26.11.11

Quebra-cabeça e tudo o mais

Algumas lágrimas trilhavam o rosto de Lilian em fila indiana: vinham quentes e com emoção, coisa que as tornavam muito dignas da dona.

- Como amo você, Matheus!

E dizia isso com aquele brilho nos olhos que comove até banqueiro.

Matheus não dizia muita coisa em troca. Não era lá o tipo de sujeito de se esperar fina ternura, porém, a doce Lilian não dava bola para isso - triste sina das mulheres que amam demais! amam tanto que amam por si e pelos outros. Que seja. Ela estava mais preocupada em enquadrar a sintonia que o corpo de Matheus, o insosso, pudesse lhe fornecer.

Foi assim que ela se encantou com o suor das mãos dele, bem como com sua leve tremedeira. Para completar, essas mãos tremeliqüentas e molhadas estavam na mais mórbida frieza. Sem falar no ligeiro gaguejar das poucas palavras que este rapaz pronunciava! Era o Céu para a encantadora Lilian.

Prometeu a si mesma que iria rezar cinco ave marias quando chegasse em casa em agradecimento a esse sublime momento. Não que estivesse longe de casa. Estava bem ali, prostrada ao portão. Namoro de portão.

"Matheus mostra como está apaixonado por mim. Será que estou respondendo à altura? Vejam só essas mãos" - e voltava seu brilhante olhar de cachorro pidão para as mãos do insosso, enquanto as acariciava como se fosse um diamante de um milhão - "Suam de nervosismo, tremem de excitação, gelam de ansiedade! Ele é um doce...ele é...é o homem da minha vida!"

O amado Matheus, entretanto, não contara à Lilian que sofria de sudorese (o que lhe conferia um extra na cota de suor das mãos), problemas neurológicos (que o presenteara com a tremedeira e a gagueira, além do tique do olho direito, que piscava cento e cinqüenta vezes por minuto, um recorde mundial; mas isso não interessa, já que nossa romanticazinha não tivera tempo de se aperceber de tamanha façanha, visto que despendia tempo enorme amando) e, para finalizar, pressão baixa, o que explicava aquelas mãos geladas.

Foi essa mesma pressão baixa que ocasionou uma tremenda dor de barriga em nosso amigo. Talvez ele não tivesse uma inteligência dessas de arrancar aplausos, como essas em que se descobre que a energia é igual à massa vezes o quadrado da velocidade da luz, mas não conheço ninguém que não se torne um exímio gênio na hora de arranjar uma desculpa para correr ao banheiro. Nessa hora, Matheus se revelou um experto e, então, uma arguta justificativa de que tinha que aplicar a injeção do antibiótico na mãe, que estava muito, muito doentinha, tadinha, e ela tinha medo de aplicar sozinha, ah sim, ela tem, mas volto amanhã, com certeza, minha querida...me acompanhar? hum acho melhor você ficar e ajudar sua mãe na cozinha, ok, ok ,pode me acompanhar até lá, mas não quero que você se contamine, então só acompanha até o portão, tá? surgiu. Imagino que, quanto maior a pressão intestinal no sentido de...saída, maior a utilização das sinapses. Enfim, lá se foram caminhando alegremente ou, no caso dele, desajeitadamente, quase correndo.

Lilian não se preocupou muito com a rápida despedida de Matheus, pelo contrário, achou fantástica a cara de dor que ele fazia, "como sofre na hora da despedida, meu amor!", regozijou-se internamente, "não agüenta a dor do adeus e por isso corre, mas sabe que tem toda a eternidade para me amar, bem, pelo menos depois que nos casarmos!".

E é assim que a Lilian ia amando. Pensava, pensava, idealizava, idealizava. Acordava e logo pensava em Matheus. O café da manhã tinha a cara dele, a escola a fazia pensar nele, o almoço, a louça, a tarefa (doméstica e da escola), as amigas dela, e até ele mesmo tinha a cara dele quando a vinha visitar no final do dia, o jantar, a novela das 9, o travesseiro e assim um círculo vicioso, sem fim.

Foi nesse pensar, pensar...que ela cruzou com o Tião e até achou que ele também lembrava o Matheus, se bem que achou que todos os homens no buteco onde o Tião estava também parecessem com ele, e o dono do bar e a garrafa de cerveja e até mesmo a salsicha em conserva (mas aí era um Matheus meio sujinho).

A verdade verdadeira era que o Tião nada tinha de Matheus. Arrisco-me a dizer que era exatamente o inverso: cabra-macho, homem de decisão, de pegada, o próprio protomacho encarnado, vivo em função do pênis. Para falar a verdade, quem se chamava Tião era o pênis dele, mas isso é detalhe irrelevante.

Importante mesmo era o desejo que a Lilian causava no Tião. Também, quem pudera: branca de um branco rosado, não pálido, daquele tom que não dá pena da brancura, mas vontade de perverter, como Lúcifer deve encarar o branco das penas das asas dos anjos ; pezinhos nem pequenos nem grandes, de dedinhos redondinhos, com aquela leve vermelhidão na sola; pernas firmes, não roliças, mas revelando a sustenção de um belo corpo, como o são as colunas do Pártenon; corpo escultural, envolvido por um vestido branco (uma intromissão à mais do que desejada nudez dela!), a começar nos ombros - não sem antes deixar escapar um decote mínimo, mas atiçador - e terminar pouco antes dos joelhos (esses muito bonitinhos, por sinal). Chega. Sinto-me cansado de descrever a moça, portanto, imaginem apenas que o rosto e o resto eram também de esplendorosa beleza. E não ousem dizer que exagero, pois mulher bonita, no Brasil, é coisa da qual não se pode desconfiar, ao contrário de político honesto e ex-gay.

É lógico que o Tião não havia pensado nisso tudo quando a vira, mas seu tesão respondera no mesmo grau. E no grau, aliás, era ele quem estava, pois já tinha virado sete biritas. Coisa de macho.

Não pensou muito (coisa que era fácil para ele). Saiu andando atrás da branqüela, como leão atrás de antílope:

- Hei guria!

- Bem me quer, mal...ah, sim, Tião?

- Cadê seu namorado, Lili?

- Foi cuidar da minha sogra.

- E te deixou assim sozinha?

Incrível como o Tião agia normalmente nessas ocasiões. O Tião. O outro estava bêbado.

- Estou indo para casa, disse ela, começando a se assustar.

Tião já estava muito cansado de diálogo. Não queria desperdiçar sua energia com isso. Não preciso dizer que a rua estava deserta no momento e que havia um beco escuro por perto. Essas coisas, nessas horas, se não existem, constroem-se, pois é muito difícil parar um homem decidido.

Muito menos os "não! pára!" dela obtiveram algum resultado nesse sentido, embora depois de minutos ela tivesse parado de pronunciá-los. A partir daí, foram advérbios de afirmação que tomaram espaço e o mais engraçado, para ela, é que seu primeiro orgasmo foi acompanhado da imagem de Matheus sendo desmontado, como se fosse formado por peças de quebra-cabeça.

Só não acendeu um cigarro depois porque fumar era pecado.

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(originalmente postado no Zaratustra tem que morrer)

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