10.7.11

Mil labirintos

Num desses sábados frios, é bem verdade que fiquei acometido de um resfriado. Não chegava a ser uma gripe. Talvez fosse apenas alergia. Eu não iria ao médico por uma coriza e uma tosse leve. Preferi escrever uma crônica ao invés.

A motivação surgiu com ele. Com nós, devo dizer, e logo entenderão. Deveria ter previsto: quando ele some por muito tempo, é porque prepara uma entrada triunfal. Surge espalhafatoso, causando rebuliço e sempre me dando calafrios. Quando ele aparece, penso que é hora ir para o hospício, muito embora não existam mais hospícios.

Enrolado em montes de cobertas, eu relia um trecho de Contraponto, do Huxley – sim, eu o chamo pelo sobrenome, para que vocês acreditem que somos íntimos. É um ótimo livro, mais prolixo que Admirável Mundo Novo, carregado de tintas que pintam os anos 20 daquilo que outrora fora o Império Britânico, mas o mérito mesmo está em retratar a hipocrisia humana.

Enquanto lia, pensei ter visto um movimento atrás do livro. Abaixei-o. Nada. Novamente. Abaixei-o. Nada. Novamente. Abaixei-o. Nada. Novamente. Abaixei-o. E pá! Lá estavam os cabelos pretos, os olhos castanhos, o nariz grande, a bocarra. Um espelho, um autorretrato, uma miragem. Nada. Novamente. Um espelho, um autorretrato, uma miragem. Nada disso. Era eu mesmo. Eu, outro de mim.

Os mais incautos não devem estar familiarizados com a presença dele, ou com a nossa presença. Mas o eu, meu outro-eu, por vezes surge para incrementar minhas estórias. São momentos muito perturbados em que fica impossível estabelecer se a personagem vai narrar na primeira pessoa do singular ou do plural, se ao falar dele estou falando de mim, ou se ao falar de mim estou falando dele – de nós – ou de mim, o que dá na mesma. Ah, sim, não se pode olvidar do grave indício de esquizofrenia em estágio avançado, mas isso pode ser perdoado pelo bem da Arte. Talvez eu enfim tenha conquistado a tal da licença poética.

Vamos estabelecer algumas regras, portanto. Vamos nos tratar por “nós”. Não vamos usar aspas ou travessões para os diálogos – ou monólogo? –, e o mais importante. Bem, não tem nada importante, esse é um só um texto entediado.

E como eles saberiam que estamos conversando sem as aspas ou os travessões? E o pior, como saberiam distinguir o que está escrito para eles daquilo que é nosso papo?

Eles que se esforcem.

Que seja, o que estamos lendo?

Contraponto, do Hux. Sabe, eu abrevio o sobrenome dele para parecer…

Nós já sabemos disso, não precisa revelar. Mas nós queríamos dizer, o que especificamente estávamos lendo?

Seria interessante transcrevermos o trecho?

Seria.

A poesia pode ser demasiadamente verdadeira. Pura como água destilada. Quando a verdade não é nada senão a verdade, ela é antinatural; uma abstração que com nada se parece do mundo real. Na natureza há sempre tantas coisas estranhas misturadas à verdade essencial! Eis por que a arte nos comove – precisamente porque está depurada de todas as impurezas da vida real. As orgias verdadeiras nunca são tão excitantes como os livros pornográficos. Num volume de Pierre Louys todas as raparigas são jovens e têm formas perfeitas; não há soluços de bebedeira, nem mau hálio, nem fadiga, nem tédio, nem lembranças súbitas de contas a pagar ou de cartas comerciais a responder; nada disso para interromper os arrebatamentos. A arte nos dá a sensação, o pensamento, o sentimento absolutamente puros – e isto é: quimicamente puros. E acrescentara com uma risada: - Não moralmente.

Ele está falando da raiva de não sentir a pureza daquilo que aprende em livros, em quadros, em esculturas. Uma vida pela metade, de sensações incompletas, nunca tão maravilhosas quanto parecem nas linhas, nas tintas, no mármore.

Natureza de obviedades estranhas. Uma realidade tão verdadeira que, para ser crível, deve ter íncita uma dose de bizarrice, do inacreditável, do incomum. Todos os sistemas devem prever sua taxa de risco, sua falha inerente. Nunca ouvimos falar de sistema perfeito.

Pela casa fria, ficamos andando de lados opostos. Há tempos querendo falar de personagens e sua criação. Intrigante que a oportunidade surgisse justamente quando a personagem não fosse outro senão nós mesmos.

Mas tudo nasce como uma folha em branco. A motivação veio com ele. Eu sou eu, mas nós somos os escritores. Eu tenho a caneta na mão, mas nós riscamos o branco para fazer nascer uma figura que entrete e diverte, que irrita ou entristece. Do branco nascem nossas contradições, nossos defeitos, virtudes, problemas, doenças e dúvidas. Talvez por isso mesmo, pelo branco ser branco, tenhamos essa necessidade tão premente de sair riscando-o.

Com uma de nossas mãos eu continha o espirro, com a outra, ele assoava nosso nariz.

Nós nos indagamos se escrever para buscar a si mesmo ou se se revelar em demasia, e ainda em dobro, não seria um atentado à assepsia da sanidade. Cobram-nos isso. Forçam-nos a cobrir essa vergonha.

Querem nos encontrar nestas linhas. Querem nos desvendar em palavras. Porém, escondemo-nos muito bem e sabemos como ninguém criar mil labirintos até o ponto final.

Todo texto é a miséria de um ser humano. A comédia é a capacidade de rir da miséria. O drama é a miséria hiperbólica. A tragicomédia é a miséria em toda a sua versatilidade. Querem que os façamos rir. Querem que os façamos chorar. Querem que nossas mãos criem o milagre da reflexão.

Não temos poder algum. Somos só o risco inerente da natureza na forma de um risco num papel. Somos um contraponto, tanto em si, quanto em relação à arte e aos desejos e principalmente a vocês.

Somos só um caminho até o ponto final.

2 comentários:

V.H. de A. Barbosa disse...

http://zaratustratemquemorrer.blogspot.com/2010/10/duas-maos.html

Daniel Ricardo Barbosa disse...

Fico contente ao sabê-lo íntimo do Hux... rsrsrsrs. Grande abraço!