31.12.12

Clint Eastwood não gosta da Geração Y

Uma geração de homens criados por mulheres. Crescem paparicados, cheios de amor e ternura. São compelidos a buscar um amor incessante, insaciável, de um seio que nunca realmente abandonaram, de onde nunca largaram suas bocas sugadoras. O mundo está tomado por mimados.

Os homens de hoje ousam. Quando erram, choram e buscam a saia de uma mulher, a que estiver mais próxima, tanto faz se é branca, negra, ruiva ou japonesa, para que possam ter reafirmados seus valores mais frágeis. Se não conseguem, esperneiam. São frustradinhos. Esse é o mundo em que vivo.

Eu também cresci cercado por mulheres, aprendendo seus valores e ganhando seu afeto. Sabendo seus cheiros e suas vozes. Cresci sendo amado, adorado, idolatrado. Isso não foi ruim. Não é ruim se você é criado por um bando de leoas. Os leões são matriarcais, isso são. A juba é só pose, quem caça e manda é a leoa.

O maior desafio para cada humano macho adulto é a conquista da fêmea. Que se dane a carreira profissional, a independência financeira ou o crescimento pessoal. Isso está garantido se ele não for um tapado. Sonhamos sempre com a próxima boceta. Só isso. Não existe maior desafio, aquele da conquista. Isso é tudo o que resta nessa vida social-democrata de "fim da história".

Percebi que existem muitos homossexuais. Mais que existiam antes, mais que existiam anteontem, e mais ainda dos que vi ontem. Estão trabalhando no shopping, nas lojas, nas oficinas, no escritório. Estão em todos os lugares. Somos uma geração criada por mulheres.

Minha mãe disse que a grande tendência é os homens ficarem com os homens e as mulheres ficarem com as mulheres. As coisas se bagunçaram. Os referenciais de Jung já parecem não valer porra nenhuma. As mulheres são homens acabados. Arrotam, cospem e coçam um saco que só existe na cabeça delas. Coitadas.

Os homens são piores. Descobriram que podem ser sensíveis. Choram e assistem novela. Vão à pedicure e acham que com pêlo na bunda nunca vão conquistar uma mulher. Somos uma geração criada por mulheres.

Dia desses entrei em uma loja de ferragens e percebi que sou de uma geração criada por mulheres. Lá existiam ferramentas, muitas delas. Chaves de fenda, philips, atlas, alicates, válvulas, espelhos, padrões antigos e novos, esmerilhadeiras. Falavam de amperagem e disjuntores. Eu não sabia o nome de nada disso, tive de pesquisar no google. Eu não sabia o nome de nada. O vendedor olhava para minha cara e eu fazia mímica para me fazer entender. 

"Boa tarde, posso ajudá-lo?", ele perguntou, polido. "Sim, eu quero aquilo ali". "Aquilo ali o quê?", ele questionou, já percebendo que eu não era macho porra nenhuma. "Aquela coisinha ali. Aquela coisinha com a pontinha assim e o buraco tal".

Eu regredira em termos comunicacionais. Involuíra a ponto de me comunicar com gestos, já que a palavra me faltava. Parecia um retardado tentando explicar algo que representa o ápice da razão humana: a ferramenta. A pedra e o osso na mão dos macaquinhos são de maior valia que os gestos mudos da minha ausência de habilidade. Eu não aprendi a ser o homem que outros homens já foram. Há um vazio entre gerações, um vazio que faz falta a esses homens de muitas mães e poucos pais.

Então eu decidi que eu precisava saber o nome das ferramentas e me parecer mais com o Clint Eastwood. Passei a portar uma carranca no lugar da cara e a me importar menos com a histeria feminina. "Nunca leve uma mulher a sério", ouvi alguém dizer. Achei bonito e comecei a colocar em prática. Mas essa é outra história e eu não estou a fim de dar muito valor às mulheres nesse texto.


Quando a chance de ser um macho provedor chegou, eu não tive dúvida. No banquete de fim de ano, para saudar o ano novo que chega, a família precisava de algo para se alimentar. Eu, como um homem à la Eastwood, provi. É isso que um homem faz, ele provê. Então comprei um grande e suculento pernil para todos. Para a família, a base da sociedade. Eu. Eu provi. Eu, com o meu dinheiro. Com o dinheiro que vem de uma geração criada por mulheres, essa geração que gosta de especulações de alto risco. 



O pernil... Queria tê-lo caçado. Queria tê-lo matado com as minhas próprias mãos, assim ninguém veria fraqueza no homem, porque é isso que um homem faz: ele mata e provê. Ele impõe e protege.

No entanto, ninguém entende isso. O pernil é só um prato, as ferramentes são só engenhocas, e os homossexuais são só homossexuais. O homem agora é um perdido: não pode ser o que foi, não sabe ser o que é e não tem ideia do que será. Nesse mundinho bagunçado, gênio é o brega, que com muita simplicidade já cantava a bola: "Homem é homem, menino é menino, macaco é macaco e viado é viado".

29.12.12

Manual sobre como superar um grande amor

O casal entrou no café. Não eram um casal no sentido romântico que a palavra evoca, senão dois amigos de longa data: um, homem, a outra, mulher. Sentaram-se defronte um doutro. Ele pediu cappuccino italiano, desgostoso que era das adaptações tropicais. Ela, por sua vez, ordenou uma soda italiana, por nenhum motivo específico, exceto que a aprazia. Então, concedendo a licença requerida pela garçonete, e percebendo-se a sós com ela, ele principiou a falar.

- Bárbara, devo agradecer novamente que tenha aceitado o convite. Realmente preciso da sua ajuda.
- Dá para ver que não anda bem, Lucas. Aliás, você está péssimo!
- Não durmo há três noites.
- E o que aconteceu?
- Sério? Você não está sabendo?
- Não... aconteceu algo sério?
- Terminei com a Ale.
- Ah...
- É...
- Poxa, achei que fosse algo mais sério.
- É sério! É seriíssimo! Como ainda não sabia disso tudo? Não tem acompanhado meu perfil?
- Estou por fora, desinformada. Quase não entro na internet, só para checar meus e-mails e fazer algumas compras...
- A coisa é séria sim. Você pode ver meu estado. Estou sofrendo.
- Claro que está. Essas coisas são assim mesmo. Você sabe, relacionamentos humanos.
- Bem, é o ponto. Você sempre me pareceu tranquila com a vida, eu nunca a vi sofrer com essas... com essas coisas.
- Levam-se alguns tombos até aprender essa arte, meu querido.
- Eu sei, e além disso, você não tem qualquer tipo de contato com a Ale, o que me faz confiar mais em você para encontrar um jeito de sair dessa. Eu sei que você é assim. Sempre presente na hora de ajudar. É razoável, ponderada, sensível. Você é perfeita para me ajudar.
- Eu sou?
- É.
- Como vocês terminaram?

Lucas e Alessandra eram um casal no sentido amoroso, deveras. Um namoro meteórico, de cinema, com beijos longos, pais atentos e escapulidas bem orquestradas. Durou da adolescência até aquela idade onde se pensa que é adulto. Mas não é. O amor chegou ao seu ápice por volta dos 23 anos de Lucas. A paixão atingiu o zênite antes, aos 19. A paixão morreu aos 20, com os apelidos carinhosos e a monotonia, inimiga das aventuras e irmã do cotidiano. O amor morreu aos 25, quando Alessandra se encantou com o sorriso de Marcel, dito Celinho. Ela quis experimentar o beijo de Celinho antes de terminar com Lucas, como se pretendesse contrapor o frescor de uma nova paixão à segurança e comodidade de um primeiro amor. Quando se extirparam as dúvidas sobre as habilidades de Celinho, Lucas foi convidado a se retirar da vida amorosa de Alessandra.

- É, eu sou mesmo perfeita para te ajudar, sentenciou Bárbara, indignada.
- Claro que é.
- Você obviamente está em maus lençóis, meu amigo. Vou ajudá-lo.
- Sim!
- Você terá de aprender algumas regras básicas.
- Escuta, eu já conversei com meio milhão de pessoas sobre a Ale. Nossos amigos, bem, cada um diz uma coisa diferente e isso me deixa perdido. Um diz: reatem! Outros: larguem de vez! Para alguns, tanto faz. E quanto a você?
- Aí está o primeiro erro. Amizades em comum, nesses momentos, são como tias solteironas dando conselhos sobre como você deve proceder no seu casamento. Coloque essas pessoas na geladeira por ora. Elas estão envolvidas. Muito envolvidas! Algumas estão pensando em como você ficará melhor solteiro, seja para dar em cima de você ou ter alguém com quem sair de sexta-feira. E os que te querem namorando, podem estar apenas querendo companhia nos encontros de casais ou só o colo do casal legal nos momentos de carência. Alguns podem querer seu bem, mas é mais fácil crer no egoísmo de cada um, não?
- Bem, você tem razão, eu percebi uma certa parcialidade em alguns deles. Foram muitos pitacos. Alguns, mesmo eu nada perguntando, já se apressavam em dizer que ela está bem, ótima, que está apaixonada por um tal de Marcel, isso é odioso.
- Afaste esses. Você não precisa dessas versões de Nelson Rubens fofocando sobre cada detalhe inútil da vida da sua ex. Esses gostam de te ver em agonia. Serão realmente seus amigos?
- Não creio... é que eu penso tanto nela que qualquer notícia já me põe em alerta.
- Não seja bobo, Lucas, pensar nela não vai adiantar nada. O que seria de um viciado em crack na rehab se ele dedicasse cada pensamento seu às queridas pedrinhas? Dá para imaginar. Você não pode dedicar sua mente à Ale, Sr. Lucas.
- É difícil quando o rosto dela surge o tempo todo na minha rede social, não dá para segurar, eu acabo olhando tudo. Eu sei, sou idiota, não me controlo!

Bárbara ia se desesperando com a autocomiseração de Lucas quando procurou afastar o desânimo meneando a cabeça.

- Não, não, não! Deleta essa bosta, dá um tempo, sei lá, mas não investiga a vida dela na internet. O mesmo viciado em crack que quer largar o vício não fica visitando o mocó para ver como andam seus amigos viciados, quantas pedras restaram ou o que o traficante anda compartilhando ou curtindo.
- Mas...
- E, por Cristo, não me fale que ligou para ela bêbado.

Lucas puxou a gola, suando.

- Bem...
- Me poupe dos detalhes. Ela deve ter sentido, no mínimo, piedade ante isso. Francamente, Lucas.
- Falávamo-nos todos os dias!
- E agora você não vai falar nenhum dia. Ou vai falar só uma vez por ano, para desejar feliz natal ou aniversário. Acabou e pronto. Você sabe que é o fim. Ou vai querer virar o amigo gay, pronto para qualquer conversinha? Talvez ela conte sobre o comprimento do pau do Ricardão ou, como ele chama mesmo? Amaral?
- Não exagera, Ba. Eu não quero pensar nisso. Na real, não quero pensar nada sobre a Ale, nem um pouco.
- Você não tem como jogar fora o seu cérebro, então vai precisar ocupar esse seu cabeção com outros pensamentos ou praticar algumas atividades. Você continua compondo?
- Não consigo mais me concentrar, sei lá.
- Aproveita o momento! A fossa é a melhor das inspirações! Você pode ver, dos corações partidos surgem as melhores canções, veja só o caso do Lupicínio Rodrigues. Quem sabe você não acaba fazendo sucesso? Se até as gordinhas conseguem, por que não você? E também pode ir malhar, e pegar uma cor. Você está parecendo um vampiro raquítico.

Lucas olhou com olhos de peixe morto para os próprios braços.

- Eu sei, estou trabalhando nisso. No entanto, repito, é difícil. Eu pego um lápis e lembro que foi ela quem me emprestou. Toco o violão e lembro das noites em que tocava só para ela. Eu tomo água e lembro dela. Respirar me faz recordar dela!
- Junte todos os presentes, as cartinhas, as coisinhas, enfim, todos os objetos que minimamente possam te fazer se lembrar dela e...
- ... jogo tudo fora?
- Não. Guarde-os. Em um local escuro e pelo qual você só esbarre uma vez a cada dez anos, quando decidir limpar mais a fundo algum cômodo. Será uma lembrança e uma lembrança amarga, cuja finalidade será mostrar a você que as pessoas mudam, que não dominamos o outro, que tudo que é ótimo pode decair. Vai servir para te alertar e te prevenir a encarar melhor o próximo desafio. O próximo amor.
- Parece algo bom de se tentar...

O sorriso triste estampado no rosto dele fez Bárbara sentir algo dentro de si.

- Lucas...
- Oi?
- Fique longe dos apelos. De todos eles. O álcool vai te deixar estúpido. Drogar-se por causa dela parece dramático demais. Não vai ficar batendo punheta com vídeo da internet também, isso é patético.

Ele não pôde evitar de esgarçar a boca.

- Ah! estou vendo um sorrisinho aí, estou sim! Seu punheteiro!

Agora ele abria a boca e mostrava os dentes, coisa que não fazia há meses.

- Brincadeiras à parte, mantenha a sanidade e a cabeça ocupada com coisas úteis. São nesses momentos de dor que você deve se conhecer, se analisar, saber seus limites. Entender o que você acertou e o que você errou vão te tornar uma pessoa melhor, já que a culpa nunca é exclusiva, você deve ter errado com essa garota também, em algum ponto. Para se gostar, você precisa se olhar no espelho e entender que você é maior que tudo isso. E só se gostando para que outra pessoa goste também de você.

Eles ficaram uns segundos em silêncio e então ela arrematou.

- E tudo isso leva tempo. Tempo é a chave de tudo, Lucas.

Nesse ponto, a soda e o cappuccino já haviam findado, os copos soltando pesadas gotas de água sobre a mesa de madeira. Pagaram a conta e passearam caminhando pelo bairro iluminado. A casa dele era mais perto e ela não era mulher que se deixava acompanhar por cavalheirismo. Eles riam cobertos de sinceridade, gozando a companhia benfazeja um do outro, naquela noite de tempo morno e terno.

Ele estacou na portaria do prédio, já subindo um degrau, enquanto rodava o molho de chaves na mão esquerda. Voltou-se. E revirou-se, subindo mais um degrau, atrapalhado. Depois volveu novamente, assegurando-se de que ela ainda não se fora e estava ali, a encará-lo. Ela, Bárbara, a amiga. Razoável, ponderada e sensível.

Então olhou demoradamente as horas no relógio e propôs:

- Quer subir um pouco?

20.12.12

O mundo dos anônimos

Com as bolsas ao redor do mundo reproduzindo quedas após quedas, e se mantendo nessa atividade depressora de maneira sádica, com o Welfare State indo pelo ralo na maioria dos países dito desenvolvidos, com fome, miséria e suicídios sendo noticiados cotidianamente, uma ideia surgiu, em algum lugar, de alguma forma, e os revoltados passaram a expressar sua angústia “ocupando” um espaço público, exigindo, demandando, sem saber bem de quem. Não era um grupo político, econômico e muito menos terrorista. Eram pessoas comuns, tão díspares entre si quanto um advogado pode ser de um pedreiro, mas se orgulhavam de ser a voz dos 99%. Os 99% desprovidos da riqueza do 1%.

Esse evento se espalhou pelo mundo. Do Occupy Wall Street, chegamos a ter, e falo agora por uma voz regionalizada, o Ocupa Londrina, que de motivação econômica nada tinha, mas procurava parar as bizarras intervenções urbanísticas num bosque localizado no centro da cidade.

Esses “standers” são todos anônimos. O mundo é agora dos anônimos. Ninguém mais possui a força necessária para ser um rosto e um corpo, uma presença física ou imagética que forneça um pensamento para as pessoas, como o foram o construído Jesus Cristo, Che Guevara, Mao Tsé-Tung, Ayrton Senna, Lula, Mandela, entre outros. O mundo está fraco e um mundo fraco não tem corpo físico para se sustentar, para inspirar algo nos demais.

Diante disso, o mundo ficou anônimo. Não há escritores que prestem, mas todo adolescente tem um blog onde destila seu talento. Os muros estão todos pichados com mensagens contra o capital, contra a obrigatoriedade do voto, contra a violência praticada em âmbito doméstico, contra a opressão e até mesmo contra a fugacidade das relações promíscuas. Mas quem os pichou?

“Quem vigia os vigilantes?”, ironizava o muro da faculdade, anos atrás. Mas quem vigia aquele que ironiza os vigilantes? É um anônimo. Desconhecido, inimaginável, ininteligível. Ainda assim, ele foi como as ideias.

A ideia é anônima por sua natureza, surge em nossa cabeça quando menos esperamos, sem face nem voz, apenas um estalo, seguido daquela euforia própria da autoria. E quem disse que a ideia é nossa? A ideia é coletiva, porquanto sejamos um animal social.

E tão logo conseguimos apreender que a ideia é de todos, e não de nosso profundo umbigo, notamos que a vida se estabelece num ambiente coletivo, partilhando uma consciência que age individual e coletivamente.

Não é difícil pensar, sob esse ângulo, que a vida em sociedade reproduz nossa estrutura psíquica mais básica, consistindo em um aspecto consciente (estudo, trabalho, produtividade, consumo, etc), um aspecto repressivo (leis, moral, polícia, etc) e outro aspecto, esquecido e abandonado, que consiste justamente no surgimento desses elementos urbanos que nos cercam, que não sabemos de onde vêm, como surgem, mas que estão sempre presentes, toda vez que fechamos nossas pálpebras e deixamos o mundo escapar de nossas mãos por apenas um segundo. São as pichações, as festas que ninguém sabe quem organizou, os acidentes e incidentes que surgiram pela manhã, os acontecimentos inexplicáveis, entre outros.

Com o mundo demasiadamente cansado, tirando férias de si mesmo por mais tempo do que devia, surgiu o anonimato, este que poupa energia desnecessária ao peso do nome e age nas sombras, escondido dos excessivos olhos que nos cercam.

A quantidade de olhos, naturais e artificiais, que são postos sobre nós, também explica que os anônimos queiram dominar este planeta. Um mundo onde cada rosto equivale a um R.G., a um CPF e a um cadastro junto ao SERASA precisa, por óbvio, de um rosto sem face para não se calar. A voz vigiada é a voz sem potência. O escritor que se deixa conhecer é aquele cujo livro o vestibulando não precisa ler para acertar a questão na prova. É uma voz morta nas entrelinhas.

No mundo anônimo, a consciência (coletiva) se firma sem orientação alguma. Relações sociais, religião, economia, História, tudo se funde e desaparece, como se fugissem de responsabilidades milenares. As estruturas, fracas e complexas, ao invés de burocratizarem o mundo e torná-lo inteligível, acabam por reproduzir o caos natural, num malfadado simulacro, por demais artificial e insensível, que deixa a todos perdidos e desesperados. Por assim dizer, cada conduta de cada indivíduo (anônimo) é pautada de forma egoísta, não no sentido liberal, mas na tentativa de resgatar um pouco da ordem que outrora (e da qual ninguém se lembra) imperou.

Não obstante essas ponderações, o mundo anônimo está fadado ao fracasso, haja vista nossa necessidade primal de se esconder do estranho, do desconhecido. Os eventos anônimos, como as pegadas feitas com tinta branca caminhando por mais de cinco quilômetros em Londrina, são raciocinados e armenzados num canto esquecido de nossos cérebros, dada nossa incapacidade de torná-los inteligíveis. Viram uma referência usual, incapaz de sustentar a reflexão que buscaram causar no seu momento primitivo.

O anonimato perdeu sua ousadia de tempos antigos, quando representava revolta, incômodo e elegância, para se tornar uma parte grande demais, visceralmente ligada a todos os outros componentes do mundo, razão pela qual sem o anonimato, cairíamos na pior das pasmaceiras e seríamos autômatos, socialmente falando. O anonimato se tornou um ativo do capitalismo, uma ação para o socioólogo estudar e mais uma notícia estampada nas capas dos jornais que estão para falir.

Crente de que as ideias ainda voltarão a ter um rosto e um corpo, eu resisto ao mundo anônimo e divulgo meu nome, para que ele seja lembrado e refletido, raciocinado e divulgado, mesmo depois que o mundo for mais caos que ordem, e ninguém mais lembrar quem é que vigia quem: Victor Hugo de Araujo Barbosa.

18.12.12

Estilo de vida

mudanca

Vida de cigano. Eu bem que esperava poder acender uma fogueira no meio dessas caixas e dançar e beber a noite inteira. Ver as saias bailarem e os cigarros baratos serem arremessados em meio à balbúrdia da música acelerada. Acordar em meio à sujeira e descobrir-me com a maior das ressacas, nos braços de uma mulher gorda e calorosa. Pelo menos assim é que eu imagino que um cigano de roupas coloridas viva. Mas eu só resido em meio à bagunça, e me dei conta que os ciganos não são tão “errados” assim. Errar é bom. É instrutivo. Errar de errante, já que eu detesto errar de errado.

Disseram-me que eu tenho vida de escritor nova-iorquino, decadente e apreciador das coisas igualmente decaídas. Deve ser verdade.

Veja só o estado deste computador. Está amassado, quebrado, estronchado e desmontado. Absolutamente em nenhum ângulo – e eu já procurei olhar de todos - é capaz de lembrar um computador em sua forma original, e no entanto, eu não dou a mínima. O computador quebrou e eu não dou a mínima.

Eu quase me deixei consumir. Quase quis comprar o sofá com o tecido que não esquenta e amacia sua bunda com a mesma delicadeza com que se trata a dama (aquela que você quer trepar). Em algum momento, eu lembro, fiz questão de adquirir um quadro expressionista para impressionar os visitantes. A cor do receptáculo do detergente já foi uma preocupação real. E uma olhadinha na Casa Cláudia pode trazer alguma ideia inovadora. Ah eles vão amar.

E apesar disso tudo, quando dentro das caixas, e não fora, em cima, do lado ou em baixo, essas coisas perdem completamente o sentido, assim como tudo o mais. As maravilhas que as caixas de papelão fazem para não ir parar nos montes dos catadores de recicláveis. Um pouco de fita crepe e, voilà, minhas posses (e um pouco de mim mesmo) foram encaixotados, empilhados e esquecidos. Não sem antes passarem pelo rigoroso registro da caneta atômica.

No espaço livre acho que meu cérebro se expandiu um pouco mais. Deve ser a vista alta e os móveis ainda jogados aqui e acolá. Talvez tudo só sirva para realmente acender uma fogueira. Embora eu devesse seguir o conselho da imobiliária e fazer um seguro contra incêndio, que mal teria um pouco de histórias de terror ao redor de uma fogueira? um pouco de dança em volta do fogaréu? um pouco de marshmallows? um charque não faria mal a um boi sequer. Eu não tenho mesmo um fogão, só combustível. E eu não dou a mínima para isso.

Acho que aquele sonho antigo de destruir o computador foi realizado, pela via transversa.

Mudanças, dizem, são o prelúdio de algo, ainda maior e mais vasto. Que perda de tempo. Sempre que vemos um espaço vazio, procuramos preenchê-lo. Por que precisamos preencher o vazio? Por que não esvaziamos o espaço cheio? Que implicância temos com o zero e que amor temos pelo um milhão.

Preenche e esvazia, empacota e desencaixa, lacra e rompe. Sobe e desce! Vou tentar não me esquecer que o espaço vazio é preenchido pela nossa mente cheia de … (preencha a seu critério).

Uma mente de escritor cheia de nova-iorquices decadentes. E eu não dou a mínima para isso.

18.11.12

República de homens e ratos

ratoBem no começo eu pensei que Aline fosse a mulher da minha vida. Simples assim mesmo. “Aline, o amor da minha vida”, tenho certeza que foi isso que meu cérebro pensou em algum instante entre o momento em que a vi e o momento do primeiro beijo, aquele que sela as nossas escolhas amorosas. Ela vestia botas pretas e camiseta rasgada até um pouco abaixo dos seios. Tinha uma pinta perto da boca e uma bunda que pelas proporções métricas se adequava perfeitamente ao tamanho da minha mão. Eu não ligava para os peitos pequenos dela, se é que essa foi a preocupação de alguém, em algum momento.

Aline estudava Letras, tocava violão, tinha um labrador, lia Guy de Maupassant e falava palavrão. Pela ordem de preferência em que eu analisava suas qualidades, casaria com ela no mesmo dia em que a conheci, se a garota consentisse.

Aline só tinha um problema: trazia enraizada em si todos os valores da classe média que a criou. Não é por mal que o digo, mas era filha de advogado com decoradora.

O sonho de Aline era visitar Veneza. Quando completamos três meses de namoro, após transar comigo no sofá da casa de sua melhor amiga – que fora comprar cigarros – , ela jogou a isca, esperando que o grande peixe mordesse o anzol:

- Imagino um dia a gente junto, meu amor, viajando pela Itália, quero conhecer Veneza, passear pelos canais, entrar nos museus, sentir o ar da História, jogar uma moeda para um gondoleiro… o que você acha?

Aline era católica e rezava para Deus e Jesus todo Domingo. Nas eleições votava no PSDB porque não gostava nem da Direita nem da Esquerda e não queria se envolver com “esse povo”. Dizia a si mesma que precisava virar vegetariana e tomar uma taça de vinho todo dia. Um dia brigou comigo porque eu discordara de uma matéria da Veja.

Com o tempo, eu percebi que as botas e a camiseta rasgada embaixo dos seios eram só uma cópia de um modelito que ela vira nas páginas da Marie Claire. De rock, ela conhecia o Legião Urbana e o Capital Inicial, para ela bastava. O Guy de Maupassant era mais a lembrança de um nome que abria portas entre os cultos que uma paixão indissociável de seu criado-mudo.

Eu disse para ela o que eu achava:

- No futuro, Veneza irá sumir. A cidade enfrenta suas piores enchentes. É uma cidade que olha para o relógio e sabe que sua hora está chegando.

Aline vivia uma sensação de injustiça gritante. “Esse governo aí”, dizia ela, “é só privilégio, privilégio, privilégio… tudo o que sabem é dar privilégio, cota, bolsa. Se você é preto e pobre, tá feito, vai se dar bem. Se é branco e paga imposto, tá fudido”. Um dia, ela me alertou para uma ameaça comunista. Algo como a companheirada está tomando geral, coisa assim. Creio que ela falou em República Sindicalista. Aline adorava pregar o amor ao próximo, o fim da discriminação, mas bem que eu sentia ela se encolher em meus braços toda vez que um mano passava perto de nós. Várias vezes a ouvi dizer “Graças a Deus não tenho porte de arma”.

Veneza e seus canais. Que bela cidade. Mas cá entre nós. Tenho comigo que as cidades antigas são cheias de ratos. Quando a água começa a subir, acredito que nem mesmo os ratos, que são exímios nadadores, aguentam muito tempo mergulhados no caos. Só aguentam o tempo necessário para encher a água com a ameaça da leptospirose. Como todo mamífero terrestre, eles emergem. Quando 70% da bela Veneza está sob a água, e resta 30% de espaço para todos os seres humanos, como acomodar os ratos entre os seres pensantes?

Quando Veneza submerge, vira uma cidade de homens e ratos. Será que coexistem? Será que contratam gatos? Ou chamam o flautista? Não creio que os ratos, como uma classe de notável saber, fiquem parados, esperando a primeira reação dos humanos. Provável que possuam um sindicato. Dois ou três, quem sabe, o que depende do nível de consciência social e isso varia de roedor para roedor. Em suas assembleias, os ratos expõem e discutem seus problemas: “A cidade está tomada pela água! O que fazer com esses humanos?! Eles trancam seus armazéns, suas despensas, seus armários, onde está a comida?!”.

Bem penso ser inviável a contratação de algum exterminador de humanos por parte dos ratos. Acho que em sua simplicidade de roedores, só lhes resta torcer por uma melhor distribuição de comida, restos, lixo. E, claro, menos vassouras, venenos, ratoeiras! Eles detestam a política de queijo e roda.

Em homenagem ao meu grande amor, eu deixei crescer um longo e espesso bigode. Quando ela não olhava, eu mostrava a ela os meus dentinhos sarcásticos e roía em silêncio um suculento pedaço de queijo. Desilusão é um assunto funesto para um rato. Veja bem, um rato sempre procura o lado bom das coisas, afinal, não é simples viver entre a sujeira e correr o risco de tomar vassourada por aí. Eu posso ter me apaixonado por uma Veneza, de bunda farta e pinta na boca, mas eu acabei com uma República de Homens e Ratos, engalfinhada em ratoeiras mesquinhas e traiçoeiras. Sorte a minha.

25.10.12

Elo(s)

Todos têm uma tupperware em casa. Não é bem o nome do recipiente de plástico vagabundo que você comprou no supermercado da esquina. Mas todos chamam de tupperware. Todos têm uma tupperware. Muito provavelmente mais de uma. As pessoas guardam alimentos em suas tupperwares. Aquela cebola cortada ao meio, não utilizada no bife acebolado. Dentro da tupperware ela rende mais alguns dias. Na geladeira, claro. A tupperware conserva os alimentos, isolando-os do ambiente externo. Na geladeira, claro. Com a tupperware, o conteúdo fica isolado, hermeticamente isolado, claro. Nossos alimentos. Isolados. Conservados. Prontos. Fechados. A cebola, o patê, o molho, o arroz, a almôndega, claro.

E eu pego o professor explicando:

“O procedimento do pedido de falência é definido a partir do artigo 94 da Lei n. 11.101/05, a petição inicial com o pedido de falência do devedor será apresentada no foro do local do principal estabelecimento do devedor, o centro nervoso da empresa, pois, é que definirá o juízo competente nesse caso. Os legitimados a pleitear a falência são aqueles do artigo 97, e é importante ressaltar o credor nesse caso, porquanto só aqueles com crédito maior de quarenta salários mínimos é que poderão pedir a falência, exceto se formarem os credores litisconsórcio, caso em que se poderá somar os créditos”.

As palavras saem como uma torrente da boca dele. Um jorro interminável de saber inútil. O que ele está falando? Nada para dentro dele. Falência, títulos de créditos, credor quirografário, obrigações sinalagmáticas. Qual a fonte de todas essas letras, palavras, sentenças, artigos, parágrafos, incisos e alíneas? Ele nunca perde o fôlego?

Começo a ficar nauseado. Minha cabeça está longe, aérea, quase espacial. Meu estômago, por outro lado, decidiu se entregar à gravidade. Cai, pula, retorce-se. Vítima da física newtoniana, sucumbe a algo que eu não lembro exatamente o que é. Pode ser pão sírio, alface, batata ou carne de carneiro. Pode ser leite, açúcar. Cerveja e salame, quem sabe.

É frequente que os alimentos saiam das tupperwares para mudar de recipiente. Da embalagem hermética de plástico (carbono) acabam parando em outro recipiente de carbono (e água): eu. Tudo dentro do meu estômago, remexido e revirado, misturado e revolvido.

O corpo humano é um invólucro. Frágil e tênue (pergunte a um serial killer se não…). Osso, carne, sangue e pele. Muito sangue e pele principalmente. Como plástico e molho. O corpo humano é uma tupperware com um design arrojado.

“A ordem dos créditos vai estabelecer o rol do artigo 83. Primeiro receberão os créditos trabalhistas e aqueles oriundos de acidente do trabalho. Depois os com garantia real. Vocês sabem, hipoteca, penhor… depois, os tributários. Em seguida, os com privilégio, especial e depois os gerais. Após, os quirografários…”

Se ele soubesse como minha barriga está doendo, pararia de falar tanto. Eu quero aguentar. Eu vou aguentar. Mas ele não para de falar… e se eu precisar pedir licença para ir ao banheiro? E se não aguentar, e se botar tudo para fora aqui mesmo? Mal aguentarei quatro passos até cair e despejar tudo na frente dos colegas. Vai ser embaraçoso.

Talvez sete dias seja tempo demais para um alimento na geladeira, mesmo dentro de uma tupperware. Raramente se encontra um sistema estável e isolado. Os sistemas tendem a se comunicar, eu acho. Tudo tem um elo e um ciclo. O movimento peristáltico, por exemplo, um ciclo contínuo que leva o alimento da boca até o estômago. Mas os ciclos podem se inverter claro.

Quando vomito no chão da sala de aula, o professor não percebe. Ele fala alto e gesticula, explicando a falência. Não se deu conta de que sou eu que preciso de recuperação. Sento no fundo, sozinho, ninguém percebeu. Um milagre. O cheiro acre me chega às narinas. Enjoo-me novamente. Outro jato. Alguém vira a cabeça, procurando aquele som primal em meio ao palavreado jurídico do professor.

“O brasileiro precisa aprender a sair do Judiciário. Qualquer probleminha e se está na Justiça. Nos EUA, um país muito mais avançado que o nosso, já há centros de solução de litígios não estatais. Os juízes devem cuidar só do que é urgente. A falência mesmo, deveria ser discutida só entre devedor e credores!”.

A gravidade do meu estômago me joga ao chão. Agora eu estou prostado de quatro, evacuando, esvaziando. O líquido marrom-amarelado está nas minhas mãos, no chão da sala, empastado, exalando um odor cítrico. Escorrego minhas mãos e perco o equilíbrio, caindo de cara no produto da minha digestão.

Finalmente se deparam comigo tendo espasmos terríveis, pálido, sem o menor charme.

O professor, percebendo um certo agito, fala ainda mais alto. Falência, crédito, bancos, extrajudicial, empresários, juízo competente, prescrição, ex officio, stay period. Hei, prestem atenção!!! O palavrório se assoma, despejado em cima de todos. Os perdigotos parecem munições de uma metralhadora liberal.

Ninguém se aproxima de mim. Decerto, temerosos de que eu esteja infectado. O líquido verte sem parar de dentro do meu âmago. O meu conteúdo se esvazia. Os sistemas falham. Não se pode acreditar que algo é de fato isolado. Tudo é energia. E energia se perde por aí…

Tupperware, falência, vômito. Tenho certeza que tudo tem um elo entre si. Tenho certeza que a vida toda é mantida por um grande elo ou por pequenos e numerosos elos. Ah, se são.

Bem, agora digo adeus, professor, pois preciso injetar um pouco de soro nessas veias. E depois ir para casa lavar as tupperwares com água sanitária.

14.10.12

O tamanho dos meus pulmões

Num dia quente de primavera, andava ao lado do meu amigo Fernando em uma calçada suja quando um sujeito de terno folgado e desbotado brotou no meio do nosso caminho. Trazia no pescoço uma gravata curta demais para seu aspecto de garoto que cresceu rápido demais. Sua pele era parda e oleosa. Seu sorriso, um poço amarelo. Olhou para mim e para Fernando com a pressa de um viciado em cocaína e borrifou algo em nossos narizes.

“Senhores, o meu nome é José. Prazer em conhecê-los. O que acham desse doce perfume? Perfeito para presentear vossas namoradas! Não? O que acham?”.

Falava rápido e, enquanto repetia seu mantra, balançava vorazmente uma embalagem gasta, com uns dizeres ilegíveis. O cheiro no ar era de matar um diabético.

“Meu amigo, mas que merda é essa? Como sai espirrando isso no meu nariz? Eu não estou interessado!”, objetei, mais incomodado com o cabelo curto e espetado cheio de gel daquele autônomo aproveitador que com sua evidente falta de educação.

Entretanto, ele não reparava em mim. Deve ter notado desde o início que eu era carta fora do baralho. Ao invés de ouvir minha reclamação, arregalava seus olhos para Fernando, um tipo desses mais melancólicos, que andam de cabeça baixa entre seus semelhantes e, por isso mesmo, causam um certo espanto quando se surpreendem com algo e revelam seu íntimo para o resto do mundo, o que é raro.

E aquela reação era sem dúvida uma raridade. Fernando andava deprimido. E confesso que o tirei de casa aquele dia por não suportar mais suas lamúrias. Agora, contudo, seu rosto era uma explosão de êxtase. Um sorriso que não se continha nos lábios finos.

“Colega, quanto custa esse perfume?”, ele questionou o vendedor.

“Cinquenta mangos, patrão”, tornou o sujeitinho, fingindo desinteresse.

“E onde eu consigo mais disso aí?”, ele insistiu.

“Peraí, Fernando, tá falando sério? Essa parada fede”.

O olhar que ele reservou a mim não foi dos mais condescendentes.

Saímos daquele encontro medíocre com Fernando carregando dois frascos do perfume fedorento e o número do celular do nosso colega de terno.

Então ele me confidenciou:

“Esse é o cheiro dela”.

“Dela quem?”, indaguei.

“Dela…”.

Compreendi que ele falava da ex-namorada. Umazinha qualquer.

“Cara, esse não é o perfume dela, eu lembro que ela usava o mesmo perfume de uma garota pela qual fui apaixonado, e não era esse, tenho certeza!”.

“Eu não estou falando do perfume dela! Estou falando do cheiro, esse é o cheiro dela, a essência, aquilo que eu sentia quando beijava os cabelos dela, ou quando lambia seus seios, aquilo que ficava no meu travesseiro no dia seguinte”.

E senti pena do coitado. Deprimido daquele jeito, vendo cheiro em qualquer canto. Amaldiçoei a garota, por fazê-lo sofrer daquela maneira, e tentei tocar a bola para a frente.

“Vamos, você não precisa de cheiro nenhum. Vamos olhar uns discos”.

Não adiantou. Nem ter encontrado uma cópia rara do Depeche Mode funcionou para que ele tirasse aquela expressão de lunático drogado do rosto. Nem o filme de ação superficial e repleto de efeitos especiais. Nem o lanche gorduroso e cheio de bacon. Nem a bunda da garota bonita que eu apontei na rua. Nem a ligação de sua mãe reclamando que ele não ligava fazia tempo. Nada. Ficara lacônico, cheio de reminiscências.

Apelei para uma cerveja gelada no boteco preferido dele, que também não ia surtindo os efeitos desejados. Tinha ao meu lado o amigo mais insuportável da cidade. Fiquei quieto também, irritado com tudo aquilo. Ele pediu licença para ir ao banheiro, já de pé, como se se importasse com a resposta. Aquiesci. Cinco minutos, dez minutos. Tamborilava a mesa e olhava ao redor. Quinze minutos. Será que ele foi cagar? Vinte minutos. A porra da cerveja dele está esquentando! Trinta minutos. Caramba, o que tá acontecendo? Quarenta minutos. Fui atrás dele.

Com a cabeça margeando uma latrina, desacordado e pálido, ele babava um líquido incolor. O banheiro, apertado, sujo como um esgoto, tinha um cheiro diferente. Não era acre como urina. Nem embrulhava o estômago como o cheiro da merda dos outros. Tinha um cheiro profundo. Fortemente doce e calidamente azedo. Cheiro de sexo e castidade ao mesmo tempo. Cheiro de banho e cheiro de suor. Tinha o cheiro da ex-namorada do Fernando.

Quando ele recebeu alta do hospital, dei um tapa em seu rosto.

“Não faça mais isso, seu idiota”.

Ele deu um sorriso fraco e depois jogou videogame comigo.

A verdade é que aquela cena me assustou. Vê-lo se entregar a um abismo, por algo que julguei de início banal… Não sabia bem como encará-lo. Como lidar com aquela loucura. O meu amigo, o meu verdadeiro amigo, aquele parecia morto, substituído por um zumbi, consumido em perfume. Comecei a encontrá-lo menos. A falar menos. A vê-lo menos. A saber menos dele. Ao mesmo tempo, ele se isolou mais e passou a evitar o mundo. Era um relacionamento que se rompia. Uma amizade masculina, dessas  que morrem em silêncio. Diferentemente dos relacionamentos com as mulheres, que demandam palavras para serem rompidos, os relacionamentos entre homens acabam com um olhar que se desvia.

O silêncio habitava o lugar que antes era ocupado pelo meu amigo Fernando. Junto do silêncio, eu julgava poder sentir o cheiro da ex-namorada dele, rondando-me, como numa emboscada.

Perdi finalmente todo o contato que tinha com Fernando. Arranjara um novo trabalho. Novos amigos. Novas conquistas. Até comecei a aprender violão. Fernando era a menor das minhas preocupações, mas ainda existia na minha mente. Incomodei-me. Não poderia jogar aquela amizade assim no lixo. Eu pensava estar feliz, mas a lembrança de um certo cheiro não me deixava esquecer. Demorei, mas percebi que precisava dele, e que talvez ele esperasse meu apoio para tudo aquilo.

Mas ele sumira.

Os amigos em comum não ouviam falar dele há semanas. A mãe e o pai acreditavam que ele estava numa fase rebelde, pois insistira que estava bem há apenas algumas semanas. Devia ter ido viajar com alguma garota…

O peso se abateu sobre meus ombros. Eu falhara. Conhecia aquela sensação, ele não viajara coisa nenhuma. Devia estar jogado em alguma valeta, babando perfume, ou pior, devia ter voltado para a fonte de seu sofrimento, a garota do cheiro.

Caminhei, matutando, maquinando um pensamento que me levasse até ele. Pensava nas risadas que compartilhamos, nas mulheres que desejamos, nas partidas de futebol que jogamos, nas fraquezas que ousamos revelar um ao outro. Temi profundamente ter perdido um verdadeiro amigo. Mas ele devia estar por aí, ele tinha de estar por aí! Passei a acreditar que se saísse andando pelas ruas da cidade, mais hora menos hora ele apareceria, e me cumprimentaria como se tivéssemos nos visto há menos de duas horas.

E meu desejo de revê-lo foi tão imenso, andando numa calçada manchada, suja como a vida fora dos lares, que eu não reparei, naquela penumbra toda, quando um sujeitinho num terno folgado, três vezes maior que seu corpo magricela, brotou do concreto e do asfalto, sorrindo um sorriso amarelo, e borrifando algo direto nas minhas narinas.

Era cheiro de invencibilidade, de amparo, de carinho. Um cheiro cheio de contradições, exalando um fedor de suor e um odor de vigor, cheiro de ordem. Inspirei com toda força que pude, e desejei continuar inspirando para não mais esquecê-lo, para não mais deixá-lo escapar, mas esbarrei no tamanho dos meus pulmões. Quando expirei o ar, vermelho e sem fôlego,  e olhei fundo nos olhos gananciosos daquele vendedor, abri minha carteira e tirei tremendo as notas de dentro. Compraria de volta o cheiro do meu amigo Fernando.

14.9.12

Começo, meio e fim

Num momento de lucidez, minha mãe solta:

“Você deve ter passado por muita coisa, né? Tanta coisa que você deve ter vivido e me poupado de saber, por se preocupar comigo. Tanta coisa pela qual deve ter passado, e segurado com você!”.

Dei uma risadinha e respondi:

“Pode ser que sim…”.

Mas por dentro eu estava imaginando quanto tempo ela havia levado para reconhecer aquilo. Dez anos ou mais, no mínimo. Não sei se aproveitei bem aquele momento. Não me regozijei. Talvez se tivesse aproveitado o instante, não o escreveria como introdução do meu texto, mas tudo na vida precisa de uma introdução. Mentira. Nem tudo. Minha ideia levaria à conclusão de que tudo é um processo. E por processo vamos acabar imaginando que tudo tem um começo, um meio e um fim, e que esse fim leva necessariamente à uma conclusão. Seria declarar que as coisas evoluem.

E eu tenho certeza que as coisas não evoluem.

Mas é bem verdade que existe um início, em algum lugar, embora raramente possamos identificá-lo. Eu posso lembrar da minha infância, que vai remontar ao meu nascimento, à “noite de amor” entre os meus pais, à “noite de amor” entre os pais deles, e por aí em diante, até o tal início de que ninguém se recorda. A minha infância, contudo, mesmo que por flashes inconstantes, é rememorada aqui e ali, quando bem convém ao meu cérebro.

Veja bem, toda criança já arrumou sua própria mochila e anunciou em tom solene aos membros da família:

“Vou embora dessa casa!”.

Eu fiz isso umas cinco vezes e em todas eu não devo ter passado da portaria do prédio. Quando pouco, passava o batente da porta e já desatava a chorar de saudade da mãe, do carinho, da comida, e de ser o centro das atenções de uma vida conhecida, segura e afetuosa.

Mal imaginamos o que nos aguarda no mundo de “fora”. Temos alguma ideia anos depois, quando com alguns pêlos na cara e outros no saco saímos do aconchego do lar para encarar uma faculdade ou uma viagem ou seja lá o que for que nos obrigue a tomar um rumo na vida.

Quando minha mãe me diz que eu devo ter passado por muita coisa sem ela saber e poder me apoiar, não sei se ela se refere à criança que não consegue abandoná-la quando passa da porta de casa, do adolescente que arranja uma briga para defender uma garota e silencia um hematoma em casa ou se do adulto que fica neurótico e aprende a não levar mais problemas a uma mulher que merece um descanso de todos os problemas que já teve de resolver por ele. É realmente difícil de estabelecer um começo, um meio e um fim.

Algumas “religiões” acreditam que o ser humano possui uma alma, que evolui conforme seu comportamento terreno. Essa alma teve um início, com Deus, passou por um desenvolvimento e obteve a graça, um fim que é um prêmio. É uma ideia eugenista da alma. Uma alma “pedigree”, que atinge um ápice. Gostaria de saber em que estágio de evolução está minha alma. Será que esse texto vai contribuir para eu me tornar um espírito digno ou eu posso aguardar uma próxima vivência em forma de minhoca que chafurda o solo, abissal e obtusa?

É difícil distinguir um começo, um meio e um fim quando temos de lidar com o próprio mal que habita em nós, que mancha as paredes e nos força a tomar conta de nós mesmos, sem auxílio, sem piedade. Só você e o que você é, o que você faz e o que você representa. Talvez a alma involua, passando do fim ao meio e do meio ao começo, até que toda essa ordem caótica se restabeleça.

Quando vejo os pequenos, gostaria de lhes dizer:

“Meu amigo, seja virtuoso, que tudo na sua vida será uma linda evolução”.

Mas não será. Alguns vão morrer, outros vão ficar paraplégicos. A mãe daquele vai ter câncer, e a irmã do outro vai ser a putinha do bairro. Um vai virar gay e não será aceito pelos pais. Aquele ali é negro e todos vão fingir que não têm preconceito contra ele, mas ele nunca vai ser a primeira escolha em nada. E mesmo os branquinhos de bom nascimento e cabelos lisos e fala mansa e tino comercial vão ser ou broxas ou histéricas ou superficiais ou vão morrer na mão de alguém que não suporta a ideia de que a sociedade eleja um representante de virtude.

Não há começo, meio e fim nessa ciranda de infelicidades. E é claro como cristal que a vida não é feita só disso. Não me considero pessimista. Será que alguém já perguntou ao Dostoiévski se ele se considerava pessimista? Acho que debaixo de tantos sobretudos e casacos, ele nem conseguiria mostrar o sorriso de esperança que tinha na humanidade. Um risinho pequeno, sem mostrar muitos os dentes que é para não trincá-los de frio, mas ainda um riso, que só quem não sabe o que fazer da alma pode dar.

Como eu moro em plagas mais quentes, não me dou ao luxo de ficar ocultando sorrisos. Eu sorrio pois é o que há a fazer. Com ou sem começos, meios e fins, quando sua mãe tão gentilmente se dá conta de que você cresceu e está cheio de cicatrizes, não há espaço para remorsos e comiserações. Só há um pequeno sorriso a ser estampado, um que acabe tão mal começou, e que principie sempre que findar. Um sorriso de filho para mãe.

25.8.12

O concurseiro

Não seria de todo estranho se na tela da minha televisão aparecesse o rosto de uma mulher muito atlética. Mandona e rabugenta, ela me olharia com desdém, e me obrigaria a fazer exercícios matinais, tocando os dedos de meus pés, mesmo que o meu corpo todo, retorcido e cansado, me empurasse novamente para a cama. Eu não sei se alguém já escreveu isso, mas a cama parece o cemitério das almas atuais. Acho, sinceramente, que estamos morrendo antes de nossos corações pararem de bater, o que não deixa de ser uma eterna verdade. Mas antes a alma costumava ficar lá, intacta, e muitas vezes mais vigorosa, depois de uns bons anos de vida e de maturidade. Não é o que observo agora. É bem provável que o Prozac tenha dado início à extinção coletiva da alma.

Nada posso dizer sobre a veracidade da morte das almas, porém, a cena da mulher atlética é verdadeira, e costumava assombrar um sujeito de nome Winston Smith, aquele mesmo que é pisoteado pelas botas do totalitarismo criado por Orwell em “1984”. Não se reprimam se não souberem esse detalhe. Esse é um relato de todo ignorante. E a mulher, embora todo meu esforço semântico, era só meu despertador tocando, irritantemente.

Não obstante o sono, eu levanto assim mesmo. Eu sempre levanto. Mas só depois de me espreguiçar (como um gato) e socar uma parede (de duas a três vezes). Também devo molhar o meu rosto. Em seguida, satisfaço minha ereção matinal com uma grande e certeira mijada na privada.

Na cozinha, eu caço o leite vencido e os ovos fedidos. E com eles eu faço uma gemada. É ruim, mas eu vi numa revista velha que faz bem ao corpo. É o meu desjejum.

Não troco de roupa, sempre fico com o pijama em casa. Assim, evito de sujar as outras peças de roupa (a lavanderia é cara). Costumo ficar cerca de três semanas com cada pijama (tenho dois modelos), e não é sem certa preocupação que já noto que meu cheiro de suor da noite já os impregna, mesmo depois de imersos em sabão em pó. Talvez a marca que a lavadeira utilize seja uma porcaria, porque eles também voltam meio amarelados, e tenho quase certeza de ter assistido em algum lugar que esses produtos garantem o branco mais angelical para seus clientes.

Bem, depois disso tudo, seguem-se cerca de cinco horas diárias de estudo. É preciso dizer. Eu estudo para concursos. Obviamente ainda não passei em nenhum, mas tento, bravamente. Com pesar nos olhos (vocês devem, por favor, imaginar isso) eu já estou nessa vida há cinco anos. E há cinco anos venho colhendo pequenos sucessos (meu terapeuta acha melhor chamar de pequenos sucessos ao invés de constantes fracassos), como duas aprovações para a segunda fase. Certamente não é necessário mencionar que esses concursos costumam ser compostos de, no mínimo, cinco fases. Eu ainda tento guardar algum amor próprio dentro dessa pança que criei carinhosamente nos últimos anos. E embora eu tenha tentado ser irônico ao fingir que deixei escapar essas coisas, não é sem um pingo de verdade que me acho um incrível perdedor.

Mas esse tipo de posicionamento também foi vetado pelo meu terapeuta. Bem, ele não é o melhor terapeuta do mundo. Por Deus. Confesso que é apenas um estagiário, o rapaz ainda está no terceiro ano do curso de Psicologia. De uma faculdade particular! Mas o bom Deus, cujo nome pronunciei em vão poucas linhas atrás, bem sabe que o rapaz tem talento, talvez chegue lá, se passar de ano.

Se é melhor parar com as ironias pouco construtivas, creio que falarei do que imagino que os outros pensem de mim. Vejamos. Uma indagação que comumente assalta aos que sabem da minha vida (e frequentemente a mim mesmo) é: como você consegue pagar pelas coisas sem trabalhar, apenas estudando para concursos? E quando me refiro a “coisas”, não falo em carros esportivos ou peças de roupa cuja marca vale zilhões de vezes mais que a costura porca que alguma criança no Camboja fez por uns trocados. Eu digo apenas minha quitinete, onde residem, nessa ordem: eu, meu sala/quarto/cozinha/dispensa e, felizmente, um banheiro. Eu não revelaria esse segredo por nada, mas, já que estamos nos conhecendo melhor nesse exercício de autocomiseração e autodepreciação, bem, aí vai, é minha vó quem me sustenta. A velha gosta muito de mim, quer me ver alcançando os sonhos. Quanto melhor para ela quisesse eu ser algo mais “simples” (de conquistas mais concretas, digo), como um mecânico ou um cabeleireiro, mas eu tive a brilhante ideia de ser…, bem, eu não acho que vocês mereçam saber meu sonho.

Que desabafo mais chato esse não? Eu espero que sim, pois me esmerei ao máximo em demonstrar como minha vida é tediosa e sem sentido. Já falamos de um livro que faz parte da nossa cultura contemporânea (eu tenho muito tempo de sobra entre um livro ou dois, dos sérios, para me encher de cultura, da não-tão-utilizável nos concursos), vamos falar então de um filme que muito diz a respeito do tipo de homem que eu sou. Clube da Luta. Não, eu não sou o tipo de homem que bate nos outros para reviver algo que o racionalismo moderno esmagou em nossas consciências. Não. Eu sou o retrato do protagonista antes de perceber seu potencial. Mas, mais que isso, eu sou aquela frase do outro protagonista (com licença, eu vou citá-la com pompa):

"Nós somos os filhos do meio da história, sem propósito ou lugar. Não tivemos Grande Guerra, não tivemos Grande Depressão. Nossa grande guerra é a guerra espiritual, nossa grande depressão é a nossa vida."

E é isso mesmo. Nunca fiz nada de útil nessa vida que não fosse tentar decorar coisas absurdas para uma prova ainda mais sem sentido. Eu não espero sensibilizá-lo com essa ladainha. Mas a minha guerra é com o cotidiano, o da gemada e dos socos, da preguiça e do rosto, da quitinete e do pijama.

Os episódios dessa guerra me são sempre memoráveis. Cito alguns.

Na festa de um riquinho qualquer que se acha meu amigo, uma garota (estúpida, coitada) inventa de me achar “fofo” e vem puxar papo comigo. Ela não é bonita (nem feia). Olho para ela e acho que minhas punhetas são mais atraentes, mas mesmo assim prossigo a conversa. Depois do bla bla bla inicial, eu pergunto o que ela faz.

“Eu sou consultora ambiental”. Ela diz com olhos esguios, como se tivesse treinado aquela resposta umas quinhentas vezes, para parecer tão misteriosa como foi.

E aí sempre vem o xeque-mate.

“E você?".

“Euestudoparaconcursos”.

“Desculpa, não ouvi, você pode falar mais alto?”. E ela até aproxima os ouvidos.

“Eu estudo para concursos…”.

“Ah…”.

Ninguém precisa estudar tantas horas por dia como eu para se dar conta de que continuei na punheta aquela noite.

Outro fantástico capítulo dessa guerra diária foi quando decidi jogar bola com uma turma de desconhecidos (mentira, eu os conhecia, mas hoje finjo que nunca os vi). Com absoluta certeza fui o mais pato em campo e me arrependo amargamente daquele esforço físico, pelas duas semanas seguintes em que meus músculos se queixaram veementemente. O pior, contudo, foi o pós-futebol. Aquele momento em que os homens, que em outros tempos, sem esforço físico e sem rudeza alguma, apenas teriam se reunido para o brandy, e falado cinicamente de política, bem, agora eles se reúnem para beber como porcos (se é que os porcos se embriagam) e mostrar quem tem o pinto maior e mais grosso. E antes que vocês pensem que alguém realmente sacou sua jeba para fora, vou logo avisando que usei de linguagem metafórica para designar o instante em que aqueles escrotos quiseram, cada um a seu tempo e com sua própria linguagem, gabar-se de seus empregos, de seus carros, de seus relógios, de suas esposas-modelos, e de suas amantes biscateiras.

Que me perdoe o Rei Arthur, mas a Távola Redonda nada era perto daquele manancial de sucesso e conquista. O séquito de empresários, analistas, programadores, esportistas, gerentes e, até um burguês que vivia apenas de renda, era o suficiente para levar qualquer cúpula de poder aos mais altos escalões da glória e do Sagrado. É bom provável que cheguem ao sétimo nível do Paraíso antes que eu atinja o sétimo círculo do Inferno (em vida).

Quando chegou a minha vez de falar, pois bem, que pintinho miserável eu tinha na minha mão. Depois da minha resposta, o silêncio, dos constrangedores, só foi quebrado pelo comentário acerca de uma tal estagiária gostosa que algum deles estava para conseguir levar para a cama.

Eu poderia prosseguir falando desses episódios cotidianos que me impelem à guerra, como os relacionados ao imposto de renda cujos fiscais não entendem como eu ainda não estou contribuindo com nada; aos alugueres que aumentam desproporcionalmente em relação à minha renda; à vizinhança do prédio que deve achar que sou algum tipo de maníaco e aos parentes que meneiam a cabeça negativamente toda vez que ouvem meu nome (e de fato eu acredito que o título de ovelha negra da família é merecido por mim, já que meu primo recentemente deixou o semiaberto e passou a trabalhar honestamente, depois de virar crente).

Mas não prosseguirei. E não é porque me falte material para descrever essa vida cinza que se arrasta há cinco anos sem me levar a lugar algum, não é porque me falta papo para debater com meu terapeuta que muito mais novo que eu, já me manda fazer isso e aquilo, e tampouco porque eu colho pequenos sucessos ao invés de escancarar que minha vida é um tremendo fracasso. Não é por nada disso.

É apenas porque agora já é 17h30 e eu prometi a mim mesmo que hoje terminaria um simulado e iria ao supermercado fazer a compra da semana.

8.8.12

La petit mort

Nossa vida cotidiana se caracteriza pela nostalgia do estilo, por sua ausência e pela procura obstinada que dele empreendemos. Ela não tem estilo e, apesar dos esforços para se servir dos estilos antigos ou de instalar nos restos, ruínas e lembranças desses estilos, fracassa na tentativa de criar um estilo próprio.

(Henri Lefebvre, “A vida cotidiana no mundo moderno”).

Por um movimento involuntário qualquer, depois de se satisfazerem com um sexo rápido e sem charme, ele ligou a televisão, mais para que a cabeça não criasse ideias que para qualquer outro fim instrutivo. Ela, alheia à decisão, não reparou na conjuntura que o levara a apertar o botão do controle remoto e, ainda de pernas moles e levemente trêmulas, passou a ouvir a notícia de fundo.

Falava-se em uma chacina, com uma dezena ou duas de mortos, os corpos inescrupulosamente exibidos na tela, o sangue já escuro no asfalto, helicópteros panoramizando as melhores visões da tragédia.

- O que vamos comer?, ela perguntou, sentindo o estômago reclamar.

Ele não estava com fome. Ficava sem apetite depois de gozar.

- Não estou com fome agora. Olha lá na geladeira o que tem.

Ela se levantou com uma dificuldade bíblica, queixando-se da calcinha que havia sumido entre os lençois. Com um olho, ele fitava a repórter com traços de Barbie entrevistar um porco fardado, que grunhia desculpas estatais. Com outro, olhou a bunda de seu par, ainda meio vermelha. A nudez despreocupada da garota atraía sua atenção de maneira involuntária. E por mais que se esforçasse para não fazê-lo, seu instinto o traía.

Ela voltou com um pacote de salgadinhos fedorentos e se deitou majestosamente na cama ao lado dele.

- Você realmente vai comer na cama?, perguntou, indignado pela insistência dela em desrespeitar as leis da casa dele.

Ela continuou comendo em cima da cama suada, despreocupada em responder ao homem que ainda não decidira se era uma transa passageira ou um caso mais sério. Se a dúvida persistia, por que obedecê-lo cegamente? Não fazia isso mesmo com seu pai, quanto mais com ele… Com a mão amarela de conservantes, segurou o queixo dele e o beijou displicentemente.

Mas os barulhos lá fora prosseguiam. Iniciaram cedo aquele dia, perduraram durante o coito e seguiam agora, mesmo na relativa paz do aposento nupcial.

- Será que eles vão fazer essa barulheira a semana inteira?, ele questionou, sem esperança de que ela soubesse a resposta.

Ela deu de ombros. Não sabia por que se protestava lá fora, onde o mundo era repleto de poeira e cartazes e as mulheres exibiam os seios (o que de alguma maneira chamava a atenção dos meios de comunicação para a revolta). Gritos de ordem e a presença ostensiva da polícia também eram uma constante.

Ainda comendo, ela se dirigiu à janela e olhou para baixo, para a massa em movimento, em protesto. Viu uns sete pares de seios. E, ainda comendo, olhou para os seus próprios seios. Quis conseguir enxergar se os seios das protestantes também eram levemente desiguais. Não sabia bem explicar porque o fato de um bico apontar mais para a esquerda a incomodava tanto. Talvez fosse a assimetria, que desrespeitava regras básicas de composição, aprendidas desde pequena e cultivadas no olhar artificial para os corpos humanos. Quanto a ele, bem, aparentemente ele nem reparara no fato, e a julgar pela voracidade com que brincava com eles, ela não se preocupou em perguntar.

Preguiçoso na cama, só agora ele tirava a camisinha do pau e a desenrolava, já seca. O pênis dele era sempre um espetáculo para ela. Ela não entendia bem a graça de ver um membro crescer ou diminuir a depender do fluxo de sangue, mas sabia que gostava de presenciá-lo. Agora estava flácido e caído de lado, acamado pelos pêlos negros dele. E mesmo assim ela não desviava o olhar.

Ele deu um nó na camisinha e a jogou para o lado da cama, sem cerimônia.

A televisão contava a história de uma família pobre de algum canto esquecido do país.

- Mas que saco, esse povo não ganha ajuda do governo? Por que não param de encher o saco na tv?, ele grunhiu, enquanto recolhia pentelhos no colchão.

Ela não comentou. Não era sadio dar azo às investidas antissociais dele.

- Você quer tomar um banho comigo?, questionou ao revés.

Ele estava do saco cheio de sexo (muito embora anatomicamente ele estivesse agora vazio) e a ideia o repugnou.

- Não. Depois eu vou.

- Mas você está fedido…

- Você não pareceu se preocupar há pouco. E além do mais, o que está cheirando forte assim é o cheiro do sexo. Eu não tenho culpa se nossos hormônios deixam o ambiente perfumado assim.

- Isso não tem nada a ver.

- Claro que tem. Estranho para a natureza é essa necessidade de higienização que temos. Para mim não há nada melhor do que um cheiro natural, e eu garanto que o seu é perfeito.

Ela bem que tentou se regozijar, mas a ideia ainda lhe parecia estranha.

Quando voltou para a cama, obrigou-o a chupar os dedos dela, lambendo o pó deixado pelo salgadinho. Depois, aninhou-se entre os braços dele, enfiando a cara em seu peito e sentindo um estimulante conforto.

Depois, sem saber precisar que pensamentos teria, ou com preguiça de pensá-los, ou com a ansiedade natural de afastá-los, quis fazer sexo novamente. Parecia certo.

Como sabia que o pinto mole dele não subiria sozinho, começou a cheirar seu pescoço. Ela sabia o que tinha que fazer, onde lamber, que partes tocar, que gemidos deixar escapar. Não demorou muito, o sangue começou a circular. Observou de esguelha seu espetáculo particular. Um pequeno espasmo, seguido de outro e outro, o diâmetro aumentando, o comprimento triplicando. Ela compreendeu qual era a graça de ser homem.

Quando o agarrou já duro, seu parceiro estacou e passou a olhar perdidamente um ponto fixo, com uma feição de preocupação no rosto. A isso seguiu-se uma careta. Afastou-a de perto de si.

- O que foi, meu bem?, ela indagou, sem entender.

Ele se levantou, ainda indeciso. Parecia consternado, sem saber como proceder perante um problema insolúvel.

Brevemente, ela passou a sentir algo desagradável. Veio silente, sem aviso, mas a atingiu em cheio. O ambiente fedia. Cheirava a podridão, aquilo que os livros mais velhos grafam como “pivete”.

- Preciso cagar, ele anunciou.

E saiu correndo em direção ao banheiro.

Ela se deixou recostar nos travesseiros suados, visivelmente contrariada. Na televisão, rostos bonitos noticiavam no mesmo tom cordial e despretensioso que o mundo estava em crise.

7.7.12

Explique o meu coração

Um grão de areia entra no seu olho, irrita sua córnea e sua conjuntiva, a lágrima vem, involuntária, limpando, lubrificando. Suas pálpebras se fecham, facilitam o serviço, por um momento você está no escuro, indefesa, dissociada de um sentido. Está nas trevas. Seus dedos sujos coçam os olhos e os irritam ainda mais. Nós apenas sabemos piorar o desprezo da natureza por tudo que se acha especial.

Uma párticula tão simples quanto um grão de areia, essa diminuta unidade que um dia já fez parte de algo maior. Tão pequena, tão letal.

Ao abrir os olhos, você já se esqueceu do grão de areia. Olha para o chão e vê que o cimento é cinza e feio. A cidade toda é cinza e feia, e com toda a certeza até as árvores são cinzas e feias. As pessoas são cinzas e feias e, enquanto andam, exalam odores cinzas e feios. Talvez o grão de areia seja cinza e feio, talvez ele tenha deixado o mundo todo cinza e feio.

Quando leio que partículas podem ser coisas divinas, começo a ficar preocupado. Antes, era bonito imaginar que as coisas compartilhavam uma só essência. Você, eu, a sua mãe, o seu cachorro, a pedra, meu relógio, o arbusto, o cinza, tudo parte de um grande todo, indissociável somente pela sua hábil aparência de individualidade de cada coisa, desde o nosso invasivo grão de areia até mesmo o mais sólido dos elefantes. Acharam por bem chamar isso de Deus, e por consequência, deram-lhe o “superpoder” da onipresença. Intrigante. Convencionaram que a essência de Deus é apenas um dos seus atributos. Os humanos gostam de inverter a lógica das coisas.

Mas então com toda a pompa o mundo científico grita que achou uma minúscula partícula, de proporções inimagináveis para o intelecto humano. Algo tão pequeno que, além dele, só existe vazio, e aquém, existe tudo. A partícula, tão singela e divina, assim, é aquilo que está em todo lugar, a todo tempo. A partícula é Deus.

De maneira que começo a pensar, meu amor, que naqueles momentos em que fingíamos nos incorporar, já estávamos há muito interligados. Veja só que peça os cientistas me pregam. Eu já sou você antes mesmo de nascer. E vice-versa se isso ajudar a explicar algo, mas não ajuda. Vivemos num campo minado, esses tempos atuais, mexendo com poderes estranhos, indo a dimensões desconhecidas e conjecturando, conjecturando, até que nossa mente se encolha de medo e o nosso corpo se aninhe sobre si mesmo, fazendo homens de cinquenta anos deitarem em poses fetais, chupando o dedo se assim preferirem.

Nada é especial, acho que diz a ciência. Afinal de contas, eu e você já éramos “algo”, antes mesmo do que nossa suposta teoria afirma ser o Big Bang. Se já éramos algo, só continuamos a sê-lo por todos esses… zilhões de anos, até que por bem o Universo, ou Deus, ou as partículas, resolveram nos dar essas formas de carbono, que se apaixonam e se entrelaçam, achando bonito virar um. De qualquer maneira, eu e você também somos parte ou todo do resto, dos planetas, das estrelas, e das formas bacterianas que algum dia vamos descobrir em Marte.

Quando consigo olhar para seus belos e grandes olhos, tenho certeza que me sinto especial. Eles refletem uma luz, que não é bem uma energia, mas antes uma emoção, que eu não sei classificar dentro da ordem das coisas físicas ou mesmo das metafísicas.

Pensar demais, dizem, pode fazer nosso cérebro derreter. Acho que cansei de pensar. Vamos tão longe em nossas abstrações, mas mal podemos sentir as partículas minúsculas que nos tornam um só. E o resultado é que nos sentimos, no fundo, tão diferentes. E o diferente, coitado, é especial. É estranho pensar que um poeta, há não muita tempo, tinha dentro de si, lutando pelo controle da pena e da máquina de escrever, tanto um revoltado simplório que só via sentido naquilo que tocava quanto um maluco hipocondríaco que se entregava a toda energia que o consumisse. Somos mesmo especialmente diferentes.

Não se esqueça, todavia: o Universo e os cientistas nos ensinaram que não somos especiais, meu anjo. Eles explicam usando teorias, eles relativizam nossas certezas, e agora apontam que tudo de fato pode ser apenas uma coisa, num jogo inexplicável de presenças e vazios, de massas e energias, de partículas que se decompõem infinitamente, o segredo de toda a existência quase sempre ali, ao alcance das mãos, das máquinas que podem destruir o planeta, mas longe de todo o resto. Porém, tenho a certeza empírica de que eles não explicam tudo. Eles esqueceram de algo. Então, por favor, meu amor, explique…  explique o meu coração.

6.6.12

O tombo da senhora

Percebi que o mundo estava girando rápido demais quando dia desses andava por uma feira popular com a velocidade e a paciência de um executivo paulistano. Não dei bola para os tomates, as violetas, o queijo branco ou mesmo para o molho de pimenta do pastel do japonês. É o trabalho, com certeza, horários a cumprir, deveres a desempenhar, um ônibus para pegar! Mas de perto, veio um som conhecido: o som de carne estatelada no chão.

Era uma senhora de meia idade, com cara de que já vivia de hábitos e, quando possível, da felicidade dos netos. Estava de quatro sobre uma calçada traiçoeira, como se de repente resolvesse virar quadrúpede e se cansasse desse bipedismo simiesco.

Olhei para os lados. A feira prosseguia no seu ritmo de gritos rápidos e velhinhas japonesas vagarosas, desconfiadas de preços vis. Ninguém reparava no tombo da senhorinha. Aproximei-me.

“A senhora está bem?”, perguntei, polido demais.

Ela me olhou surpresa, como se eu a tivesse flagrado cometendo um crime silente. Dei-me conta que minha roupa me tornava muito formal.

“Ah, sim, acho que sim”, ela respondeu, incerta, ainda no chão.

Estendi minha mão em solidariedade, apoiando-a em seu retorno às preocupações e amargores daqueles que foram amaldiçoados com duas pernas.

“Ultimamente está difícil de andar nessa cidade…”, comentei, sem saber o porquê, sentindo-me, não sem um tom de decepção, como um taxista que puxa assunto sem precisar.

“Pois é…”, ela disse, ainda evitando me olhar. Quando conseguiu fixar seus olhos em mim por alguns segundos, emendou: “Muito obrigada!”. E partiu, distante.

O tombo da senhora me fez recordar um episódio em que minha mãe relatou ter caído numa calçada não menos desleal que a ora descrita. Meus pais são contadores de histórias, e isto é a razão pela qual eu, como um fruto (ainda verde), por mais desgarrado que tenha tentado ser, não vim a cair muito longe da árvore. Também é a razão pela qual ela transformou uma queda numa história, e a história numa lição. Não que eu tenha aprendido algo, mas lembro de ter me perguntado: por que uma queda significa tanta coisa para alguém? Para a minha mãe, queda foi impotência. Fraqueza, abdicação, derrota. A queda a lembrou que existe um chão.

Percebi que a senhora tinha vergonha nos olhos breves que me dedicou. Ela sabia que não estava difícil andar pela cidade ultimamente, e que a queda era culpa exclusiva de seus pés e pernas que não aguentaram a peça pregada por uma turma nada amistosa formada por chão, buraco e gravidade.

Vergonha da queda. Impotência de um tombo. Seríamos assim tão orgulhosos com nossas colunas eretas e pernas rijas? Por que sentimos esse gosto de humilhação na língua quando nos deparamos com o chão? Será mesmo que desprezamos tudo aquilo que não se coloca de pé?

Estenderia minha mão a todos os caídos desse mundo se me fosse possível, mas não é. Quando eu caio, eu sorrio. Se tombo, gargalho. Não deve existir nada mais engraçado que um amontoado de osso e carne vindo ao chão, desengonçado, desarticulado. Se caímos, é para levantarmos.

Afinal, nada parou. Um feirante, o da carne, embalava uma linguiça de boa aparência, a japonesa, quase uma tartaruga de tão velhinha, ainda olhava desconfiada o preço de giz no quadro negro, a kombi velha repousava, estacionada num canto, habituada com o populacho, e o ônibus, o ônibus!, esse passava lá distante.

3.6.12

Paulo Betti encontra minha amiga

Em um certo dia, numa discussão acalorada, Paulo Betti resolveu dizer: “Não dá para fazer [política] sem botar a mão na merda”. Foi um daqueles episódios que serviram ao deleite dos donos de jornais, bem como para estigmatizar os petistas como seres antiéticos.

Paulo Betti não me conhece e, por tabela, também não conhece minha amiga, que para os fins didáticos desse texto, será conhecida apenas como Amiga, uma mulher jovem, estudiosa, bonita e, o traço distintivo que salta aos olhos de todos, extremamente moralista.

Minha Amiga uma vez virou para mim e disse considerar abominável a traição num relacionamento. O papo na roda era sobre um Don Juan qualquer (haverá tantos até o fim dos tempos…) e ela fez questão de pontuar seu asco pelo rapaz com tanta energia que fiquei espantado. É importante sublinhar que a Amiga não é filha de qualquer carola religiosa ou de um patriarca do século XIX, ela é do jeito que é por livremente querer.

Passou pela minha cabeça qual seria a punição destinada por ela ao parceiro que fosse pego no affair com outro exemplar do gênero feminino que não ela própria. Talvez a fogueira que um dia queimou bruxas e agora se destina aos homens desviados em sua conduta os quais, pelas regras do feminismo ditatorial dos nossos dias, devem se pautar por uma confusa profusão de normas de caráter moral, como ser bom de cama, carinhoso, saber matar insetos, trocar lâmpadas, cuidar das crianças, limpar a casa, ser machão quando necessário, entre outras dubiedades impossíveis de residir no mesmo varão. Talvez o castigo fosse algo pior, como, por exemplo, ela falar mal do bonitão, fazendo-se de pobre vítima, o que automaticamente pintaria nosso traidor com as cores de um monstro terrível.

Dia desses ainda, um professor de Filosofia do Direito resolveu contar que a questão central que permeia a teoria das nossas normas é o problema da moral. Isso pouco importa, pois há quem diga que esse problema é de decidibilidade e outros teimam em se pautar por dimensões mais técnicas. Intelectuais sempre falarão muito na sua indecisão metodológica. A moral, contudo, está sempre em pauta.

Quando me dei conta, percebi que gostaria de apresentar Paulo Betti à minha Amiga. Precisaria ser cuidadoso, tratar do assunto com cautela. Em primeiro lugar, obedecendo a ordem de dificuldade, apresentaria a ideia a ela.

“Amiga, quero apresentá-la a alguém”, diria.

“Me apresentar? A quem?”, ela responderia, sem esconder a curiosidade feminina.

“Paulo Betti, o ator”.

“Esse é aquele que tinha a barba grande na novela?”.

“Não, esse é o José Mayer, estou falando do Paulo Betti”.

“Ah, acho que sei”.

Nesse instante, ela viraria a cabeça de lado, olharia o chão, pensaria um pouco e então desvelaria seu desinteresse e toda a armadilha psicológica de autovalorização e incapacidade de viver numa sociedade liberal, atitude típica de mocinhas que cresceram achando que suas flores são as mais raras da floresta. Como no Brasil a diversidade de fauna e flora é estonteante, insisto na proposta, a ponto de, irritada, a moçoila aceitar o convite.

Paulo Betti seria um problema menor. A garota é bonita, o encontro é certo, e, talvez por estar na meia-idade, ele topasse, pelo desafio de conhecer um broto novo, fresco. Chato mesmo seria fazer umas pontes-aéreas até encontrar o endereço do global.

“Rapaz, isso aí é certo?”, me questiona o artista.

“Certo nessa vida nada é, senhor Betti, mas pelo trabalho que eu tive, peço a gentileza de topar essa”.

Pronto, encontro marcado. De um lado, aquele que sabe que a merda está na mão daquele que balança o interesse. De outro, uma representante da sociedade eugênica imposta pelos filmes da Disney. Sobre o que conversariam? Falariam de política, de fezes, de traidores, de partidos e de meninices?

Acompanhei de perto o encontro dos dois pombinhos. Betti foi um verdadeiro galã de novela, só espero que não estivesse interpretando. Minha Amiga se fez de difícil: desconversou, retrucou, contraditou, até que começou a perceber que a mulherada toda estava de olho no Paulo, aí ele ganhou uns tons vênus-prateados e foi papo atrás de papo, riso atrás de riso.

Ele pagou a conta, claro, minha Amiga é só uma universitária qualquer, dura e pobre como todo estudante que se preze. Caminharam. Continuaram rindo, falando de amenidades, de experiências, de concepções de sentimentos. Só não falaram de novela porque ele não queria discutir trabalho na hora do prazer.

Mas pulemos logo para a parte da cama, porque o problema aqui, como meu professor disse, é a moral, e eu quero escrever algo imoral para concluir logo. No começo, o Betti teve dificuldades, a Amiga só queria saber de mãozinha dada, passeio e sorvete. Tampouco beijinho no portão estava permitido. O Paulo não é nenhum trouxa, já deve ter procurado se aninhar em alguns colos do show business brasileiro, o que pouca coisa não é, afinal, aspirante a atriz é o que não falta nesse mundo de entretenimento, e algum processo seletivo que envolva móveis de dois a três lugares cuja capacidade de suportar o peso de dois ou mais seres humanos é requisito mais do que justo para testar o futuro da filmografia brasileira.

De qualquer maneira, o gemidinho que saiu da boca dela quando os lábios dele roçaram sua nuca deu a impressão para o ator de que a coisa não era tão moralista quanto parecia. Quando enfim chegaram ao gemidão, ele estava sorrindo bastante, contente mesmo, pois não é todo dia que se pode compreender mais de perto a anatomia feminina em toda a sua flexibilidade e juventude. Enquanto isso, ela já estava procurando a calcinha e o resto de suas vestes, com vergonha de seu corpo, com vergonha do seu prazer tão desmesurado.

Paulo Betti não se importou de botar a mão na merda para chegar ao ápice de seu prazer mundano, mas a garota, essa pequena bênção angelical, descendo dos sete níveis do Paraíso que um dia definitivamente não me aguardam, tocou o chão conspurcado que está sob nossos pés e vendo a sujeira nas suas asas de alvas plumas, chorou por dentro, destituída de toda a sua pureza.

Mas é bem verdade que depois disso se jogou na lama e lá chafurdou, com gemidinho e gemidão, sem se importar se Miguel, Metatron, Gabriel, Lúcifer ou Legião estariam ou não olhando. Apenas vivendo, o que de errado nada tem.

Com a mão na sujeira ou a consciência limpa, acho que meu professor estava correto, o problema da sociedade, juridicamente ou não, está na moral, mais precisamente naquele instante em que o sujeito olha para o próprio umbigo e decide fazer da moral sua puta mais preciosa, seja para o eterno bem, seja para o transitório mal.

12.5.12

O incrível relato do homem que se tornou uma cadeira

CADEIRA BARCELONA POP17410000 Olhando para os lados, a única coisa que se vê são luzes, brilhantes luzes. A boca está seca: é quando eu percebo o copo americano gelado numa das mãos. Pelo canto dos olhos, eu posso assistir qualquer garota mexer seus quadris de acordo com o som que sai alto, ensurdecedor mesmo, das caixas de som. Na minha frente, sentam-se pessoas. Elas vêm, elas conversam, elas riem, elas se levantam e se vão. Não consigo ouvir nada do que dizem.

O copo nunca está vazio, caros amigos. O que quer que esteja dentro dele me faz sorrir. Um sorriso que nunca vai embora. E com meu sorriso os interlocutores se sentem encorajados. Continuam falando e rindo. Vez ou outra alguém pega na minha mão. Depois alguém sempre comenta como elas estão geladas. Ainda não perceberam que eu morri.

Pode ser que eu tenha morrido mesmo, sabe, cessação da vida e tudo, morte cerebral para os juristas. Morte não é bem um conceito absoluto, talvez eu só esteja gelado e só passei dessa para melhor no sentido metafórico. Porém, para todos os efeitos, estou morto. Ou talvez tenha me tornado rígido. Posso ter virado um outro objeto. É, é isso mesmo, agora lembro, esse é meu relato sobre como me tornei uma cadeira.

Se bem me lembro, morri depois de algo triste. Era algo triste, tenho quase certeza, ou era algo forte. Não, talvez fosse só uma péssima surpresa, uma desistência. Tanto faz. Sei que fiquei atordoado e fui para esse bar, onde há música alta e luz artificial. Não convém saber os motivos que nos impulsionam ao bar, porquanto o bar em si possa ser o destino final que todos procuramos. Um fim, não um meio.

Sentei-me numa mesa de canto, longe da visão ambiciosa de outros que estivessem em situação semelhante. Acho que fiquei mais tempo do que previa ali. Um dia, três meses, trinta anos? Quem sabe… Bem, ainda me recordo que nas primeiras vezes uma garota puxou uma cadeira para si e se sentou ao meu lado. Sem cerimônia, puxou um dos meus braços e o colocou sobre si e depois se recostou em mim.

Depois de algumas horas, ela se cansou. Empertigou-se e me apontou um dedo. Disse em palavras duras como eu estava fugindo, teimando em não enfrentar um problema, bla bla bla. Ela falava e a única coisa que vinha à minha cabeça era que as garotas deviam tomar mais cuidado se fossem chorar. Nesse caso, era preferível evitar as sombras e os delineadores. Aquela ali parecia um pierrô.

Quando ela se foi, encostei-me um pouco mais na cadeira que há tanto tempo me suportava. Aquilo foi confortável. Já não sentia minhas nádegas e minhas costas estavam tão tesas como madeira. A música ainda alardeava por todos os cantos e, misteriosamente, meu copo nunca esvaziava.

Alguns dias depois, apareceram vários rapazes. Davam-me tapinhas nas costas e me olhavam com olhos graves, daqueles que transmitem pena. Detestei-os. Odeio que sintam pena de mim. Eles me mostravam a porta da saída, queriam me tirar da cadeira. Mandei-os tomar no cu e ir para a casa do caralho, assim mesmo, em linguagem baixa, para ver se nunca mais em suas vidas miseráveis teimassem em me tirar dali, daquele canto tão confortável.

Eles foram embora mostrando o dedo do meio para mim.

Com o tempo, passei a perceber a presença de semelhantes. De início, notei que o local aumentara consideravelmente. Esses eram os momentos em que o bar estava vazio e a distância entre as mesas se expandia. Cada mesa tinha seu possuidor. Os mais velhos em geral ficavam na frente do palco. Os mais atrasados acabaram pegando as mesas perto do banheiro. Os mais ávidos garantiam seu lugar perto do balcão. Eu ficava contente apenas com o canto.

Num certo dia, notei que a meu lado aparecera uma garota diferente. Era nova ali. Ela se sentava numa mesa colocada de emergência para dar lugar aos novos e novos consumidores (o que é um problema, pois eles nunca param de aparecer). Olhei para ela fixamente. Após alguns dias ela resolveu me encarar. Tinha nariz e coxas grandes. Bem, é isso que me lembro, ao menos. Ela deu um sorrisinho triste.

A garota do nariz e coxas grandes se chamava Roberta. Olhávamo-nos com frequência. É preciso entender, nenhum dos dois se levantava para ir conversar com o outro, de maneira que nos correspondíamos por bilhetes levados pelos garçons. Paguei inúmeras bebidas para ela, embora a bebida ali sempre fosse de graça para nós. Meu copo, para variar, estava sempre cheio. Ela contava de um sentimento ruim que a acompanhava, mas do qual não se lembrava, eu respondia que a compreendia. Era verdade.

Um dia, Roberta escreveu um bilhete onde dizia não aguentar mais, que iria se levantar e conversar comigo, que era tudo o que mais desejava na vida. Parecia irritada com a cadeira em que se sentava.

Eu olhei de canto depois disso, sorri para ela e fiz sinal afirmativo. Fiquei esperando ela vir até mim. Eu não queria ou não podia, não sei bem dizer, me levantar de onde estava. Com dificuldade ela se levantou e, quando iria sair da mesa, um jovem rapaz apareceu na frente dela. Era um moço de nariz pequeno e coxas magras e estava ofegante. Tinha corrido para chegar ali. Ela parecia conhecê-lo, pois, mesmo sem correr, também ficara ofegante ao vê-lo. De pé, livre de sua cadeira, ela andou e o abraçou e aos prantos e sem qualquer maquiagem a torná-la um pierrô, Roberta foi embora de mãos dadas com o tal. Sem olhar para trás.

Nessa época, arranjaram-me mais um copo. Agora eu tinha dois copos sempre cheios e cada vez menos vontade de levantar da cadeira. A bem da verdade, minhas omoplatas já haviam se ligado à madeira da cadeira e minha pele das costas, das nádegas e das coxas já ganhara uma coloração marrom, algo meio mogno, ou talvez não, nunca fui experto em marcenaria. Minhas pernas e braços estavam mais retos, mais fixos.

Já não ligava para a música alta e as luzes que me cegavam e me cansavam. Tampouco a boca eternamente seca e a bexiga invariavelmente cheia me traziam alguma chateação. Aquele era o local que desejava estar. Esquecia cada vez mais a vida lá fora, onde a música era baixa, as luzes mais estáticas e os líquidos não tinham gosto de álcool.

Foi por isso que demorei eras a reconhecer aquelas duas pessoas que se prostaram à minha frente e ficaram me encarando com a decepção estampada em cada linha da pele flácida e marcada de seus rostos. Eram, ah sim, agora ficava claro, meu pai e mãe.

Diferentemente dos que eventualmente lá passavam, eles não disseram muita coisa. Não tentaram me convencer a sair dali nem estranharam minha nova configuração, cada vez mais cadeirística. Meu pai apenas se limitou a cheirar o que tinha nos meus copos (já contavam dez) e minha mãe fez uma cafuné displicente em mim. Depois eles se olharam e deram de ombros, como a confirmar: “o que se podia esperar desse aí?”. Foram embora e deixaram alguns trocados sobre a mesa, para o garçom cuidar bem de mim.

Eu já era quase todo rigidamente de madeira, incapaz de fazer muitos movimentos, quando uma criança de ranho no nariz parou ao meu lado e me achou engraçado. Creio que ela nunca tivesse visto um homem-cadeira antes, razão pela qual aticei sua curiosidade infantil. Ela me cutucava e se recolhia, assustada, como se fosse um gatinho brincando com insetos. Eu não podia me mover e brincar com ela. No máximo desejei que ela se sentasse sobre mim, uma vontade que andava me dominando nos últimos tempos. Sempre que alguém passava por mim, algo dentro de mim queria desesperadamente que depositassem seus glúteos sobre mim. Até mesmo que pisassem sobre mim para trocar uma lâmpada ou para se afastarem de baratas. Em geral eu não gostava de servir de descanso para bolsas e outros objetos, preferia o calor humano e, cá entre nós, a maciez das bundas alheias.

Mas aquela criança não se sentou sobre mim. Não. Ela se cansou de mim rapidamente e correu para outro canto, onde uma mulher que, a despeito das belas linhas da juventude, já trazia consigo a severidade do ar da meia-idade, estava sentada com jeitão de desleixo. A criança puxava a mão da mulher que, sentada, copo americano gelado à mão, não se sentia muito animada a ir onde seu filho, supus, queria ir.

Mesmo sendo um homem-cadeira, achei a cena intrigante. Fiquei os observando durante longo tempo. Então, um fio de minha memória já desfeita me assaltou, mexendo com meus pregos. Minhas quatro pernas ficaram bambas. Olhando aquela mulher, não saberia dizer exatamente quem era ou o que fazia. Se era prostituta ou madre. Se gostava de comida chinesa ou árabe. Se era feminista ou submissa. O único detalhe irritantemente marcante nela, o único sinal que mexia com meus brios, era uma mancha, duas por sinal, que escorriam negras de seus olhos, borrando toda a extensão de seu rosto, por força da gravidade, por força de uma tristeza esquecida. Parecia… parecia um pierrô.

Quando me dei conta de quem eram a mulher e a criança, alguém se sentou confortavelmente sobre mim. Um prazer amargo me dominou, a esmagar um doce arrependimento, que ia se esvaindo. Quem dera todos soubessem quão bom é ser para sempre uma cadeira, com luz e música e toda a dinamicidade que minha madeira dura e tosca sempre vai desejar. Quão adorável é essa fuga que se fixa num só lugar, sem ninguém notar, sem ninguém perceber, apenas servindo para acolher e confortar. Acolher e confortar… até que o garçom me recolha e me descanse pela parede, em quarenta e cinco graus, esperando pela próxima noite.