14.12.11

O padrinho Lancelote

Tinha essa taça de vinho tinto, muito brilhante, eu não sei se era coisa do luar ou da minha cabeça, mas ela brilhava soberbamente. O minuano refrescava minha nuca, meu cabelo cacheado sempre me fez suar mais do que gostaria, mas de qualquer maneira eu divagava a respeito da cor do vinho, coisa que tinha aprendido com uma garota, quando percebi que eu devia ser realmente muito introspectivo para ficar pensando em tais coisas, e sozinho, numa festa de casamento. Eu ali, na sacada, entre a lua e o vinho e as pessoas dançando despreocupadamente na pista, lá dentro.

Posso estar errado, mas pouco tempo antes uma gordinha tinha passado por mim, rebolando dentro de um vestido apertado, eu a olhei de esguelha passando por mim, com seus tornozelos grossos. Era muito bonita de rosto e a essa altura eu já estava me perguntando se o fato de eu querer ir para a cama com ela era coisa do álcool ou um gosto novo muito democrático de alguém outrora esteta.

Ela não me olhou nem nada e por mais que me esforçasse mentalmente para fazer seus olhos repousarem sobre os meus, só o que consegui foi ficar entre a lua e a taça e pensar na cor do vinho. Depois disso eu fiquei pensando que talvez não sejamos muito diferentes, ou pelo menos eu, já adianto, daqueles cachorros que espreitam por entre nossas pernas e ficam nos olhando com aquela cara de abandonados. Será que minha cara era assim? Mas eu não queria, necessariamente, um pouco de comida ou afago, ou talvez quisesse, de maneira que não consegui concluir se existe de fato alguma diferença entre os homens e os cachorros. É provável que não.

Tive que segurar bem forte minha taça de vinho, pois por volta das duas da manhã, e era essa hora que eu refletia a respeito dos cachorros, o meu grande amigo me deu uma gravata, quase quebrando meu pescoço e me deixando desleixadamente desarrumado. Com isso ele queria dizer “eu te amo” na linguagem corporal masculina. O que é muito preferível a ver ele parar na minha frente e proferir com olhos lânguidos “eu te amo”, o que seria em absoluto muito estranho e um tanto quanto inaceitável pelas práticas morais das pessoas heterossexuais, dentre as quais me filio.

Ele perguntou “O que você está fazendo aqui fora, seu viado?”, e eu menti, enquanto arrumava milimetricamente minha gravata, falando que havia recebido uma ligação de uma mulher que estava comendo, ou fazendo amor, se seus olhos forem muito sensíveis ao que escrevo (mas isso estou falando a vocês, não ao meu amigo), enfim, uma comissária de bordo que veio da Argentina e tinha esbarrado em mim numa fila de aeroporto qualquer e com isso eu só queria provocá-lo, porque ele sempre quis ter comido, ou feito amor, com uma argentina, e muito embora nem soubéssemos como eram as argentinas, ainda assim ele queria uma delas.

“Ah, uma argentina”, ele disse meio intrigado.

“É, uma argentina, mas veja só, hoje você é o grande homem, você escolheu uma brasileira e agora as argentinas são só minhas”, retruquei.

E ele ficou olhando para o dedo anular dele, onde horas antes a agora esposa dele tinha enfiado sem lubrificante nem nada uma pesada aliança de casamento, enlaçando eternamente a vena amoris do meu dito amigo. Depois ele botou essa mesma mão no meu ombro e com muito orgulho disse que eu era o padrinho mais filho da puta que já existira na face do terceiro planeta contado a partir do astro solar.

Sem querer ou talvez por querer - deixo isso para Freud descobrir - , eu lembrei como eu invariavelmente detestava aquele cara. Eu não lembro bem porque alguma vez na vida o considerara meu melhor amigo, mas a inércia deu conta de perpetuar isso por mais de quinze longos anos, essa crença inabalável de que somos inseparáveis e que eu era algum tipo de Lancelote ao seu lado.

Ele se esqueceu, involuntariamente, presumo, que há treze anos atrás comeu, ou fez amor, com a minha ex-namorada, assim, como num passe de mágica, logo depois que a vadia, ou a mulher sem escrúpulos, me largou. É bem verdade que não estávamos juntos, mas ele devia saber de outra regra da etiqueta masculina: amigo não pega ex. Casos passageiros e espécimes deliberadamente passadas adiante são permitidas, mas ex, aquela ex lazarenta que faz o cara sofrer e tudo, essa é intocável. Se mulher de amigo é homem, ex então deve estar na mesma posição de um travesti que sai correndo pelado gritando “eu tenho gonorreia!” em meio a uma creche infantil.

De maneira que eu não sei ao certo porque mantive a amizade, ou o que aparentasse ser amizade, com o recém-casado. Não, mentira, eu sei sim, eu sou um mal-caráter. Não tentem gostar de mim, eu estou ao lado dele apenas para tomar vantagem em diversas situações. É, é isso mesmo.

O protocolo, contudo, me ordenou ser um padrinho correto e abençoar a relação dele com a imbecil que ele escolheu para ser mulher. É certo dizer que ela me detesta, talvez tenha cheirado algo de ruim na minha amoralidade que, combinemos e falemos bem baixinho a partir de agora, eu deixo em segredo aqui com vocês, somente vocês, não espalhem!

Enquanto conversávamos sobre todas as bucetas, ou os órgãos genitais femininos, que ele deixaria de conhecer a partir daquela noite, os participantes da festa começaram a nos chamar para voltar à bagunça. Estávamos quase naquele ponto onde algum bêbado coloca a gravata na testa e começa a constranger a tia mais puritana da noiva, e eu cheguei a pensar mesmo que eu gostaria de estar em qualquer outro lugar a permanecer ali, dali eu levaria somente a minha taça e o meu vinho tinto soberbo.

Antes de entrarmos e dançarmos com alguma quarentona, ele me parou e me deu um longo abraço sentimental e falou por uns sete minutos sobre o quão importante eu era para ele, quase um irmão, sempre mostrando o caminho correto para ele seguir, que eu era extremamente imprescindível na sua vida, e que um homem só seria completo se tivesse uma boa mulher, um emprego decente e um amigo verdadeiro. Ele fez um longo discurso sobre como eu tinha tornado os dias da faculdade dele mais agradáveis, como era maravilhoso que eu o tivesse indicado ao atual emprego, e creditou a mim até mesmo o fato de ter conhecido a megera da mulher, coisa que eu não consegui encaixar na ordem dos fatos.

Dei uns tapas na bunda dele e disse que a sorte de tê-lo como amigo era minha, completamente minha…

Ele entrou no salão novamente e eu quase o ia acompanhando, porém por outra porta uma negra de lábios carnudos acabara de entrar, estava procurando o cigarro na bolsa, magra e deliciosa como um felino; percebeu minha presença e olhou curiosa para os meus olhos meio bestas. Olhou direto.

Ela sorriu para mim com grandes dentes brancos, eu sorri de volta. Não dancei aquela noite, não em pé.

2 comentários:

estevan sem metafísica... disse...

porra. não me lembro de ter achado um texto tão legal nesse blog... está franco e mal humorado.

joao disse...

curti, velho! principalmente o
Se mulher de amigo é homem, ex então deve estar na mesma posição de um travesti que sai correndo pelado gritando "eu tenho gonorreia!" em meio a uma creche infantil.

ahuahuahua