26.6.11

Terno e gravata

Ela se espreguiçava enrolada na coberta, lânguida, o corpo eletrificado, deixando ir embora aquele resquício de gozo, uma sobra do prazer. Abrindo os olhos, podia ver a silhueta dele no banheiro, suas pernas magras, suas coxas entalhadas, sua bunda enviesada, as costas largas que a agradaram tanto. Nada fazia, não se lavava, não escovava os dentes, não se admirava, apenas encarava o próprio reflexo no espelho, profundamente.

“O que você está fazendo aí que não vem me abraçar?”, perguntou ela, o mais docemente que lhe foi cabível.

“Apenas lembrando de algumas coisas”, vago.

“De outras?”, ela provocou.

Ele tornou a cabeça, os olhos divertidos. Um sorriso fora de lugar a confundia, fazendo-a pensar se achava graça, se confirmava o que havia dito, ou se a tomava por ridícula. “Maldição”, ela chegou a pensar, “que porra de homem é esse que nunca deixa claro o que pensa?”.

Os pensamentos dela foram mutilados pela voz cavernosa dele.

“Eu lembrava de um tempo em que eu jamais estaria aqui”, disse numa voz triste. Ela sentiu o pesar em sua voz, mas preferiu comentar:

“Bem, acho que isso é um elogio”.

Ele saiu do banheiro, o pênis agora flácido balançando, coisa que, por mais corriqueiro que fosse para ela, sempre a fascinava. Sentou-se à escrivaninha e começou a anotar algo numa agenda a qual ela não tinha, por mais que insistisse, acesso.

“Eu disse que quero você aqui me abraçando!”.

“Logo, meu anjo, já vou”, retorquiu, sem se dignar a olhá-la.

Ela se desvencilhou das cobertas, olhando nua para o teto, deitou-se com a cabeça em direção aos pés da cama e descansou as pernas delgadas na madeira da cabeceira. Ruminava as ideias enquanto o barulho do lápis rabiscando o papel preenchia o vazio do quarto.

“Sabe, ainda estou impressionada com a sua performance de hoje”, revelou.

“É porque eu a desejo muito”, ainda sem olhar.

“Não, bobo, falo da sua performance no Fórum”.

Riso de esguelha, fita-a brevemente.

“Foi uma vitória, fico feliz pelo meu cliente”.

“Pois o meu cliente não ficou nada feliz”.

“Não esquente a cabeça com isso. O importante é que nos damos bem na cama e de qualquer maneira você também recebeu bons honorários, a derrota é só uma consequência de um jogo em que há um vencedor e um perdedor”.

“Bem, desde que ele não descubra esse nosso momentinho…”, ela desconversou, fazendo olhos à Capitu.

Ele fechou a agenda e se dirigiu à cama. Antes de se deitar, fixou-a com um olhar distante. Fitou desde seus pés magros até a ponta de seus cabelos, os quais ele jamais saberia se eram ruivos ou loiros. Gostava do que via. Aninhou-se ao lado dela e sentiu ela enroscar o corpo no seu, sua pele suave, seu cheiro de flores e de sexo: uma víbora que o enroscava voluptuosamente, algo pelo qual valeria a pena arriscar a morte. Ela o encarou com dúvida no olhar.

“Me diz uma coisa… como você consegue ser tão implacável?, digo, você pega o ponto fraco de tudo e usa a seu favor. Conseguir uma declaração daquelas mostrando como meu cliente era um canalha e que sua lide não tinha cabimento. Apenas me diga, o que te faz cavar tanto assim, é a vontade de vencer?, porque eu, simplesmente não iria tão longe!”.

“Nem sempre fui assim…”.

“Por favor, não seja lacônico. Você sabe que gosto de você, converse comigo”, suplicou, depositando sua mão quente sobre o rosto dele.

Ele desamarrou-a de si. Encostou-se à cabeceira, as mãos abraçando os joelhos, reflexivo.

“Houve um tempo em que eu desistiria. Em que eu olharia para você e sentiria pena. Pena de vencer a mulher que admiro. Pena de quebrar a banca de um homem aparentemente correto. Por pena, eu teria descido ao buraco mais lamacento e ficaria feliz de me ver chafurdando, enquanto os outros, lá em cima, nas bordas, ririam de mim e diriam ‘veja só, estamos aqui e você aí, seu bosta, somos gratos!’. Há não muito tempo eu cria em amizade, em confiança, em apoio. Isso acabou”.

“Parece dramático…”.

“Eu fui criado para acreditar que sou um príncipe, meu bem. Eu sempre fui um príncipe e ninguém jamais poderia deter meu ímpeto. Ninguém se colocaria no meu caminho. As alturas seriam meu trajeto natural”.

“E assim parece!”, caçoou ela.

Ele a fitou seriamente, sem rir em resposta.

“Você nunca fica por cima quando os outros pisam em você. Nenhum verme acredita em altruísmo, em caráter elevado, em honra. Frequentemente eu era sabotado por não entender que eu não era melhor que ninguém. Ao contrário, talvez eu fosse mesmo pior que todos”.

Ela começou a perceber que entrara num caminho sem volta.

“Não se vence seguindo as regras certas. Eu jamais derrubaria os porcos sendo um nobre. Eu não poderia vencê-los jogando o jogo deles. Não poderia respeitá-los, amá-los, cortejá-los. É por isso que eu decidi assumir o que eu realmente sou”.

“E o que você realmente é?”, perguntou ela, absorta por aquele lago fundo.

“Alguém que os fode”.

E já de pau duro, lívido, sentiu-se abençoado para comê-la novamente.

2 comentários:

Haha disse...

Brilhante

Jeniffer Viana disse...

"Num mundo onde tudo era mediano, cinza, pálido, saber manipular as palavras era o mesmo que poder caçoar de tudo o que eu mais sinceramente odiava".

De tudo que li foi essa a frase que mais gostei.


Contos sobre a realidade da natureza humana devem ser escritos com habilidade, mostrar a realidade do que somos com palavras rudes seria destrutivo.

Escrever sobre sexo desprovido de amor romântico muitas vezes acaba gerando um conto erótico de baixo valor literário, porém quando se consegue escrever sobre tal temática com graça ( e uma certa classe) é possível revelar lados ocultos ( ou negados?) da natureza do homem.

Os textos que li são fortes( e inapropriados para crianças, acho) no entretanto não forçam a barra, não procuram chocar de forma descontrolada, não pretendem convencer ninguém de forma forçada. Simplesmente retratam o que todo mundo tem lá no fundo.

Em especial, Terno e Gravata me chamou atenção, se bem que ainda procuro um porquê para o título...
O desfecho conseguiu quebrar com as reflexões que o "cara" fez ao longo do texto, tirando aquele ar de texto querendo passar lição de moral.


Ah!!! Você escreve bem^^