17.12.11

Bom dia, devedor

“Garoto…”, ele disse num tom de desprezo, “…vê se aprende como se faz essa merda”, e deu com o pé de cabra no joelho do homem. Era um cara de uns quarenta anos, uma barba ainda rala, e cara de bicheiro, o que não tinha de pelo no rosto, tinha de sobra no peito. Ele gemeu alto, mas tentou aguentar como alguém que ainda tinha algum resquício de dignidade. Não durou muito, porque logo começou a chorar e a balbuciar uns troços incompreensíveis, “na-na-na, bu-bu-bu, eu pago, eu pago”, era o que dava para entender. É engraçado como a parte da aceitação conseguimos compreender perfeitamente, mas para todo o resto, e nisso incluo as desculpas sobre a família, a mulher, a amante, a vó, a mãe, as dívidas mais importantes, enfim, toda a enrolação, isso não escutamos não, e é claro que você pode presumir que as dívidas conosco são as mais urgentes. É porque somos muito bons em cobrar, e disso era testemunha o filho do cara, o quarentão que se contorcia na minha frente, um pivete de uns dez anos, que assistia tudo meio assustado, meio lacrimejando, com o dedo na boca, aquela cara de criança tonta que não entende nada.

Quinze anos depois eu lembro persistentemente dessa cena que, à época, embrulhava meu estômago e me enchia duma excitação esquisita, uma coisa que fazia meu coração tremer e minha pernas parecerem geleia. E não vou ser hipócrita, eu achei muito justo aquele devedor cretino receber o que merecia.

Foi com vinte anos que fui contratado pela Gimenez & Levi Assessoria Contábil. Um estagiário prestativo e atencioso, ouso dizer ingênuo e babaca, que logo no primeiro ano de casa foi levado a entender o grosso do trabalho, e nisso me refiro ao que acabo de recordar. É claro que com dois nomes assim como sócios, um espanhol e um judeu, a essência da empresa não seria outra, e nisso eu sinceramente mando ir à merda quem me acusar de preconceito, senão a de uma fachada para algo que eu sempre gostei de chamar de “Dois muquiranas, sovinas, desgraçados que adoram foder a vida dos outros à base de usura”. Mas é claro que eu nunca sugeri que modificassem a razão social do escritório para algo do gênero.

Não demorei a adquirir o know-how da vida empresarial dos meus empregadores e logo tratei de não me fazer de rogado. As pessoas nos contratavam para convencer os outros a pagarem. Conversa mole e call center não adiantariam. Sangue e alguns móveis destruídos, contudo, eram extremamente eficientes. Eu, um representante honrado da geração Y, preenchi o ideal da firma com a criatividade típica da minha geração. Era muito comum, por exemplo, que meus chefes acreditassem que somente a força bruta resolvesse tudo. Mostrei a eles, então, a eficiência do terror psicológico. Eu comprovei estatisticamente como fingir ser amigo do devedor, para depois subrepticiamente fazê-lo perceber a cagada que seria ficar devendo para nós, era extremamente eficiente. Tudo na base da palavra, da conversa que vai mexer com os brios do devedor. Pouco esforço, muito lucro. Isso evitava da polícia nos encher a paciência também.

Assim, um ano e pouco depois da minha contratação, eu já tinha liberdade para uns trabalhinhos solo, arrecadando a grana para os clientes e fazendo a fama da empresa. Na minha primeira “visita”, lidei com uma drogadita que se achava a esperta, capaz de enganar até a própria mãe. Ainda lembro daquelas olheiras fundas que marcavam seu rosto, as mãos ossudas. Ela tentou me enrolar com um papinho furado. Depois, vendo que eu não era otário, tentou negociar. Eu não estava lá para negociar. Resolveu reclamar, pois. Eu não era ouvidoria para receber reclamação. Xingou, então. Aí ela recebeu o primeiro tapa. Tentou me bater e levou mais alguns tapas. Chorou e tremeu. Eu a segurei forte, fiz ela olhar para os meus olhos de cobrador. Estava lá para cobrar. Falei da família dela, falei do que ela tinha para a vida dela. Falei da minha própria família, muito embora eu nem tivesse uma (apenas um pai que morava longe). Falei, enfim, que ela devia olhar para um espelho. Ela se calou e pareceu lembrar de algo, de alguma decência. Chorou mais um pouco, foi até um canto que achava ser seguro, onde escondia o que sabia que poderia precisar um dia (que finalmente havia chegado), de onde tirou um maço sujo de dinheiro. Drogada inútil, achou que me enganaria. Antes de ir embora, belisquei sua bochecha e sorri cretinamente, a fim de que ela se lembrasse que nessa vida, ou você é uma drogada ossuda e fedida, ou um cobrador eficiente, como eu era.

Eu poderia muito bem listar os trezentos e vinte e seis casos de cobrança que enfrentei nesses quinze anos de firma, coisa que muito me aprazeria, mas a verdade é que, como eu disse, eu era um cobrador eficiente.

Sinto-me um broxa aos trinta e cinco anos de idade.

Após quinze anos crescendo dentro da firma, a ponto de ver meu nome figurar entre os dois mãos-de-vaca na placa da sede, comecei a decair. Finalmente era um sócio! Mas um sócio broxa, incapaz de tirar um centavo que fosse de uma velhinha, ou um doce de uma criança inocente.

Acho que me esgotei, cheguei em alguma espécie de limite, uma porta fechada. Meu método talvez seja coisa do passado. Hoje em dia, diante de uma proposta minha, pegam o telefone e deixam o dedo em riste, pronto para discar 190, ou como outro dia, quando falaram de ligar para a imprensa. Os mais graduados já ligam logo para o advogado da familia. Eu sou bom no que faço, mas sou incapaz de superar um advogado.

Comecei a voltar de mãos vazias para o escritório. Os dois boçais me olhavam enviesados, como se eu tivesse defecado em cima da escrivaninha de mármore deles, e com muita cerimônia e várias meias-palavras não titubeavam em demonstrar como eu estava sendo prejudicial para a empresa. Nessa hora, cessava qualquer respeito, aquele puxa-saquismo de quando eu triplicava o faturamente da espelunca, e voltavam a me tratar como um moleque.

Gimenez, com sua pança e bigode que se anunciavam séculos antes que ele viesse a adentrar qualquer recinto, logo me ameaçava com uma redução no rateio dos lucros. Levi, por sua vez, o responsável por me mostrar como as coisas funcionavam no primeiro dia de trabalho, só balançava a cabeça, depois, muito sarcasticamente, tratava de fazer alguma comparação:

“Essa sua geração é muito precipitada. Bando de moleques. Acham que sabem tudo, não sabem bosta nenhuma. Não viveram qualquer guerra ou ditadura que fosse, não sabem o que é inflação, vivem no bem-bão desde bebês, como vão saber o valor do dinheiro?”, era o que ele despejava sobre mim, enquanto cofiava a barba negra.

Aqueles olhinhos negros dele caçoavam desproporcionalmente de mim. Agora eu era o garoto, o bobo que nada sabia fazer. De salvador da firma a peso morto. Quanta ingratidão.

Escrevo esse desabafo unicamente para me livrar do ódio que se apossou de mim ante a citação que recebi um dia atrás. Quando abri a porta e me deparei com o oficial de justiça, imaginei que a sensação dos meus acossados talvez fosse semelhante. Devidamente citado para responder a uma ação de dissolução de sociedade. Os dois velhotes me queriam fora. Eu tenho essa coisa, sabe, eu guardo meu rancor, a minha raiva, e depois passo pro papel. Elas podem ficar bonitinhas num pedaço de papel, apenas para efeitos terapêuticos. Apenas.

Mas eu me dei conta de que tenho um dom, sou muito grato a Gimenez e Levi por mo terem revelado. Não posso esquecer, contudo, que estou diante de dois trastes. Assim, essa caneta que me enerva, onde despejo minha bílis, me ajudou a tomar uma decisão.

Amanhã será um grande dia. Eu vou acordar, tomarei um suculento desjejum, dirigirei até o escritório e provavelmente assobiarei no trajeto, darei um tapa na bunda da secretária de vinte e dois aninhos a qual nem lembro o nome, entrarei na sala do Levi sem bater na porta e o convencerei a chamar Gimenez até sua sala. Vou olhar para os dois e fazê-los se sentar para me ouvir.

Eu terei um sorriso na cara e, apesar do desrespeito, do destrato e da citação, eles pensarão que eu sou um amigo, um bom amigo. Aquele jovem em quem sempre confiaram.

Então eu farei eles pagarem.

Um comentário:

Natália Oliveira disse...

Postado à 3:35 da madruga?! As noites tem sido longas por aí? Fora isso, dava quase um filme seu texto, mesmo. Consegui ver a cara dos três sujeitos, da drogadita, até do pai que morava longe... Bons textos sempre me fazem bem. Sempre. :)