30.9.11

Trator

Você caminha sobre o que antes eram petit-pavés brancos e pretos, num desenho bem característico. Uns dizem ser histórico, outros não ligam tanto. Agora, caminha-se sobre um concreto cinza sem vida e pelo resto do lugar, a grande parte, vê-se nada mais que chão de terra batida, terraplanada, pronta para receber os pavers, aqueles que definitivamente evitam acidentes com mulheres vaidosas de salto alto.

Tudo foi abaixo, não restou nada. É a ordem natural da força. Eu não ligo propriamente, mas ali havia algo que me era caro. Existia ali, no meio do calçadão em reforma, uma chopperia. Era um quiosque escondido entre o burburinho dos que passam-cá e passam-lá.

Foi demolido há não muito tempo, talvez um ou dois anos. E talvez um ou dois anos antes eu me sentava ali, sozinho, na tarde quente, numa das mesas vazias e começava a olhar as pessoas que passavam.

Era minha diversão secreta. Observar sem ser notado todas aquelas pessoas em seus passeios habituais. A tia gorda cheia de sacolas; o homem apressado com o maço de cigarro no bolso da camisa; a jovem punk e sua mochila muito pesada.

E todos eles, ao seu modo discreto de quem anda sem ligar para o mundo ao redor, foram se incorporando em mim, parte de mim, parte da minha pena. É óbvio que eu não uso uma pena para escrever, mas eles faziam parte da minha pena.

Entre um chopp e outro, eu também me tornava parte daquele pedaço de chão, dito histórico.

Mas os homens são só vítimas dos tiranos, ou o contrário, não sei ao certo, e num dia, ou dias, de decisões políticas, um homem – muito embora há quem diga que não é bem homem… – decidiu que tudo aquilo ali ia ser posto abaixo.

E a chopperia e o petit-pavé e a cafeteria e as árvores e todo meu ritual de observação foram demolidos por retroescavadeiras e homens de martelos. Ou retromartelos e homens-escavadeiras. Ou retrohomens e martelo-escavadeiras. Ainda fiquei de decidir essa parte. Todos tão sisudos que não seria difícil de entender o significado do verbo “tratorar”.

Eu já li em algum lugar que o tempo destroi tudo. Depois eu li que o tempo corroi tudo. Por fim, me disseram que o tempo mata tudo. E acabei ficando o tempo todo sem dar muita bola para essas construções sintáticas e essa variação verbal., muito embora eu observasse tudo, entre um chopp e outro.

Mas agora que se pisa no chão de terra batida, terraplanada, pronto pros pavers anti-mulheres-acidentadas, eu fico me perguntando, onde estão meus personagens? Onde estão as gordas, os homens infelizes, as punks fedidas e aqueles engraxates que se alegram só com o assobio do vento?

Será que tratoraram todos eles também?

2 comentários:

Paula disse...

E eu gostava das fritas do bar no meio do calçadão, fritas com molho cor-de-rosa que eu comia junto com o vô. Agora eu não tenho nem o vô, nem as fritas...ao menos posso usar a calçada para cegos, os olhos estão funcionando cada vez pior (o que não me impede de sentir falta das bancas de revistas que também foram tiradas)

estevan sem metafísica... disse...

acho que lembro desse lugar.