18.6.11

O peixe

Pode parecer um tanto quanto intragável que um peixe estivesse nadando ao meu redor, em meio à composição de gases que nos cercam, batendo lepidamente suas nadadeiras no nada, apenas me rondando, traçando movimentos aleatórios. Certamente ele deveria estar na água, como todos os outros peixes que já conheci, exceto aqueles que degustei. No entanto, sem muita cerimônia, esse peixe em especial não estava na água e, por mais estranho que pareça, suas guelras filtravam só e tão-somente o oxigênio de que tanto necessitamos.

Não era comum que o peixe me circundasse. Suas aparições eram pontuais, porém inequívocas. Era mais uma espécie de peixe-aviso. Se algo me colocasse em perigo, lá estava ele, a me olhar com olhos vidrados e preocupados, e a abrir e fechar sua pequena boca de peixe, como se desejasse gritar, “corra, corra!", coisa que falhava em conseguir, por mais que tentasse. Seria por demais bizarro afirmar que um peixe que nada no ar também possa gritar: a Natureza jamais seria tão inverossímil.

E por falar em Natureza, muito me incomoda pensar nessa letra maiúscula que inicia a palavra. Eu devo falar Natureza ou natureza? A que tipo de coisa eu quero me referir? Existiria mesmo uma diferença tão grande em relação ao caráter de uma letra? Maiúscula ou minúscula, pode ser que o alfabeto me perdoe, mas não talvez a Natureza ou natureza. Isso me faz pensar no nosso próprio tamanho. Eu sou um humano tão insignificante ante a Natureza? Ou a natureza está a meu serviço? Afinal, um peixe que nada no ar e não consegue gritar irá me alertar dos perigos da Natureza ou da natureza?

São perguntas demasiadamente difíceis para o peixe que me cerca ou mesmo para mim. Tudo o que ele sabe é a respeito do perigo. Confesso que tenho dó do pequeno peixe. Ah, se eu não tivesse… se eu apenas pudesse…

É muito comum que quando as pessoas se aproximem de mim, o peixe surja. Somente eu consigo enxergar o peixe e por mais que ele desfile à frente dos olhos incautos, nada veem. Às vezes tenho vontade de rir, quando o peixe está de bom humor e se vê acometido de gracejos, fazendo movimentos nada convencionais para ridicularizar meus interlocutores. Nesses casos ele sabe que se trata de pouco perigo e se dá ao luxo de caçoar dos outros. Não posso rir deles, claro. Nunca pensei em denunciar a existência deste peixe que me defende.

Noutros casos, contudo, o peixe não se vê à vontade para brincar. Por mais distante que esteja, ele sente a toxicidade dos perigos da Natureza, natureza, ou seja lá como preferirmos, aproximando-se, colocando-me em risco. Presumo desconfiadamente que a toxicidade não venha da natureza em si, mas antes de pessoas mal-intencionadas.

Muitas pessoas estranham que no filme Donnie Darko, o protagonista se veja conduzido por um sinistro coelho (um homem disfarçado de coelho) para realizar determinadas tarefas e “consertar” a disfunção do espaço-tempo a que um evento deu causa. Aquele coelho é um escravo. Ele é um escravo da morte, a serviço de seu algoz, justamente o protagonista.

Se parece espantoso que as coisas que matamos nos sirvam na outra vida – afinal de contas, que confiança posso ter naquele que obliterei? – talvez devamos pensar pelo lado oposto: por que não? Matar é um elo. Se não matamos algo, o algo subsiste, persiste, insiste e outros istes para efeito de chiste. Se damos cabo do algo, por outro lado, ascendemos sobre algo o qual não tivemos nenhum poder para conferir: a vida.

Parece muito fácil que pensemos em temer Aquele que nos deu a vida. Ou respeitar enquanto vivermos aqueles que nos criaram (Aquele ou aqueles é a mesma questão da Natureza e da natureza). Seria muito difícil entender que nos ligamos, portanto, aos que nos tiraram a vida? São duas facetas da mesma moeda enferrujada.

Estávamos tratando das pessoas mal-intencionadas. E a palavra-chave era toxicidade, ou “o quociente, expresso em quilogramas, da quantidade duma substância necessária para matar um animal”. Quantos quilogramas seriam necessários para me matar? Eu obviamente sou um animal, diria até um animal agonizante, para facilitar o trabalho dos que tentam me envenenar.

É que me vejo de repente enredado num mar de intrigas, mentiras, falsidades, dissimulações, risos histéricos, choros compulsivos, ebriedades alarmantes, entre outros fatores que não dão descanso ao pobre peixe.

Um abraço aparentemente sincero pode signifcar senão uma manipulação grosseira ante um alento de carência: um subjugo. A mão que acaricia é a mesma que apunhala, ressalto, tentando parecer um pouco Augusto dos Anjos, coisa que sei fazer sem sucesso algum. O choro é uma arma, percebi. O choro abre portas. E se ninguém resiste ao choro, é porque antes de portas as pessoas desejam abrir as pernas.

E se abrem as pernas, fecham peremptoriamente os corações!

Eu sou o último dos ingênuos. Eu sou uma raça em extinção. Não há, ao menos, estudiosos alarmados com a minha situação, me protegendo, procurandos nos quatro pontos do mundo uma ingênua, para me salvar, para cruzarmos e criarmos muitos ingenuozinhos. Tigres e micos são mais importantes que a minha figura sombria.

Tudo é mais importante a mim. Eu não sou especial. Essas foram as únicas palavras que o peixe me disse antes de… bem, o peixe me disse, “você não é especial”, é, eu menti quando disse que a Natureza não é inverossímil, ela é um pouquinho sim, e permitiu ao meu amigo peixe dizer estas poucas palavras. E desde então eu percebi, como num passe de mágica, eu não sou especial! Oh! Eu sou matéria orgânica, eu diria até uma matéria orgânica bonitinha, bem formada, com dois olhos, um nariz, uma boca, duas orelhas, e toda a compleição física bem delineada, que sabe falar, tocar, ouvir e presunçosamente até cogita, pelo que talvez possa afirmar que eu existo. Eu existo, eu tenho forma, mas eu não sou especial.

E ante a Natureza, que pouca coisa eu sou. Que pequeno.

Um dia eu saí para pescar com minha mãe e meu sobrinho. Minha mãe tomava cerveja e comia peixe. Era uma carne gostosa. Meu sobrinho se irritava, queria alguns girinos, queria criar um animal. Queria ver crescer a Natureza, assim como ele crescia tão vistosamente, talvez compreendê-la, com sua curiosidade infantil. Eu, à parte, olhava a água e esperava que minha isca pegasse algo. Ela pegou: minha isca rasgou a boca de um peixe dourado, brilhante, não era grande. Quando o puxei, ele me olhava assustado. Debatia-se, tentando lutar instintivamente pela vida que Algo ou algo o dera. Eu tirei a isca de sua boca, mas o contato da minha mão foi coisa tenebrosa para o pequeno. Ele deu um último pulo, talvez querendo voar, pular as etapas da evolução, mas não tinha asas, e caiu. Caiu na terra vermelha e se encheu de algo que ele nunca tinha sentido, um troço esquisito, não era molhado, não dava pra respirar, pelo contrário, a respiração ia embora, embora… seriam as quilogramas necessárias?

Eu o joguei na água, tentando salvá-lo. Não sei se o salvei, só sei que desde então ele aparece toda vez que eu corro perigo, nadando no ar, em volta de mim, tentando gritar “corra, corra!”.

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