27.11.11

Contos amorosos: o amor platônico

Júlia viera juntar-se a ele; juntos contemplavam, com um certo fascínio, a figura reforçada da prole. Fitando a mulher na sua atitude característica, os braços grossos alcançando o varal, as ancas muito salientes, fortes, como as de uma égua, ele achou, pela primeira vez, que ela era bonita. Antes, nunca lhe havia ocorrido que pudesse ser belo o corpo de uma mulher de cinqüenta anos, ampliado a monstruosas dimensões pelos partos sucessivos, depois enrijada, calejada pelo trabalho até ficar grosseira como um nabo muito maduro. Mas era, e afinal, pensou ele, por que não? O corpo sólido, sem contornos, como um bloco de granito, e a pele vermelha arrepiada, representavam o mesmo, em relação ao corpo de Júlia, que o fruto de uma rosa brava junto à rosa de jardim. Por que seria o fruto considerado inferior à flor? - Ela é bonita! - murmurou ele.

(trecho de “1984”, George Orwell) 

A minha ideia de “você” sempre foi superior à sua própria existência. A bem da verdade, acho que a imagem que tinha de você era infinitamente maior e melhor do que toda a sua carne, o seu sangue, seus fluídos, ossos, e tudo o mais.

Eu nunca pensei, sinceramente, em tê-la. O que sinto por você nunca nasceu como nascem todos os amores, com a curiosidade, com o fascínio, a dúvida, a emoção, e mesmo a mais pura raiva. Meu amor nasceu no dia em que quase morri, e não estava necessariamente para morrer fisicamente, antes poderia falar que estava no fundo do poço: esquelético, deprimido, pessimista e cínico. Foi a sua mão que me segurou aquele dia, que me puxou para cima e me fez enxergar alguma luz. E desde então tenho caminhado, sou grato.

E mesmo a partir dessa gratidão não senti atração alguma. Sua existência sempre foi nula, assim como todos os seus problemas emocionais, que, diga-se de passagem, são monótonos e insípidos. Você é um desastre, garota.

O que seria isso então, que me enche de alegria e virtude, toda vez que ouço sua voz, pois? Eu estaria de alguma forma mentalmente comprometido após tanto tempo acreditando na escuridão? Um daqueles casos pervertidos de homens que se assanham sobre as qualidades mais negativas das mulheres? Eu acho que não.

Eu acho que você me mostrou um toque de pureza e isso originou o amor. Não que você seja santa, anjo ou tenha sido abençoada pelo Espírito Santo ou algo parecido, eu só penso que, despreocupadamente, num certo dia, você viu alguém quase indo pelo ralo e se condoeu: “oh! o que é esse fiapo de ser humano se esvaindo? volte aqui, criatura”. Eu voltei, e quando a olhei, vi ternura sem comprometimento e, acima de tudo, vi a beleza divina da comiseração.

Muitos vão pensar que é perda de tempo chamar isso de amor ideal, vão indagar onde está o romantismo, o carinho, a cena tórrida de paixão? Isso não é amor platônico, são apenas um ensaio para a grande arte do amor carnal, ou do amor que vai gerar filhos, ou do amor da novela mexicana, de qualquer amor, enfim, que não o baseado na pura virtude de nos tornar mais humanos.

Winston, personagem principal de “1984”, vive o amor mundano com Julia, vive o amor paternal, violento e contrastante, com o Grande Irmão, vive o amor melancólico pelo passado que ele esquece, mas é com uma mulher gorda e ignorante, deteriorada pelo tempo, que ele encontra o sublime da vida, que ele encontra o refúgio não conquistado mesmo num quarto supostamente livre da opressão. É na cantoria do ser socialmente mais abjeto da distopia orwelliana, contudo, que Winston compreende o mundo e a esperança de salvá-lo.

Se eu posso finalizar o meu texto de forma mais paradoxal possível, eu diria que você, meu amor virtuoso, acima de todas as conquistas, é a minha mulher gorda do pátio, e por ter salvado minha alma, eu me regozijo em afirmar: você é bonita.

26.11.11

Quebra-cabeça e tudo o mais

Algumas lágrimas trilhavam o rosto de Lilian em fila indiana: vinham quentes e com emoção, coisa que as tornavam muito dignas da dona.

- Como amo você, Matheus!

E dizia isso com aquele brilho nos olhos que comove até banqueiro.

Matheus não dizia muita coisa em troca. Não era lá o tipo de sujeito de se esperar fina ternura, porém, a doce Lilian não dava bola para isso - triste sina das mulheres que amam demais! amam tanto que amam por si e pelos outros. Que seja. Ela estava mais preocupada em enquadrar a sintonia que o corpo de Matheus, o insosso, pudesse lhe fornecer.

Foi assim que ela se encantou com o suor das mãos dele, bem como com sua leve tremedeira. Para completar, essas mãos tremeliqüentas e molhadas estavam na mais mórbida frieza. Sem falar no ligeiro gaguejar das poucas palavras que este rapaz pronunciava! Era o Céu para a encantadora Lilian.

Prometeu a si mesma que iria rezar cinco ave marias quando chegasse em casa em agradecimento a esse sublime momento. Não que estivesse longe de casa. Estava bem ali, prostrada ao portão. Namoro de portão.

"Matheus mostra como está apaixonado por mim. Será que estou respondendo à altura? Vejam só essas mãos" - e voltava seu brilhante olhar de cachorro pidão para as mãos do insosso, enquanto as acariciava como se fosse um diamante de um milhão - "Suam de nervosismo, tremem de excitação, gelam de ansiedade! Ele é um doce...ele é...é o homem da minha vida!"

O amado Matheus, entretanto, não contara à Lilian que sofria de sudorese (o que lhe conferia um extra na cota de suor das mãos), problemas neurológicos (que o presenteara com a tremedeira e a gagueira, além do tique do olho direito, que piscava cento e cinqüenta vezes por minuto, um recorde mundial; mas isso não interessa, já que nossa romanticazinha não tivera tempo de se aperceber de tamanha façanha, visto que despendia tempo enorme amando) e, para finalizar, pressão baixa, o que explicava aquelas mãos geladas.

Foi essa mesma pressão baixa que ocasionou uma tremenda dor de barriga em nosso amigo. Talvez ele não tivesse uma inteligência dessas de arrancar aplausos, como essas em que se descobre que a energia é igual à massa vezes o quadrado da velocidade da luz, mas não conheço ninguém que não se torne um exímio gênio na hora de arranjar uma desculpa para correr ao banheiro. Nessa hora, Matheus se revelou um experto e, então, uma arguta justificativa de que tinha que aplicar a injeção do antibiótico na mãe, que estava muito, muito doentinha, tadinha, e ela tinha medo de aplicar sozinha, ah sim, ela tem, mas volto amanhã, com certeza, minha querida...me acompanhar? hum acho melhor você ficar e ajudar sua mãe na cozinha, ok, ok ,pode me acompanhar até lá, mas não quero que você se contamine, então só acompanha até o portão, tá? surgiu. Imagino que, quanto maior a pressão intestinal no sentido de...saída, maior a utilização das sinapses. Enfim, lá se foram caminhando alegremente ou, no caso dele, desajeitadamente, quase correndo.

Lilian não se preocupou muito com a rápida despedida de Matheus, pelo contrário, achou fantástica a cara de dor que ele fazia, "como sofre na hora da despedida, meu amor!", regozijou-se internamente, "não agüenta a dor do adeus e por isso corre, mas sabe que tem toda a eternidade para me amar, bem, pelo menos depois que nos casarmos!".

E é assim que a Lilian ia amando. Pensava, pensava, idealizava, idealizava. Acordava e logo pensava em Matheus. O café da manhã tinha a cara dele, a escola a fazia pensar nele, o almoço, a louça, a tarefa (doméstica e da escola), as amigas dela, e até ele mesmo tinha a cara dele quando a vinha visitar no final do dia, o jantar, a novela das 9, o travesseiro e assim um círculo vicioso, sem fim.

Foi nesse pensar, pensar...que ela cruzou com o Tião e até achou que ele também lembrava o Matheus, se bem que achou que todos os homens no buteco onde o Tião estava também parecessem com ele, e o dono do bar e a garrafa de cerveja e até mesmo a salsicha em conserva (mas aí era um Matheus meio sujinho).

A verdade verdadeira era que o Tião nada tinha de Matheus. Arrisco-me a dizer que era exatamente o inverso: cabra-macho, homem de decisão, de pegada, o próprio protomacho encarnado, vivo em função do pênis. Para falar a verdade, quem se chamava Tião era o pênis dele, mas isso é detalhe irrelevante.

Importante mesmo era o desejo que a Lilian causava no Tião. Também, quem pudera: branca de um branco rosado, não pálido, daquele tom que não dá pena da brancura, mas vontade de perverter, como Lúcifer deve encarar o branco das penas das asas dos anjos ; pezinhos nem pequenos nem grandes, de dedinhos redondinhos, com aquela leve vermelhidão na sola; pernas firmes, não roliças, mas revelando a sustenção de um belo corpo, como o são as colunas do Pártenon; corpo escultural, envolvido por um vestido branco (uma intromissão à mais do que desejada nudez dela!), a começar nos ombros - não sem antes deixar escapar um decote mínimo, mas atiçador - e terminar pouco antes dos joelhos (esses muito bonitinhos, por sinal). Chega. Sinto-me cansado de descrever a moça, portanto, imaginem apenas que o rosto e o resto eram também de esplendorosa beleza. E não ousem dizer que exagero, pois mulher bonita, no Brasil, é coisa da qual não se pode desconfiar, ao contrário de político honesto e ex-gay.

É lógico que o Tião não havia pensado nisso tudo quando a vira, mas seu tesão respondera no mesmo grau. E no grau, aliás, era ele quem estava, pois já tinha virado sete biritas. Coisa de macho.

Não pensou muito (coisa que era fácil para ele). Saiu andando atrás da branqüela, como leão atrás de antílope:

- Hei guria!

- Bem me quer, mal...ah, sim, Tião?

- Cadê seu namorado, Lili?

- Foi cuidar da minha sogra.

- E te deixou assim sozinha?

Incrível como o Tião agia normalmente nessas ocasiões. O Tião. O outro estava bêbado.

- Estou indo para casa, disse ela, começando a se assustar.

Tião já estava muito cansado de diálogo. Não queria desperdiçar sua energia com isso. Não preciso dizer que a rua estava deserta no momento e que havia um beco escuro por perto. Essas coisas, nessas horas, se não existem, constroem-se, pois é muito difícil parar um homem decidido.

Muito menos os "não! pára!" dela obtiveram algum resultado nesse sentido, embora depois de minutos ela tivesse parado de pronunciá-los. A partir daí, foram advérbios de afirmação que tomaram espaço e o mais engraçado, para ela, é que seu primeiro orgasmo foi acompanhado da imagem de Matheus sendo desmontado, como se fosse formado por peças de quebra-cabeça.

Só não acendeu um cigarro depois porque fumar era pecado.

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(originalmente postado no Zaratustra tem que morrer)

21.11.11

Contos amorosos: o amor desencantado

Nem todas as mulheres experimentam os mesmos sentimentos. Encontrareis mil almas com mil maneiras diferentes. Para as conquistar, empregai mil maneiras.                                        (Ovídio)

 

Quando você vai embora após um beijo de despedida, eu tranco a porta da casa, volto para o meu quarto e encaro os lençois bagunçados sem muita preocupação. Revirando o chão encontro os seus fios de cabelo espalhados, são loiros, ruivos, pretos. Também o suor que impregna meu colchão tem cheiros distintos e ninguém pode me acusar de não ser asseado, pois troco a roupa de cama semanalmente, para evital a tal da rinite alérgica. São todos cheiros seus.

Na penumbra, não vejo em você um rosto definido, e mesmo que acendesse a luz, tenho a impressão de que ele se evaporaria. À meia-luz, tudo o que sinto são suas carícias, que, a bem da verdade, são como pontos de luz longínquos, talvez saídas a se denunciar na escuridão. Eu fecho meus olhos porque fico cansado, lembro então um pouco da adolescência, quando não ficava cansado (pelo contrário), mas não sinto saudade alguma.

Já cogitei em lhe dar um nome, criatura, mas isso seria por demais vil. E se por acaso não lhe agradasse a identidade? Tudo que lhe agrada, e nós dois sabemos muito bem disso, são meus dedos e a minha língua e é por isso que eu mantenho minha boca ocupada, só falando quando necessário, quando as palavras são realmente úteis para algo mais, para o que você quiser.

Eu estive pensando recentemente nas moscas, essas que circulam a nós e ao lixo. Era um dia de calor esfumaçante, se me lembro bem, suávamos sem delongas no chão gelado. Uma mosca desatenta viu graça na cena e resolveu participar, pousando nas suas costas arranhadas e suadas. Fiquei imaginando se ela estaria bebendo seu néctar, sua essência. Será que somos diretamente responsáveis pela vida curta desses insetos? Será que nosso veneno visceral impedem as moscas de viverem mais que trinta dias?

Pensei nisso porque tudo que nos circula é efêmero. Mais que meia hora do nosso amor é extenuante e, para ser bem sincero, tem vezes que eu gostaria que você sumisse no momento posterior ao meu gozo: saísse, voasse junto às moscas, para longe. Apenas desaparecesse, e voltasse uma meia hora depois, quando, sem fumar cigarro algum, eu já teria relaxado o suficiente para aguentar sua presença.

Você não tem rosto, não tem cheiro, seus cabelos são de todas as cores, você mata as moscas, você é formada por inconsistências insuperáveis e ainda assim eu vejo algo de repetitivo em todas as suas curvas. Como eu posso reconhecer um rosto que não existe? Como eu, sem esforço algum, consigo adivinhar o começo, o meio e o fim do que fazemos e mesmo assim procurar incessantemente toda essa história já contada e recontada pelo animal homem?

Ovídio, o da citação, era o mestre do amor libertino. Eu não chego aos pés do romano, mas em casa eu tenho uma gaveta onde guardo meus amores. Os que foram e os que virão. Eu não gosto de lembrá-los ou de imaginá-los, mas sinto que despedaçá-los seria um crime hediondo. Ovídio, mais esperto, os cantava ao mundo, sem medo ou exaltação, apenas descortinando a natureza que nos foi dada.

Esses amores me fazem refletir sobre a necessidade, o frêmito. Talvez eu encare a vida como um projeto a ser descartado, como um cientista faz com um rato que não reagiu ao tratamento. Eu poderia ter seguido outro caminho e creio mesmo que ele exista dentro de mim, assim como Dr. Jekyll não deixa de respirar enquanto vive Mr. Hyde. No entanto, por algum motivo eu vim parar aqui, onde eu me declaro orgulhosamente um animal, um leão, uma cobra, um coelho.

Não vou negar que esse caminho é o mais tortuoso. No caminho que eu escolhi, não só a camisinha vai para o lixo ao final do dia, como também os seus fios de cabelo e, quiçá, num dia de extrema coragem, toda a minha gaveta inútil de amores.

15.11.11

A casa das cinco mulheres

D. era uma senhora nos seus cinquenta e poucos anos. Não era bonita e nem se imaginava que algum dia tivesse sido. Tinha os cabelos mal-ajambrados e em tudo, das rugas às roupas, parecia que tinha estacionado na década de 60. Me olhava com olhares ora tristes, ora inquisitivos e até hoje não consigo decidir se dela sinto pena ou medo. D. era dona da pensão onde um dia morei por necessidade.

Despedidas são sempre coisa triste. Eu saí do meu ninho com 18 anos de idade, a cabeleira recém-raspada, um idealistazinho arrogante e imaturo, deixando para trás uma cidade do interior paulista, quente e insossa. Fui despejado numa república em Londrina pela minha mãe e essa despedida por si só já seria suficientemente triste, não fosse o fato de que não foi a única despedida, e por certo não a despedida da qual falarei aqui.

A despedida a que me refiro aconteceu no dia em que pela segunda vez minha mãe teve de partir e deixar o filho que criara com zelo. Eu era um errante, pulando de moradia em moradia, trocando os livros da faculdade pelos classificados de aluguel e as presenças da chamada pelas visitas aos imóveis. Ainda hoje estranham como eu, um estrangeiro, consigo conhecer tão bem a cidade que os próprios nativos desconhecem e o motivo é simples: a necessidade faz o homem.

No momento em que a situação ficou insustentável, minha mãe interveio, visitou Londrina, de onde escrevo, e me arranjou essa pensão, a pensão da D., que de pensão nada tinha. Era a própria casa da mulher, com algumas adaptações. Ela alugava dois quartos no fundo da casa.

Era uma casa de um andar, simples, porém bem construída. Uma velha árvore ficava em frente à residência. Suas raízes haviam destruído a calçada. O portão era de um vinho descascado. Havia um jardim mal-cuidado e por aí sempre circulavam duas meninas muito obedientes, a Sharon e a Nathalia, uma pitbull malhada e uma cocker spaniel de pelo sedoso, respectivamente.

Além da dona, residia na casa a sua filha, uma garota que após uma cirurgia mal-sucedida, ficara com problemas motores. No outro quarto além do meu, morava a G., uma bonita e enigmática garota do sul do Paraná.

Não que seja relevante. Porém, para que se compreenda o peso da despedida, minha mãe, sempre afetuosa, comprou mantimentos e alguns utensílios de cozinha, para que eu não ficasse na mão naquele lugar. Até hoje quando entro no lugar onde ela comprou as coisas e lembro da sua angústia de não poder me prover um local mais apropriado, me sinto mal.

A vida na pensão era estranha. D. alugava os quartos claramente por precisar de recursos para manter o tratamento da filha e ao mesmo tempo em que procurava tratar bem os hóspedes, num gesto de agradecimento, não se demorava a demonstrar algum desprezo por se ver naquela situação, tendo que abrigar dois estranhos no seu espaço. Eu, obviamente, muito me incomodava com isso e a evitava ao máximo, pouco saindo do meu quarto.

Durante esse período, pude perceber um estranho fenômeno social. Vivíamos num microestado: eu e G. éramos o povo, D., o Poder, e a casa, o território. Nas aulas, eu aprendia que onde há sociedade, há o Direito e não demorou muito para que ali no nosso “Estadozinho” logo surgissem as “leis”. Em praticamente todos os cantos da casa existiam pedaços de papeis nos instruindo a fazer ou deixar de fazer algo. A sanção estava implícita. As regras eram duras. Não devíamos usar os produtos de limpeza da D. Não devíamos chegar tarde. Não devíamos usar muita energia. Devíamos nos abster de levar visitas ao local. Barulho era terminantemente proibido. Para cada nova situação, um papelzinho diferente, um mandamento específico. Aquilo me sufocava.

Eu gostava de conversar com a G., a garota sulista. Ela, extremamente prolixa. Eu, por minha vez, fazia o que sei fazer de melhor: escutar. Ela falava do noivo, falava das qualidades do noivo, falava dos defeitos do noivo, falava do seu absurdo ciúme pelo noivo. Ela falava e eu escutava. Eu não creio que cheguei a me apaixonar por ela, acho até que passei longe disso, mas a admirava muito. Certa vez, ela me mostrou a grande cicatriz que tinha na perna, presente de um acidente em sua cidade, e nesse momento, eu a achei extremamente linda.

Em algum momento ela foi embora, o tal noivo finalmente tinha vindo para Londrina. Foram morar juntos, não muitos meses depois se separaram, ouvi dizer, e depois não tive mais notícias.

Quando ela se foi, me senti extremamente solitário. D. a cada dia parecia mais complexa na sua loucura de meia-idade. Em todo esse tempo, não vi sua filha, que permanecia trancada na penumbra da casa principal, como se fosse o sumo da vergonha da mãe. Diz a D. que fora bonita, a filha, e que ao tentar implantar silicone nos seios, ficou com esse problema, que a deixara boba como uma criança. Uma vaidade besta, e que custou a plenitude da menina.

As cachorras me deixavam feliz. Mal divisava o portão da pensão e já as via lá, coladas na grade, abanando os rabos, felizes em me ver e me farejar. A pitbull, Sharon, era grande e pesada, não tinha vez que não me sujava com suas patas, uma bobona dada. A cocker era mais tímida, mais recatada. Eu chamava a pensão de A Casa das Cinco Mulheres, as cadelas incluídas.

A verdade é que logo que entrei na pensão, já fiz planos de sair. Percebia uma enorme carência na dona, uma mulher abandonada, com o peso do mundo nas costas, esperando sabe-se lá o quê. Ela não respeitava muito minha situação financeira, às vezes majorava os preços ao seu bel-prazer e isso me irritava. A própria G. tinha seus momentos desagradáveis, com seu excesso de palavras, seu ciúme exaltado. A cozinha dos pensionistas era no quintal, apenas coberta, mas não fechada num cômodo. Não era fácil lavar a louça no inverno do sul. E não posso esquecer das baratas, que nenhum veneno mantinha longe o suficiente.

Após um semestre, saí de lá para montar uma república do zero, outro projeto fracassado, mas que não vem ao caso aqui. Agradeci à D. de coração, pois vi nela mais uma ajuda do que um empecilho, apesar de estar aliviado de abandonar aquele intrigante lugar. Vi estampado em seu rosto que ela não queria que eu fosse embora.

E agora, se posso explicar o porquê de todo esse falatório, gostaria de ressaltar que o motivo de escrever esse texto é a culpa. Esse sentimento que julguei ausente em mim durante muitos anos, mas que descobri escondido, em algum lugarzinho esquecido. Essa culpa que não propriamente me acomete naquela acepção dramática e aniquiladora, mas que vai corroendo aos pouquinhos, e me envergonhando perante meus próprios olhos. Se eu posso justificar esse texto, o faço no próximo parágrafo.

Muito tempo depois de ter deixado a pensão, resolvi ir a uma festa de república, distante apenas um quarteirão da pensão. Para chegar à festa, era caminho passar pela casa em que morei. Estava escuro, a lâmpada do poste em frente à moradia estava apagada. Ao meu lado, uma dezena de pessoas, gritando e rindo. A pé, passo quieto e receoso, olho fixamente para a casa que me abrigara e vejo quatro vultos parados na calçada, do outro lado da rua: uma mulher mais velha, uma garota e duas cachorras. Sei que me olham do escuro, me fixam e me encaram. Esse tempo em que trocamos olhares dura mais do que deveria: um, cinco ou quinze minutos? Tempo que não basta para eu me decidir se as cumprimento ou se finjo não conhecer. Tempo o suficiente para eu virar a cara e seguir reto, em direção à festa, angustiado, sem jamais saber se tinha sido reconhecido. Tempo, esse grande vilão, que, longo ou curto, jamais é remediado pela indecisão da nossa mente ou pelos raciocínios que nos afastam de tudo que já viu, ainda que por breve período, um pouquinho da nossa fragilidade.

Despedidas são sempre muito tristes, é verdade, mas piores são aquelas em que nos calamos, aquelas em que ao menos damos chance ao outro de saber que dissemos adeus, e abandonamos o lar, mesmo que precário, no silêncio, na ponta dos pés, como um fugitivo que não responde por crime algum.

13.11.11

Elegia

No dia 10 de Novembro de 2011 faleceu o meu avô Athayde de Araujo Teixeira, em virtude de um grave câncer que lhe tolheu as forças em menos de um ano. Com meu vô, partiram também inúmeras histórias cheias de detalhes minuciosos que ele habilmente guardava em sua memória.

Eu gostaria de acreditar que o tal 11.11.11 não significou coisa alguma. Mas não bastando a coincidência da data, foi às 11:11 que o último tijolo foi acomodado no jazigo da família para selar seu túmulo, segundo um primo meu.

Sob a pedra e o epitáfio também se encontra minha falecida avó, que já não está mais por aqui há 14 anos. Eu tinha 8 ou 9 anos quando ela morreu e aquela foi a primeira vez que lidei concreta e conscientemente com a morte.

Na ocasião, não velei seu corpo. Não sei dizer o motivo. Na minha mente ora infantil eu a tinha mandado para um lugar confortável, um lugar que a livraria de todo o sofrimento que os constantes tratamentos infligiram a seu corpo. Vê-la talvez arruinasse tudo isso, talvez fizesse levar embora a lembrança do cheiro e da textura da pele dela que tenho até hoje.

Quando recebi a notícia do falecimento do meu avô, suspirei e pensei na minha família, em especial minha mãe, que viu os olhos dele se abrirem pela última vez e sentiu o calor de sua mão se esvair para não mais voltar. Naquela manhã, eu tive a objetividade, para não dizer a frieza, de pagar as contas do mês e de deixar o feijão que eu descongelara no dia anterior para uma vizinha boazinha. Eu peguei o ônibus faltando cinco minutos para que ele partisse e seis horas de viagem nunca pareceram tão longas.

Preferi ir direto para o velório. Agora crescido, seria necessário que eu desse uma boa olhada no meu vô, talvez redimir o descaso que tive para com minha avó. Abracei pessoas de olhos inchados, fiquei em silêncio, é bobagem falar nessas horas. Com 8 ou 9 anos, eu não entendia o porquê das lágrimas, triste era sofrer numa cama de hospital! Quatorze anos depois, eu entendi que se chora mais pela ausência do que pela concretude da morte.

Essa ausência se justificou quando visitei a casa de meu vô no dia seguinte. Ele sempre abria o portão, com seus passos tortos e apressados. Ele me dava um abraço rígido e desajeitado e aquele beijo de avô que teve de aprender na marra o que é o afeto.

Ninguém abriu o portão dessa vez. Ninguém me abraçou desajeitadamente. Não ouvi nenhum sermão sobre como eu jamais deveria me tornar um advogado criminalista e nem pude acompanhá-lo falar mal dos políticos locais ou contar uma daquelas inestimáveis histórias “da época do Getúlio”.

Mais para o final de sua velhice de 89 anos, meu avô sempre fechava os olhos para falar. Parecia estar buscando no fundo de sua mente todas as palavras, concentrando todo o esforço que possuía para verbalizar as memórias resistentes. Gosto de pensar que esses olhos fechados eram um exercício, um treino, de como ir deixando esse nosso mundo para trás, e ver na escuridão de sua solitude toda a torrente de vida que ele já havia cumprido: os caminhos percorridos e os segundos esgotados.

Em vida, trabalhou em diversos empregos, mas prefiro pensar nele como um dos homens que pavimentaram o progresso do nosso país, carreando as ferrovias que chegaram ao interior paulista e trouxeram desenvolvimento, trilho a trilho, estação a estação.

Eu tinha em mente muitas perguntas para o meu avô: pretendia escrever um amplo texto sobre os meus antepassados, e até as vírgulas que ele viesse a me confidenciar teriam para mim o valor mais inestimável.

Fiquei sem respostas, fiquei sem meu vô.

Por tudo o que ele deixou neste mundo, e nisso incluo meus tios e tias que sempre me fascinaram; por todo o sofrimento pelo qual passou nos últimos meses; mas, sobretudo, por aquele homem que jogava bola comigo no corredor apertado do quintal, que me transformou num dos únicos corinthianos da família e que sentia o maior orgulho ao ouvir minha mãe contar das minhas conquistas, por esse homem eu dedico esse texto e as lágrimas que verti reservadamente no colo de minha mãe.

Vai com Deus, vô.