7.7.12

Explique o meu coração

Um grão de areia entra no seu olho, irrita sua córnea e sua conjuntiva, a lágrima vem, involuntária, limpando, lubrificando. Suas pálpebras se fecham, facilitam o serviço, por um momento você está no escuro, indefesa, dissociada de um sentido. Está nas trevas. Seus dedos sujos coçam os olhos e os irritam ainda mais. Nós apenas sabemos piorar o desprezo da natureza por tudo que se acha especial.

Uma párticula tão simples quanto um grão de areia, essa diminuta unidade que um dia já fez parte de algo maior. Tão pequena, tão letal.

Ao abrir os olhos, você já se esqueceu do grão de areia. Olha para o chão e vê que o cimento é cinza e feio. A cidade toda é cinza e feia, e com toda a certeza até as árvores são cinzas e feias. As pessoas são cinzas e feias e, enquanto andam, exalam odores cinzas e feios. Talvez o grão de areia seja cinza e feio, talvez ele tenha deixado o mundo todo cinza e feio.

Quando leio que partículas podem ser coisas divinas, começo a ficar preocupado. Antes, era bonito imaginar que as coisas compartilhavam uma só essência. Você, eu, a sua mãe, o seu cachorro, a pedra, meu relógio, o arbusto, o cinza, tudo parte de um grande todo, indissociável somente pela sua hábil aparência de individualidade de cada coisa, desde o nosso invasivo grão de areia até mesmo o mais sólido dos elefantes. Acharam por bem chamar isso de Deus, e por consequência, deram-lhe o “superpoder” da onipresença. Intrigante. Convencionaram que a essência de Deus é apenas um dos seus atributos. Os humanos gostam de inverter a lógica das coisas.

Mas então com toda a pompa o mundo científico grita que achou uma minúscula partícula, de proporções inimagináveis para o intelecto humano. Algo tão pequeno que, além dele, só existe vazio, e aquém, existe tudo. A partícula, tão singela e divina, assim, é aquilo que está em todo lugar, a todo tempo. A partícula é Deus.

De maneira que começo a pensar, meu amor, que naqueles momentos em que fingíamos nos incorporar, já estávamos há muito interligados. Veja só que peça os cientistas me pregam. Eu já sou você antes mesmo de nascer. E vice-versa se isso ajudar a explicar algo, mas não ajuda. Vivemos num campo minado, esses tempos atuais, mexendo com poderes estranhos, indo a dimensões desconhecidas e conjecturando, conjecturando, até que nossa mente se encolha de medo e o nosso corpo se aninhe sobre si mesmo, fazendo homens de cinquenta anos deitarem em poses fetais, chupando o dedo se assim preferirem.

Nada é especial, acho que diz a ciência. Afinal de contas, eu e você já éramos “algo”, antes mesmo do que nossa suposta teoria afirma ser o Big Bang. Se já éramos algo, só continuamos a sê-lo por todos esses… zilhões de anos, até que por bem o Universo, ou Deus, ou as partículas, resolveram nos dar essas formas de carbono, que se apaixonam e se entrelaçam, achando bonito virar um. De qualquer maneira, eu e você também somos parte ou todo do resto, dos planetas, das estrelas, e das formas bacterianas que algum dia vamos descobrir em Marte.

Quando consigo olhar para seus belos e grandes olhos, tenho certeza que me sinto especial. Eles refletem uma luz, que não é bem uma energia, mas antes uma emoção, que eu não sei classificar dentro da ordem das coisas físicas ou mesmo das metafísicas.

Pensar demais, dizem, pode fazer nosso cérebro derreter. Acho que cansei de pensar. Vamos tão longe em nossas abstrações, mas mal podemos sentir as partículas minúsculas que nos tornam um só. E o resultado é que nos sentimos, no fundo, tão diferentes. E o diferente, coitado, é especial. É estranho pensar que um poeta, há não muita tempo, tinha dentro de si, lutando pelo controle da pena e da máquina de escrever, tanto um revoltado simplório que só via sentido naquilo que tocava quanto um maluco hipocondríaco que se entregava a toda energia que o consumisse. Somos mesmo especialmente diferentes.

Não se esqueça, todavia: o Universo e os cientistas nos ensinaram que não somos especiais, meu anjo. Eles explicam usando teorias, eles relativizam nossas certezas, e agora apontam que tudo de fato pode ser apenas uma coisa, num jogo inexplicável de presenças e vazios, de massas e energias, de partículas que se decompõem infinitamente, o segredo de toda a existência quase sempre ali, ao alcance das mãos, das máquinas que podem destruir o planeta, mas longe de todo o resto. Porém, tenho a certeza empírica de que eles não explicam tudo. Eles esqueceram de algo. Então, por favor, meu amor, explique…  explique o meu coração.

2 comentários:

re disse...

Impossível explicar a zonzeira que os rodopios do amor nos traz, daquilo que não conhecemos e do que não controlamos.

Natália Oliveira disse...

Eu não sou o seu amor, e por isso estou livre de explicar seu coração (UFA!). Só vim mesmo dizer que, nesta temporada offline, eu sinto falta de bater papo com você. Não sobre metafísica e muito menos de amor, você sabe q eu não manjo nada de coisa nenhuma. Então, é isso aí. vou ficando... bj! :)