29.1.12

Teodora

Apertei a campainha duas vezes. Arfava. O elevador nunca funcionava e sete lances de escada me separavam da superfície até o apartamento dela. Uma sombra se projetou por sob a velha porta. O olho mágico me encarava.

- O que você quer?

- Vender biscoitos é que não é, Teodora, vamos, abre logo.

Ela apenas virou a maçaneta, a porta estava destrancada. Não me abraçou nem me cumprimentou de forma alguma.  Apenas balançou o penhoar enquanto me dava as costas e sentava numa grande poltrona. Fiquei esperando.

- Estou esperando, disse.

- Esperando o quê?, ela perguntou, como se me indagasse qual era o sentido da vida.

- Você me convidar para sentar.

Ela riu alguns segundos, embora eu tenha impressão que foram minutos.

- Victor, vá me pegar um uísque.

Copo, gelo, uísque. Teodora gostava de pouco gelo e de muito uísque.

Ela pegou o copo e com um grande gole quase deu cabo dele. Depois me encarou com impaciência e me indicou com o pé um puff à sua frente. Sentei-me nele. Ela pousou o pé esquerdo na minha coxa e ordenou sem palavras que eu o massageasse. Peguei-o com ambas as mãos, ela tinha as unhas pintadas de preto, os dedos meio enrugados, havia acabado de sair do banho. Um perfume convidativo se espalhava pela sala. Ela ficou em silêncio enquanto eu deslizava suavemente meus dedos pela sola até o calcanhar.

- Fiquei sabendo que você anda usando meus textos num blog.

Teodora era uma mulher de uns trinta e cinco anos, pálida, o cabelo preto descendo reto e direito até os ombros. Tinha uma pinta à la Cindy Crawford e as pernas finas. Quando me olhava diretamente, sem expressão no rosto, e fazia comentários aleatórios como aquele, eu lembrava invariavelmente da Brigitte Bardot em O Desprezo.

- Eu, Teodora?

- Você mesmo, mocinho.

- Eu não teria essa audácia e muito menos o seu talento, repliquei.

Ela empurrou sensivelmente minhas mãos com o pé e me olhou inquisitorialmente. Devagar, escorregou o pé pela minha coxa, centímetro por centímetro, sem tirar os olhos dos meus. Depois, passou para a outra coxa, enquanto me interrogava.

- Por que você anda roubando meus textos?

- Sou leal, Teodora, só estou aqui para servi-la, para ajudá-la.

- Gosto de saber disso, Victor. De fato, tenho um grande trabalho para você, acabo de terminar um livro de contos.

- Foi o que ouvi dos fofoqueiros de sempre. Vim aqui para que você não me troque. Quero o serviço.

- Vou querer o de sempre, você corrige o que provavelmente não existe para corrigir e complementa o que você achar que os leitores querem que seja complementado. Pago o que paguei da última vez. E é bom que esteja ciente que se eu souber que copiou, plagiou, pirateou ou pensou em se apropriar de alguma das minhas ideias… bem…

Ela subiu o pé para a minha barriga, o penhoar abaixando até a cintura, a calcinha branca de renda se mostrando orgulhosa. De repente, bateu o calcanhar com tudo no puff sob mim, entre minhas pernas, muito, muito perto das minhas bolas. Recuei por instinto.

- Esteja avisado.

Ela dispensou o copo de whiskey para mim e se levantou, recompondo-se. Classuda, sempre.

- Vou pegar o material, espere aqui.

E saiu levitando novamente, com aquele rebolado que cabia perfeitamente no penhoar.

Bebi o resto de água e malte que tinha no copo e andei alguns passos pelo loft. Ela tinha um gosto minimalista e os únicos porta-retratos espalhados mostravam ela ao lado do pai, um aviador, outro com um gato preto, que se perdera por aí, e, por fim, o namorado da vez, um músico de barba mal-feita e voz macia. Senti vontade de socá-lo.

Na mesa de centro, uns papeis espalhados me chamaram a atenção. Manuscritos. Peguei um por curiosidade, enquanto a ouvia remexer em caixas, distante. Uma história de uma mulher fatal e um rapaz subserviente, algo meio erótico, algo subordinado. Whiskey, pés, massagem, ideias roubadas e um livro. Ouvi-a voltando, não li o final.

Ela me empurrou um maço de papeis envolto por uma capa, com aquele jeitinho sexy de quem está enfastiada do mundo. “Displicente”, pensei.

- Mando um cheque para você semana que vem.

- Claro.

Fitei-a durante um bom tempo. Ela não pareceu se desconcertar.

- Agora é melhor você ir…

- O Músico vem hoje?, indaguei, coçando o queixo.

- Tchau, Victor.

Ia fechando a porta atrás de mim, quando a escancarou novamente:

- E lembre-se do que eu avisei…

- Sem dúvida!

Desci as escadas sem reclamar, lembrando do perfume do corpo de Teodora após o banho, das veias de seu delicado pé e remoendo em detalhes, parágrafo após parágrafo, um texto novo, originalíssimo.

23.1.12

Eu tenho lido você

“Esse é o problema dos escritores. Vocês são cheios de palavras”.                                                                            (Adriana, personagem de Marion Cotillard em “Meia Noite em Paris”)

A belíssima Marion Cotillard proclama a epígrafe ao protagonista com palavras candentes e olheiras convidativas. Ao meu lado, no cinema, a garota me cutuca, sorriso no rosto, como se aquele fosse também meu problema. Um problema de palavras e mais palavras. Um garoto cheio de palavras.

Não falta quem me ache louco. Em síntese, não é incomum que me perguntem, “como você tem coragem de escrever sobre isso?”, ou, mais recorrentemente, “você não acha que está se expondo demais?”. Não, eu não acho e sim, a loucura nos deixa meio corajosos (ou nos faz perder qualquer senso crítico).

Quando eu era um rapazote, uma tia se aproximou de mim e, como qualquer tia e tio do mundo, perguntou como eu estava me saindo com as mulheres. Naquela época eu era tímido, apesar de já ter sido bem extrovertido um dia -  coisas que não convêm aprofundar –, e me encabulei ante o questionamento.

Como eu resistia em dar maiores informações, ela resolveu dar um conselho sem perquirir minhas melhores intenções: “homem tem que ter pegada, mulher gosta de cara cafajeste!”, ela afirmou. E aquelas palavras ficaram flutuando na minha cabeça (pode ser no plural também) como um comando indelegável, uma necessidade premente.

Sobra palavras e falta ação? Qual o problema dos escritores? Será que preferem o mundo das palavras ao mundo dos atos? Não que a palavra deixe de ser um ato, mas porque parece ser um ato tão relegado, tão pequeno diante dos arroubos? Naquela época, por óbvio,  a única coisa que eu escrevia era redação de escola e roteiros absurdos para super-herois, no entanto, é notável que as palavras me sejam recorrentemente companheiras, desde pequeno.

Confesso que muitas vezes olho o que escrevo e penso, “puta merda, cara, o que você acha que vão pensar disso?!”. E aí eu tento encontrar algum resquício de desprezo ou compaixão nos olhos dos outros, nos olhos que leem, mas não vejo nada. A fama para os escritores é invisível e muito mais uma fantasia. Está na cabeça alheia.

Eu disse fama? Por favor, eu não quero dizer “fama”, mas só aquele substantivo que designa uma reputação. A mesma fama que está ali oculta (e desprestigiada) na palavra “infame”, e olha que eu não sou nenhum filológo. Assim, não deixa de ser um orgulho, e um orgulho estranho, quando me perguntam se eu fiz algo de horrível que eu inventei, e inventei sem propósito algum, para um texto de ficção.

Realidade e ficção. É duro tecer alguma palavra sobre um assunto que já foi explorado tantas vezes na arte, nas mídias, nos ensaios. Quem seria eu para traçar essa linha mais ridícula que a de Tordesilhas, entre o que supostamente existe e o que existe por suposto? A brincadeira mora aí, afinal, eu não quero que ninguém descubra o que acontece e o que não acontece, mas adoro imaginar que se perguntem por que pode acontecer.

É verdade que eu e tantos outros escritores somos cheios de palavras. Não podemos negar que há aí um imperativo. Quando é que deixamos de ler uma palavra se ela se afigura diante de nós? Que criança não tenta ler cada sílaba de um grande outdoor? Quem resiste a uma legenda que corre amarela na tela de TV?

Isso é o que eu faço. Se eu não tenho nenhuma pretensão de me curar é porque, como eu, muitos acham que são acometidos das minhas palavras. E é com extremo mau gosto que eu venho aqui comparar o que escrevo com uma prescrição médica, já que há quem considere a Medicina uma arte. Eu tento curar, eu tento costurar, eu tento suturar e eu tento embelezar, e como qualquer cirurgião humano, é claro que às vezes acontece um errozinho médico que cria verdadeiros monstros transfigurados.

É difícil ter vergonha de mostrar algo ao mundo quando você acredita piamente que esse “algo” é o único talento que sua mãe ou Deus ou o que quer que seja lhe tenha relegado. Você para de se achar ridículo e começa a ver sentido nas olheiras da Marion Cotillard. E mais que apaixonado pelo jeitinho francês dela, você começa a imaginar que tipo de texto pode escrever explicitando essas críticas tão veladas que recebe.

Talvez a resposta o mesmo Meia Noite em Paris dê, quando Gertrude Stein, interpretada por Kathy Bates, aduz: “o trabalho do artista não é sucumbir ao desespero, mas achar um antídoto para o vazio da existência”. Não é tão diferente de um médico artista, é?

Eu sou uma ponte, e só isso, que tenta ligar o nada a qualquer coisa que faça os outros pensarem “Eu não estou sozinho”. É isso o que meus montes de palavras são. É isso que eu não vejo problema algum de gritar a todos. E se isso é insensatez, pois bem, internem-me agora mesmo.

7.1.12

Um lugar vazio ao meu lado

A garota bonita passa pela roleta do ônibus e é óbvio que há muito eu já a notei. Estou usando óculos escuros e finjo – porcamente – não ter reparado nela. Estou sentado no fundo do coletivo e ela ameaça se sentar num banco lá para frente. Ela hesita e olha para trás, onde eu reino absoluto no fundão, procurando algo. Sem delongas, ela desiste de se sentar onde pretendia para me dar a honra de ficar ao meu lado. Num ônibus cheio de lugares vazios isso é um privilégio.

Ela é bonita, simples e me deu bola, são três qualidades irrefutáveis. Tenho um amigo que adora meninas que andam de ônibus. Ouso dizer que ele tem certa tara por elas. Eu acho que o compreendo. Estou acostumado a meninas frescas. Elas fizeram, fazem e provavelmente farão parte do meu dia-a-dia. Meninas que provavelmente sentiriam nojo de entrar num circular. São aquelas que antes de saber se o cara tem dois olhos, duas orelhas, um nariz e uma boca (e muito antes de sequer saber se ele é homem mesmo), dão um jeito de descobrir se ele tem um carro. Ou qualquer outro objeto que signifique status. Não acredita nesse papo? Então você é ingênuo (a). Pare de ler esse texto imediatamente e vá assistir Disney Channel.

Você que continuou lendo, ó corajoso e calejado leitor, saiba que as garotas simples são sempre as mais interessantes. Elas não ligam de pagar a conta de vez em quando. Elas acreditam no potencial do parceiro de num futuro incerto ganhar dinheiro, mas até que veem beleza numa vida sem luxo, mas repleta de paixão. Elas não se preocupam se a mãe, a tia e a avó vão aprovar o namorado pela cor, credo ou situação financeira. Elas simplesmente vivem. E por simples não quero dizer pobres. Quero dizer simples, só simples.

Quando a garota se sentou ao meu lado, eu a olhei por aproximadamente três milésimos de segundos. Foi o que ela fez também. Depois, eu abaixei a cabeça. E foi o que ela fez também. Então eu voltei a olhá-la. E ela virou o rosto para o outro lado. Então ela resolveu me olhar, e por algum motivo inexplicável, eu é que acabei virando o rosto para o outro lado. Ficamos nesse pingue-pongue por exatamente duas paradas, tempo exíguo que durou meu romance com ela.

Eu não falei nada e tampouco ela. Eu queria ter falado, mas não tive tempo. Na verdade, eu não tive coragem. Talvez meu amigo, o que gosta das meninas de ônibus, fosse mais preparado para aquele momento.

Eu desci do ônibus do mesmo jeito que entrei. Sozinho.

Num dia completamente diferente, eu estava no cinema. E não quero que sintam compaixão se eu falar que estava no cinema sozinho. Eu adoro ir ao cinema sozinho. Eu fui ver o filme novo do Almodóvar, era uma segunda, matinê. A sensação de estar sozinho no cinema é fascinante. Parece um espetáculo montado para uma pessoa só.

Mas isso não durou, pois logo um casal adentrou meus domínios e se prostrou logo atrás de mim, numa aproximação para lá de perturbadora.

Eu lembrei das vezes em que fui ao cinema acompanhado e para honrar minhas lembranças, logo a garota começou a gemer baixo, muito baixo, mas alto o suficiente para que eu pudesse ouvir.

Foi um exercício fantástico tentar prestar atenção no intrigante filme do diretor espanhol e, concomitantemente, deixar minha imaginação pensar em contos ou crônicas com gemidos de uma menininha num cinema escuro. Aquele som abafado, confessional, que deve ser tão ou mais bonito que a Nona do Beethoven (talvez seja um belo complemento).

Se eu fosse mais longe, lembraria do dia em que conheci a minha Sybil Vane numa peça de teatro horrível num festival qualquer. Na fila, eu, sozinho. Raramente encontro quem me acompanhe em programas culturais. Atrás de mim na fila, um casal.

Eu estava no ápice da depressão pós-término de algum relacionamento muito ou quase muito importante. Para ser mais exato, aquele exato momento azedo e rabugento, onde a felicidade alheia incomoda mais que coceira no saco. Você mulher leitora, faça uso da metáfora da cólica. Incomoda mais que cólica.

O casal se beijava estrepitosamente. Até aí tudo bem. O problema é que cada beijo resultava num estalo de uns 150 decibéis. Eu não creio que adiantaria chamar a Força Verde para coibir tamanha poluição sonora no meu momento coração-de-pedra, mas, à época, eu não descartava alguma intervenção mais violenta. No fim, eu não fiz nada, só enguli minha angústia. A seco.

São três momentos diferentes e para ser bem sincero, eles não têm muito em comum. Ou têm, e num esforço sombriamente desesperado, eu esteja clamando por uma interpretação mais restritiva, alguém que me explique, Victor, você é assim e você precisa de uma mulher tal (e do remédio x, seu louco). Eu acho que no fundo, no fundo, o pano de fundo – desculpem a pobreza sintática – se revela na solitude, que é muito diferente da prima triste, a solidão.

Eu posso até pensar que um amigo ou outro teria uma resposta para mim. Victor, vai lá e faz o que eu mando. Eu tenho amigos bons com as mulheres. Amigos que contam muitas histórias, muito embora eu tenha a impressão de que o fato de contarem histórias tornem eles verdadeiramente medíocres à procura de algum respaldo na minha afirmação.

Não, não é nenhum amigo que vai me dizer o que fazer. Mesmo porque, aquele que é capaz de conquistar qualquer mulher no ônibus, esse aí quando quer impressionar alguma, ele passa o endereço do Ruinaria para a garota. História verdadeira!

Bem, a verdade é que eu não sei como terminar esse texto, seria como tentar dar um ponto final num trabalho ainda em desenvolvimento. Algumas pessoas são como lobos solitários, outras veem sentido na coletividade, na partilha. Eu não sei quem eu sou ainda, mas por hoje eu já estou feliz – e simplesmente feliz – de ter conquistado o olhar breve de alguns milisegundos da garota do ônibus.