21.11.11

Contos amorosos: o amor desencantado

Nem todas as mulheres experimentam os mesmos sentimentos. Encontrareis mil almas com mil maneiras diferentes. Para as conquistar, empregai mil maneiras.                                        (Ovídio)

 

Quando você vai embora após um beijo de despedida, eu tranco a porta da casa, volto para o meu quarto e encaro os lençois bagunçados sem muita preocupação. Revirando o chão encontro os seus fios de cabelo espalhados, são loiros, ruivos, pretos. Também o suor que impregna meu colchão tem cheiros distintos e ninguém pode me acusar de não ser asseado, pois troco a roupa de cama semanalmente, para evital a tal da rinite alérgica. São todos cheiros seus.

Na penumbra, não vejo em você um rosto definido, e mesmo que acendesse a luz, tenho a impressão de que ele se evaporaria. À meia-luz, tudo o que sinto são suas carícias, que, a bem da verdade, são como pontos de luz longínquos, talvez saídas a se denunciar na escuridão. Eu fecho meus olhos porque fico cansado, lembro então um pouco da adolescência, quando não ficava cansado (pelo contrário), mas não sinto saudade alguma.

Já cogitei em lhe dar um nome, criatura, mas isso seria por demais vil. E se por acaso não lhe agradasse a identidade? Tudo que lhe agrada, e nós dois sabemos muito bem disso, são meus dedos e a minha língua e é por isso que eu mantenho minha boca ocupada, só falando quando necessário, quando as palavras são realmente úteis para algo mais, para o que você quiser.

Eu estive pensando recentemente nas moscas, essas que circulam a nós e ao lixo. Era um dia de calor esfumaçante, se me lembro bem, suávamos sem delongas no chão gelado. Uma mosca desatenta viu graça na cena e resolveu participar, pousando nas suas costas arranhadas e suadas. Fiquei imaginando se ela estaria bebendo seu néctar, sua essência. Será que somos diretamente responsáveis pela vida curta desses insetos? Será que nosso veneno visceral impedem as moscas de viverem mais que trinta dias?

Pensei nisso porque tudo que nos circula é efêmero. Mais que meia hora do nosso amor é extenuante e, para ser bem sincero, tem vezes que eu gostaria que você sumisse no momento posterior ao meu gozo: saísse, voasse junto às moscas, para longe. Apenas desaparecesse, e voltasse uma meia hora depois, quando, sem fumar cigarro algum, eu já teria relaxado o suficiente para aguentar sua presença.

Você não tem rosto, não tem cheiro, seus cabelos são de todas as cores, você mata as moscas, você é formada por inconsistências insuperáveis e ainda assim eu vejo algo de repetitivo em todas as suas curvas. Como eu posso reconhecer um rosto que não existe? Como eu, sem esforço algum, consigo adivinhar o começo, o meio e o fim do que fazemos e mesmo assim procurar incessantemente toda essa história já contada e recontada pelo animal homem?

Ovídio, o da citação, era o mestre do amor libertino. Eu não chego aos pés do romano, mas em casa eu tenho uma gaveta onde guardo meus amores. Os que foram e os que virão. Eu não gosto de lembrá-los ou de imaginá-los, mas sinto que despedaçá-los seria um crime hediondo. Ovídio, mais esperto, os cantava ao mundo, sem medo ou exaltação, apenas descortinando a natureza que nos foi dada.

Esses amores me fazem refletir sobre a necessidade, o frêmito. Talvez eu encare a vida como um projeto a ser descartado, como um cientista faz com um rato que não reagiu ao tratamento. Eu poderia ter seguido outro caminho e creio mesmo que ele exista dentro de mim, assim como Dr. Jekyll não deixa de respirar enquanto vive Mr. Hyde. No entanto, por algum motivo eu vim parar aqui, onde eu me declaro orgulhosamente um animal, um leão, uma cobra, um coelho.

Não vou negar que esse caminho é o mais tortuoso. No caminho que eu escolhi, não só a camisinha vai para o lixo ao final do dia, como também os seus fios de cabelo e, quiçá, num dia de extrema coragem, toda a minha gaveta inútil de amores.

4 comentários:

Anônimo disse...

que complexo!
mas amei o texto! *

Anônimo disse...

Parabéns pelo texto!!! cada dia melhor...

Taísa disse...

Extremamente existencialista. Se pudesse dar uma definição para um amor assim seria : Líquido. Como o de Bauman, líquido pela fluidez e efemeridade e pelo que de úmido deixa nos corpos e na mente . Um sentimento esponjoso mas quebradiço. Afinal o amor é uma palavra de luxo.

Me lembrei de uma citação da Hilda Hilst ao escrever esse comentário: "A vida é crua. Faminta como o bico dos corvos. E pode ser tão generosa e mítica: arroio, lágrima. Olho d'água, bebida. A Vida é líquida"

estevan sem metafísica... disse...

cuidado com esses textos, hem?