21.2.12

O Carnaval dos Silicones

silicones Fonte: Futura Press

Não vou perder meu tempo falando de beleza. Existem coisas bonitas e coisas feias nesse planeta e não sou eu quem vai determinar o que é o quê. Mas eu tenho meus olhos, é verdade, e eles sabem acompanhar o balançar das coisas.

Nesse carnaval, contudo, pouca coisa balançou. Eu tento não ser do tipo saudosista, que olha para uma imagem em preto e branco de Pierrôs contentes pulando em meio aos blocos e pensa “eu queria ter nascido nessa época”. Mas algo ali me incomoda. A simplicidade, a vida como ela é, a autenticidade. Há algo no passado que eu nunca tive. E que eu nunca terei.

No Carnaval dos Silicones, os seios das passistas não balançam mais. São firmes, orgulhosos, independentes, separados e rijos. São quase como suas donas. É um carnaval onde cada sorriso às câmeras, cada samba dançado e cada polêmica foi exaustivamente ensaiada. Nessa conta, também entram os seios. O Carnaval não é mais o de 2012, mas o de 300 mililitros.

Nada contra a decisão soberana de cada fêmea de preencher o vazio de seus corpos e o vazio de algo que vai muito além disso. A indústria e os cirurgiões estão aí, prontos para movimentar a economia. O mundo assiste. E se assiste, os peitos se mostram. Vencida a flacidez, a imperfeição, é hora de saltarem resolutos para as lentes das câmeras, para os olhos dos voyeurs. Os peitos siliconados conquistaram seus direitos, tão ou mais bem-sucedidos que o próprio feminismo: as mulheres queimaram seus sutiãs em praça pública e então perceberam que algo precisava ser ajustado no rumo da revolução… um corte aqui, outro ali, dois implantes. Pronto. Há pontos femininos muito mais midiáticos que o anticoncepcional.

E não é à toa que os seios causam tanto fascínio na sociedade. Antes estavam ali meio relegados. Não era coisa da mulher brasileira. “Isso é coisa de norte-americano”, diriam os mais ufanistas, verdadeiros adoradores do produto nacional: a bunda. Mas de bunda o brasileiro ficou farto e como adoramos copiar o que vem de fora, passamos a dar valor a esses dois companheiros, que foram crescendo, crescendo, crescendo. Agora, eles estão à vista de todos. É justo, fui alimentado por eles quando eu mal poderia sobreviver por conta própria. Eles merecem todo nosso respeito.

O Carnaval dos Silicones é reflexo de uma sociedade feita à base do bisturi e da derme incidida. É o Carnaval do sorriso forçado diante de um flash. Não importa o que sinto, desde que eu possa vender o produto do que vivi. Ninguém mais tem a autenticidade do carnaval em preto e branco, ninguém mais procura o gozo do pecado simplório a que nos entregamos para celebrar a vida. Só queremos viver algo para postar nossas fotos na rede social da moda. Nada existiu enquanto todo o mundo não souber que existiu. Nada foi vivido enquanto todos não aprovarem com um joinha aquele momento único.

No Carnaval dos Silicones, o reality show é programado para mostrar um estupro e comover os mais perdidos enquanto se alimenta dos lucros incessantes das rendas publicitárias; é o Carnaval da pena por um animal morto e o “foda-se” pelos irmãos que vivem nas ruas. É um Carnaval de carnavais falsos, de carnavais montados com base em clichês: não é o carnaval do nordeste se não tiver mijo na rua, se não tiver vinte beijos numa noite, se não tiver som alto e sem qualidade em cima de um caminhão; não é carnaval carioca se não tiver uma negra de bunda imensa, se não tiver um objeto furtado, se não tiver um gari feliz mesmo que pobre; não é o não-carnaval sulista se não reclamarem cotidianamente que o carnaval é um lixo e um desperdício de tempo para a economia.

Vivemos num mundo que se auto-encara, que se vislumbra num espelho egoísta e turvo, esperando ver o sinal de qualquer coisa, de qualquer momento relevante, para gritar ao mundo todo: “está acontecendo, está acontecendo!”. Vivemos num mundo de dentes perfeitos, de músculos perfeitos, de perfis meticulosamente construídos. Um mundo de câmeras e celulares sempre a postos, para captarem qualquer passo em falso, qualquer piada pronta, qualquer bebê bonitinho.

É um mundo de silicone, um mundo que domou todos os estereótipos e os transformou nos produtos mais lucrativos. E o carnaval, aquele que deveria ser o grito contra toda a chatice que o mundo nos enfia goela abaixo, esse se tornou o Carnaval dos Silicones.

Um Carnaval tão feio e falso quanto eu e você.

4 comentários:

Paula disse...

Brilhante!

Aline disse...

Acredito que um dia a festa carnaval foi a grande atração. Hoje, o que eu mais vejo é ser o carnaval uma pausa de ritmo de vida. É quando todos tem total licença para fazer tudo aquilo que não seria bem visto se não fosse carnaval. Acho esses desfiles tão bonitos, é tanto trabalho dedicado durante todo o ano, tanta criatividade que, de fato, às vezes passa batido em nome dos silicones, das bundas, da permissividade pra ficar bebado e pegar todo mundo.

Acho uma pena, de verdade.

Luara disse...

...olha, depois que começaram a parcelar esse tal de silicone, no cartão de crédito e no cheque sem juros, risos.

Polar disse...

gostei do seu novo blog,,do novo em si

me lembrou aquele momento que você deixa de odiar seus pais na adolescência e passa a se dar bem com eles um pouco depois :)

o texto, impecável.