15.11.11

A casa das cinco mulheres

D. era uma senhora nos seus cinquenta e poucos anos. Não era bonita e nem se imaginava que algum dia tivesse sido. Tinha os cabelos mal-ajambrados e em tudo, das rugas às roupas, parecia que tinha estacionado na década de 60. Me olhava com olhares ora tristes, ora inquisitivos e até hoje não consigo decidir se dela sinto pena ou medo. D. era dona da pensão onde um dia morei por necessidade.

Despedidas são sempre coisa triste. Eu saí do meu ninho com 18 anos de idade, a cabeleira recém-raspada, um idealistazinho arrogante e imaturo, deixando para trás uma cidade do interior paulista, quente e insossa. Fui despejado numa república em Londrina pela minha mãe e essa despedida por si só já seria suficientemente triste, não fosse o fato de que não foi a única despedida, e por certo não a despedida da qual falarei aqui.

A despedida a que me refiro aconteceu no dia em que pela segunda vez minha mãe teve de partir e deixar o filho que criara com zelo. Eu era um errante, pulando de moradia em moradia, trocando os livros da faculdade pelos classificados de aluguel e as presenças da chamada pelas visitas aos imóveis. Ainda hoje estranham como eu, um estrangeiro, consigo conhecer tão bem a cidade que os próprios nativos desconhecem e o motivo é simples: a necessidade faz o homem.

No momento em que a situação ficou insustentável, minha mãe interveio, visitou Londrina, de onde escrevo, e me arranjou essa pensão, a pensão da D., que de pensão nada tinha. Era a própria casa da mulher, com algumas adaptações. Ela alugava dois quartos no fundo da casa.

Era uma casa de um andar, simples, porém bem construída. Uma velha árvore ficava em frente à residência. Suas raízes haviam destruído a calçada. O portão era de um vinho descascado. Havia um jardim mal-cuidado e por aí sempre circulavam duas meninas muito obedientes, a Sharon e a Nathalia, uma pitbull malhada e uma cocker spaniel de pelo sedoso, respectivamente.

Além da dona, residia na casa a sua filha, uma garota que após uma cirurgia mal-sucedida, ficara com problemas motores. No outro quarto além do meu, morava a G., uma bonita e enigmática garota do sul do Paraná.

Não que seja relevante. Porém, para que se compreenda o peso da despedida, minha mãe, sempre afetuosa, comprou mantimentos e alguns utensílios de cozinha, para que eu não ficasse na mão naquele lugar. Até hoje quando entro no lugar onde ela comprou as coisas e lembro da sua angústia de não poder me prover um local mais apropriado, me sinto mal.

A vida na pensão era estranha. D. alugava os quartos claramente por precisar de recursos para manter o tratamento da filha e ao mesmo tempo em que procurava tratar bem os hóspedes, num gesto de agradecimento, não se demorava a demonstrar algum desprezo por se ver naquela situação, tendo que abrigar dois estranhos no seu espaço. Eu, obviamente, muito me incomodava com isso e a evitava ao máximo, pouco saindo do meu quarto.

Durante esse período, pude perceber um estranho fenômeno social. Vivíamos num microestado: eu e G. éramos o povo, D., o Poder, e a casa, o território. Nas aulas, eu aprendia que onde há sociedade, há o Direito e não demorou muito para que ali no nosso “Estadozinho” logo surgissem as “leis”. Em praticamente todos os cantos da casa existiam pedaços de papeis nos instruindo a fazer ou deixar de fazer algo. A sanção estava implícita. As regras eram duras. Não devíamos usar os produtos de limpeza da D. Não devíamos chegar tarde. Não devíamos usar muita energia. Devíamos nos abster de levar visitas ao local. Barulho era terminantemente proibido. Para cada nova situação, um papelzinho diferente, um mandamento específico. Aquilo me sufocava.

Eu gostava de conversar com a G., a garota sulista. Ela, extremamente prolixa. Eu, por minha vez, fazia o que sei fazer de melhor: escutar. Ela falava do noivo, falava das qualidades do noivo, falava dos defeitos do noivo, falava do seu absurdo ciúme pelo noivo. Ela falava e eu escutava. Eu não creio que cheguei a me apaixonar por ela, acho até que passei longe disso, mas a admirava muito. Certa vez, ela me mostrou a grande cicatriz que tinha na perna, presente de um acidente em sua cidade, e nesse momento, eu a achei extremamente linda.

Em algum momento ela foi embora, o tal noivo finalmente tinha vindo para Londrina. Foram morar juntos, não muitos meses depois se separaram, ouvi dizer, e depois não tive mais notícias.

Quando ela se foi, me senti extremamente solitário. D. a cada dia parecia mais complexa na sua loucura de meia-idade. Em todo esse tempo, não vi sua filha, que permanecia trancada na penumbra da casa principal, como se fosse o sumo da vergonha da mãe. Diz a D. que fora bonita, a filha, e que ao tentar implantar silicone nos seios, ficou com esse problema, que a deixara boba como uma criança. Uma vaidade besta, e que custou a plenitude da menina.

As cachorras me deixavam feliz. Mal divisava o portão da pensão e já as via lá, coladas na grade, abanando os rabos, felizes em me ver e me farejar. A pitbull, Sharon, era grande e pesada, não tinha vez que não me sujava com suas patas, uma bobona dada. A cocker era mais tímida, mais recatada. Eu chamava a pensão de A Casa das Cinco Mulheres, as cadelas incluídas.

A verdade é que logo que entrei na pensão, já fiz planos de sair. Percebia uma enorme carência na dona, uma mulher abandonada, com o peso do mundo nas costas, esperando sabe-se lá o quê. Ela não respeitava muito minha situação financeira, às vezes majorava os preços ao seu bel-prazer e isso me irritava. A própria G. tinha seus momentos desagradáveis, com seu excesso de palavras, seu ciúme exaltado. A cozinha dos pensionistas era no quintal, apenas coberta, mas não fechada num cômodo. Não era fácil lavar a louça no inverno do sul. E não posso esquecer das baratas, que nenhum veneno mantinha longe o suficiente.

Após um semestre, saí de lá para montar uma república do zero, outro projeto fracassado, mas que não vem ao caso aqui. Agradeci à D. de coração, pois vi nela mais uma ajuda do que um empecilho, apesar de estar aliviado de abandonar aquele intrigante lugar. Vi estampado em seu rosto que ela não queria que eu fosse embora.

E agora, se posso explicar o porquê de todo esse falatório, gostaria de ressaltar que o motivo de escrever esse texto é a culpa. Esse sentimento que julguei ausente em mim durante muitos anos, mas que descobri escondido, em algum lugarzinho esquecido. Essa culpa que não propriamente me acomete naquela acepção dramática e aniquiladora, mas que vai corroendo aos pouquinhos, e me envergonhando perante meus próprios olhos. Se eu posso justificar esse texto, o faço no próximo parágrafo.

Muito tempo depois de ter deixado a pensão, resolvi ir a uma festa de república, distante apenas um quarteirão da pensão. Para chegar à festa, era caminho passar pela casa em que morei. Estava escuro, a lâmpada do poste em frente à moradia estava apagada. Ao meu lado, uma dezena de pessoas, gritando e rindo. A pé, passo quieto e receoso, olho fixamente para a casa que me abrigara e vejo quatro vultos parados na calçada, do outro lado da rua: uma mulher mais velha, uma garota e duas cachorras. Sei que me olham do escuro, me fixam e me encaram. Esse tempo em que trocamos olhares dura mais do que deveria: um, cinco ou quinze minutos? Tempo que não basta para eu me decidir se as cumprimento ou se finjo não conhecer. Tempo o suficiente para eu virar a cara e seguir reto, em direção à festa, angustiado, sem jamais saber se tinha sido reconhecido. Tempo, esse grande vilão, que, longo ou curto, jamais é remediado pela indecisão da nossa mente ou pelos raciocínios que nos afastam de tudo que já viu, ainda que por breve período, um pouquinho da nossa fragilidade.

Despedidas são sempre muito tristes, é verdade, mas piores são aquelas em que nos calamos, aquelas em que ao menos damos chance ao outro de saber que dissemos adeus, e abandonamos o lar, mesmo que precário, no silêncio, na ponta dos pés, como um fugitivo que não responde por crime algum.

Um comentário:

Paula disse...

Nativos que não conhecem a própria cidade, conhecidos que não tem certeza se lembram um do outro. Familiar, familiar...