23.6.11

Dedos

Certas coisas nunca dizemos em matéria de amor. Nunca foi necessário à minha esposa, por exemplo, que anunciasse a mim solenemente sua vontade de defecar. São coisas que deixamos tangenciar o lindo mundo do romântico, sem necessidade de verbalizar.

Mas não se ajeitem em sua aflição. Não falarei de fezes e outros fluídos que importunam a relação amorosa dos casais que desaprenderam a compreender seus corpos. Não. Nem sempre se precisa ser um Rubem Fonseca ou um Bukowski para entreter as mentes incautas. Não obstante, hoje falarei de dedos. Tudo bem, talvez eu fale de fluídos, mas prometo não falar de fezes. De dedos falarei.

Minha esposa era uma mulher tranquila. Sempre fui afobado, ao contrário. Ela queria me mostrar um lado maravilhoso da vida, falar da infância, de seus pais, de suas experiências (obviamente não-sexuais). Estrelas, sol, lua, paisagens. Minha esposa era uma transcendental. Eu, por minha apressada vez, queria transar. Assim, sem muita cerimônia, apenas o bom e velho sexo. Quando nos conhecemos, descarregava com toda veemência meu arsenal de cantadas, dubiedades, provocações e insinuações para aquele pequeno anjo, cujas coxas eu desejava dia e noite que me prendessem numa excitação eterna: detido para todo o sempre entre aquelas pernas fatais, castigadoras. Em resposta, ela me chamava para exposições de arte e para tomar sorvete.

Foram necessários exatamente nove meses, dezessete dias e dezoito horas para que enfim ocorresse um ponto de convergência entre desejos tão díspares: no dia do aniversário dela, após décadas me infligindo uma cruel mortificação carnal, ela começou a confiar em mim. Meu pau flácido era um sinal de falta de perigo. Perdi a conta de quantas punhetas foram necessárias para aguentar aquela tortura medieval, mas pensando agora, talvez o resultado tenha valido a pena. Ocorreu assim: ao ver que seu dedo acidentalmente havia escorregado no bolo que o pessoal do trabalho preparara, riscando a cobertura milimetricamente calculada, ela apontou-o diretamente para mim, numa inevitabilidade desconcertante, ignorando a existência de guardanapos, toalhas de mesa, papeis ou mesmo sua própria roupa. Foi minha boca que limpou o glacê impregnado naquele dedo magro, reto como uma adaga, de unha rosa. Abocanhei aquele dedo como um prêmio por tantos meses que minha ansiedade transformara em anos de miséria, lambi-o de cima a baixo, sentindo o gosto doce na minha língua ávida. Ela não me repudiou. Encarou a situação com olhos deliciosamente surpresos e ao retirar o dedo de meus lábios, tocou sua mão gentilmente em meu ombro. Estávamos apaixonados.

Os dedos dela se tornaram o fetiche do meu desejo morto. Através deles, a fênix do meu tesão se reacendeu, surgiu das cinzas da frigidez daquela branquela. Uma vez acomodado com a visão de seus peitos, sua bunda, seus olhos cândidos, sua suave pele, não me restava outra alternativa senão eleger aqueles dedos finos o alvo da minha libido, posto que salvadores de relação que eu já julgava findada.

Quando eu finalmente a levei para a cama, tanto quanto a obrigação que todo homem sente de introduzir algo na presa abatida que deita em seu leito, senti uma vontade irrefreável de chupar seus dedos. Comecei beijando as unhas, mordiscando os nós da falange, esfregando meus lábios nas costas das mãos daquela criatura divina. Ela, inexperiente, julgando serem minhas esquisitices um protocolo inquebrantável, passou a fazer o mesmo com meus dedos, minha mão, meus braços. Olhei-a divertidamente. Percebi meio tolamente que eu também possuía dedos, meus dedos grossos, já calejados, nodosos e ásperos. Uma ideia me veio. Olhei para a buceta dela, depois para meus dedos úmidos da saliva morna do meu anjo. Uma conjunção natural. Toda criança sabe, todo adolescente tem certeza, e os adultos só o fazem aprimorar. Dedos e buceta são uma combinação mágica.

O mais intrigante dos dedos é sua capacidade de adquirir o cheiro das coisas que tocam. O cheiro de uma buceta, quando limpa, não tem lá um cheiro muito marcante, mas se reparar bem, aquela umidificação toda tem um traço invisível, algo que atiça os hormônios, algo que faz o macho arreganhar os dentes, salivar, um traço que dilata as pupilas. É o que meus dedos me contavam, meus dedos que tanto lá brincaram…

Outras vezes os dedos dela tinham cheiro de alho, de cebola, de laranja, de goiaba, de comida, de objetos. Às vezes me pegava imaginando como uma criatura tão inodora podia agora ter tantos cheiros, tantos gostos, tantas texturas na ponta daqueles dedos brancos. Era extasiante vê-la cozinhar para mim, ver seus dedos apertando um frango, batendo uma massa, experimentando um molho. Ao temperar a carne, eu fazia questão de ajudá-la, de entrelaçar meus dedos aos dela, de sentir o sal, a pimenta-do-reino, o limão, a mostarda, o ketchup, o chimichurri, o shoyo, o vinagre, o azeite, o alho se imiscuir entre nossos dedos, formando algo vistoso, que fazia arder o canto de nossas unhas e passeava entre nossas mãos encarnadas. Eu atrás dela, apertando seus dedos. Não pude aguentar em determinada vez, ela sentiu meu membro rígido. Ela, que era uma caipira santa, pôs-se a esfregar a bunda em mim. Não limpamos as mãos. Fizemos ali mesmo no chão da cozinha, temperados.

Meus dedos e os dela já fizeram muitas coisas. Já enxugaram lágrimas, já serviram para ofender, já penetraram buracos, já arranharam, bateram, acariciaram para depois bater e depois acariciar novamente. Meus dedos já passearam nos cabelos dela. Os dela já trilharam o caminho de minha barba, o que a divertia. Nossos dedos já sustentaram alianças.

Eu e minha esposa nos separamos, mas, como podem ver, é comum que eu lembre daqueles dedos que tanto amei.

2 comentários:

Zaratustra disse...

que merda de coincidência, eheh

Zaratustra morreu, mas os textos são eternos. saudações

gestalt.riopreto disse...

Que nelson rodrigues se cuide, amado VH!
Embora os dedos proporcionem momentos extraordinários (assim como outros apéndices do corpo, como propunham em 1950 os pesquisadores e curadores de impotência, Master e Johnson) numa relação, não garantem, a la larga, sua eternização...
Parabéns, belíssimo texto!