19.2.12

Musa

Ela me vigiou pelo canto do olho. Eu encarei. Ela fez isso por quatro vezes. Pronto, era motivo o suficiente para ir lá conversar.

“Eu conheço você”, começaria.

“Ah, é? Da onde?”, ela responderia, fingindo um tom de desinteresse.

O som estaria alto, eu teria que me aproximar do ouvido dela, de maneira confidente.

“Você estava na formatura semana passada. Encostada num balcão, com cara de quem não estava aproveitando”.

“Você estava lá também?”.

“Sim, fui convidado. Você faz Direito também?”.

“Faço, e você?”.

“Acabei de me formar”.

“Ah…”, e ela olharia para o lado, esperando eu quebrar o gelo.

Eu geralmente paro aqui. Não consegui imaginar mais nada para falar, muito embora antes de dormir eu imagine vinte e cinco frases diferentes que poderia usar com você. Ah sim, essa é nossa conversa imaginária, eu ainda não a conheci.

Uma amiga me disse que você tem cara de musa. Que poderia ser minha musa. Eu nunca tive uma musa antes, em geral as mulheres dos meus textos são vagabundas que fazem alguém sofrer ou heroínas decididas e independentes. Também têm aquelas personagens que parecem saídas de algum livro de contos russos e que buscam a redenção do amado. Mas vá lá… eu nunca cantei minhas linhas para uma garota em especial. Parabéns, essa é você.

Garota, você tem um quê de clássico. Você conhece a “Dama com arminho” do Da Vinci? Aqueles traços retos, caucasianos, renascentistas, tão vívidos quanto uma princesa de carne e osso. Você me faz lembrar dela.

Eu fico imaginando se escritores podem fazer tanto sucesso quanto músicos. Por que é que um guitarrista metido causa mais lubrificações que um escritor magrelo com cara de cão sem dono? Ok, ele pode ser bom com os dedos, meu bem, mas não se esqueça que o que conta é a imaginação, e essa eu tenho de sobra. Ah, eu tenho.

Veja só, eu a vi com essa carinha de quem estava detestando a banda ruim da festa e eu só imaginei que você estava ou cansada ou brava com algum namorado ou num mau-humor por causa do salto alto. Eu sou tímido, não tinha álcool no mundo que me arrancasse uma frase engraçada para começar um diálogo com você. Agora eu penso que você é uma roqueira e que eu fui muito idiota de não ter me apresentado como um ex-metaleiro inveterado, um lobo que se trajou de cordeiro só para não ser descartado numa entrevista de emprego qualquer.

Pode ser que eu não a encontre nunca mais, o que não vai impedir minha imaginação, aquela que eu tenho de sobra, de pensar em mil encontros casuais com a sua pessoa. Quem sabe? A cidade não é tão grande assim.

Eu ficarei imaginando a textura da sua pele, o cheiro do seu cabelo, o quanto você pode segurar um gemido enquanto eu beijo seu pescoço, ou mesmo quantos textos eu vou ter de escrever até mostrar como eu sou melhor e mais interessante que todos os seus ex-namorados juntos e também mais profundo que qualquer garoto que você esteja interessada. Porque a vida é assim, minha musa, quando eu coloco algo na cabeça, eu vou até o fim e não me importo com obstáculos.

Tenho a impressão que minha terapeuta desaprovaria esse meu platonismo literário, mas existem momentos que são feitos para escrever. Eu já escrevi sobre dor, sobre mudança, sobre loucuras, sobre sofrimento e quase sempre a respeito de sentimentos. Eu não gosto de escrever sobre amor, embora eu já o tenha feito. É difícil arrancar sentimentalismos de um quase-cético. Eu gosto, sempre deixei isso claro, do realismo, aqui e na minha vida.

Que fique para sempre registrado, minha musa, o quanto você me impressionou, a ponto de me fazer tecer estas linhas em sua homenagem. Um canto à sua beleza, à sua pele, ao seu gosto musical e à sua voz que eu nunca ouvi, mas que desejaria ouvir mais que tudo nesse mundo.

2 comentários:

Luara disse...

tenho medo de musas/os, a perfeição alheia (mesmo que inexistente) acentua minha imperfeição, faz minha insegurança berrar.

Polar disse...

boa sorte, com cuidado, eu sou obrigada a dizer, mesmo sentindo que cuidado é tudo que você não pode ter agora