31.12.11

2011

A areia revolvida nas canelas, as flores brancas jazendo nas ondinhas, sob os pés dos mais festivos, oferendas desprezadas por Iemanjá e vítimas da maré, os pingos de chuva que dão vontade de lamber o céu. Num instante, um rapaz de sorriso lépido estende as mãos e deseja sem nenhum compromisso Feliz Ano Novo. Ele não me conhece. Tampouco os amigos dele, que fazem o mesmo ritual. Noutro ponto, uma voluptuosa garota se despe de seu vestido, instigada pelas amigas, a fim de cumprir alguma promessa, fica seminua, a pele lisa iluminada pela luz da Lua. Passo encarando seus seios e faço um gracejo, mas somente uma das amigas ri. Meu chinelo gruda na areia. As garrafas, seja de Sidra Cereser ou Dom Pérignon, se amontoam sob o trajeto. É preciso tomar cuidado com os cacos de vidro. Uns grupos cantam, pulam, outros se abraçam, a minha fila indiana caminha. No mar, os transatlânticos nos saúdam, vaidosos.

Quando olho para trás, seja hoje ou naquele dia, percebo quão grande foi o caminho percorrido. Atravessar Copacabana minutos depois dos famosos fogos do Reveillon ou rememorar 2011 são tarefas que deixam rastros de pegadas no chão atrás de mim.

Essas cenas que parecem coisa de sonho são minhas primeiras lembranças de 2011. Naquela noite eu estava como eu estou todos os dias da minha vida: apaixonado, tímido, criativo. Melancólico talvez, mas sempre meio esperançoso. Alguém que baixa o Panamá sobre os olhos para poder pensar direito. Temo terminar o ano da mesma maneira que o comecei.

Naquele Janeiro distante eu sentei na poltrona de um consultório. Comecei uma terapia. Fui lá reclamar que “daquele jeito” não dava mais. Foi trabalho de formiguinha, pedacinho por pedacinho, me reconstruindo, agregando e juntando, fui me afastando de todo o lixo atômico.

Agora no final do ano ela, a terapeuta, quis fazer um balanço do processo. Eu, friamente, acho que não deveria mais voltar lá, me sinto bem, apesar de não me sentir tão bem. Mas depois penso que todos deveriam fazer terapia e acabo voltando lá para tentar descobrir mais alguma outra coisinha que me faça pensar, Eu me conheço, eu sei meus limites, eu sei onde eu posso ir.

Eu namorei e desnamorei, eu fiquei e desfiquei, eu tive umas paixões platônicas e na mesma proporção me desapaixonei. Eu descobri que essa coisa de estar no último ano de um curso continua sendo o maior clichê, é como se num passe de mágica eu passasse a existir para todas as demais garotas calouras. Não que eu esteja reclamando.

Eu tive a melhor das turmas e eu vi essa turma sangrar e morrer aos poucos. Cada um se isolando no seu canto, distante de mim. Eu, que outrora dizia que amava e fazia de tudo para juntar todos debaixo das minhas enormes asas, dessa vez me senti cansado e deixei passar. Esse ano, descobri que às vezes estou melhor sozinho.

Em certo ponto eu vesti um terno e apresentei um trabalho que me custou suor e muita preocupação. Nesse dia, eu descobri que gosto de falar em público. Foi um dia só meu, um dia com elogios e abraços. Quando me despi do terno, entendi o que significa “valeu a pena”.

Noutro dia, saí do banho, eu estava pelado e ia me vestir para sair, coloquei uma música no winamp velho-de-guerra e só por curiosidade atualizei o facebook. Todos estavam comemorando, então eu fui conferir o resultado e lá estava, aprovado na OAB. Nesse dia, eu pulei pelado pela minha casa.

Quando a faculdade acabou, eu me dei conta do que estava deixando para trás. Creio que se tirassem o globo das costas de Atlas, a única coisa que se passaria na sua cabeça seria, Que porra eu vou fazer com estas costas arqueadas?

O que eu vou fazer sem a vida acontecendo?

Eu ganhei mais um sobrinho, um lindo tigrinho de olhos-azuis chamado Frederico. E descobri que gosto mais de crianças do que pensava.

Na outra ponta da vida, eu perdi um avô e chorei algo que estava preso durante muito tempo dentro de mim.

Eu tive inúmeros desentendimentos e corri atrás para salvar todos aqueles relacionamentos que eu julguei essenciais na minha vida. Esse é um processo que espero sempre melhorar.

Agora 2012 vai chegando, algo misterioso. Meus planos são inúteis, eu não sei nada do que vai acontecer. Mas enquanto não acontecem, eu vou sonhando e perseguindo meus sonhos. Pelo menos eu descobri o que eu sou por dentro e eu sou alguém que gosta de lutar pelos outros.

Meu único arrependimento é ter vacilado quando eu não deveria ter vacilado, afinal, é melhor dar com a cara na parede que viver na expectativa de situações irreais.

Hoje eu falo, eu olho e eu me expresso. Esse blog nasceu em 2011, sem nenhum receio de me expor e de expor as minhas ideias, pois é tudo isso que me restou, é tudo isso que possuo.

E se não posso compartilhar, que graça tem?

Pode vir, 2012, eu não tenho mais medo de você.

Um comentário:

Karen disse...

Impossível não imaginar você pulando pelado pela casa. Porra, Victão.