27.11.11

Contos amorosos: o amor platônico

Júlia viera juntar-se a ele; juntos contemplavam, com um certo fascínio, a figura reforçada da prole. Fitando a mulher na sua atitude característica, os braços grossos alcançando o varal, as ancas muito salientes, fortes, como as de uma égua, ele achou, pela primeira vez, que ela era bonita. Antes, nunca lhe havia ocorrido que pudesse ser belo o corpo de uma mulher de cinqüenta anos, ampliado a monstruosas dimensões pelos partos sucessivos, depois enrijada, calejada pelo trabalho até ficar grosseira como um nabo muito maduro. Mas era, e afinal, pensou ele, por que não? O corpo sólido, sem contornos, como um bloco de granito, e a pele vermelha arrepiada, representavam o mesmo, em relação ao corpo de Júlia, que o fruto de uma rosa brava junto à rosa de jardim. Por que seria o fruto considerado inferior à flor? - Ela é bonita! - murmurou ele.

(trecho de “1984”, George Orwell) 

A minha ideia de “você” sempre foi superior à sua própria existência. A bem da verdade, acho que a imagem que tinha de você era infinitamente maior e melhor do que toda a sua carne, o seu sangue, seus fluídos, ossos, e tudo o mais.

Eu nunca pensei, sinceramente, em tê-la. O que sinto por você nunca nasceu como nascem todos os amores, com a curiosidade, com o fascínio, a dúvida, a emoção, e mesmo a mais pura raiva. Meu amor nasceu no dia em que quase morri, e não estava necessariamente para morrer fisicamente, antes poderia falar que estava no fundo do poço: esquelético, deprimido, pessimista e cínico. Foi a sua mão que me segurou aquele dia, que me puxou para cima e me fez enxergar alguma luz. E desde então tenho caminhado, sou grato.

E mesmo a partir dessa gratidão não senti atração alguma. Sua existência sempre foi nula, assim como todos os seus problemas emocionais, que, diga-se de passagem, são monótonos e insípidos. Você é um desastre, garota.

O que seria isso então, que me enche de alegria e virtude, toda vez que ouço sua voz, pois? Eu estaria de alguma forma mentalmente comprometido após tanto tempo acreditando na escuridão? Um daqueles casos pervertidos de homens que se assanham sobre as qualidades mais negativas das mulheres? Eu acho que não.

Eu acho que você me mostrou um toque de pureza e isso originou o amor. Não que você seja santa, anjo ou tenha sido abençoada pelo Espírito Santo ou algo parecido, eu só penso que, despreocupadamente, num certo dia, você viu alguém quase indo pelo ralo e se condoeu: “oh! o que é esse fiapo de ser humano se esvaindo? volte aqui, criatura”. Eu voltei, e quando a olhei, vi ternura sem comprometimento e, acima de tudo, vi a beleza divina da comiseração.

Muitos vão pensar que é perda de tempo chamar isso de amor ideal, vão indagar onde está o romantismo, o carinho, a cena tórrida de paixão? Isso não é amor platônico, são apenas um ensaio para a grande arte do amor carnal, ou do amor que vai gerar filhos, ou do amor da novela mexicana, de qualquer amor, enfim, que não o baseado na pura virtude de nos tornar mais humanos.

Winston, personagem principal de “1984”, vive o amor mundano com Julia, vive o amor paternal, violento e contrastante, com o Grande Irmão, vive o amor melancólico pelo passado que ele esquece, mas é com uma mulher gorda e ignorante, deteriorada pelo tempo, que ele encontra o sublime da vida, que ele encontra o refúgio não conquistado mesmo num quarto supostamente livre da opressão. É na cantoria do ser socialmente mais abjeto da distopia orwelliana, contudo, que Winston compreende o mundo e a esperança de salvá-lo.

Se eu posso finalizar o meu texto de forma mais paradoxal possível, eu diria que você, meu amor virtuoso, acima de todas as conquistas, é a minha mulher gorda do pátio, e por ter salvado minha alma, eu me regozijo em afirmar: você é bonita.

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