cárcere. Ouso dizer que só existem as memórias de cárcere. Todo o resto é liberdade e liberdade não guarda lembrança. Se repararem bem, lembrança rima com esperança e esperança só sente quem nunca experimentou aquilo pelo que espera.

Uma das lembranças que mais me atordoam, tirante a tosse que me dobra, é o Pierre Mamom.

Não estou certo que ainda tenham inventado ramo da ciência para aferir as responsabilidades humanas nas suas ações mais imbecis e abjetas. Se existir, que se debrucem sobre o meu caso: achem seu objeto, estabeleçam sua metodologia, e alcancem o resultado certo. Sou um sujeitinho mequetrefe ao lado de Pierre Mamom, outro sujeitinho mequetrefe.

A história começa com Literatura, muito embora isto seja uma espécie de pleonasmo metalinguístico. Mas é isso mesmo. Começa com Literatura. Pierre Mamom é um escritor filho-duma-puta. Ou melhor dizendo, um puta dum escritor. Ele é um desses bastardos que pegam uma ou mais palavras e brincam com elas como se fossem bolas de gude. Nas mãos deles são desde brinquedo até arma, mas sempre reluzentes.

A hipótese de defendê-lo me excitava de tal maneira que seria por demais clichê revelar que eu possuía frustrações homéricas em relação ao meu fracasso como escritor e, o que deve ser uma consequência natural, ao meu sucesso como advogado.

Se a ciência das cagadas delimitasse o início das pesquisas, seria este: o momento em que eu decidi defender Pierre Mamom, mesmo desconhecendo-o completamente, mesmo multiatarefado, mesmo tentando reaver os sentimentos da minha esposa que a essa altura já dava para o meu vizinho com a escusa de que eu não a enxergava ou algo do gênero.

Quando eu pisei o chão do distrito, senti a água de lodo entrar por entre os vãos dos meus sapatos. Eu era vaidoso em certos momentos. Eram belos sapatos lustrosos. Posso dizer que desci alguns círculos do Inferno para encontrar o meu Mefisto (ou para difamar a Literatura). E não ligava para isso. Eu ansiava por esse momento (essa talvez seja uma variável importante na aferição dos resultados da pesquisa).

O agente (esse é o nome que dão aos carrascos e às sentinelas atualmente) me colocou de frente para a cela daquele animal e eu olhei profundamente dentro daquele cubículo, tentando ver se ali existiam pessoas empilhadas, ou se não passava de um pretexto para disfarçar a entrada do próprio Tártaro. Era isso mesmo, talvez eu estivesse indo me encontrar com um Titã poderoso, sedento por vingança, desejoso da cabeça de Zeus e que me corrompesse a alma, eu, um advogado-títere do Mal.

“Você viu a inscrição que estava lá na porta da delegacia?”, uma voz veio em ondas estridentes do fundo da escuridão do Tártaro. Eu sabia que era o Mamom, meu corruptor.

“Não”, e por um momento pensei que na soleira daquele lugar bestial estivessem grafadas as letras que Dante cantou como sendo “Deixai toda esperança, ó vós que entrais!” (essa é uma das traduções) quando adentrou no Inferno.

“Está escrito ‘Jesus liberta’”, ele sentenciou, e pude ver o sorriso amarelo de Mamom brilhando do seu canto escuro, onde se ocultava.

O sujeito me fascinava.

“Eu sou…”, apresentei-me, “seu advogado; venho de longe, pois me interessei pela sua causa, sei que ainda não possui defensor, pois ninguém quer defendê-lo, sei que você precisa de defesa, pois nosso direito processual exige isso, sei que sou a sua melhor oportunidade, pois sou bom no que faço…”.

“…Sei que você é um pé no saco por fazer esse joguinho de palavras…”, zombou ele, imitando porcamente minha voz.

Calei-me pacientemente. O próximo passo era dele.

“Está certo, Doutor Belos Sapatos” – e ele conseguia enxergar naquela escuridão toda, filho da puta - “você será o meu procurador, o meu defensor, o meu causídico, o meu sátrapa”.

Estendi minha mão sobre o meu peito, virei a cabeça de lado, centrando todo o universo no meu olho direito, símbolo da confiança do meu conhecimento, e garanti que ele estava em boas mãos.

Foi só depois desse momento que eu toquei as grades e tenho quase certeza que foi aí que comecei a me tornar um fungo.

Ele pulou de onde estava e ficando cara a cara comigo, separados por barras de metal, colocou sua mão sobre a minha e propôs: “Agora quer ouvir a minha história?” destilando aquele bafo podre frente às minhas narinas.

Era o que eu mais queria.

Se o mundo é feito de linguagens, a história de Mamom seriam diversos mundos. Dois deles me eram caros. De um eu dependia, visceralmente. Do outro, dependia minha função como defensor.

O mundo que ele me contou era esse:

“Eu sempre amei escrever, Dr. …, desde criança minha paixão. Sou de uma terra nem rica nem pobre, um lugar desses onde todos têm um ofício qualquer, dá pra tirar uns trocados e não é raro que os ignorantes tenham livros em casa. Uns mais, outros menos. Ser filho de um dos que tinha mais livros me deixou assim, culto, conhecedor de palavras. Num mundo onde tudo era mediano, cinza, pálido, saber manipular as palavras era o mesmo que poder caçoar de tudo o que eu mais sinceramente odiava. É óbvio que eu não enxergava assim no começo. Nasceu como um dom, depois um talento, um orgulho, um prêmio, um trabalho, enfim, minha vida. Tornei isso meu dia e minha noite. Sempre surpreendendo. Sempre galgando. Num mundo mediano, ter essa força era um fato descomunal. Tanto que até um advogado petulante deseja me defender. Não que eu não seja grato, Doutor, mas é que o dom virou maldição. Logo vieram as cobranças, a falta de inspiração. A imaginação some e vira um artigo de luxo. Procurei desafios, musas, drogas. Nada funcionava. O que eu era? Um homem médio, destituído de seu talento. Virei um trapo, um sapo, um caco. Foram meus anos negros. Passei a perambular por ruas tão escuras quanto esta cela, já enxergando muito bem meus desígnios. Um homem com um talento como o meu não merecia tal destino, o esquecimento, a falta de motivação, a pena seca. Um homem como eu merece reconhecimento. Não foi o que recebi daquela vadia. ‘Você não é aquele escritor?’, ela disse ‘Como é mesmo seu nome? Tá na ponta da língua!’. Já haviam esquecido mesmo o meu nome. Antes eu era o magnífico Mamom, cujas palavras podem ser flechas de amor ou bombas de realismo. Eu senti a compaixão nos olhos dela. Existe sentimento pior que a dó, Doutor? Eu não podia suportar aquilo. Se me olhasse, que olhasse com indolência, que me olhasse com desejo. É por isso que eu mostrei a ela minhas palavras, Doutor. Eu aprendi que minha escrita não se limita somente a um papel. Eu fiz arte. Fiz arte nela. Que belo corpo tinha aquela criatura que me abordou na escuridão, com dó de mim, com dó dos meus trapos, dos meus cacos! Que belos olhos! Que belos seios! Eu fiz arte nela. E foi uma verdadeira obra prima…”

O mundo do qual meu emprego dependia era assim:

“Fato 1: Às 23h00 do dia tal, do mês tal do ano tal, ciente da reprovabilidade de sua conduta, o denunciado Pedro Marcos da Silva praticou conjunção carnal com a vítima Fulana, conforme laudo de fls. x, sendo certo que veio a lhe desferir diversos golpes utilizando uma faca, como se depreende do laudo de fls. y…”. E por aí segue.

O caso de Mamom foi meu último caso como advogado. Eu abdiquei do meu trabalho defendendo os indefensáveis para me dedicar à minha antiga frustração: a escrita. Mamom foi condenado a 20 anos de prisão, o que considero uma vitória, tendo em vista o grau de excelência da sua “obra”.

Ele foi transferido para um presídio e a cela onde ele se escondia na escuridão ficou desocupada.

Quanto a mim, eu tossia e me curvava sobre a máquina de escrever, destilando golpes raivosos nas letras miúdas que me davam resultados medíocres os quais não ousava chamar Literatura.

Eu tossia e, lembrem-se, a tosse era uma lembrança. Tudo isso é uma lembrança. Mamom é uma recordação, as sinestesias são uma recordação, a prisão é uma recordação, meus sapatos são uma bela recordação. Minha mulher era uma recordação vadia.

Certo dia, minha mulher me contou sobre a traição, sobre o vizinho comedor e ela falava e chorava e esperneava numa histeria crescente e infinita e me batia e cobrava de mim e me acusava de um milhão de coisas incompreensíveis e justo naquele dia, lembrando de grades, lembrando de tosses, lembrando da arte e da Literatura eu esqueci meu bem mais fundamental: eu esqueci minha inspiração. Porém, lembrei de Mamom. Então eu fiz arte.

Depois eu só fiz virar fungo. Um fungo que tosse, se curva e tem suas memórias de cárcere, sem esperança alguma.