3.12.11

Boina e Panamá

Dia desses estava sentado num banco de praça carcomido, encarando um cachorro de rua carente, quando um amigo meu, outro escritor, chegou ao meu lado e se sentou sem cerimônia. Ele estava com sua boina, e eu com meu panamá e uma barba de dez dias.

“Você está um caco”, observou ele.

“Obrigado pelo elogio, eu realmente me esforço”, respondi satírico.

Tirei do bolso um maço de cigarro intacto e o entreguei ao meu amigo - “Feliz aniversário atrasado”, emendei, com um sorriso forçado.

“Que ironia!”, riu-se o bastardo, abrindo o maço e fazendo questão de assoprar a fumaça na minha cara após acender o seu marlboro fedido.

“É, é uma ironia, eu comemorando o seu nascimento e o matando um pouco mais”.

“Eu adorei”.

“Realmente não entendo como você consegue aproveitar essa vida de lixo e achar bonitas as coisas mais sujas desse mundo”, desabafei, enquanto espantava o cachorro com um pontapé na bunda.

“Qual o problema agora? Mulheres de novo?”, indagou a mim, brincando com a fumaça no ar.

“E teria algum outro tipo de problema nesse nosso planetinha?”.

“Fome, desemprego, doenças, guerras, posso ficar um dia inteiro aqui listando os males que saíram da Caixa de Pandora”.

“Aí está, meu caro, a caixa é de uma mulher, todos os problemas descendem das mulheres”.

Esse meu amigo era um bom escritor, mas, diferentemente de mim, era extremamente apegado ao sujo e ao decaído, não que eu fosse diferente, mas eu ainda via, ou insistia ver, esperança em algum tipo de luz no fim do túnel, algum traço transcendente nas coisas bobas que escrevia. De qualquer maneira, tanto eu quanto ele víamos nas coisas feias tudo o que havia de mais bonito no universo.

“Como está a fulana?”, perguntei, mudando o foco.

“Não deu certo, está com outro”. E ele não estava triste com isso.

“Por que você não fica triste com isso?”.

“É direito dela”.

“Meu amigo, você e aquele cachorro sujo ali não são muito diferentes”.

“Não, não, é você que acha que tem poder sobre alguma coisa”, sentenciou ele, sem emoção alguma na voz.

Pensando bem, se eu fosse nos comparar a alguém, diria que ele é o Winston de 1984, resignado e cínico, e eu o Selvagem de Admirável Mundo Novo, alarmado e inconformado.

Ele deu uma última tragada e apagou impacientemente a bituca na madeira do banco velho.

“Ok, me desculpa, estou sendo insensível, fale algo”.

“Eu e você somos dois ferrados com essas moçoilas, meu amigo”.

“Sim, sem dúvida. E ainda dizem que nossa geração não sabe lidar com frustração”.

“Somos escritores, ora”.

E continuamos a conversar sobre coisas feias e desilusões amorosas, sobre rostos bonitos e atitudes tiranas, tendo algumas ideias, das mais abjetas, sobre o que escrever sobre as mulheres, e achando isso tudo, obviamente, muito bonito. Afinal, que graça teria escrever sobre um mundo feliz, contente e bem-resolvido?

6 comentários:

Ana disse...

Comentário a respeito da menção à caixa de Pandora, citada por um dos personagens. Em uma de suas obras, um estudioso de mitologia grega chamado Thomas Bulfinch citou diversas versões do mito. Segundo ele, a versão mais conhecida é realmente a de que a primeira mulher do mundo foi criada como castigo dos deuses aos mortais, e que abriu uma caixa com todos os males.
Entretanto, uma outra versão diz que ela foi um presente, e que a caixa continha dádivas. Versão mais coerente, e como ele mesmo comentou, como a Esperança poderia dividir espaço com os piores males da humanidade, sendo ela "joia tão preciosa que é"?.

estevan sem metafísica... disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
V.H. de A. Barbosa disse...

Ana, segundo o Luiz Felipe Pondé, a vida plena de um homem consiste basicamente em sofrer absurdamente por uma mulher.

Eu acho essa visão interessante, no texto, quis dar uma zuada nas diferenças entre mim e um amigo, mas é fato que no fim das contas é isso que nos torna seres humanos: essas experiências atrás de experiências. Sofridas ou não.

estevan sem metafísica... disse...

uma outra versão é aquela na qual a angelina jolie leva a caixa para um lugar seguro e salva a humanidade.

Karen disse...

Ah, que saudade de ler suas coisas. Ótimo texto. Também adorei o anterior. :)
Queridón. :*

Ana disse...

A versão do stevan sem metafísica é muito boa