28.8.11

Barbancourt

A distância entre a lua e o Pachuco era de aproximadamente trezentos e oitenta mil quilômetros. Quando eu olhava pela janela da espelunca, contudo, a paisagem pobre, com o nobre satélite coroando-a, tornava tudo sufocadamente próximo. Não que fosse esse exatamente meu pensamento naquela noite de comemoração, mas teimava em ficar pensativo, mesmo com copos a serem tornados, logo à minha frente.

Gorila encheu meu copo de Barbancourt e olhou direto para mim, esperançoso.

“Vamos, Cabo, seu grande viado. Agora é sua vez de contar sua última grande aventura no Brasil”, debochou Gorila, a sobrancelha espessa arqueada e os olhos dum vermelho risonho.

Estávamos no famoso Pachuco, um boteco qualquer numa zona segura, de luzes fracas e louça suja.

Ouvira os relatos dos outros um tanto quanto entediado, mas sem, jamais, deixar de sorrir em condescendência à putaria compartilhada. Se ninguém conhecia o remédio para a depressão, eu o tinha na ponta da língua: “finja alegria”, dizia, quando me permitiam. Gorila começara o jogo, comentando a respeito das duas garotas que conhecera num hotel, noite antes do embarque. Encantadas com a farda, logo se propuseram a conhecer os segredos que por debaixo dela se ocultariam. Em realidade, Gorila não precisava de muitos motivos para ficar pelado, para desespero dos outros oficiais, que procuravam se manter distantes de sua profusão de pêlos negros. A diversão de Gorila, entretanto, era pensar basicamente em duas coisas: sexo e como matar o maior número possível de membros das gangues de Cité Soleil, isto é, basicamente um amigo leal.

Já Geórgia, uma dessas corajosas mulheres que encaram o coturno, sob muitos protestos, revelara cada detalhe do que fizera com seu superior. Após meses de negativas e tortura psicológica, presenteara-o com aquilo que ele mais desejava, como forma de recompensá-lo pela convocação. Nem eu nem ninguém nunca entendeu muito bem como Geórgia realmente queria estar no Haiti, mas aparentemente empunhar um FAL era uma vocação da nossa Joana D´Arc. Não era especialmente bonita. Nariz grande, seios que sumiam sob o treino rigoroso, mas aquela bunda era digna de uma ginasta olímpica, ou uma dessas garotas do vôlei. Imagino como seu superior, um grisalho de corpo talhado, segundo ela, deve ter suado frio cada dia em que teve de ensiná-la a empunhar uma arma. Bem, talvez ele tenha ficado orgulhoso.

Nosso último companheiro da noite, Yakissoba, um japonês nordestino, foi a grande sensação do momento confidencial. Engraçado por natureza, conseguiu criar uma fábula em que talvez a única verdade existente fossem as vírgulas. Um virgem, eu diria. Mas um virgem com imaginação. Sua história envolvia uma tia, uma prima e uma vizinha. Três mulheres tão inverossivelmente surreais quanto o fato de, sabe-se lá porque, compartilharem do mesmo sentimento maternal de se despedir de maneira… cordial do nosso querido soldado niponordestino, fazendo-lhe muitos e muitos agrados que só o pedaço de terra que presenciou o encontro antropofágico dos índios e portugueses poderia descrever.

Os jordanianos, três deles, me olhavam de soslaio de um canto escuro do bar. Todos temos um certo tipo de medo dos jordanianos. Sérios demais. Corajosos demais. Ótimos matadores. Não há negro que tenha ficado de pé se do lado certo do gatilho havia um desses árabes. Não sei bem se são árabes, mas parecem com eles. Talvez queiram ouvir minha história, como se de repente entendessem português, mas acho que só querem nos analisar, esses brasileiros desregrados, que bebem em plena guerra, que copulam com as negras de bunda grande que oferecem seus préstimos nos cantos escuros de Porto Príncipe e que, o pior, se condoem com os corpos que se amontoam entre o lixo e servem de alimento para os urubus.

Eu toquei inconscientemente o cano do meu rifle, encostado ao meu lado, sempre presente. Não queria contar minha história. Triste história, dessas que não combinam com soldados, fuzis e jordanianos.

“Eu só transei com minha namorada”, menti, para o desencanto dos três.

Gorila e Yakissoba ainda insistiam em saber se ao menos eu havia feito sexo anal com ela ou ainda um digno sessenta e nove para eu me recordar durante os dias solitários na base, mas Geórgia se contentara em apenas me chamar de gay. Os jordanianos ainda encaravam assustadoramente o resto das tropas que se divertiam no Pachuco.

Desistiram de me atormentar quando Geórgia resolvera revelar todos os segredos de um boquete profissional, passo a passo, meu copo meio cheio, o Barbancourt esvaziando na garrafa, a gente esquecendo as coisas ruins, os dias em serviço. A noite de folga se esvaindo e eu contando as moedas no bolso, como se toda a felicidade que pudesse existir no meu coração dependesse do tilintar de mais algumas moedas que significariam outra doce dose de Barbancourt.

Voltei a fitar a janela, a lua sumira. Haviam roubado até a coroa.

Um comentário:

Paula disse...

os seus textos me dão nostalgia de algo que eu não vivi, é como se eu estivesse lá, muito bons