17.9.11

Vamos fingir que ela se chama Helena

A uma grande amiga.

____

Baby, I love you
But if you wanna leave, take good care
I hope you make a lot of nice friends out there
But just remember there's a lot of bad and beware

(Cat Stevens)

 

A porta do banheiro vacilou, fechando-se atrás de si. Tão logo se viu sozinha, suspirou, aliviada. Andou calmamente em direção à cuba da pia e apertou intranqüila o dispositivo da torneira. Foi com alegria que molhou o rosto. Estava tensa.

Como lhe irritava gente fraca! Realmente não fora feita com o dom da tolerância, muito embora se visse como um pilar de sustentação. Pilar de uma família, de uma casa, de uma vida.

Quando por fim se sentiu refrescada pela água, decidiu abrir seus olhos. O espelho, imenso, encarava-a.

Não se sentiu bonita. Odiava tantos centímetros de seu corpo quantos lhe fossem possíveis odiar. Se bem que não raro, sentia-se bem com seus cabelos, quando não teimavam em lhe desobedecer, ou seus olhos. Sim, seus olhos eram seu trunfo.

O exercício de se encarar no espelho lhe parecera útil, relaxante. Antes isso a estar lá fora.

Quem diria? Depois de tantos anos rodeada por aquelas pessoas, envolta por um laço familiar que lhe parecera tão custoso, mas ao mesmo tempo tão terno, agora iria partir, sozinha, sem ninguém para lhe aborrecer, sem ninguém para lhe ralhar. Sozinha, sozinha, gostava de repetir isso.

A Itália era seu destino. Seu vôo partiria em menos de uma hora e, lá fora daquele tranqüilo toalete, estavam seu pai e seu irmão. Dois marmanjos chorando antes mesmo que pudesse se despedir apropriadamente. Que cena! Não que fosse insensível, jamais, até julgava sentir mais que a maioria, mas realmente não era o fim do mundo passar um bom tempo fora do país, pronta a vivenciar novas experiências e fugir de todo esse peso que aturava.

Não queria pôr sobre os ombros o peso das lágrimas do pai. Esse homem que mudou tanto. Não queria encarar o irmão que lhe olhava com olhos estranhos, como se fosse sentir saudades de algo que ela jamais quisera fazer: ser guia da vida dos outros.

E, no entanto, estava sendo guiada agora, guiada para longe, para além-mar, para um lugar desconhecido que lhe seria confortavelmente experimentável. Nunca foi de se arriscar, prefere pisar no concreto.

Mas essa sensação chata, não quer admitir, talvez esteja cultivando uma saudade desde já, de tudo sobre o que já caminhou, das coisas sobre as quais já deitou seu olhar perspicaz.

Nunca entendeu o motivo de gostar de viajar por mundos oníricos, distantes, mas ao mesmo tempo só se sentir segura em paisagens já gastas e conhecidas. Como fotografias há décadas guardadas em baú velho.

O importante é que está indo embora, resolveu-se, enquanto retocava a maquiagem do olho esquerdo. Mas volta. Logo volta, talvez seja essa a segurança. A certeza concreta.

Será que lá as pessoas são mais maduras?, ela sonha. Não é lá muito de tolerar as pessoas da sua idade. Olha seus pares com o desdém de uma aristocrata, mas não por relapso de sua personalidade ou mesmo por inexistência de um caráter condizente com seus belos olhos, não, é que ela já viveu. Já viveu demais. Em tão pouco tempo, viveu mais que todos, e agora não tem paciência de esperar que lhe alcancem. Por que tão longe? Por que tão distante? Me alcancem! Me entendam! Porém, tudo o que colhe é decepção. Mais um moleque de fraldas que finge lhe prometer os Céus. Mais uma amiga envolta em problemas estupidamente insolucionáveis. Mais uma cena nessa família tão dramática quanto um seriado televisivo. Tudo está longe, como a Itália, e, entretanto, ela quer tudo tão perto, como a Itália.

Perto e longe. Leve e pesado. Novo e velho. Paciência e paixão. Ela não se decide entre os extremos dos quais prova. E os prova com tanta elegância e resolução! Sempre tão determinada, tão decidida do que quer da vida. Se a vida lhe aborrece e se mostra distante do ideal, tudo bem, não há queixas. Levará a vida de uma ermitã. Se, contudo, a paixão lhe alcança, e suas noites são repletas de luzes, de sons, de álcool e de risadas estrondosas, é porque decidiu viver conforme a Noite lhe ordenou. Não é escrava de ninguém, seu olhar reprime qualquer tentativa de subjugo. Não. Ela é das ressacas, das ondas, do mar. Ela vai e volta. Ela se enfurece e se acalma. E sua complacência é tamanha que nada lhe sai do controle. Se tentam lhe arrematar às braçadas, ela logo afoga os afoitos. Se tentam lhe navegar cegamente, sem dúvida irá naufragar as certezas alheias, as quais detesta. Somente existe paz na calmaria. E se se zanga, é porque é papel do mar mostrar aos mortais quão imperial é.

Já se esquecia que além dos cabelos, quando obedientes, e dos olhos, quando reluzentes, também gosta das mãos. Elas, que lhe fornecem a liberdade das artes, que lhe garantem a certeza do tato, que podem mostrar sua seleta luxúria, sua raiva recôndita ou mesmo seu raro afago. Suas mãos lhe orgulham.

Sentiu afeição pelo espelho que lhe suportava as agruras naquele banheiro de aeroporto. Jamais revelaria a ninguém tantos detalhes. Aquele espelho era, agora, seu fiel. E aos diabos que lhe mostrasse apenas seu reflexo. Não era ego. Era solidão.

E as solidões, todos sabem, a gente afoga no meio do mar, a caminho de outro país, de outro mundo, onde as mãos, das quais ela tanto se orgulha, podem se entrelaçar com o coração, sem medo de feri-lo, sem medo de magoá-lo, como numa aventura que só diz respeito a ela.

Despediu-se do espelho e empurrou a porta decidida a dar um longo abraço naqueles que deixaria para trás. Eles mereciam.

4 comentários:

estevan sem metafísica... disse...

alguns segundos se olhando no espelho e acontece uma pá de coisas...

Paula disse...

Só os seus textos e os da clarice lispector me dão essas sensações...ou uma viagem sozinha ao exterior (mesmo que eu não me identifique com a moça do texto). Está de parabéns de novo.

Haha disse...

Eu me encantei com a moça!

Natália Oliveira disse...

Adoro essas moças decididas, queria ser uma delas... Adoro esses moços que conseguem traduzi-las. Devem ser dos poucos espelhos aos quais elas confiam o próprio reflexo, eu acho. Daquelas saudades de sempre de vc :*