8.9.11

As exiladas

Eu estava em um McDonald´s, com uma atendente espinhenta e de bunda farta me encarando. Ela articulava as palavras no mesmo tom pastoso e robótico para todos que se enfileivaram esperando fazer seu pedido e ao me olhar, eu podia dizer que ela estava olhando para todas as tarefas que ela teria de fazer mais tarde naquele dia, talvez fazer sua avó tomar os remédios, passar a roupa, lavar a geladeira, ninar uma criança?, sabe-se lá, mas ela não olhava justamente para mim. Ao meu redor, pessoas com cara de carneiro não disfarçavam a fome. As que mais me chamavam a atenção eram as mulheres de trinta ou quarenta anos. Você não sabe dizer hoje em dia quantos anos tem uma mulher e é por isso que elas chamavam a minha atenção. Eu diria sem má-fé que uma delas tinha 25, mas aquela perua já tinha uma filha de cinco anos (eu posso dizer a idade de uma criança) e olhando mais detidamente ela tinha todos os trejeitos de uma trintona. São mulheres para uso irrestrito. Elas engravidam e nunca perdem o falso charme, são sempre bem produzidas e ouso dizer que o objetivo é ter a segurança de um marinheiro que sabe que pode abandonar o barco quando bem entender porque pode nadar todas as milhas que seus braços aguentarem. Que se danem as crianças e os maridos com cara de pastel, elas sempre podem ter um instrutor de academia ou um malandro de boteco que as faça gemer (desde que elas lhe emprestem um trocado aqui e outro ali).

Esse longo primeiro parágrafo, contudo, não tem nada a ver com a história. Ou tem, mas isso depende da sua capacidade de interpretar um texto. Alguém nessa fila grotesca usou a palavra “leviano” enquanto eu esperava meu lanche. Eu não gosto da palavra, “leviano”. Eu não sei porque disseram “leviano” e eu sinceramente não dou a mínima, mas a memória me veio certeira e inclusive bem rápida, como uma lembrança fast-food.

Há um bom tempo atrás, uma garota me chamou de “leviano”. Era um leviano. Eu não sabia o que era leviano e isso, na ocasião, me fez lembrar de uma garota que  disse ser eu um cara “sistemático”. Eu também não sabia o que era sistemático. As garotas são muito boas na arte de me adjetivar e de me deixar perdido com isso. Vamos nos concentrar no leviano, entretanto.

Depois que li o significado de leviano, tive de dar o braço a torcer. Era um leviano. Eu tinha uma namorada, mas eu fazia pouco caso dela (o que a fazia ser louca por mim). Fazendo pouco dela, eu fazia muito de outras garotas. Uma delas era, pois, a que me chamou de leviano (e com razão).

Eu gostava especialmente dessa garota. Gaúcha, magrela, um rosto engraçado, sabia dizer as coisas certas e de um jeito meio misterioso. Ela parecia vinda de outra época e isso me agradava. Eu gosto de me iludir. Sei que sou filho-da-puta, mas enquanto tenho lucidez, finjo que me apaixono e tudo mais. Se dizem que os iludidos são completos idiotas, o que falar dos que se autoiludem?

Mas não era só a gaúcha. A bem da verdade, era toda uma comunidade. Trinta garotas, chuto. Todas muito especiais. Tinha apreço por todas. O que posso dizer? Eu era o… guia delas. Sim, um guia. O único homem capaz de fazê-las entender o universo masculino, essa coisa genuinamente primitiva. Era um acordo justo. Eu dava colo e conselhos e elas me retribuíam reconhecimento, o que para um leonino é muita coisa.

Todas tinham um ponto em comum: possuíam alguma paixão platônica. Umas menos, outras mais. Uma delas era realmente obcecada por seu “alvo”. Outra, sempre me contava dos caras com quem transava. Era engraçado imaginar que ela possuía alguma paixão platônica sendo tão boa na cama. Como eu disse, era meu papel mostrar o caminho para elas, guiá-las para que o platônico deixasse sorrateiramente o mundo das ideias e virasse qualquer coisa palpável. Pode-se dizer que eu estava lá na Caverna, arrastando-as pelos cabelos para o lado de fora, para a luz, coisa que nem sempre as agradava.

Essas garotas eram meu segredo mais precioso. Eu não podia deixar que a namorada soubesse delas. Não que fosse perigoso. Pense objetivamente: eu não transava com nenhuma, eu ao menos cheguei perto disso (eu devia!). Frequentemente eu cedia boa parte de mim para um relacionamento que, no final das contas, foi para o buraco mesmo, portanto, guardar intacta aquela relação que eu tinha com minhas mulheres era uma questão de sanidade. Era um pouco de mim, do real eu, que tinha de ficar longe, muito distante dessa partilha visceral que é o relacionamento com uma mulher.

Mas um dia a namorada descobriu a história.

Dramática que era, fez do episódio uma questão tão relevante quanto Fukushima ou o crack de 2008. Lágrimas, acusações, brigas. Se bem me lembro, ela tentou me bater uma ou duas vezes, honrando a histeria feminina.

Eu tinha uma decisão em mãos. Algo clássico: “elas ou eu”, foi o ultimato.

Os filmes de espionagem sempre possuem um ponto, não necessariamente o clímax, onde o agente duplo tem de ceder e escolher o lado que efetivamente quer proteger. Ao fazer isso, ele abre mão de uma das vidas que experimentou e, invariavelmente, sempre trai alguém que aprendeu a amar.

Eu traí 30 pessoas de uma só vez.

Muito tempo depois, eu, já um proscrito entre as 30 garotas, fiquei sabendo da terrível sentença. A gaúcha, a minha preferida, tinha dito, com todas as letras, se referindo a mim e ao que eu supostamente sentia por ela: “leviano”. Um leviano.

A namorada, entre altos e baixos, por fim acabou me deixando. Os mais objetivos vão dizer: “mas foi você que terminou”. Eu a entendo, uma mulher “traída”, ainda que meu pau não tenha visitado nenhuma outra enquanto estive com ela, jamais poderia me perdoar, e foi com maestria que ela conduziu o restante do namoro até que eu, e não ela, dissesse “chega!”, e a eximisse desse encargo, pesado fardo.

Eu fiquei reparando na bunda da atendente do McDonald´s indo para lá e para cá atrás do balcão. Quantas coisas ela não teria de fazer em casa depois do serviço, talvez lavar aquele rosto oleoso e descansar suas pernas cansadas, contabilizar as contas atrasadas e os débitos que o marido não quita porque não sabe arranjar um bom emprego. Não importa o quanto ela seja infeliz, ocupada, ou se suas espinhas são uma real preocupação, para mim, e talvez só para mim, ela e a bunda dela ainda são assustadoramente reais.

4 comentários:

Anônimo disse...

Fantástico! Nada melhor pra ler numa noite em que o sono não vem de jeito nenhum...
Me identifiquei demais(mesmo sendo uma garota)

E que bom que o blog tem a opção de postar anônimo

Anônimo disse...

Descrição precisa (para não dizer sistemática) da sensação de estar no Mc Donald's. Muito bom (o texto inteiro, não só a introdução).

Anônimo disse...

George... leviano eh pouco

V.H. de A. Barbosa disse...

George morreu.