21.7.11

Toque

É engraçado pensar que ainda exista pureza no mundo. Os céticos logo torceriam o nariz, "pureza o escambau", diriam, crentes, sim, crentes, de que a desvirtude é um caminho sem volta. Amorais, talvez, ser-lhes-ia inútil imaginar algo como a pureza. Algo tão medieval.
Mas nem só de medievalidade, cristianismo, humanismo ou qual seja o prefixo, o radical e o sufixo, vive a pureza. Quando estamos atolados numa lama pegajosa chamada "descrença", situações singelas podem reavivar a noção de puro de que todos precisamos.
Sim, pode ser que eu esteja soando como um escritor de livros de auto-ajuda, um desses débeis que pretensiosamente imaginam uma fórmula para o buraco em que nos enfiamos.
Porém, eu não quero ajudar ninguém. Antes disso, quando eu escrevo, eu espero sinceramente estar atrapalhando o máximo possível meus leitores. Eu quero deixar todos com dor de cabeça. Com um galo tão grande em seus cérebros miúdos que a única saída desse inferno seja: refletir e compreender.
Crescemos e perdemos qualquer tipo de pureza que possuímos em algum momento esquecido de nossas vidas. Longe de mim afirmar que as crianças são puras. Elas não são. Em algum momento ou circunstância, contudo, muitas são, muitas foram. Eventualmente, somos agraciados com um desses momentos, se com o intuito de que recobramos algum sentido em meio ao caos ou simplesmente como um belo tapa na cara a fim de que nos toquemos de nossas babaquices, eu não sei; o importante é o sinal que esses momentos passam: nem tudo é trevas.
Foi com grande pesar que acordei às 7 horas da manhã, no meu período de férias, após ler até às 3 da matina, para fazer alguns exames. É de se imaginar que uma pessoa que está de jejum, com sono e sem vontade nenhuma de ficar sentada encarando outras pessoas também de jejum e com sono numa sala de espera de consultório, esteja em seu ápice de misantropia, capaz de expressar rugas de poucos amigos como nem o mais habilidoso dos atores conseguiria.
Depois de muitos minutos insuportáveis esperando a boa vontade dos técnicos laboratoriais que iriam extrair meu precioso sangue, fui chamado por uma mulher para ser atendido. É engraçado como esse pessoal que trabalha em laboratório é sempre igual. As mulheres sempre são atarracadas, morenas, meio flácidas. Daria meu braço para afirmar que elas provavelmente sustentam boa parte da família capenga que possuem e que, obviamente, são evangélicas. Por receio da horda dos politicamente corretos, entretanto, não cederei meus membros numa aposta, mesmo nessa minha generalização tão caduca.
Sentada ao meu lado, havia uma mulher já com seus trinta e tantos anos, com alguma beleza desejável, também aguardando a seringa. Atrás dela, agitada, tinha uma garotinha ruiva, a filha. Se com 11 ou 14 anos, não saberia dizer: a mocinha possuía algum tipo de retardo mental e uma nítida incompletude física, muito embora se expressasse com desenvoltura e fosse linda à sua maneira, esbanjando aquela beleza com que toda ruiva propriamente alegra o mundo, ao exibir suas rubras madeixas.
Ela encarava curiosa os objetos do laboratório. Parecia ver um mundo fantástico por trás de tanto branco, tantos instrumentos e placas de orientação. Em certo momento, ela me fixou com seus olhos divertidos e pareceu se indignar.
Veio andando na minha direção e agarrando firme meu pulso, pousou-o sobre a almofada onde dele seria tirado sangue. "Põe o braço aí!", disse com tanta autoridade que desatei a rir na mesma hora. Sorri para ela, mas ela ainda estava séria.
Nesse momento, a morena atarracada vestida de branco fez um nó em meu braço com um fio grosso de borracha para achar a "veia mais suculenta", como ela disse em tom jocoso, o que me fez imaginar aquele ser com cara de sapo pulando em meu braço e chupando ávido todo meu sangue.
Meu pensamento idiota, contudo, foi afastado por um toque inesperado.
A garotinha agarrou minha mão e de olhos suplicantes e num tom preocupado, como se o mundo fosse acabar dentro de dez segundos, disse, se dirigindo ao sapo vampiro: "isso vai doer?!".
Não teria realmente maneira daquelas agulhas me magoarem depois disso. Provavelmente nem o murro de um lutador do MMA seria capaz de me ofender depois daquela cena.
Ela só sossegou quando sua mãe assegurou a ela que eu era um rapaz forte e corajoso e que eu não ia me machucar. Fiz questão de mostrar a ela que nada daquilo me ferira, já que ela seria a próxima vítima das injeções. Já mostrar que eu sou forte e corajoso seria abusar da inocência da pequena moça.
Eu de fato não tenho o menor pavor de agulhas. Tampouco padeço de alguma frescura em relação a sangue. Estou tão acostumado à dor, à revolta, ao lixo, que minha resistência para o que há de pior e mais incômodo na vida me tornou um... escritor. Ou pior, talvez um futuro advogado.
Eu só não estava preparado para a pureza de uma criança que se preocupou comigo de maneira tão doce.
Oh, não, eu não estava preparado.

10.7.11

Mil labirintos

Num desses sábados frios, é bem verdade que fiquei acometido de um resfriado. Não chegava a ser uma gripe. Talvez fosse apenas alergia. Eu não iria ao médico por uma coriza e uma tosse leve. Preferi escrever uma crônica ao invés.

A motivação surgiu com ele. Com nós, devo dizer, e logo entenderão. Deveria ter previsto: quando ele some por muito tempo, é porque prepara uma entrada triunfal. Surge espalhafatoso, causando rebuliço e sempre me dando calafrios. Quando ele aparece, penso que é hora ir para o hospício, muito embora não existam mais hospícios.

Enrolado em montes de cobertas, eu relia um trecho de Contraponto, do Huxley – sim, eu o chamo pelo sobrenome, para que vocês acreditem que somos íntimos. É um ótimo livro, mais prolixo que Admirável Mundo Novo, carregado de tintas que pintam os anos 20 daquilo que outrora fora o Império Britânico, mas o mérito mesmo está em retratar a hipocrisia humana.

Enquanto lia, pensei ter visto um movimento atrás do livro. Abaixei-o. Nada. Novamente. Abaixei-o. Nada. Novamente. Abaixei-o. Nada. Novamente. Abaixei-o. E pá! Lá estavam os cabelos pretos, os olhos castanhos, o nariz grande, a bocarra. Um espelho, um autorretrato, uma miragem. Nada. Novamente. Um espelho, um autorretrato, uma miragem. Nada disso. Era eu mesmo. Eu, outro de mim.

Os mais incautos não devem estar familiarizados com a presença dele, ou com a nossa presença. Mas o eu, meu outro-eu, por vezes surge para incrementar minhas estórias. São momentos muito perturbados em que fica impossível estabelecer se a personagem vai narrar na primeira pessoa do singular ou do plural, se ao falar dele estou falando de mim, ou se ao falar de mim estou falando dele – de nós – ou de mim, o que dá na mesma. Ah, sim, não se pode olvidar do grave indício de esquizofrenia em estágio avançado, mas isso pode ser perdoado pelo bem da Arte. Talvez eu enfim tenha conquistado a tal da licença poética.

Vamos estabelecer algumas regras, portanto. Vamos nos tratar por “nós”. Não vamos usar aspas ou travessões para os diálogos – ou monólogo? –, e o mais importante. Bem, não tem nada importante, esse é um só um texto entediado.

E como eles saberiam que estamos conversando sem as aspas ou os travessões? E o pior, como saberiam distinguir o que está escrito para eles daquilo que é nosso papo?

Eles que se esforcem.

Que seja, o que estamos lendo?

Contraponto, do Hux. Sabe, eu abrevio o sobrenome dele para parecer…

Nós já sabemos disso, não precisa revelar. Mas nós queríamos dizer, o que especificamente estávamos lendo?

Seria interessante transcrevermos o trecho?

Seria.

A poesia pode ser demasiadamente verdadeira. Pura como água destilada. Quando a verdade não é nada senão a verdade, ela é antinatural; uma abstração que com nada se parece do mundo real. Na natureza há sempre tantas coisas estranhas misturadas à verdade essencial! Eis por que a arte nos comove – precisamente porque está depurada de todas as impurezas da vida real. As orgias verdadeiras nunca são tão excitantes como os livros pornográficos. Num volume de Pierre Louys todas as raparigas são jovens e têm formas perfeitas; não há soluços de bebedeira, nem mau hálio, nem fadiga, nem tédio, nem lembranças súbitas de contas a pagar ou de cartas comerciais a responder; nada disso para interromper os arrebatamentos. A arte nos dá a sensação, o pensamento, o sentimento absolutamente puros – e isto é: quimicamente puros. E acrescentara com uma risada: - Não moralmente.

Ele está falando da raiva de não sentir a pureza daquilo que aprende em livros, em quadros, em esculturas. Uma vida pela metade, de sensações incompletas, nunca tão maravilhosas quanto parecem nas linhas, nas tintas, no mármore.

Natureza de obviedades estranhas. Uma realidade tão verdadeira que, para ser crível, deve ter íncita uma dose de bizarrice, do inacreditável, do incomum. Todos os sistemas devem prever sua taxa de risco, sua falha inerente. Nunca ouvimos falar de sistema perfeito.

Pela casa fria, ficamos andando de lados opostos. Há tempos querendo falar de personagens e sua criação. Intrigante que a oportunidade surgisse justamente quando a personagem não fosse outro senão nós mesmos.

Mas tudo nasce como uma folha em branco. A motivação veio com ele. Eu sou eu, mas nós somos os escritores. Eu tenho a caneta na mão, mas nós riscamos o branco para fazer nascer uma figura que entrete e diverte, que irrita ou entristece. Do branco nascem nossas contradições, nossos defeitos, virtudes, problemas, doenças e dúvidas. Talvez por isso mesmo, pelo branco ser branco, tenhamos essa necessidade tão premente de sair riscando-o.

Com uma de nossas mãos eu continha o espirro, com a outra, ele assoava nosso nariz.

Nós nos indagamos se escrever para buscar a si mesmo ou se se revelar em demasia, e ainda em dobro, não seria um atentado à assepsia da sanidade. Cobram-nos isso. Forçam-nos a cobrir essa vergonha.

Querem nos encontrar nestas linhas. Querem nos desvendar em palavras. Porém, escondemo-nos muito bem e sabemos como ninguém criar mil labirintos até o ponto final.

Todo texto é a miséria de um ser humano. A comédia é a capacidade de rir da miséria. O drama é a miséria hiperbólica. A tragicomédia é a miséria em toda a sua versatilidade. Querem que os façamos rir. Querem que os façamos chorar. Querem que nossas mãos criem o milagre da reflexão.

Não temos poder algum. Somos só o risco inerente da natureza na forma de um risco num papel. Somos um contraponto, tanto em si, quanto em relação à arte e aos desejos e principalmente a vocês.

Somos só um caminho até o ponto final.