18.10.11

O cigarro da cobra

Salas de espera de hospital sempre me pareceram abatedouros. Todos se acomodam cordiais, calmos, consumindo revistas cheias de imagens chamativas, naquela devota expectativa de um nome a ser chamado, o momento em que todos olham para cima, à espera de Deus, digo, de um médico. Eu, contudo, só olhava para meus sapatos, meus puídos sapatos.

Olhar para os pés não era uma tática muito recomendada na Itália. Provavelmente levaríamos dois balaços cada na cabeça, sem nem ao menos ter a dignidade de saber a origem do tiro de misericórdia. O sargento então não cansava de nos lembrar com sutis incentivos no queixo – um dia quase mordi a língua e então aquele filho-da-puta veria o que é insubordinação – a ficar com o olhar atento, a cabeça ereta.

A bem da verdade, insubordinação era o que rondava meus miolos naquele momento. A ideia de sair em disparada, fugir da consulta, me parecia tentadora. O abatedouro era o de menos, pior era me encontrar com ele.

Que tipo de perguntas faria?, não ajudava o fato dos antigos companheiros de farda me negarem a informação, aquela omissão torturante das palavras veladas, palavras que diziam o vazio e fugiam de suas bocas assim como seus cérebros escapavam da minha indagação.

Era uma ordem direta. Vão ter que se consultar com um psiquiatra! Vamos nos consultar com um psiquiatra. E se dissessem, Vão usar calcinhas e dançar cancan!, usaríamos calcinhas e divertiríamos os combatentes inimigos na mais resoluta obediência. Defendemos a pátria.

Mas ainda assim me pergunto, o que ele quer saber? Será que se parece com outro médico qualquer? Um desses engomados com sorriso branco de lobo faminto? Aquela capacidade de dizer que tenho a doença tal e tal sem olhar para a porcaria da minha cara? Sou um expedicionário, protejo a porcaria do país e meu país vem investigar meus miolos.

Tentei acender um cigarro, não tinha fósforos. A velha encalacrada ao meu lado me estendeu um isqueiro e como num passe de mágica começou a falar de sua doença, algo a ver com rins, mas que depois passou para o esôfago e depois para as pernas. Parei de ouvir quando percebi que a doença estava em todo seu corpo. O que eu fazia naquele purgatório de enfermeiras rabudas e velhas que mereciam a morte súbita?

Dei uma baforada para o alto. Outros pacientes do abatedouro faziam o mesmo. A fumaça me lembrava aqueles dias. Não devíamos estar lá. Podíamos ser alguma espécie de Suíça, mas algum engraçadinho afundou nossos navios e submarinos. Não importa se a arte era dos americanos ou dos alemães, só nos queriam lá, matando gente em algum lugar.

Havia muita fumaça em toda parte. Fumaça e ruína. Para ser sincero, cada vilarejo percorrido era pura miséria. Civis e militares, tudo em frangalhos. Só nos restava derrubar focos de resistência que não eram desafio nem para o meu pequeno que nunca pegou numa arma na vida. E mesmo assim, alguns morreram.

O engomadinho vai querer olhar dentro da minha cabeça e vai perguntar quantos cabras eu matei. Ele vai achar que eu sou burro porque todo mundo acha que praça é burro, mas eu não tenho a menor vontade de contar para esse pederasta que eu sou sim alguém que conhece pelo menos as letras, alguém que já leu, alguém que lê. Posso não ser doutor, mas a minha esposa é professora, minha mãe foi professora, e, muito embora eu não tenha tido a chance de aprender tudo o que quis aprender, dei conta de saber me cuidar e até de matar uns fascistas para que ele continuasse com seu rabo sentado numa poltrona confortável, esperando alguma bonequinha para traçar.

E eu com essa esposa e um filho chorão dependendo de mim e esses bastardos me mandam segurar um rifle, dançar cancan e mostrar o que sinto pros doutores de cérebro. Como posso dizer o que aconteceu lá? Por que querem saber? Eu sei porque li: os gregos cantavam seus mortos. Combatentes que eram alçados a semideuses e nós, nesse nosso tempo morno, somos pulgas dissecadas num laboratório.

Era um dia ensolarado. Fazia muito sol no Mediterrâneo, aquele sol seco. Estávamos acampados atrás dum monte qualquer, gozando das benesses de uma vilinha que felizmente nos via como salvadores. Aconteceu duas semanas antes de Monte Castello. Eu mais dois éramos batedores, com o objetivo de circular o monte atrás de algo que nem lembro mais. Estávamos cansados e suados. Paramos debaixo de uma árvore torta. Eu fui mijar e acabei me afastando, não sei porquê, tava cansado, tava puto com aquilo tudo, com aquela guerra de merda, que me podara o casamento, o filho, a chance de uma vida com estudo, a falta de cigarros. Fui mijar e tropecei num barranco encoberto por folhas secas. Escorreguei alguns metros num declive e então o vi. O uniforme verde, o porte alto, o cabelo claro. E o símbolo no braço. A suástica. Sozinho como eu, um batedor. Tive apenas cinco segundos para olhá-lo nos olhos e foram longos cinco segundos. Segundos nos quais pude ver um desespero tão grande quanto o meu, um susto, uma decepção. A raiva de estar em um lugar ao qual não pertence e o enorme desejo de estar longe, aninhado nos braços de uma mulher resmungona e limpando a bunda dos filhos. Vi em cinco segundos que aquele homem era como eu. Que não importava o uniforme que vestisse, pelos seus olhos, aqueles olhos azuis que me perseguem desde então, pude ver que era humano.

Cinco segundos de troca de olhares foi o tempo que precisei para sacar a navalha, segurar o braço que ele tentava levar ao gatilho de seu fuzil e furar sua jugular. Joguei sua arma longe e tapei sua boca com a mão ensanguentada, abafando qualquer gemido ou súplica, sentindo seu corpo estrebuchar sob o meu, as lágrimas vertidas pela humilhação de morrer de forma tão estúpida. Ele se foi rápido, o que foi bom, porque seu sangue borbulhava para fora do pescoço e aquele cheiro de ferro me dava vontade de vomitar. O sangue da raça pura!, disse para mim mesmo dias depois, pensando nos idiotas do meu querido país que queriam perpetuar pessoas como aquela em quem eu tinha enfiado uma lapa de metal. Só Deus sabe como consegui sair dali e retornar ao acampamento para informar a presença de forças inimigas próximas.

“Senhor Osório Pereira! Senhor Osório Pereira”, chamou uma voz nalgum canto daquele corredor branco.

“Ele foi embora”, respondi de cabeça baixa, me levantando e ajeitando meu chapéu.

Um comentário:

Taynara Irias disse...

Nessa falsa paz, a gente insiste em dar nomes sem saber do que se trata.
Forte e envolvente. Gostei mesmo do que você escreve!