9.6.11

Homens olhando umbigos, mulheres olhando infinitos

Carência. Sou piegas, então calha bem confessar que o dicionário me contou que carência significa “Falta, ausência, privação, necessidade, precisão”. Uma sensação ou um sentimento? Não sei. Tanto faz. Carência é algo que é pautado por um sentido negativo, de vazio, a necessidade de algo que inexiste.

Certa feita eu indaguei uma menina sobre o motivo de ela ser tão fechada, tão propensa a afastar as pessoas de seu redor. Uma dessas pobres meninas que andam aos montes por este planeta e que são incapazes de reconhecer os próprios desejos, o que, convenientemente, é algo por demais estranho, pois até onde eu sei, reconhecer um desejo é tão fácil quanto achar o próprio umbigo, ou talvez seja fácil por isso mesmo. Posso cogitar que com mulheres se dá de maneira diferente? Devo. Mas isso é assunto para outros textos.

A resposta foi intrigante: a aproximação se dá por momentos de carência, isso é passageiro e (aparentemente) errado. É fraqueza. A relação forte e duradoura é a amizade. Com esta não tem erro.

Eu não vou parafrasear a menina que serve de modelo para esta crônica carente porque de fato não lembro das palavras exatas da rapariga. Tenho esse péssimo defeito de não guardar as minúcias na cabeça. Recordo-me da cara dela me fitando e se perguntando, porque esse doido está perguntando essas coisas?, ou mesmo das negativas peremptórias, aquelas que colocam um ponto final no assunto e mostram que não, eu não estou certo, eu jamais estarei certo, e quer saber, talvez eu seja um extraterrestre, isso, isso mesmo, eu sou um estranho que não se encaixa nos modelos pré-existentes, alguém com um formato de estrela num brinquedo de criança em que só se encaixam quadrados, triângulos e circunferências. A expressão carência, contudo, ficou guardado na minha memória falha, na minha memória de sensações. E lá ficou, por meses, martelando, incomodando, pedindo aos berros para sair, para ter algumas linhas para ela, apenas para ela. Vocês sabem como é, a carência.

A essa altura do campeonato eu devo revelar que tentei beijar a garota dias antes da conversa.

Agora o quadro se completa: os leitores ficam imaginando, ele é um carente inveterado. E a garota, uma verdadeira viking em se tratando de… sociabilidade, acaba por ganhar a parada, posando de valquíria. Um coração masculino a mais para ser devorado. Posso sentir o vento que balança as madeixas dela nessa imagem triunfal. Posso sentir o cenho franzido dos leitores concordando que as conquistas são uma dura queda de braço e que, invariavelmente, eu perdi.

Acontece que eu não caio nessa balela e muito me parece que vou confirmar a teoria de que sim, sou estranho e meio ET e vou prosseguir sendo do contra, por causa de um simples detalhe.

Esse detalhe reside na palavra “carência”.

Que atire a primeira pedra na Madalena quem nunca associou essa palavra com a ideia de fraqueza. Reflexos de uma sociedade machista? Talvez. Se eu fosse Milan Kundera, nesse ponto já teria desenvolvido uma teoria absurdamente sexy sobre como o povo latino deu uma ênfase desnecessária ao jogo da conquista, onde não há partilha, mas antes um vitorioso e um derrotado. Os segredos da semântica de uma palavra tão inofensiva. A história de um povo resumida numa expressão tão pálida.

Acontece que carência é um processo tão comum quanto o pão da padaria.

Solidão, ressentimento, saudade, falta, desejo. Palavras ou sentimentos. São, no fundo, apenas humanidades, corriqueirices, produtos da inexorável verdade de que o homem é um ser imperfeito, solitário, ignorante, ferido. Um imbecil, se preferirem. Não fosse nossa especial capacidade para precisar dos outros, bem, eu não quero cogitar da hipótese de não precisarmos um do outro…

Quando a garota me encarou, eu precisei dela. Foi algo tão urgente para o meu corpo quanto os copos de cerveja que tornei aquela noite. Para ela, foi carência. Para ela, isso é bobagem e fraqueza, pois apenas a amizade subsiste num mundo de inconsistências ilógicas. Um mundo onde, oh, veja só, as pessoas precisam umas das outras. De suas carnes, de suas línguas, de seus olhares, de suas palavras, e mesmo de seu desprezo, uma vez ou duas.

O que eu não preciso, e isso digo sem qualquer charme semântico, é de um mundo de seres autossuficientes, que se bastam em si, que se finalizam onde mal começaram. Mas não liguem para mim, essa é a opinião de um piegas, ou só estou sendo carente?

2 comentários:

estevan sem metafísica... disse...

ser carente é buscar pessoas ou buscar e repelir?
de qualquer forma, a carência sendo falta, acho que não é preciso aprende-la. enquanto auto-suficiência (e eu acredito que nunca existirá uma plena) é aprendida, sim.
vou colocar a carência como algo simples, que faz sofrer e, sozinha, tende a se prolongar como inércia. cabe à gente aplicar uma força que rompa isso.
acho carência uma coisa ruim, sim. não consigo olhar pra ela de forma indiferente, e gostaria muito de ser auto-suficiente tanto quanto fosse possível.

re disse...

Literalmente você esvaziou o copo. Beleza!

É difícil discriminar o Desejo: - tem a tal da necessidade, tem o tal do desejo inconsciente e tem também uma montanha de mecanismos que nos impedem de irmos direto ao pote (nos fartarmos do seu conteúdo) e nos levam por saídas “imbecis”, mas que em alguns momentos nos permitem uma falsa segurança.
Esse Eu que desconheço e esse outro que nem “posso” conhecer - num mundo de relações tão higiênicas - ficamos impedidos (covardes!) de trocarmos toques, salivas e malícias.
É assim ó: ta carente? Problema seu.

Lindo texto!