7.1.12

Um lugar vazio ao meu lado

A garota bonita passa pela roleta do ônibus e é óbvio que há muito eu já a notei. Estou usando óculos escuros e finjo – porcamente – não ter reparado nela. Estou sentado no fundo do coletivo e ela ameaça se sentar num banco lá para frente. Ela hesita e olha para trás, onde eu reino absoluto no fundão, procurando algo. Sem delongas, ela desiste de se sentar onde pretendia para me dar a honra de ficar ao meu lado. Num ônibus cheio de lugares vazios isso é um privilégio.

Ela é bonita, simples e me deu bola, são três qualidades irrefutáveis. Tenho um amigo que adora meninas que andam de ônibus. Ouso dizer que ele tem certa tara por elas. Eu acho que o compreendo. Estou acostumado a meninas frescas. Elas fizeram, fazem e provavelmente farão parte do meu dia-a-dia. Meninas que provavelmente sentiriam nojo de entrar num circular. São aquelas que antes de saber se o cara tem dois olhos, duas orelhas, um nariz e uma boca (e muito antes de sequer saber se ele é homem mesmo), dão um jeito de descobrir se ele tem um carro. Ou qualquer outro objeto que signifique status. Não acredita nesse papo? Então você é ingênuo (a). Pare de ler esse texto imediatamente e vá assistir Disney Channel.

Você que continuou lendo, ó corajoso e calejado leitor, saiba que as garotas simples são sempre as mais interessantes. Elas não ligam de pagar a conta de vez em quando. Elas acreditam no potencial do parceiro de num futuro incerto ganhar dinheiro, mas até que veem beleza numa vida sem luxo, mas repleta de paixão. Elas não se preocupam se a mãe, a tia e a avó vão aprovar o namorado pela cor, credo ou situação financeira. Elas simplesmente vivem. E por simples não quero dizer pobres. Quero dizer simples, só simples.

Quando a garota se sentou ao meu lado, eu a olhei por aproximadamente três milésimos de segundos. Foi o que ela fez também. Depois, eu abaixei a cabeça. E foi o que ela fez também. Então eu voltei a olhá-la. E ela virou o rosto para o outro lado. Então ela resolveu me olhar, e por algum motivo inexplicável, eu é que acabei virando o rosto para o outro lado. Ficamos nesse pingue-pongue por exatamente duas paradas, tempo exíguo que durou meu romance com ela.

Eu não falei nada e tampouco ela. Eu queria ter falado, mas não tive tempo. Na verdade, eu não tive coragem. Talvez meu amigo, o que gosta das meninas de ônibus, fosse mais preparado para aquele momento.

Eu desci do ônibus do mesmo jeito que entrei. Sozinho.

Num dia completamente diferente, eu estava no cinema. E não quero que sintam compaixão se eu falar que estava no cinema sozinho. Eu adoro ir ao cinema sozinho. Eu fui ver o filme novo do Almodóvar, era uma segunda, matinê. A sensação de estar sozinho no cinema é fascinante. Parece um espetáculo montado para uma pessoa só.

Mas isso não durou, pois logo um casal adentrou meus domínios e se prostrou logo atrás de mim, numa aproximação para lá de perturbadora.

Eu lembrei das vezes em que fui ao cinema acompanhado e para honrar minhas lembranças, logo a garota começou a gemer baixo, muito baixo, mas alto o suficiente para que eu pudesse ouvir.

Foi um exercício fantástico tentar prestar atenção no intrigante filme do diretor espanhol e, concomitantemente, deixar minha imaginação pensar em contos ou crônicas com gemidos de uma menininha num cinema escuro. Aquele som abafado, confessional, que deve ser tão ou mais bonito que a Nona do Beethoven (talvez seja um belo complemento).

Se eu fosse mais longe, lembraria do dia em que conheci a minha Sybil Vane numa peça de teatro horrível num festival qualquer. Na fila, eu, sozinho. Raramente encontro quem me acompanhe em programas culturais. Atrás de mim na fila, um casal.

Eu estava no ápice da depressão pós-término de algum relacionamento muito ou quase muito importante. Para ser mais exato, aquele exato momento azedo e rabugento, onde a felicidade alheia incomoda mais que coceira no saco. Você mulher leitora, faça uso da metáfora da cólica. Incomoda mais que cólica.

O casal se beijava estrepitosamente. Até aí tudo bem. O problema é que cada beijo resultava num estalo de uns 150 decibéis. Eu não creio que adiantaria chamar a Força Verde para coibir tamanha poluição sonora no meu momento coração-de-pedra, mas, à época, eu não descartava alguma intervenção mais violenta. No fim, eu não fiz nada, só enguli minha angústia. A seco.

São três momentos diferentes e para ser bem sincero, eles não têm muito em comum. Ou têm, e num esforço sombriamente desesperado, eu esteja clamando por uma interpretação mais restritiva, alguém que me explique, Victor, você é assim e você precisa de uma mulher tal (e do remédio x, seu louco). Eu acho que no fundo, no fundo, o pano de fundo – desculpem a pobreza sintática – se revela na solitude, que é muito diferente da prima triste, a solidão.

Eu posso até pensar que um amigo ou outro teria uma resposta para mim. Victor, vai lá e faz o que eu mando. Eu tenho amigos bons com as mulheres. Amigos que contam muitas histórias, muito embora eu tenha a impressão de que o fato de contarem histórias tornem eles verdadeiramente medíocres à procura de algum respaldo na minha afirmação.

Não, não é nenhum amigo que vai me dizer o que fazer. Mesmo porque, aquele que é capaz de conquistar qualquer mulher no ônibus, esse aí quando quer impressionar alguma, ele passa o endereço do Ruinaria para a garota. História verdadeira!

Bem, a verdade é que eu não sei como terminar esse texto, seria como tentar dar um ponto final num trabalho ainda em desenvolvimento. Algumas pessoas são como lobos solitários, outras veem sentido na coletividade, na partilha. Eu não sei quem eu sou ainda, mas por hoje eu já estou feliz – e simplesmente feliz – de ter conquistado o olhar breve de alguns milisegundos da garota do ônibus.

Nenhum comentário: