31.12.11

2011

A areia revolvida nas canelas, as flores brancas jazendo nas ondinhas, sob os pés dos mais festivos, oferendas desprezadas por Iemanjá e vítimas da maré, os pingos de chuva que dão vontade de lamber o céu. Num instante, um rapaz de sorriso lépido estende as mãos e deseja sem nenhum compromisso Feliz Ano Novo. Ele não me conhece. Tampouco os amigos dele, que fazem o mesmo ritual. Noutro ponto, uma voluptuosa garota se despe de seu vestido, instigada pelas amigas, a fim de cumprir alguma promessa, fica seminua, a pele lisa iluminada pela luz da Lua. Passo encarando seus seios e faço um gracejo, mas somente uma das amigas ri. Meu chinelo gruda na areia. As garrafas, seja de Sidra Cereser ou Dom Pérignon, se amontoam sob o trajeto. É preciso tomar cuidado com os cacos de vidro. Uns grupos cantam, pulam, outros se abraçam, a minha fila indiana caminha. No mar, os transatlânticos nos saúdam, vaidosos.

Quando olho para trás, seja hoje ou naquele dia, percebo quão grande foi o caminho percorrido. Atravessar Copacabana minutos depois dos famosos fogos do Reveillon ou rememorar 2011 são tarefas que deixam rastros de pegadas no chão atrás de mim.

Essas cenas que parecem coisa de sonho são minhas primeiras lembranças de 2011. Naquela noite eu estava como eu estou todos os dias da minha vida: apaixonado, tímido, criativo. Melancólico talvez, mas sempre meio esperançoso. Alguém que baixa o Panamá sobre os olhos para poder pensar direito. Temo terminar o ano da mesma maneira que o comecei.

Naquele Janeiro distante eu sentei na poltrona de um consultório. Comecei uma terapia. Fui lá reclamar que “daquele jeito” não dava mais. Foi trabalho de formiguinha, pedacinho por pedacinho, me reconstruindo, agregando e juntando, fui me afastando de todo o lixo atômico.

Agora no final do ano ela, a terapeuta, quis fazer um balanço do processo. Eu, friamente, acho que não deveria mais voltar lá, me sinto bem, apesar de não me sentir tão bem. Mas depois penso que todos deveriam fazer terapia e acabo voltando lá para tentar descobrir mais alguma outra coisinha que me faça pensar, Eu me conheço, eu sei meus limites, eu sei onde eu posso ir.

Eu namorei e desnamorei, eu fiquei e desfiquei, eu tive umas paixões platônicas e na mesma proporção me desapaixonei. Eu descobri que essa coisa de estar no último ano de um curso continua sendo o maior clichê, é como se num passe de mágica eu passasse a existir para todas as demais garotas calouras. Não que eu esteja reclamando.

Eu tive a melhor das turmas e eu vi essa turma sangrar e morrer aos poucos. Cada um se isolando no seu canto, distante de mim. Eu, que outrora dizia que amava e fazia de tudo para juntar todos debaixo das minhas enormes asas, dessa vez me senti cansado e deixei passar. Esse ano, descobri que às vezes estou melhor sozinho.

Em certo ponto eu vesti um terno e apresentei um trabalho que me custou suor e muita preocupação. Nesse dia, eu descobri que gosto de falar em público. Foi um dia só meu, um dia com elogios e abraços. Quando me despi do terno, entendi o que significa “valeu a pena”.

Noutro dia, saí do banho, eu estava pelado e ia me vestir para sair, coloquei uma música no winamp velho-de-guerra e só por curiosidade atualizei o facebook. Todos estavam comemorando, então eu fui conferir o resultado e lá estava, aprovado na OAB. Nesse dia, eu pulei pelado pela minha casa.

Quando a faculdade acabou, eu me dei conta do que estava deixando para trás. Creio que se tirassem o globo das costas de Atlas, a única coisa que se passaria na sua cabeça seria, Que porra eu vou fazer com estas costas arqueadas?

O que eu vou fazer sem a vida acontecendo?

Eu ganhei mais um sobrinho, um lindo tigrinho de olhos-azuis chamado Frederico. E descobri que gosto mais de crianças do que pensava.

Na outra ponta da vida, eu perdi um avô e chorei algo que estava preso durante muito tempo dentro de mim.

Eu tive inúmeros desentendimentos e corri atrás para salvar todos aqueles relacionamentos que eu julguei essenciais na minha vida. Esse é um processo que espero sempre melhorar.

Agora 2012 vai chegando, algo misterioso. Meus planos são inúteis, eu não sei nada do que vai acontecer. Mas enquanto não acontecem, eu vou sonhando e perseguindo meus sonhos. Pelo menos eu descobri o que eu sou por dentro e eu sou alguém que gosta de lutar pelos outros.

Meu único arrependimento é ter vacilado quando eu não deveria ter vacilado, afinal, é melhor dar com a cara na parede que viver na expectativa de situações irreais.

Hoje eu falo, eu olho e eu me expresso. Esse blog nasceu em 2011, sem nenhum receio de me expor e de expor as minhas ideias, pois é tudo isso que me restou, é tudo isso que possuo.

E se não posso compartilhar, que graça tem?

Pode vir, 2012, eu não tenho mais medo de você.

17.12.11

Bom dia, devedor

“Garoto…”, ele disse num tom de desprezo, “…vê se aprende como se faz essa merda”, e deu com o pé de cabra no joelho do homem. Era um cara de uns quarenta anos, uma barba ainda rala, e cara de bicheiro, o que não tinha de pelo no rosto, tinha de sobra no peito. Ele gemeu alto, mas tentou aguentar como alguém que ainda tinha algum resquício de dignidade. Não durou muito, porque logo começou a chorar e a balbuciar uns troços incompreensíveis, “na-na-na, bu-bu-bu, eu pago, eu pago”, era o que dava para entender. É engraçado como a parte da aceitação conseguimos compreender perfeitamente, mas para todo o resto, e nisso incluo as desculpas sobre a família, a mulher, a amante, a vó, a mãe, as dívidas mais importantes, enfim, toda a enrolação, isso não escutamos não, e é claro que você pode presumir que as dívidas conosco são as mais urgentes. É porque somos muito bons em cobrar, e disso era testemunha o filho do cara, o quarentão que se contorcia na minha frente, um pivete de uns dez anos, que assistia tudo meio assustado, meio lacrimejando, com o dedo na boca, aquela cara de criança tonta que não entende nada.

Quinze anos depois eu lembro persistentemente dessa cena que, à época, embrulhava meu estômago e me enchia duma excitação esquisita, uma coisa que fazia meu coração tremer e minha pernas parecerem geleia. E não vou ser hipócrita, eu achei muito justo aquele devedor cretino receber o que merecia.

Foi com vinte anos que fui contratado pela Gimenez & Levi Assessoria Contábil. Um estagiário prestativo e atencioso, ouso dizer ingênuo e babaca, que logo no primeiro ano de casa foi levado a entender o grosso do trabalho, e nisso me refiro ao que acabo de recordar. É claro que com dois nomes assim como sócios, um espanhol e um judeu, a essência da empresa não seria outra, e nisso eu sinceramente mando ir à merda quem me acusar de preconceito, senão a de uma fachada para algo que eu sempre gostei de chamar de “Dois muquiranas, sovinas, desgraçados que adoram foder a vida dos outros à base de usura”. Mas é claro que eu nunca sugeri que modificassem a razão social do escritório para algo do gênero.

Não demorei a adquirir o know-how da vida empresarial dos meus empregadores e logo tratei de não me fazer de rogado. As pessoas nos contratavam para convencer os outros a pagarem. Conversa mole e call center não adiantariam. Sangue e alguns móveis destruídos, contudo, eram extremamente eficientes. Eu, um representante honrado da geração Y, preenchi o ideal da firma com a criatividade típica da minha geração. Era muito comum, por exemplo, que meus chefes acreditassem que somente a força bruta resolvesse tudo. Mostrei a eles, então, a eficiência do terror psicológico. Eu comprovei estatisticamente como fingir ser amigo do devedor, para depois subrepticiamente fazê-lo perceber a cagada que seria ficar devendo para nós, era extremamente eficiente. Tudo na base da palavra, da conversa que vai mexer com os brios do devedor. Pouco esforço, muito lucro. Isso evitava da polícia nos encher a paciência também.

Assim, um ano e pouco depois da minha contratação, eu já tinha liberdade para uns trabalhinhos solo, arrecadando a grana para os clientes e fazendo a fama da empresa. Na minha primeira “visita”, lidei com uma drogadita que se achava a esperta, capaz de enganar até a própria mãe. Ainda lembro daquelas olheiras fundas que marcavam seu rosto, as mãos ossudas. Ela tentou me enrolar com um papinho furado. Depois, vendo que eu não era otário, tentou negociar. Eu não estava lá para negociar. Resolveu reclamar, pois. Eu não era ouvidoria para receber reclamação. Xingou, então. Aí ela recebeu o primeiro tapa. Tentou me bater e levou mais alguns tapas. Chorou e tremeu. Eu a segurei forte, fiz ela olhar para os meus olhos de cobrador. Estava lá para cobrar. Falei da família dela, falei do que ela tinha para a vida dela. Falei da minha própria família, muito embora eu nem tivesse uma (apenas um pai que morava longe). Falei, enfim, que ela devia olhar para um espelho. Ela se calou e pareceu lembrar de algo, de alguma decência. Chorou mais um pouco, foi até um canto que achava ser seguro, onde escondia o que sabia que poderia precisar um dia (que finalmente havia chegado), de onde tirou um maço sujo de dinheiro. Drogada inútil, achou que me enganaria. Antes de ir embora, belisquei sua bochecha e sorri cretinamente, a fim de que ela se lembrasse que nessa vida, ou você é uma drogada ossuda e fedida, ou um cobrador eficiente, como eu era.

Eu poderia muito bem listar os trezentos e vinte e seis casos de cobrança que enfrentei nesses quinze anos de firma, coisa que muito me aprazeria, mas a verdade é que, como eu disse, eu era um cobrador eficiente.

Sinto-me um broxa aos trinta e cinco anos de idade.

Após quinze anos crescendo dentro da firma, a ponto de ver meu nome figurar entre os dois mãos-de-vaca na placa da sede, comecei a decair. Finalmente era um sócio! Mas um sócio broxa, incapaz de tirar um centavo que fosse de uma velhinha, ou um doce de uma criança inocente.

Acho que me esgotei, cheguei em alguma espécie de limite, uma porta fechada. Meu método talvez seja coisa do passado. Hoje em dia, diante de uma proposta minha, pegam o telefone e deixam o dedo em riste, pronto para discar 190, ou como outro dia, quando falaram de ligar para a imprensa. Os mais graduados já ligam logo para o advogado da familia. Eu sou bom no que faço, mas sou incapaz de superar um advogado.

Comecei a voltar de mãos vazias para o escritório. Os dois boçais me olhavam enviesados, como se eu tivesse defecado em cima da escrivaninha de mármore deles, e com muita cerimônia e várias meias-palavras não titubeavam em demonstrar como eu estava sendo prejudicial para a empresa. Nessa hora, cessava qualquer respeito, aquele puxa-saquismo de quando eu triplicava o faturamente da espelunca, e voltavam a me tratar como um moleque.

Gimenez, com sua pança e bigode que se anunciavam séculos antes que ele viesse a adentrar qualquer recinto, logo me ameaçava com uma redução no rateio dos lucros. Levi, por sua vez, o responsável por me mostrar como as coisas funcionavam no primeiro dia de trabalho, só balançava a cabeça, depois, muito sarcasticamente, tratava de fazer alguma comparação:

“Essa sua geração é muito precipitada. Bando de moleques. Acham que sabem tudo, não sabem bosta nenhuma. Não viveram qualquer guerra ou ditadura que fosse, não sabem o que é inflação, vivem no bem-bão desde bebês, como vão saber o valor do dinheiro?”, era o que ele despejava sobre mim, enquanto cofiava a barba negra.

Aqueles olhinhos negros dele caçoavam desproporcionalmente de mim. Agora eu era o garoto, o bobo que nada sabia fazer. De salvador da firma a peso morto. Quanta ingratidão.

Escrevo esse desabafo unicamente para me livrar do ódio que se apossou de mim ante a citação que recebi um dia atrás. Quando abri a porta e me deparei com o oficial de justiça, imaginei que a sensação dos meus acossados talvez fosse semelhante. Devidamente citado para responder a uma ação de dissolução de sociedade. Os dois velhotes me queriam fora. Eu tenho essa coisa, sabe, eu guardo meu rancor, a minha raiva, e depois passo pro papel. Elas podem ficar bonitinhas num pedaço de papel, apenas para efeitos terapêuticos. Apenas.

Mas eu me dei conta de que tenho um dom, sou muito grato a Gimenez e Levi por mo terem revelado. Não posso esquecer, contudo, que estou diante de dois trastes. Assim, essa caneta que me enerva, onde despejo minha bílis, me ajudou a tomar uma decisão.

Amanhã será um grande dia. Eu vou acordar, tomarei um suculento desjejum, dirigirei até o escritório e provavelmente assobiarei no trajeto, darei um tapa na bunda da secretária de vinte e dois aninhos a qual nem lembro o nome, entrarei na sala do Levi sem bater na porta e o convencerei a chamar Gimenez até sua sala. Vou olhar para os dois e fazê-los se sentar para me ouvir.

Eu terei um sorriso na cara e, apesar do desrespeito, do destrato e da citação, eles pensarão que eu sou um amigo, um bom amigo. Aquele jovem em quem sempre confiaram.

Então eu farei eles pagarem.

14.12.11

O padrinho Lancelote

Tinha essa taça de vinho tinto, muito brilhante, eu não sei se era coisa do luar ou da minha cabeça, mas ela brilhava soberbamente. O minuano refrescava minha nuca, meu cabelo cacheado sempre me fez suar mais do que gostaria, mas de qualquer maneira eu divagava a respeito da cor do vinho, coisa que tinha aprendido com uma garota, quando percebi que eu devia ser realmente muito introspectivo para ficar pensando em tais coisas, e sozinho, numa festa de casamento. Eu ali, na sacada, entre a lua e o vinho e as pessoas dançando despreocupadamente na pista, lá dentro.

Posso estar errado, mas pouco tempo antes uma gordinha tinha passado por mim, rebolando dentro de um vestido apertado, eu a olhei de esguelha passando por mim, com seus tornozelos grossos. Era muito bonita de rosto e a essa altura eu já estava me perguntando se o fato de eu querer ir para a cama com ela era coisa do álcool ou um gosto novo muito democrático de alguém outrora esteta.

Ela não me olhou nem nada e por mais que me esforçasse mentalmente para fazer seus olhos repousarem sobre os meus, só o que consegui foi ficar entre a lua e a taça e pensar na cor do vinho. Depois disso eu fiquei pensando que talvez não sejamos muito diferentes, ou pelo menos eu, já adianto, daqueles cachorros que espreitam por entre nossas pernas e ficam nos olhando com aquela cara de abandonados. Será que minha cara era assim? Mas eu não queria, necessariamente, um pouco de comida ou afago, ou talvez quisesse, de maneira que não consegui concluir se existe de fato alguma diferença entre os homens e os cachorros. É provável que não.

Tive que segurar bem forte minha taça de vinho, pois por volta das duas da manhã, e era essa hora que eu refletia a respeito dos cachorros, o meu grande amigo me deu uma gravata, quase quebrando meu pescoço e me deixando desleixadamente desarrumado. Com isso ele queria dizer “eu te amo” na linguagem corporal masculina. O que é muito preferível a ver ele parar na minha frente e proferir com olhos lânguidos “eu te amo”, o que seria em absoluto muito estranho e um tanto quanto inaceitável pelas práticas morais das pessoas heterossexuais, dentre as quais me filio.

Ele perguntou “O que você está fazendo aqui fora, seu viado?”, e eu menti, enquanto arrumava milimetricamente minha gravata, falando que havia recebido uma ligação de uma mulher que estava comendo, ou fazendo amor, se seus olhos forem muito sensíveis ao que escrevo (mas isso estou falando a vocês, não ao meu amigo), enfim, uma comissária de bordo que veio da Argentina e tinha esbarrado em mim numa fila de aeroporto qualquer e com isso eu só queria provocá-lo, porque ele sempre quis ter comido, ou feito amor, com uma argentina, e muito embora nem soubéssemos como eram as argentinas, ainda assim ele queria uma delas.

“Ah, uma argentina”, ele disse meio intrigado.

“É, uma argentina, mas veja só, hoje você é o grande homem, você escolheu uma brasileira e agora as argentinas são só minhas”, retruquei.

E ele ficou olhando para o dedo anular dele, onde horas antes a agora esposa dele tinha enfiado sem lubrificante nem nada uma pesada aliança de casamento, enlaçando eternamente a vena amoris do meu dito amigo. Depois ele botou essa mesma mão no meu ombro e com muito orgulho disse que eu era o padrinho mais filho da puta que já existira na face do terceiro planeta contado a partir do astro solar.

Sem querer ou talvez por querer - deixo isso para Freud descobrir - , eu lembrei como eu invariavelmente detestava aquele cara. Eu não lembro bem porque alguma vez na vida o considerara meu melhor amigo, mas a inércia deu conta de perpetuar isso por mais de quinze longos anos, essa crença inabalável de que somos inseparáveis e que eu era algum tipo de Lancelote ao seu lado.

Ele se esqueceu, involuntariamente, presumo, que há treze anos atrás comeu, ou fez amor, com a minha ex-namorada, assim, como num passe de mágica, logo depois que a vadia, ou a mulher sem escrúpulos, me largou. É bem verdade que não estávamos juntos, mas ele devia saber de outra regra da etiqueta masculina: amigo não pega ex. Casos passageiros e espécimes deliberadamente passadas adiante são permitidas, mas ex, aquela ex lazarenta que faz o cara sofrer e tudo, essa é intocável. Se mulher de amigo é homem, ex então deve estar na mesma posição de um travesti que sai correndo pelado gritando “eu tenho gonorreia!” em meio a uma creche infantil.

De maneira que eu não sei ao certo porque mantive a amizade, ou o que aparentasse ser amizade, com o recém-casado. Não, mentira, eu sei sim, eu sou um mal-caráter. Não tentem gostar de mim, eu estou ao lado dele apenas para tomar vantagem em diversas situações. É, é isso mesmo.

O protocolo, contudo, me ordenou ser um padrinho correto e abençoar a relação dele com a imbecil que ele escolheu para ser mulher. É certo dizer que ela me detesta, talvez tenha cheirado algo de ruim na minha amoralidade que, combinemos e falemos bem baixinho a partir de agora, eu deixo em segredo aqui com vocês, somente vocês, não espalhem!

Enquanto conversávamos sobre todas as bucetas, ou os órgãos genitais femininos, que ele deixaria de conhecer a partir daquela noite, os participantes da festa começaram a nos chamar para voltar à bagunça. Estávamos quase naquele ponto onde algum bêbado coloca a gravata na testa e começa a constranger a tia mais puritana da noiva, e eu cheguei a pensar mesmo que eu gostaria de estar em qualquer outro lugar a permanecer ali, dali eu levaria somente a minha taça e o meu vinho tinto soberbo.

Antes de entrarmos e dançarmos com alguma quarentona, ele me parou e me deu um longo abraço sentimental e falou por uns sete minutos sobre o quão importante eu era para ele, quase um irmão, sempre mostrando o caminho correto para ele seguir, que eu era extremamente imprescindível na sua vida, e que um homem só seria completo se tivesse uma boa mulher, um emprego decente e um amigo verdadeiro. Ele fez um longo discurso sobre como eu tinha tornado os dias da faculdade dele mais agradáveis, como era maravilhoso que eu o tivesse indicado ao atual emprego, e creditou a mim até mesmo o fato de ter conhecido a megera da mulher, coisa que eu não consegui encaixar na ordem dos fatos.

Dei uns tapas na bunda dele e disse que a sorte de tê-lo como amigo era minha, completamente minha…

Ele entrou no salão novamente e eu quase o ia acompanhando, porém por outra porta uma negra de lábios carnudos acabara de entrar, estava procurando o cigarro na bolsa, magra e deliciosa como um felino; percebeu minha presença e olhou curiosa para os meus olhos meio bestas. Olhou direto.

Ela sorriu para mim com grandes dentes brancos, eu sorri de volta. Não dancei aquela noite, não em pé.

6.12.11

Uma crônica de cinco anos

Se por uma brincadeira do destino ou por um tremendo avanço tecnológico eu pudesse, apenas hipoteticamente, voltar ao passado e me deparar com o garoto de 18 anos -  no caso, eu mesmo -  que pisou pela primeira vez em Londrina para cursar ingloriosamente Direito, eu não perderia tempo me aconselhando sobre as melhores matérias a estudar, sobre como conseguir as mais amáveis garotas ou sobre as festas mais infames, eu apenas daria alguns tapinhas em minhas costas e diria com tom superior, “meu amigo, você vai mudar pra caramba”.

Escrever cinco anos num único texto curto e que faça jus a cada experiência vivida por mim nesse tempo de universidade é talvez uma tarefa impossível, por isso eu gostaria de focar nessa diferença dos olhares.

Aquele rapaz de 18 anos chegou em Londrina tendo deixado para trás um namoro intenso, os melhores amigos e, obviamente, a família. Ele achou que ia se deparar com um local de debates e ideias e experiências das mais sórdidas. Bem, ele encontrou, mas ainda assim ele ficou meio decepcionado.

Esse rapaz tinha um olhar acelerado, atento, que clamava por parâmetros, já que ele não possuía nenhum num lugar onde era tudo novo. Meio perdido, ele ficou muitos meses indo de lá pra cá procurando onde morar, foi assaltado na primeira semana residindo na cidade e, quando chegou em casa tremendo, descobriu que a namorada, a que tinha ficado na cidade-natal, tinha terminado com ele por e-mail.

Esse rapaz não imaginou que o inverno podia ser tão frio nem que fosse tão difícil achar amigos como os que ele tinha onde morava antes da faculdade. Ele descobriu que pagar conta é de fato uma mágica e que lidar com os problemas alheios não só é um bicho de sete-cabeças quanto também é terrivelmente necessário.

Ele se apaixonou um milhão e cinquenta e cinco vezes, aproximadamente, e demorou demais para aprender, ou talvez ainda esteja aprendendo, que Londrina, de fato, tem uma mulher bonita a cada três metros caminhados.

Ele já sabia sobre o álcool, vou pular essa parte.

Mas ele ficou contente com a sua turma. Heterogênea, no mínimo: pessoas engraçadas, pessoas sérias, pessoas debochadas, nerds, playboys, outros mais pé-no-chão, uns rockeiros, outros peões, alguns ambiciosos e também uns que se despreocupavam sobre o amanhã. É bem verdade que foi duro para ele ter visto a pessoa que ele achou que seria a sua melhor amiga para o resto da vida ir embora assim, sem muita cerimônia, para outra universidade mequetrefe, mas, se tem algo que ele aprendeu, é que a vida pode ser uma bosta às vezes, ou frequentemente, ou quase sempre, bem, ele aprendeu algo, ao menos.

Nessa turma ele teve a chance de um recomeço e fez isso valer a pena. Riu, se divertiu, fez amizades, aprendeu, desaprendeu e guardou as mais variadas experiências. Por uma conversa boba no dia do trote, ele acabou fazendo dois grandes amigos por todo o resto do tempo do curso e, por que não, para a vida.

Demorou muito tempo, é verdade, para que ele se sentisse realmente acolhido. Mas, quando se sentiu, bem, aí ele pôde escrever esse texto. Diferente do olhar atroz do garoto de 18 anos, o olhar desse que agora escreve é um olhar de quem sabe que as coisas mudam e que o tempo existe para agregar, não para destruir.

E não é por um clichê que eu falo que esses cinco anos foram os melhores da minha vida. Bem, muita merda aconteceu nessa época. Brigas, notas baixas, desentendimentos, frustrações, o fim de um namoro que, mesmo a contragosto, eu julgava que era coisa pro resto da vida, bem, dá para listar uma porção de coisas ruins, assim como, proporcionalmente, eu posso enumerar diversas situações maravilhosas.

Não é o número de coisas boas ou ruins que definem esse quinquênio como especial. É o fato de, perceptivelmente, eu ter sentido na pele cada vivência, cada experiência, cada choro ou risada, amor ou frustração, é ter abraçado os amigos e ter colocado os inimigos nos seus devidos lugares, é ter aprendido tudo sobre uma cidade tão diferente quanto Londrina, suas ruas, seus prédios, sua terra vermelha, além de ter respirado aquele ar da UEL, puro e que deixará saudades, é ter visto os raios de sol entre as árvores do calçadão, reclamado das salas do CESA, comido o almoço do RU, xingado o preço do salgado do Pinguim, é ter brigado por nota, ter estudado muito ou ficado com preguiça de ler mais uma linha de juridiquês.

Enfim, eu me perderia em lembranças inúmeras se eu apenas não concluísse que eu tive o melhor período da minha vida, até agora, porque percorrendo cada segundo desses últimos cinco anos eu posso dizer: eu vivi tudo isso.

3.12.11

Boina e Panamá

Dia desses estava sentado num banco de praça carcomido, encarando um cachorro de rua carente, quando um amigo meu, outro escritor, chegou ao meu lado e se sentou sem cerimônia. Ele estava com sua boina, e eu com meu panamá e uma barba de dez dias.

“Você está um caco”, observou ele.

“Obrigado pelo elogio, eu realmente me esforço”, respondi satírico.

Tirei do bolso um maço de cigarro intacto e o entreguei ao meu amigo - “Feliz aniversário atrasado”, emendei, com um sorriso forçado.

“Que ironia!”, riu-se o bastardo, abrindo o maço e fazendo questão de assoprar a fumaça na minha cara após acender o seu marlboro fedido.

“É, é uma ironia, eu comemorando o seu nascimento e o matando um pouco mais”.

“Eu adorei”.

“Realmente não entendo como você consegue aproveitar essa vida de lixo e achar bonitas as coisas mais sujas desse mundo”, desabafei, enquanto espantava o cachorro com um pontapé na bunda.

“Qual o problema agora? Mulheres de novo?”, indagou a mim, brincando com a fumaça no ar.

“E teria algum outro tipo de problema nesse nosso planetinha?”.

“Fome, desemprego, doenças, guerras, posso ficar um dia inteiro aqui listando os males que saíram da Caixa de Pandora”.

“Aí está, meu caro, a caixa é de uma mulher, todos os problemas descendem das mulheres”.

Esse meu amigo era um bom escritor, mas, diferentemente de mim, era extremamente apegado ao sujo e ao decaído, não que eu fosse diferente, mas eu ainda via, ou insistia ver, esperança em algum tipo de luz no fim do túnel, algum traço transcendente nas coisas bobas que escrevia. De qualquer maneira, tanto eu quanto ele víamos nas coisas feias tudo o que havia de mais bonito no universo.

“Como está a fulana?”, perguntei, mudando o foco.

“Não deu certo, está com outro”. E ele não estava triste com isso.

“Por que você não fica triste com isso?”.

“É direito dela”.

“Meu amigo, você e aquele cachorro sujo ali não são muito diferentes”.

“Não, não, é você que acha que tem poder sobre alguma coisa”, sentenciou ele, sem emoção alguma na voz.

Pensando bem, se eu fosse nos comparar a alguém, diria que ele é o Winston de 1984, resignado e cínico, e eu o Selvagem de Admirável Mundo Novo, alarmado e inconformado.

Ele deu uma última tragada e apagou impacientemente a bituca na madeira do banco velho.

“Ok, me desculpa, estou sendo insensível, fale algo”.

“Eu e você somos dois ferrados com essas moçoilas, meu amigo”.

“Sim, sem dúvida. E ainda dizem que nossa geração não sabe lidar com frustração”.

“Somos escritores, ora”.

E continuamos a conversar sobre coisas feias e desilusões amorosas, sobre rostos bonitos e atitudes tiranas, tendo algumas ideias, das mais abjetas, sobre o que escrever sobre as mulheres, e achando isso tudo, obviamente, muito bonito. Afinal, que graça teria escrever sobre um mundo feliz, contente e bem-resolvido?