6.12.11

Uma crônica de cinco anos

Se por uma brincadeira do destino ou por um tremendo avanço tecnológico eu pudesse, apenas hipoteticamente, voltar ao passado e me deparar com o garoto de 18 anos -  no caso, eu mesmo -  que pisou pela primeira vez em Londrina para cursar ingloriosamente Direito, eu não perderia tempo me aconselhando sobre as melhores matérias a estudar, sobre como conseguir as mais amáveis garotas ou sobre as festas mais infames, eu apenas daria alguns tapinhas em minhas costas e diria com tom superior, “meu amigo, você vai mudar pra caramba”.

Escrever cinco anos num único texto curto e que faça jus a cada experiência vivida por mim nesse tempo de universidade é talvez uma tarefa impossível, por isso eu gostaria de focar nessa diferença dos olhares.

Aquele rapaz de 18 anos chegou em Londrina tendo deixado para trás um namoro intenso, os melhores amigos e, obviamente, a família. Ele achou que ia se deparar com um local de debates e ideias e experiências das mais sórdidas. Bem, ele encontrou, mas ainda assim ele ficou meio decepcionado.

Esse rapaz tinha um olhar acelerado, atento, que clamava por parâmetros, já que ele não possuía nenhum num lugar onde era tudo novo. Meio perdido, ele ficou muitos meses indo de lá pra cá procurando onde morar, foi assaltado na primeira semana residindo na cidade e, quando chegou em casa tremendo, descobriu que a namorada, a que tinha ficado na cidade-natal, tinha terminado com ele por e-mail.

Esse rapaz não imaginou que o inverno podia ser tão frio nem que fosse tão difícil achar amigos como os que ele tinha onde morava antes da faculdade. Ele descobriu que pagar conta é de fato uma mágica e que lidar com os problemas alheios não só é um bicho de sete-cabeças quanto também é terrivelmente necessário.

Ele se apaixonou um milhão e cinquenta e cinco vezes, aproximadamente, e demorou demais para aprender, ou talvez ainda esteja aprendendo, que Londrina, de fato, tem uma mulher bonita a cada três metros caminhados.

Ele já sabia sobre o álcool, vou pular essa parte.

Mas ele ficou contente com a sua turma. Heterogênea, no mínimo: pessoas engraçadas, pessoas sérias, pessoas debochadas, nerds, playboys, outros mais pé-no-chão, uns rockeiros, outros peões, alguns ambiciosos e também uns que se despreocupavam sobre o amanhã. É bem verdade que foi duro para ele ter visto a pessoa que ele achou que seria a sua melhor amiga para o resto da vida ir embora assim, sem muita cerimônia, para outra universidade mequetrefe, mas, se tem algo que ele aprendeu, é que a vida pode ser uma bosta às vezes, ou frequentemente, ou quase sempre, bem, ele aprendeu algo, ao menos.

Nessa turma ele teve a chance de um recomeço e fez isso valer a pena. Riu, se divertiu, fez amizades, aprendeu, desaprendeu e guardou as mais variadas experiências. Por uma conversa boba no dia do trote, ele acabou fazendo dois grandes amigos por todo o resto do tempo do curso e, por que não, para a vida.

Demorou muito tempo, é verdade, para que ele se sentisse realmente acolhido. Mas, quando se sentiu, bem, aí ele pôde escrever esse texto. Diferente do olhar atroz do garoto de 18 anos, o olhar desse que agora escreve é um olhar de quem sabe que as coisas mudam e que o tempo existe para agregar, não para destruir.

E não é por um clichê que eu falo que esses cinco anos foram os melhores da minha vida. Bem, muita merda aconteceu nessa época. Brigas, notas baixas, desentendimentos, frustrações, o fim de um namoro que, mesmo a contragosto, eu julgava que era coisa pro resto da vida, bem, dá para listar uma porção de coisas ruins, assim como, proporcionalmente, eu posso enumerar diversas situações maravilhosas.

Não é o número de coisas boas ou ruins que definem esse quinquênio como especial. É o fato de, perceptivelmente, eu ter sentido na pele cada vivência, cada experiência, cada choro ou risada, amor ou frustração, é ter abraçado os amigos e ter colocado os inimigos nos seus devidos lugares, é ter aprendido tudo sobre uma cidade tão diferente quanto Londrina, suas ruas, seus prédios, sua terra vermelha, além de ter respirado aquele ar da UEL, puro e que deixará saudades, é ter visto os raios de sol entre as árvores do calçadão, reclamado das salas do CESA, comido o almoço do RU, xingado o preço do salgado do Pinguim, é ter brigado por nota, ter estudado muito ou ficado com preguiça de ler mais uma linha de juridiquês.

Enfim, eu me perderia em lembranças inúmeras se eu apenas não concluísse que eu tive o melhor período da minha vida, até agora, porque percorrendo cada segundo desses últimos cinco anos eu posso dizer: eu vivi tudo isso.

2 comentários:

Helena disse...

E tudo isso fez vc se tornar a pessoa que é hoje...
Contudo, desejo que tenha ótimas recordações, mas de forma alguma, saudades.

Bjos.

re disse...

"Você terá vida longa, está escrito na linha da sua mão". Não demora muito, irá descobrir que este foi o menor período da sua vida.
Vida longa, grande e intensa é o que desejo para vc.
bjs.