23.1.12

Eu tenho lido você

“Esse é o problema dos escritores. Vocês são cheios de palavras”.                                                                            (Adriana, personagem de Marion Cotillard em “Meia Noite em Paris”)

A belíssima Marion Cotillard proclama a epígrafe ao protagonista com palavras candentes e olheiras convidativas. Ao meu lado, no cinema, a garota me cutuca, sorriso no rosto, como se aquele fosse também meu problema. Um problema de palavras e mais palavras. Um garoto cheio de palavras.

Não falta quem me ache louco. Em síntese, não é incomum que me perguntem, “como você tem coragem de escrever sobre isso?”, ou, mais recorrentemente, “você não acha que está se expondo demais?”. Não, eu não acho e sim, a loucura nos deixa meio corajosos (ou nos faz perder qualquer senso crítico).

Quando eu era um rapazote, uma tia se aproximou de mim e, como qualquer tia e tio do mundo, perguntou como eu estava me saindo com as mulheres. Naquela época eu era tímido, apesar de já ter sido bem extrovertido um dia -  coisas que não convêm aprofundar –, e me encabulei ante o questionamento.

Como eu resistia em dar maiores informações, ela resolveu dar um conselho sem perquirir minhas melhores intenções: “homem tem que ter pegada, mulher gosta de cara cafajeste!”, ela afirmou. E aquelas palavras ficaram flutuando na minha cabeça (pode ser no plural também) como um comando indelegável, uma necessidade premente.

Sobra palavras e falta ação? Qual o problema dos escritores? Será que preferem o mundo das palavras ao mundo dos atos? Não que a palavra deixe de ser um ato, mas porque parece ser um ato tão relegado, tão pequeno diante dos arroubos? Naquela época, por óbvio,  a única coisa que eu escrevia era redação de escola e roteiros absurdos para super-herois, no entanto, é notável que as palavras me sejam recorrentemente companheiras, desde pequeno.

Confesso que muitas vezes olho o que escrevo e penso, “puta merda, cara, o que você acha que vão pensar disso?!”. E aí eu tento encontrar algum resquício de desprezo ou compaixão nos olhos dos outros, nos olhos que leem, mas não vejo nada. A fama para os escritores é invisível e muito mais uma fantasia. Está na cabeça alheia.

Eu disse fama? Por favor, eu não quero dizer “fama”, mas só aquele substantivo que designa uma reputação. A mesma fama que está ali oculta (e desprestigiada) na palavra “infame”, e olha que eu não sou nenhum filológo. Assim, não deixa de ser um orgulho, e um orgulho estranho, quando me perguntam se eu fiz algo de horrível que eu inventei, e inventei sem propósito algum, para um texto de ficção.

Realidade e ficção. É duro tecer alguma palavra sobre um assunto que já foi explorado tantas vezes na arte, nas mídias, nos ensaios. Quem seria eu para traçar essa linha mais ridícula que a de Tordesilhas, entre o que supostamente existe e o que existe por suposto? A brincadeira mora aí, afinal, eu não quero que ninguém descubra o que acontece e o que não acontece, mas adoro imaginar que se perguntem por que pode acontecer.

É verdade que eu e tantos outros escritores somos cheios de palavras. Não podemos negar que há aí um imperativo. Quando é que deixamos de ler uma palavra se ela se afigura diante de nós? Que criança não tenta ler cada sílaba de um grande outdoor? Quem resiste a uma legenda que corre amarela na tela de TV?

Isso é o que eu faço. Se eu não tenho nenhuma pretensão de me curar é porque, como eu, muitos acham que são acometidos das minhas palavras. E é com extremo mau gosto que eu venho aqui comparar o que escrevo com uma prescrição médica, já que há quem considere a Medicina uma arte. Eu tento curar, eu tento costurar, eu tento suturar e eu tento embelezar, e como qualquer cirurgião humano, é claro que às vezes acontece um errozinho médico que cria verdadeiros monstros transfigurados.

É difícil ter vergonha de mostrar algo ao mundo quando você acredita piamente que esse “algo” é o único talento que sua mãe ou Deus ou o que quer que seja lhe tenha relegado. Você para de se achar ridículo e começa a ver sentido nas olheiras da Marion Cotillard. E mais que apaixonado pelo jeitinho francês dela, você começa a imaginar que tipo de texto pode escrever explicitando essas críticas tão veladas que recebe.

Talvez a resposta o mesmo Meia Noite em Paris dê, quando Gertrude Stein, interpretada por Kathy Bates, aduz: “o trabalho do artista não é sucumbir ao desespero, mas achar um antídoto para o vazio da existência”. Não é tão diferente de um médico artista, é?

Eu sou uma ponte, e só isso, que tenta ligar o nada a qualquer coisa que faça os outros pensarem “Eu não estou sozinho”. É isso o que meus montes de palavras são. É isso que eu não vejo problema algum de gritar a todos. E se isso é insensatez, pois bem, internem-me agora mesmo.

2 comentários:

Natália Oliveira disse...

Eu tenho lido você. Desde sempre, eu acho.

Bruna Mitrano disse...

eu sou cheia de silêncios. será que sou escritora? gostei do texto, tem um quê confessional, embora isso faça parte do jogo, sabemos.