15.4.12

A visita dos lixeiros

lixo

Quando se é um pequeno rapaz de cinco anos, você se sente um príncipe de um reino imenso chamado lar. Você tem seu próprio quarto, afinal, suas irmãs são adolescentes e garotas e você, o único principezinho homem da casa. Você é o queridinho da mamãe e o orgulho do pai. A empregada vive para mimá-lo. Nenhum brinquedo no mundo é demais, nenhum carinho basta, nenhuma brincadeira cansa. Ser um pequeno príncipe é a melhor coisa do mundo.

Ou pelo menos eu pensava assim nessa tenra idade.

Não é necessário fazer muita coisa para manter seus súditos felizes. Você deve ser bonitinho, ingênuo, sorrir bastante, ficar bravinho e mostrar uma inteligência maior que a das outras crianças que… bem, não são tão príncipes assim.

O começo das noites eram sempre um momento especial. A minha irmã descia para namorar e eu aproveitava para passear, olhar o meu reino. É claro que os beijos dela com o namorado me irritavam, já que eu não entendia nada daquela linguarada e, para ser bem sincero, achava bem nojento, como todo garoto de cinco anos.

Mas me apraziam esses passeios noturnos também por outro motivo: a visita dos lixeiros.

No crepúsculo, sentávamos defronte à rua e sentíamos o vento do fim da tarde arejar o calor do dia. De longe, vinha aquele barulho de máquina, de motor, o cheiro da podridão. Máquina esmagando lixo, sendo lubrificada por um líquido viscoso, podre. O grande monstro surgia longe na rua, vagaroso, comendo toda a porcaria da vizinhança, do mundo.

O monstro ia se aproximando, ensurdecedor, latão após latão, até que passava por nós. Com ele, vinham seus servos, que o alimentavam com a oferenda de cada casa, de cada prédio, de cada comércio. Então os servos, ao me avistarem, faziam uma deferência. Brincavam comigo, dia após dia. Já me conheciam. Eu era o famoso Príncipe Pepeto e meu nome alcançava até mesmo os confins sombrios das máquinas comedoras de lixo. No entanto, seus servos eram bons, e prestavam homenagens ao pequeno príncipe.

O motivo pelo qual eu voltava noite após noite àquela mureta perto do prédio era pelo reencontro com meus amigos lixeiros. Vê-los passar tão destemidos pelo meu prédio, sem nunca descansar, as sacolas pretas nas mãos, e olhar para mim, direto para mim. Gostava tanto deles que um dia, numa dessas reuniões da família real, alguma tia duquesa me perguntou:

“O que você quer ser quando crescer, pequena Alteza?”.

E eu, naquela convicção de um nariz real empinado, respondi esnobemente:

“Quero ser um lixeiro”.

E esse foi meu sonho durante muito tempo, meu primeiro sonho profissional, que, a bem da verdade, depois veio a ser modificado para cowboy, astronauta, cavaleiro do zodíaco e depois, muito entediantemente, para coisas banais como diplomata e defensor público.

A ideia de usar um colete brilhante, vestir luvas grandes, botas maneiras e viver pegando carona numa máquina assustadora era um desafio muito honrado para minha ingênua mente.

Quando o pequeno príncipe cresceu, percebeu que não tinha coroa alguma, e que a nobreza, a de sobrenomes compridos, tinha sido extirpada há muito das honras dos nossos tronos. Eu não tinha título ou nome importante, não tinha tesouros reais e tampouco terras de muitos hectares. Eu mal tinha uma família inteira e convencional. Por sorte, eu tinha livros e curiosidade.

Quase vinte anos se foram desde a minha firme decisão de me tornar um corajoso lixeiro, eis que, dia desses, retornando para casa, ouço um estrondo, um ranger, algo sendo esmagado. Corro para conferir, viro a esquina, e lá está, o monstro antigo, a grande máquina – agora com uma campanha publicitária qualquer estampada na lataria – comendo meu lixo orgânico e meus resíduos.

Então um rapaz de uns 24 anos passa ao meu lado. Sua pele é escura e mal tratada, seus músculos, timidamente definidos, uma barba rala rasga seu rosto, o suor escorre do seu cabelo crespo. Nas mãos, as sacolas de lixo acumuladas durante o dia. Ele me olha bem fundo nos olhos, um olhar sem alma. Ele sabe algo, eu sei, mas não ouso perguntar. Porém, algo está diferente, algo está mudado, não há reconhecimento, não há brincadeira, ele não presta homenagem alguma.

A máquina vai embora, soltando sua coluna de fumaça já distante, em outra rua cheia de lixo, babando seu chorume tóxico, e atrás de si, os servos que sempre se renovam, um após um, incansáveis, imprescindíveis.

E eu lá, ruminando uma ideia perdida, sentindo o cheiro do lixo que acaba de deixar a rua: algo está diferente, tudo mudou, não há mais coroa, isso eu já sabia, mas eu não sabia, eu não sabia algo…

Eu não tinha ideia que vinte anos erigissem barreiras invisíveis tão densas e sólidas entre os homens, que sonhos morresem nas mãos de coisas desiguais, díspares e, acima de tudo e mais dolorosamente, que olhares fossem capazes de me julgar, de jogar ao meu colo a culpa por todas as coroas de ouro já forjadas a partir de algo entranhado no solo desse planeta, esse solo fértil e vasto, onde descartamos, compactamos e enterramos para toda eternidade todo nosso lixo passado, presente e futuro.

Um comentário:

re disse...

Ao contrário de muitos, costumo dizer que considero a infância a parte mais curta e dolorosa da nossa vida, tanto que dela, até 3/4anos, não nos lembramos de nada. Impossível não sentir o sonho dessa criança pulsando e não chorar ao vê-lo desfeito.
Mais um lindo e intenso texto.