21.4.12

Memórias de um mercador de lágrimas masculinas

Fiquei observando a cena de longe. Os ombros do rapaz arqueavam tanto quanto suas sobrancelhas. Estava quase ajoelhado, gesticulava muito e sua voz era de uma entonação infantil, daquele tipo de criança que insiste querer um doce negado. Bem tentei ficar comovido. Não consegui, claro, cena patética. A garota, por sua vez, estava ereta, dona da situação, os braços cruzados, ditando e bradando. Ele suplicava, ela negava.

Para ser bem sincero, eu torcia pela garota. Quanto mais ela o magoasse, mais jogasse sobre seus ombros o peso de todas as decepções que ele causara a ela, bem, essa é minha profissão, eu dependia disso, ela precisava causar o maior estrago possível. E convenhamos, ela estava fazendo um ótimo serviço. Geralmente não me importo com o motivo da discussão. Aliás, não precisa nem ser uma briga de casal, mas esses geralmente surtem mais efeitos. Tentei distinguir as palavras de longe, ele falava sobre mudar, sobre respeitá-la, sobre uma nova chance, ela repetia o nome de outra garota. Ela não gritava, o que era um sinal auspicioso, não gritar numa discussão é uma excelente arma de crueldade.

Não demorou muito: lá vinha ela, úmida, quente, solitária. A garota já ia se afastando, com uma indiferença planejada e calculada pelo menos quinhentas vezes. Esse devia ser um dos que traía e humilhava, a vingança para esses não costuma ser branda. Esperei ela se retirar completamente. Levantei-me, esguio e silencioso como um animal da noite. O bastardo estava ajoelhado, a cabeça baixa, como que derrotado pelo próprio Golias, ou talvez tenha sido isso mesmo. Parei sobre ele. Abaixei-me e sem muita cerimônia levantei seu queixo, virando-o ora para lá ora para cá. Ali estava ela, deslizando, escorrendo, brilhando sob a luz fraca de vapor de mercúrio que nos separava da escuridão. Uma lágrima.

“Senhor, eu recolherei a sua lágrima, espero que não se importe”. E antes que ele pudesse responder à minha rude apresentação depositei um frasco transparente sob sua olheira inchada, até ter o que precisava.

A reação era sempre a mesma.

“Que porra é essa, meu irmão?! Sai fora!”, dizia o fornecedor, subitamente colérico, mesmo estando com a alma devastada.

“Já tenho o que quero, senhor, vou deixá-lo em paz”, tentava dizer com uma inocência fingida, retirando-me.

“Deixar o escambal, o que você quer, o que quer com a minha lágrima?”.

Eu não queria e não gostava de explicar a situação, mas estava animado aquela noite, afinal, era uma bela e sincera lágrima.

“A sua… namorada? Esposa? Amante? Ela fez um belo estrago no senhor, hein?”. E eles sempre ficavam na defensiva quando acossados. Eu prossegui:

“Você deve ter ciência de que estragou tudo, parceiro. Eu observei de longe. Ela é uma fera, nem mesmo se alterou com suas súplicas. Eu suponho que você se considerava muito irresistível e que ela jamais admitiria deixá-lo, correto? Tipos como você costumam render boas lágrimas quando se deparam com a verdade”.

“Que verdade?!”, ele indagou, tentando esboçar austeridade.

“Que você é só um pedaço de carne dispensável por outro pedaço de carne mais rico, mais inteligente, mais engraçado, ou mesmo um pedaço de carne melhor na cama”, a incredulidade estampada no rosto dele era latente. “Além disso, não se esqueça, meu caro, pedaços de carne apodrecem e ficam completamente indesejáveis”.

“Bem, ela… ela não me quer mais… ela não quer me perdoar…”, ele dizia, escondendo os dentes dentro de sua boca, engolindo sua fúria.

“Claro que não quer. Quem iria querê-lo? Só me interessa a sua lágrima, é a minha fonte de sustento, afinal, todos temos que pagar as contas. Essa é a verdadeira alma mater do ser humano, ter que pagar suas contas”.

E já ia me despedindo quando ele insistiu:

“Espera… e, bem… a minha lágrima ela… ela vale muito?”, perguntou, sem saber por que o perguntava.

Vislumbrei aquele traste, as roupas abarrotadas, os olhos inchados, ranho a escorrer pelo nariz, a dignidade jogada numa lata de lixo qualquer e recém-abandonado por sua fonte inesgotável de segurança e afeto.

“Vai pagar a conta de luz se é o que quer saber”.

E fui embora antes de saber se isso o ofenderia ou o orgulharia.

Um comentário:

re disse...

Lágrimas! Matéria prima cada dia mais rara, as masculinas então, quase nunca as pude ver, sentir, observar.
E as minhas????