12.5.12

O incrível relato do homem que se tornou uma cadeira

CADEIRA BARCELONA POP17410000 Olhando para os lados, a única coisa que se vê são luzes, brilhantes luzes. A boca está seca: é quando eu percebo o copo americano gelado numa das mãos. Pelo canto dos olhos, eu posso assistir qualquer garota mexer seus quadris de acordo com o som que sai alto, ensurdecedor mesmo, das caixas de som. Na minha frente, sentam-se pessoas. Elas vêm, elas conversam, elas riem, elas se levantam e se vão. Não consigo ouvir nada do que dizem.

O copo nunca está vazio, caros amigos. O que quer que esteja dentro dele me faz sorrir. Um sorriso que nunca vai embora. E com meu sorriso os interlocutores se sentem encorajados. Continuam falando e rindo. Vez ou outra alguém pega na minha mão. Depois alguém sempre comenta como elas estão geladas. Ainda não perceberam que eu morri.

Pode ser que eu tenha morrido mesmo, sabe, cessação da vida e tudo, morte cerebral para os juristas. Morte não é bem um conceito absoluto, talvez eu só esteja gelado e só passei dessa para melhor no sentido metafórico. Porém, para todos os efeitos, estou morto. Ou talvez tenha me tornado rígido. Posso ter virado um outro objeto. É, é isso mesmo, agora lembro, esse é meu relato sobre como me tornei uma cadeira.

Se bem me lembro, morri depois de algo triste. Era algo triste, tenho quase certeza, ou era algo forte. Não, talvez fosse só uma péssima surpresa, uma desistência. Tanto faz. Sei que fiquei atordoado e fui para esse bar, onde há música alta e luz artificial. Não convém saber os motivos que nos impulsionam ao bar, porquanto o bar em si possa ser o destino final que todos procuramos. Um fim, não um meio.

Sentei-me numa mesa de canto, longe da visão ambiciosa de outros que estivessem em situação semelhante. Acho que fiquei mais tempo do que previa ali. Um dia, três meses, trinta anos? Quem sabe… Bem, ainda me recordo que nas primeiras vezes uma garota puxou uma cadeira para si e se sentou ao meu lado. Sem cerimônia, puxou um dos meus braços e o colocou sobre si e depois se recostou em mim.

Depois de algumas horas, ela se cansou. Empertigou-se e me apontou um dedo. Disse em palavras duras como eu estava fugindo, teimando em não enfrentar um problema, bla bla bla. Ela falava e a única coisa que vinha à minha cabeça era que as garotas deviam tomar mais cuidado se fossem chorar. Nesse caso, era preferível evitar as sombras e os delineadores. Aquela ali parecia um pierrô.

Quando ela se foi, encostei-me um pouco mais na cadeira que há tanto tempo me suportava. Aquilo foi confortável. Já não sentia minhas nádegas e minhas costas estavam tão tesas como madeira. A música ainda alardeava por todos os cantos e, misteriosamente, meu copo nunca esvaziava.

Alguns dias depois, apareceram vários rapazes. Davam-me tapinhas nas costas e me olhavam com olhos graves, daqueles que transmitem pena. Detestei-os. Odeio que sintam pena de mim. Eles me mostravam a porta da saída, queriam me tirar da cadeira. Mandei-os tomar no cu e ir para a casa do caralho, assim mesmo, em linguagem baixa, para ver se nunca mais em suas vidas miseráveis teimassem em me tirar dali, daquele canto tão confortável.

Eles foram embora mostrando o dedo do meio para mim.

Com o tempo, passei a perceber a presença de semelhantes. De início, notei que o local aumentara consideravelmente. Esses eram os momentos em que o bar estava vazio e a distância entre as mesas se expandia. Cada mesa tinha seu possuidor. Os mais velhos em geral ficavam na frente do palco. Os mais atrasados acabaram pegando as mesas perto do banheiro. Os mais ávidos garantiam seu lugar perto do balcão. Eu ficava contente apenas com o canto.

Num certo dia, notei que a meu lado aparecera uma garota diferente. Era nova ali. Ela se sentava numa mesa colocada de emergência para dar lugar aos novos e novos consumidores (o que é um problema, pois eles nunca param de aparecer). Olhei para ela fixamente. Após alguns dias ela resolveu me encarar. Tinha nariz e coxas grandes. Bem, é isso que me lembro, ao menos. Ela deu um sorrisinho triste.

A garota do nariz e coxas grandes se chamava Roberta. Olhávamo-nos com frequência. É preciso entender, nenhum dos dois se levantava para ir conversar com o outro, de maneira que nos correspondíamos por bilhetes levados pelos garçons. Paguei inúmeras bebidas para ela, embora a bebida ali sempre fosse de graça para nós. Meu copo, para variar, estava sempre cheio. Ela contava de um sentimento ruim que a acompanhava, mas do qual não se lembrava, eu respondia que a compreendia. Era verdade.

Um dia, Roberta escreveu um bilhete onde dizia não aguentar mais, que iria se levantar e conversar comigo, que era tudo o que mais desejava na vida. Parecia irritada com a cadeira em que se sentava.

Eu olhei de canto depois disso, sorri para ela e fiz sinal afirmativo. Fiquei esperando ela vir até mim. Eu não queria ou não podia, não sei bem dizer, me levantar de onde estava. Com dificuldade ela se levantou e, quando iria sair da mesa, um jovem rapaz apareceu na frente dela. Era um moço de nariz pequeno e coxas magras e estava ofegante. Tinha corrido para chegar ali. Ela parecia conhecê-lo, pois, mesmo sem correr, também ficara ofegante ao vê-lo. De pé, livre de sua cadeira, ela andou e o abraçou e aos prantos e sem qualquer maquiagem a torná-la um pierrô, Roberta foi embora de mãos dadas com o tal. Sem olhar para trás.

Nessa época, arranjaram-me mais um copo. Agora eu tinha dois copos sempre cheios e cada vez menos vontade de levantar da cadeira. A bem da verdade, minhas omoplatas já haviam se ligado à madeira da cadeira e minha pele das costas, das nádegas e das coxas já ganhara uma coloração marrom, algo meio mogno, ou talvez não, nunca fui experto em marcenaria. Minhas pernas e braços estavam mais retos, mais fixos.

Já não ligava para a música alta e as luzes que me cegavam e me cansavam. Tampouco a boca eternamente seca e a bexiga invariavelmente cheia me traziam alguma chateação. Aquele era o local que desejava estar. Esquecia cada vez mais a vida lá fora, onde a música era baixa, as luzes mais estáticas e os líquidos não tinham gosto de álcool.

Foi por isso que demorei eras a reconhecer aquelas duas pessoas que se prostaram à minha frente e ficaram me encarando com a decepção estampada em cada linha da pele flácida e marcada de seus rostos. Eram, ah sim, agora ficava claro, meu pai e mãe.

Diferentemente dos que eventualmente lá passavam, eles não disseram muita coisa. Não tentaram me convencer a sair dali nem estranharam minha nova configuração, cada vez mais cadeirística. Meu pai apenas se limitou a cheirar o que tinha nos meus copos (já contavam dez) e minha mãe fez uma cafuné displicente em mim. Depois eles se olharam e deram de ombros, como a confirmar: “o que se podia esperar desse aí?”. Foram embora e deixaram alguns trocados sobre a mesa, para o garçom cuidar bem de mim.

Eu já era quase todo rigidamente de madeira, incapaz de fazer muitos movimentos, quando uma criança de ranho no nariz parou ao meu lado e me achou engraçado. Creio que ela nunca tivesse visto um homem-cadeira antes, razão pela qual aticei sua curiosidade infantil. Ela me cutucava e se recolhia, assustada, como se fosse um gatinho brincando com insetos. Eu não podia me mover e brincar com ela. No máximo desejei que ela se sentasse sobre mim, uma vontade que andava me dominando nos últimos tempos. Sempre que alguém passava por mim, algo dentro de mim queria desesperadamente que depositassem seus glúteos sobre mim. Até mesmo que pisassem sobre mim para trocar uma lâmpada ou para se afastarem de baratas. Em geral eu não gostava de servir de descanso para bolsas e outros objetos, preferia o calor humano e, cá entre nós, a maciez das bundas alheias.

Mas aquela criança não se sentou sobre mim. Não. Ela se cansou de mim rapidamente e correu para outro canto, onde uma mulher que, a despeito das belas linhas da juventude, já trazia consigo a severidade do ar da meia-idade, estava sentada com jeitão de desleixo. A criança puxava a mão da mulher que, sentada, copo americano gelado à mão, não se sentia muito animada a ir onde seu filho, supus, queria ir.

Mesmo sendo um homem-cadeira, achei a cena intrigante. Fiquei os observando durante longo tempo. Então, um fio de minha memória já desfeita me assaltou, mexendo com meus pregos. Minhas quatro pernas ficaram bambas. Olhando aquela mulher, não saberia dizer exatamente quem era ou o que fazia. Se era prostituta ou madre. Se gostava de comida chinesa ou árabe. Se era feminista ou submissa. O único detalhe irritantemente marcante nela, o único sinal que mexia com meus brios, era uma mancha, duas por sinal, que escorriam negras de seus olhos, borrando toda a extensão de seu rosto, por força da gravidade, por força de uma tristeza esquecida. Parecia… parecia um pierrô.

Quando me dei conta de quem eram a mulher e a criança, alguém se sentou confortavelmente sobre mim. Um prazer amargo me dominou, a esmagar um doce arrependimento, que ia se esvaindo. Quem dera todos soubessem quão bom é ser para sempre uma cadeira, com luz e música e toda a dinamicidade que minha madeira dura e tosca sempre vai desejar. Quão adorável é essa fuga que se fixa num só lugar, sem ninguém notar, sem ninguém perceber, apenas servindo para acolher e confortar. Acolher e confortar… até que o garçom me recolha e me descanse pela parede, em quarenta e cinco graus, esperando pela próxima noite.

2 comentários:

Karen disse...

Que nervoso eu senti enquanto lia isso... Credo.

re disse...

Por momentos, meses, décadas podemos viver a experiência do copo cheio ou até do pote cheio, transbordando; imperdoável é a preguiça, a passividade, a impotência para esvaziá-lo. Maldita cadeira.