17.2.12

Max e Nicholas

Tudo parece iniciar como se eu estivesse emergindo de um longo e profundo sono. As vozes das conversas vão se avolumando ao meu redor, a sombra afugentada pelo sol vai ganhando contornos mais nítidos, revelando formas que antes eram trevas, o vai-e-vêm dos corpos ganha ritmo. Lembro que estou numa rodoviária, sei disso porque vejo malas sendo empurradas aqui e acolá, vejo a gente apressada, vejo ônibus chegando e partindo. Mas, vendo tudo isso, não me lembro como fui parar ali, não recordo como fui sentar naquele banco velho e sujo e não faço ideia de como a passagem para São Paulo, poltrona 27, veio parar na minha mão.

A vida corrida parece ter feito isso comigo. Passei a me preocupar mais com qual ônibus pegar, com quais minutos sacrificar, que passos apressar. Deixei de lado todo o resto. Deixei de prestar atenção no mundo ao meu redor, no ar que respiro.

Sinto que em algum lugar perto de mim há uma força magnética, me chamando, me puxando. Olho para frente, para trás, procurando. Nada. Depois de terminada a faculdade, acabei me acostumando a isso e, posso dizer até sem muito esforço, acabei me entregando a qualquer espécie de empurrão do destino, me levasse a onde levasse, eu não me importava, só deixava a gravidade fazer seu serviço.

Olhei para o lado então e vi uma garota pálida, de cabelos ruivos. Não me interessei se ela era bonita ou não. A bem da verdade, não me interessei por nada nela. Por mais que ela fosse linda (o que não era), eu não iria conversar com ela. Eu não faria qualquer esforço para conversar com ela. Eu jamais conversaria com ela. Eu não interferiria no destino, não influenciaria meu rumo. Não me entregaria a um romance barato. E é claro, evitaria qualquer chance dela me dispensar. Essa não é uma história de amor.

Não era ela minha força gravitacional momentânea. Soube disso quando, ao lado dela, vi uma senhora mexendo nos cabelos, puxando-os para cima para desencobrir a face. Eu já havia visto aquilo antes. Aquele trejeito com as mãos. Os cachos negros caindo pesados nos ombros. Era a senhora Arosa, mãe do meu amigo Maximiliano. Era a ela que eu deveria curvar meus desígnios. Era ela a força gravitacional.

Aproximei-me cortezmente e, não sem antes dar uma olhada de esguelha na ruiva (que me olhou por uns segundos e voltou a ler sua revista feminina), chamei baixinho.

- Senhora Arosa.

Ela me olhou fundo nos olhos. Os olhos mais tristes que eu já vi na minha vida, tão fundos e negros que pareciam dois precipícios gêmeos, dois destinos igualmente trágicos ao final de uma bifurcação que poderia dar alguma impressão de livre-arbítrio para os incautos, para os tolos que os encarassem por tempo demasiado.

- Nicholas!

Ela disse meu nome de maneira tão doce e sutilmente desesperada que não demorei a entender o que estava acontecendo. Ela tinha olheiras, olhos inchados e tristes, a palidez de quem há muito não come, a cabeça baixa e uma foto amassada do meu amigo Maximiliano entre as mãos ossudas.

- O Maximiliano está…?

E antes que eu pudesse completar:

- Nicholas, ele faleceu essa madrugada…

Fiquei em silêncio.

Max estudara comigo numa cidade do interior de São Paulo. Entre tantos caipiras e um calor desértico, ele fora minha primeira e melhor companhia. Um amigo que mandava eu ir me foder, me batia quando eu falava algo desagradável, que disputava as garotas comigo palmo a palmo, mas que na hora da briga estava sempre lá para chutar meu inimigo, ou me dar um abraço e me apresentar uma amiga na hora da fossa ou só ficar olhando o céu enquanto conversávamos besteiras na hora da bebedeira. Era um irmão.

A notícia não me chocou tanto na hora. De fato, eu demorei muito tempo para pensar objetivamente “meu amigo se foi”. Antes disso, eu via a pobre mulher debulhando lágrimas quentes no meu colo e eu ficava num pêndulo, virando a cabeça ora para os cabelos desgrenhados dela ora para a passagem na minha outra mão. E fiquei nessa indecisão durante um tempo infindável, como se nada houvesse ao meu redor, apenas fumaça, a cabelereira da mulher e a passagem para São Paulo.

Eu e Max havíamos nos formado há pouco tempo. Engenharia. Diziam que o país precisava de engenheiros, mas ficamos muito tempo procurando um trabalho decente. Acabamos caindo no conto do vigário de que a faculdade nos seria útil para algo, mas no atual andar das coisas, era só uma formalidade para estampar no currículo. O dinheiro foi rareando. Eu não queria mais depender dos meus pais. Nossos pais eram da mesma cidade, onde morei durante a adolescência, e onde me encontrava agora.

Max acabou encontrando um emprego razoável na cidade onde nos formamos. Eu fui chamado para São Paulo, a cidade cinza. Sem entrevista nem nada. Uma multinacional tão grande e arrogante que eu tinha certeza que só seria mais um peão em meio a tantos engenheiros dispensáveis. Construção de um estádio de futebol, está explicado? Nessas horas, o capital se preocupa mais com a conclusão rápida da obra (o que não ocorreria se fosse a lógica do capital político). Então, tanto faz se o engenheiro tem 1 mês ou 20 anos de experiência, botem o cabra lá com seu capacete e viabilizem logo o retorno financeira dessa joça. Aceitei.

Estivera com Max cinco dias antes, bebendo e rememorando momentos engraçados da faculdade. Era uma despedida. Ríamos, mas estávamos tristes. No copo americano que era virado, ia embora junto uma vida construída em quatro ou cinco anos. Iam embora namoradas, jogos de futebol, provas difíceis, a dureza financeira, noites de comemoração.

De maneira que em meio àquelas nuvens que afastavam toda a realidade de mim e me incumbiam de escolher entre a mãe de luto ou o começo de uma nova vida numa metrópole nojenta, eu amassei o bilhete e acudi a mulher. Olhei bem nos olhos dela e proferi.

- Eu vou com você, Sofia.

E em breve, embarcava numa viagem de cinco horas. Horas que derretiam em meio à composição de paisagens que desfilavam perante meus olhos. Os campos verdes, as plantações de cana, de soja, de milho e trigo. A carcaça de um boi morto há eras atrás. Os vales traiçoeiros que me faziam pensar como eu iria sobreviver caso estivesse perdido em meio à mata densa. As nuvens, cheias de mutações, com significados ou não. Os infinitos caminhões com infinitas cargas. As cidadezinhas sujas e pobres.

Sofia Arosa às vezes conversava comigo, ouvia-a murmurar algo sobre a infância de Max. Eu a confortava. Não sabia dizer nada. Cinco anos fazendo companhia para um cara, mas nenhuma habilidade em dizer algo decente para uma mãe que perdeu o filho. Sabia que ela gostava da minha presença. Talvez tenha visto em mim um resquício do filho morto. Uma última lembrança. “É isso mesmo que eu sou, senhora”, senti vontade de dizer para ela, “sou o que sou filho deixou para trás nesse mundo. A carne dele vai apodrecer. Os bens dele vão sumir. Mas as risadas que aquele bastardo provocou em mim. Essas vão perdurar. Um dia ele me queimou com um cigarro de maconha por acidente. Sempre vou carregar a cicatriz dele. É isso que os mortos deixam para trás, cicatrizes e memórias. Só isso, minha senhora”.

E mesmo assim não disse nada, perdido entre o tempo corroído, as paisagens desfilantes, o choro da mãe, o choro do bebê no fundo do ônibus, o barulho dos outros veículos zunindo ao passarem por nós em sentido contrário. Uma estrada de idas e vindas que me levavam para um lugar que eu mal sabia se queria realmente estar. De repente, me dei conta que jogara no lixo um emprego.

Maximiliano Arosa uma vez se apaixonou por uma imbecil com quem eu tinha algo. Estava com ela para matar o tempo. Ele tinha o desejo sincero de amá-la. Mas sempre se segurava, ciente dos limites que nossa amizade impunha. Eu achava graça na situação, pois não gostava realmente da menina. Certa vez, a garota ficou enciumada de me ver conversando com uma amiga da faculdade e decidiu vingar-se de mim utilizando Max como um mero instrumento. Deu em cima dele. Ele receoso, afastou-a. Eu assistia tudo, era esse o objetivo dela. Ela resolveu ser vulgar, escancarou suas intenções, pegou pesado. Max rejeitou-a, estava repugnado pelas atitudes dela. Ela o chamou de viado, de fraco, disse que ele era só uma sombra perto de mim. Ele não chegou a responder. Apareci antes, olhei para ela sem qualquer emoção. “Não quero mais você”, disse, deixando-a com cara de tacho. Abracei meu amigo pelos ombros. “Vamos, estou te devendo uma cerveja”. Foi o melhor que pude fazer… uma cerveja. Meu amigo teve de encarar a menina que gostava se transformar em algo vulgar e repugnante e eu não tinha nada além de uma cerveja para consolá-lo.

Desembarquei novamente na cidade que dias antes havia abandonado. Senti-me Orfeu descendo ao Hades para buscar a pessoa querida morta. Nenhuma lira me acompanhava. Os únicos sons que me circundavam eram os lamúrios da mulher que eu tinha de manter em pé.

O IML me pareceu um lugar um tanto quanto burocrático. No lugar do Caronte, só havia um funcionário empedernido, de óculos de aros grossos. Atendeu-nos desinteressadamente.

Andamos alguns corredores após uma espera maçante. O médico fazia perguntas sem tirar os olhos de uma prancheta. Numa maca, dois pés mortalmente pálidos se desvencilhavam de uma manta que cobria o que provavelmente era o corpo do meu amigo.

Não quis olhar. Sofia o reconheceu.

O que se seguiu foi uma série de contatos com tanatopraxistas, vendedores de caixões, mercadores da morte, necromonges, fantasmas, demônios, capitalistas, enfim, toda sorte de personas do mundo das sombras. Eles me olhavam com olhos ávidos, como se vissem em mim um produto. O necroartista quis pegar minhas medidas, analisar o tom da minha pele. Quase cri que era seu muso.

Sofia, incansável, foi cuidar do funeral. Eu achei um hotel barato, dormi uma hora ou duas. Não quis avisar ninguém, não queria ser essa pessoa que dá a notícia ruim, que toca a trombeta...

Quando me dirigi para a capela mortuária, vislumbrei antigos colegas, personagens da vida que construí naquela cidadezinha calorenta. Quando olhava para eles, disassociava a imagem que antes os acompanhava com o que assistia agora. O brincalhão, sorriso estampado no rosto sempre, agora cabisbaixo e sorumbático. A bonitona, sempre desejável, mas apenas uma sombra pálida de maquiagem borrada. Os bagunceiros, quietos e respeitosos. Os professores, uma feição protocolar. Eu não acreditava que realmente todos estavam tristes com a morte do meu amigo. Antes, acreditava que para eles era inconcebível que alguém daquela idade, a mesma idade que a deles, tivesse passado para o outro lado. Era uma tristeza egoísta.

Nenhum deles me via ali, ninguém prestou atenção em mim. Num canto, ainda desolada, Sofia alisava os cabelos do filho.

Eu precisava me despedir de Max, ainda não tivera a coragem de fazê-lo, de reparar como estava o rosto que me acompanhara em tantos momentos. Eu tinha que respeitá-lo, prestar minhas homenagens, ir à beira de seu caixão, olhar bem para seus olhos fechados, talvez depositar duas moedas sobre suas pálpebras para que ele fizesse a travessia em condições adequadas, dizer adeus e depois dar um longo abraço em sua mãe. Ele gostaria que eu fizesse isso.

Andei entre os presentes, nenhum deles notando minha presença ou sequer reparando no falecido, todos conversavam entre si, sobre política, sobre a faculdade, sobre empregos, sobre futebol. Isso não é um encontro social, seus bostas! Quis gritar, mas me contive, apenas caminhei, desviando o olhar o máximo que pude, até que cheguei no ataúde. Olhei os pés de Max, suas pernas, quadril, tórax. Era de estatura média. Estava bem vestido, o tanatopraxista era realmente um artista.

Sua cabeça, contudo, a pele pálida, os olhos cerrados, os lábios que jamais tornariam a se abrir, o nariz reto de sangue latino, as sobrancelhas grossas e os cabelos ainda alisados pelas mãos maternas ressentidas. Aquele rosto sempre tão presente, sempre tão querido.  Aquele rosto… aquele rosto…

Aquele rosto era meu.

2 comentários:

re disse...

"...Desembarquei novamente na cidade que dias antes havia abandonado. Senti-me Orfeu descendo ao Hades para buscar a pessoa querida morta. Nenhuma lira me acompanhava. Os únicos sons que me circundavam eram os lamúrios da mulher que eu tinha de manter em pé".

Lindo! E triste.

Polar disse...

essa tristeza egoísta é tão angústia de heidegger!

o texto me prendeu muito
os tristes são os mais lindos