30.4.12

À meia-luz

À meia-luz o mundo inteiro é mais bonito. As ruas, as árvores, as casas, o banco da praça, todos parecem saídos de um sonho distante, impossível de se recordar onde e quando começou. O que dizer do seu corpo, então? As formas realçadas, esse jogo milenar entre luz e sombra que divide nossa ignorância do nosso esclarecimento. Você está de costas para mim e de frente para o seu querido espelho, nua, provando os meus diferentes tipos de chapéu, na penumbra de um quarto que se vê livre da completa escuridão apenas pela luz de um velho abajur.

Entre uma pose e outra você me pergunta se ficou bem. É a mesma indagação com o panamá, com o cowboy, com o de palha, o boné militar, a boina. Enquanto respondo, sinto que o mundo é uma eterna repetição para que eu diga sempre em voz alta como idolatro cada curva do seu corpo,  a única coisa realmente digna de nota a se observar sob os meus chapéus.

Se fôssemos cachorros de rua, nossa história começaria com um encontro fortuito num beco qualquer, com aquele olhar que só cachorro interessado sabe dar em uma cadela desinteressada. Então sairíamos correndo, como se nosso encontro canino fosse o fato corriqueiro mais alegre do mundo e, afinal, todos sabem que cães não precisam de muito para serem eternamente felizes, mesmo que essa eternidade dure uma fração de minutos que se repetem e repetem sem que eles se lembrem de absolutamente nada do passado.

Nós corremos e brincamos, enlaçando os pescoços e lambendo os narizes molhados e, ao final, uivamos para a lua cheia, em lembrança aos nossos ancestrais maiores e mais ferozes. Mas a minha divagação de cachorro termina aí e eu volto para a realidade humana, com você provando, nua em pelo, meus chapéus. Essa coisa, você, eu… será felicidade demais para mim?, penso em tom triste, eu não sou cachorro, gato, leão ou leopardo, eu sou só bicho homem e esse não aguenta felicidade, ou se aguenta, logo desaguenta e estraga tudo, e começo a imaginar a partir de que momento você olhará para mim, não com seus olhos que dizem “você é o melhor homem numa Terra povoada de homens” (o que me faz sentir ainda mais especial, embora eu desconfie que você fale essas coisas justamente para me ver assim, de sorriso bobo no rosto), mas com olhos de dúvida sobre como você resolveu sair daquele beco correndo com um viralata.

E logo brigamos e mandamos tudo para o ar, para onde nossa consciência ameaçada jamais se sentirá em perigo novamente. Fico me perguntando se o mestre da solidão não seria a mente, essa trapaceira de corações. Quem não conhece aquele impulso, aquele que vem silencioso, esgueirando-se pelas sombras, enroscando-se em cada sinapse, em cada glândula, em cada corda vocal, até que o dominado, sem força alguma, sem escapatória alguma, chegue a uma conclusão servida numa bandeja de prata, e diga, em tom de cheque-mate: “então eu acho melhor nós não ficarmos mais juntos…”. É fácil de dizer, parece resolver tudo, faz todo o incômodo passar, numa definitividade tão provisória que o conceito de paradoxo não vê outra opção senão entrar em colapso e inundar o cérebro com qualquer substância que seja referência nas piores drogas já fabricadas.

Só depois de algum tempo, naqueles pensamentos de travesseiro, você vê que sua mente é uma grande piadista, tendo enganado seu corpo e cada pedaço da sua língua e de outras partes não menos utilizáveis na arte do amor, que em alto e bom som, numa disciplina militar incessante, começam a clamar pelo antigo amor, aquele dispensado pela brincalhona. Pronto, lá estamos nós novamente juntos, na nossa ciranda particular.

Ficamos nesse jogo para todo o sempre, eu pensando se minha mente me engana ora com felicidade ora com tristeza. Indagando se posso conquistar qualquer coisa de duradoura, ou se tenho que me contentar com essa areia que me escapa pelos dedos. E você sob meus chapéus e meus lençois, nua, sorridente, dizendo coisas só para ver meus olhos brilharem.

Esse seu sorriso… será só uma ilusão que me capturou num deserto, uma vil armadilha que mata aos poucos, rouba minha energia e se alimenta da minha sombra vacilante, até que nada reste?

Mesmo assim, meu amor, mesmo assim. Até os desertos, quando à meia-luz, são lindos de morrer.

21.4.12

Memórias de um mercador de lágrimas masculinas

Fiquei observando a cena de longe. Os ombros do rapaz arqueavam tanto quanto suas sobrancelhas. Estava quase ajoelhado, gesticulava muito e sua voz era de uma entonação infantil, daquele tipo de criança que insiste querer um doce negado. Bem tentei ficar comovido. Não consegui, claro, cena patética. A garota, por sua vez, estava ereta, dona da situação, os braços cruzados, ditando e bradando. Ele suplicava, ela negava.

Para ser bem sincero, eu torcia pela garota. Quanto mais ela o magoasse, mais jogasse sobre seus ombros o peso de todas as decepções que ele causara a ela, bem, essa é minha profissão, eu dependia disso, ela precisava causar o maior estrago possível. E convenhamos, ela estava fazendo um ótimo serviço. Geralmente não me importo com o motivo da discussão. Aliás, não precisa nem ser uma briga de casal, mas esses geralmente surtem mais efeitos. Tentei distinguir as palavras de longe, ele falava sobre mudar, sobre respeitá-la, sobre uma nova chance, ela repetia o nome de outra garota. Ela não gritava, o que era um sinal auspicioso, não gritar numa discussão é uma excelente arma de crueldade.

Não demorou muito: lá vinha ela, úmida, quente, solitária. A garota já ia se afastando, com uma indiferença planejada e calculada pelo menos quinhentas vezes. Esse devia ser um dos que traía e humilhava, a vingança para esses não costuma ser branda. Esperei ela se retirar completamente. Levantei-me, esguio e silencioso como um animal da noite. O bastardo estava ajoelhado, a cabeça baixa, como que derrotado pelo próprio Golias, ou talvez tenha sido isso mesmo. Parei sobre ele. Abaixei-me e sem muita cerimônia levantei seu queixo, virando-o ora para lá ora para cá. Ali estava ela, deslizando, escorrendo, brilhando sob a luz fraca de vapor de mercúrio que nos separava da escuridão. Uma lágrima.

“Senhor, eu recolherei a sua lágrima, espero que não se importe”. E antes que ele pudesse responder à minha rude apresentação depositei um frasco transparente sob sua olheira inchada, até ter o que precisava.

A reação era sempre a mesma.

“Que porra é essa, meu irmão?! Sai fora!”, dizia o fornecedor, subitamente colérico, mesmo estando com a alma devastada.

“Já tenho o que quero, senhor, vou deixá-lo em paz”, tentava dizer com uma inocência fingida, retirando-me.

“Deixar o escambal, o que você quer, o que quer com a minha lágrima?”.

Eu não queria e não gostava de explicar a situação, mas estava animado aquela noite, afinal, era uma bela e sincera lágrima.

“A sua… namorada? Esposa? Amante? Ela fez um belo estrago no senhor, hein?”. E eles sempre ficavam na defensiva quando acossados. Eu prossegui:

“Você deve ter ciência de que estragou tudo, parceiro. Eu observei de longe. Ela é uma fera, nem mesmo se alterou com suas súplicas. Eu suponho que você se considerava muito irresistível e que ela jamais admitiria deixá-lo, correto? Tipos como você costumam render boas lágrimas quando se deparam com a verdade”.

“Que verdade?!”, ele indagou, tentando esboçar austeridade.

“Que você é só um pedaço de carne dispensável por outro pedaço de carne mais rico, mais inteligente, mais engraçado, ou mesmo um pedaço de carne melhor na cama”, a incredulidade estampada no rosto dele era latente. “Além disso, não se esqueça, meu caro, pedaços de carne apodrecem e ficam completamente indesejáveis”.

“Bem, ela… ela não me quer mais… ela não quer me perdoar…”, ele dizia, escondendo os dentes dentro de sua boca, engolindo sua fúria.

“Claro que não quer. Quem iria querê-lo? Só me interessa a sua lágrima, é a minha fonte de sustento, afinal, todos temos que pagar as contas. Essa é a verdadeira alma mater do ser humano, ter que pagar suas contas”.

E já ia me despedindo quando ele insistiu:

“Espera… e, bem… a minha lágrima ela… ela vale muito?”, perguntou, sem saber por que o perguntava.

Vislumbrei aquele traste, as roupas abarrotadas, os olhos inchados, ranho a escorrer pelo nariz, a dignidade jogada numa lata de lixo qualquer e recém-abandonado por sua fonte inesgotável de segurança e afeto.

“Vai pagar a conta de luz se é o que quer saber”.

E fui embora antes de saber se isso o ofenderia ou o orgulharia.

15.4.12

A visita dos lixeiros

lixo

Quando se é um pequeno rapaz de cinco anos, você se sente um príncipe de um reino imenso chamado lar. Você tem seu próprio quarto, afinal, suas irmãs são adolescentes e garotas e você, o único principezinho homem da casa. Você é o queridinho da mamãe e o orgulho do pai. A empregada vive para mimá-lo. Nenhum brinquedo no mundo é demais, nenhum carinho basta, nenhuma brincadeira cansa. Ser um pequeno príncipe é a melhor coisa do mundo.

Ou pelo menos eu pensava assim nessa tenra idade.

Não é necessário fazer muita coisa para manter seus súditos felizes. Você deve ser bonitinho, ingênuo, sorrir bastante, ficar bravinho e mostrar uma inteligência maior que a das outras crianças que… bem, não são tão príncipes assim.

O começo das noites eram sempre um momento especial. A minha irmã descia para namorar e eu aproveitava para passear, olhar o meu reino. É claro que os beijos dela com o namorado me irritavam, já que eu não entendia nada daquela linguarada e, para ser bem sincero, achava bem nojento, como todo garoto de cinco anos.

Mas me apraziam esses passeios noturnos também por outro motivo: a visita dos lixeiros.

No crepúsculo, sentávamos defronte à rua e sentíamos o vento do fim da tarde arejar o calor do dia. De longe, vinha aquele barulho de máquina, de motor, o cheiro da podridão. Máquina esmagando lixo, sendo lubrificada por um líquido viscoso, podre. O grande monstro surgia longe na rua, vagaroso, comendo toda a porcaria da vizinhança, do mundo.

O monstro ia se aproximando, ensurdecedor, latão após latão, até que passava por nós. Com ele, vinham seus servos, que o alimentavam com a oferenda de cada casa, de cada prédio, de cada comércio. Então os servos, ao me avistarem, faziam uma deferência. Brincavam comigo, dia após dia. Já me conheciam. Eu era o famoso Príncipe Pepeto e meu nome alcançava até mesmo os confins sombrios das máquinas comedoras de lixo. No entanto, seus servos eram bons, e prestavam homenagens ao pequeno príncipe.

O motivo pelo qual eu voltava noite após noite àquela mureta perto do prédio era pelo reencontro com meus amigos lixeiros. Vê-los passar tão destemidos pelo meu prédio, sem nunca descansar, as sacolas pretas nas mãos, e olhar para mim, direto para mim. Gostava tanto deles que um dia, numa dessas reuniões da família real, alguma tia duquesa me perguntou:

“O que você quer ser quando crescer, pequena Alteza?”.

E eu, naquela convicção de um nariz real empinado, respondi esnobemente:

“Quero ser um lixeiro”.

E esse foi meu sonho durante muito tempo, meu primeiro sonho profissional, que, a bem da verdade, depois veio a ser modificado para cowboy, astronauta, cavaleiro do zodíaco e depois, muito entediantemente, para coisas banais como diplomata e defensor público.

A ideia de usar um colete brilhante, vestir luvas grandes, botas maneiras e viver pegando carona numa máquina assustadora era um desafio muito honrado para minha ingênua mente.

Quando o pequeno príncipe cresceu, percebeu que não tinha coroa alguma, e que a nobreza, a de sobrenomes compridos, tinha sido extirpada há muito das honras dos nossos tronos. Eu não tinha título ou nome importante, não tinha tesouros reais e tampouco terras de muitos hectares. Eu mal tinha uma família inteira e convencional. Por sorte, eu tinha livros e curiosidade.

Quase vinte anos se foram desde a minha firme decisão de me tornar um corajoso lixeiro, eis que, dia desses, retornando para casa, ouço um estrondo, um ranger, algo sendo esmagado. Corro para conferir, viro a esquina, e lá está, o monstro antigo, a grande máquina – agora com uma campanha publicitária qualquer estampada na lataria – comendo meu lixo orgânico e meus resíduos.

Então um rapaz de uns 24 anos passa ao meu lado. Sua pele é escura e mal tratada, seus músculos, timidamente definidos, uma barba rala rasga seu rosto, o suor escorre do seu cabelo crespo. Nas mãos, as sacolas de lixo acumuladas durante o dia. Ele me olha bem fundo nos olhos, um olhar sem alma. Ele sabe algo, eu sei, mas não ouso perguntar. Porém, algo está diferente, algo está mudado, não há reconhecimento, não há brincadeira, ele não presta homenagem alguma.

A máquina vai embora, soltando sua coluna de fumaça já distante, em outra rua cheia de lixo, babando seu chorume tóxico, e atrás de si, os servos que sempre se renovam, um após um, incansáveis, imprescindíveis.

E eu lá, ruminando uma ideia perdida, sentindo o cheiro do lixo que acaba de deixar a rua: algo está diferente, tudo mudou, não há mais coroa, isso eu já sabia, mas eu não sabia, eu não sabia algo…

Eu não tinha ideia que vinte anos erigissem barreiras invisíveis tão densas e sólidas entre os homens, que sonhos morresem nas mãos de coisas desiguais, díspares e, acima de tudo e mais dolorosamente, que olhares fossem capazes de me julgar, de jogar ao meu colo a culpa por todas as coroas de ouro já forjadas a partir de algo entranhado no solo desse planeta, esse solo fértil e vasto, onde descartamos, compactamos e enterramos para toda eternidade todo nosso lixo passado, presente e futuro.