6.6.12

O tombo da senhora

Percebi que o mundo estava girando rápido demais quando dia desses andava por uma feira popular com a velocidade e a paciência de um executivo paulistano. Não dei bola para os tomates, as violetas, o queijo branco ou mesmo para o molho de pimenta do pastel do japonês. É o trabalho, com certeza, horários a cumprir, deveres a desempenhar, um ônibus para pegar! Mas de perto, veio um som conhecido: o som de carne estatelada no chão.

Era uma senhora de meia idade, com cara de que já vivia de hábitos e, quando possível, da felicidade dos netos. Estava de quatro sobre uma calçada traiçoeira, como se de repente resolvesse virar quadrúpede e se cansasse desse bipedismo simiesco.

Olhei para os lados. A feira prosseguia no seu ritmo de gritos rápidos e velhinhas japonesas vagarosas, desconfiadas de preços vis. Ninguém reparava no tombo da senhorinha. Aproximei-me.

“A senhora está bem?”, perguntei, polido demais.

Ela me olhou surpresa, como se eu a tivesse flagrado cometendo um crime silente. Dei-me conta que minha roupa me tornava muito formal.

“Ah, sim, acho que sim”, ela respondeu, incerta, ainda no chão.

Estendi minha mão em solidariedade, apoiando-a em seu retorno às preocupações e amargores daqueles que foram amaldiçoados com duas pernas.

“Ultimamente está difícil de andar nessa cidade…”, comentei, sem saber o porquê, sentindo-me, não sem um tom de decepção, como um taxista que puxa assunto sem precisar.

“Pois é…”, ela disse, ainda evitando me olhar. Quando conseguiu fixar seus olhos em mim por alguns segundos, emendou: “Muito obrigada!”. E partiu, distante.

O tombo da senhora me fez recordar um episódio em que minha mãe relatou ter caído numa calçada não menos desleal que a ora descrita. Meus pais são contadores de histórias, e isto é a razão pela qual eu, como um fruto (ainda verde), por mais desgarrado que tenha tentado ser, não vim a cair muito longe da árvore. Também é a razão pela qual ela transformou uma queda numa história, e a história numa lição. Não que eu tenha aprendido algo, mas lembro de ter me perguntado: por que uma queda significa tanta coisa para alguém? Para a minha mãe, queda foi impotência. Fraqueza, abdicação, derrota. A queda a lembrou que existe um chão.

Percebi que a senhora tinha vergonha nos olhos breves que me dedicou. Ela sabia que não estava difícil andar pela cidade ultimamente, e que a queda era culpa exclusiva de seus pés e pernas que não aguentaram a peça pregada por uma turma nada amistosa formada por chão, buraco e gravidade.

Vergonha da queda. Impotência de um tombo. Seríamos assim tão orgulhosos com nossas colunas eretas e pernas rijas? Por que sentimos esse gosto de humilhação na língua quando nos deparamos com o chão? Será mesmo que desprezamos tudo aquilo que não se coloca de pé?

Estenderia minha mão a todos os caídos desse mundo se me fosse possível, mas não é. Quando eu caio, eu sorrio. Se tombo, gargalho. Não deve existir nada mais engraçado que um amontoado de osso e carne vindo ao chão, desengonçado, desarticulado. Se caímos, é para levantarmos.

Afinal, nada parou. Um feirante, o da carne, embalava uma linguiça de boa aparência, a japonesa, quase uma tartaruga de tão velhinha, ainda olhava desconfiada o preço de giz no quadro negro, a kombi velha repousava, estacionada num canto, habituada com o populacho, e o ônibus, o ônibus!, esse passava lá distante.

Um comentário:

re disse...

E o imprevisto tombo - ninguém sabe quando vai acontecer, se fatal não for, do chão não passa. Bom saber e assim é a vida.