13.11.11

Elegia

No dia 10 de Novembro de 2011 faleceu o meu avô Athayde de Araujo Teixeira, em virtude de um grave câncer que lhe tolheu as forças em menos de um ano. Com meu vô, partiram também inúmeras histórias cheias de detalhes minuciosos que ele habilmente guardava em sua memória.

Eu gostaria de acreditar que o tal 11.11.11 não significou coisa alguma. Mas não bastando a coincidência da data, foi às 11:11 que o último tijolo foi acomodado no jazigo da família para selar seu túmulo, segundo um primo meu.

Sob a pedra e o epitáfio também se encontra minha falecida avó, que já não está mais por aqui há 14 anos. Eu tinha 8 ou 9 anos quando ela morreu e aquela foi a primeira vez que lidei concreta e conscientemente com a morte.

Na ocasião, não velei seu corpo. Não sei dizer o motivo. Na minha mente ora infantil eu a tinha mandado para um lugar confortável, um lugar que a livraria de todo o sofrimento que os constantes tratamentos infligiram a seu corpo. Vê-la talvez arruinasse tudo isso, talvez fizesse levar embora a lembrança do cheiro e da textura da pele dela que tenho até hoje.

Quando recebi a notícia do falecimento do meu avô, suspirei e pensei na minha família, em especial minha mãe, que viu os olhos dele se abrirem pela última vez e sentiu o calor de sua mão se esvair para não mais voltar. Naquela manhã, eu tive a objetividade, para não dizer a frieza, de pagar as contas do mês e de deixar o feijão que eu descongelara no dia anterior para uma vizinha boazinha. Eu peguei o ônibus faltando cinco minutos para que ele partisse e seis horas de viagem nunca pareceram tão longas.

Preferi ir direto para o velório. Agora crescido, seria necessário que eu desse uma boa olhada no meu vô, talvez redimir o descaso que tive para com minha avó. Abracei pessoas de olhos inchados, fiquei em silêncio, é bobagem falar nessas horas. Com 8 ou 9 anos, eu não entendia o porquê das lágrimas, triste era sofrer numa cama de hospital! Quatorze anos depois, eu entendi que se chora mais pela ausência do que pela concretude da morte.

Essa ausência se justificou quando visitei a casa de meu vô no dia seguinte. Ele sempre abria o portão, com seus passos tortos e apressados. Ele me dava um abraço rígido e desajeitado e aquele beijo de avô que teve de aprender na marra o que é o afeto.

Ninguém abriu o portão dessa vez. Ninguém me abraçou desajeitadamente. Não ouvi nenhum sermão sobre como eu jamais deveria me tornar um advogado criminalista e nem pude acompanhá-lo falar mal dos políticos locais ou contar uma daquelas inestimáveis histórias “da época do Getúlio”.

Mais para o final de sua velhice de 89 anos, meu avô sempre fechava os olhos para falar. Parecia estar buscando no fundo de sua mente todas as palavras, concentrando todo o esforço que possuía para verbalizar as memórias resistentes. Gosto de pensar que esses olhos fechados eram um exercício, um treino, de como ir deixando esse nosso mundo para trás, e ver na escuridão de sua solitude toda a torrente de vida que ele já havia cumprido: os caminhos percorridos e os segundos esgotados.

Em vida, trabalhou em diversos empregos, mas prefiro pensar nele como um dos homens que pavimentaram o progresso do nosso país, carreando as ferrovias que chegaram ao interior paulista e trouxeram desenvolvimento, trilho a trilho, estação a estação.

Eu tinha em mente muitas perguntas para o meu avô: pretendia escrever um amplo texto sobre os meus antepassados, e até as vírgulas que ele viesse a me confidenciar teriam para mim o valor mais inestimável.

Fiquei sem respostas, fiquei sem meu vô.

Por tudo o que ele deixou neste mundo, e nisso incluo meus tios e tias que sempre me fascinaram; por todo o sofrimento pelo qual passou nos últimos meses; mas, sobretudo, por aquele homem que jogava bola comigo no corredor apertado do quintal, que me transformou num dos únicos corinthianos da família e que sentia o maior orgulho ao ouvir minha mãe contar das minhas conquistas, por esse homem eu dedico esse texto e as lágrimas que verti reservadamente no colo de minha mãe.

Vai com Deus, vô.

Um comentário:

M. L. disse...

Belíssimo texto, Victor!
Creio que seu vô se felicitará com essa homenagem.
Acabei me identificando por ter perdido minha avó, devido a esta mesma doença, neste ano em apenas alguns meses. E sei o que é abrir a casa (no caso ela morava comigo) e não a presenciar.
abraço