25.8.12

O concurseiro

Não seria de todo estranho se na tela da minha televisão aparecesse o rosto de uma mulher muito atlética. Mandona e rabugenta, ela me olharia com desdém, e me obrigaria a fazer exercícios matinais, tocando os dedos de meus pés, mesmo que o meu corpo todo, retorcido e cansado, me empurasse novamente para a cama. Eu não sei se alguém já escreveu isso, mas a cama parece o cemitério das almas atuais. Acho, sinceramente, que estamos morrendo antes de nossos corações pararem de bater, o que não deixa de ser uma eterna verdade. Mas antes a alma costumava ficar lá, intacta, e muitas vezes mais vigorosa, depois de uns bons anos de vida e de maturidade. Não é o que observo agora. É bem provável que o Prozac tenha dado início à extinção coletiva da alma.

Nada posso dizer sobre a veracidade da morte das almas, porém, a cena da mulher atlética é verdadeira, e costumava assombrar um sujeito de nome Winston Smith, aquele mesmo que é pisoteado pelas botas do totalitarismo criado por Orwell em “1984”. Não se reprimam se não souberem esse detalhe. Esse é um relato de todo ignorante. E a mulher, embora todo meu esforço semântico, era só meu despertador tocando, irritantemente.

Não obstante o sono, eu levanto assim mesmo. Eu sempre levanto. Mas só depois de me espreguiçar (como um gato) e socar uma parede (de duas a três vezes). Também devo molhar o meu rosto. Em seguida, satisfaço minha ereção matinal com uma grande e certeira mijada na privada.

Na cozinha, eu caço o leite vencido e os ovos fedidos. E com eles eu faço uma gemada. É ruim, mas eu vi numa revista velha que faz bem ao corpo. É o meu desjejum.

Não troco de roupa, sempre fico com o pijama em casa. Assim, evito de sujar as outras peças de roupa (a lavanderia é cara). Costumo ficar cerca de três semanas com cada pijama (tenho dois modelos), e não é sem certa preocupação que já noto que meu cheiro de suor da noite já os impregna, mesmo depois de imersos em sabão em pó. Talvez a marca que a lavadeira utilize seja uma porcaria, porque eles também voltam meio amarelados, e tenho quase certeza de ter assistido em algum lugar que esses produtos garantem o branco mais angelical para seus clientes.

Bem, depois disso tudo, seguem-se cerca de cinco horas diárias de estudo. É preciso dizer. Eu estudo para concursos. Obviamente ainda não passei em nenhum, mas tento, bravamente. Com pesar nos olhos (vocês devem, por favor, imaginar isso) eu já estou nessa vida há cinco anos. E há cinco anos venho colhendo pequenos sucessos (meu terapeuta acha melhor chamar de pequenos sucessos ao invés de constantes fracassos), como duas aprovações para a segunda fase. Certamente não é necessário mencionar que esses concursos costumam ser compostos de, no mínimo, cinco fases. Eu ainda tento guardar algum amor próprio dentro dessa pança que criei carinhosamente nos últimos anos. E embora eu tenha tentado ser irônico ao fingir que deixei escapar essas coisas, não é sem um pingo de verdade que me acho um incrível perdedor.

Mas esse tipo de posicionamento também foi vetado pelo meu terapeuta. Bem, ele não é o melhor terapeuta do mundo. Por Deus. Confesso que é apenas um estagiário, o rapaz ainda está no terceiro ano do curso de Psicologia. De uma faculdade particular! Mas o bom Deus, cujo nome pronunciei em vão poucas linhas atrás, bem sabe que o rapaz tem talento, talvez chegue lá, se passar de ano.

Se é melhor parar com as ironias pouco construtivas, creio que falarei do que imagino que os outros pensem de mim. Vejamos. Uma indagação que comumente assalta aos que sabem da minha vida (e frequentemente a mim mesmo) é: como você consegue pagar pelas coisas sem trabalhar, apenas estudando para concursos? E quando me refiro a “coisas”, não falo em carros esportivos ou peças de roupa cuja marca vale zilhões de vezes mais que a costura porca que alguma criança no Camboja fez por uns trocados. Eu digo apenas minha quitinete, onde residem, nessa ordem: eu, meu sala/quarto/cozinha/dispensa e, felizmente, um banheiro. Eu não revelaria esse segredo por nada, mas, já que estamos nos conhecendo melhor nesse exercício de autocomiseração e autodepreciação, bem, aí vai, é minha vó quem me sustenta. A velha gosta muito de mim, quer me ver alcançando os sonhos. Quanto melhor para ela quisesse eu ser algo mais “simples” (de conquistas mais concretas, digo), como um mecânico ou um cabeleireiro, mas eu tive a brilhante ideia de ser…, bem, eu não acho que vocês mereçam saber meu sonho.

Que desabafo mais chato esse não? Eu espero que sim, pois me esmerei ao máximo em demonstrar como minha vida é tediosa e sem sentido. Já falamos de um livro que faz parte da nossa cultura contemporânea (eu tenho muito tempo de sobra entre um livro ou dois, dos sérios, para me encher de cultura, da não-tão-utilizável nos concursos), vamos falar então de um filme que muito diz a respeito do tipo de homem que eu sou. Clube da Luta. Não, eu não sou o tipo de homem que bate nos outros para reviver algo que o racionalismo moderno esmagou em nossas consciências. Não. Eu sou o retrato do protagonista antes de perceber seu potencial. Mas, mais que isso, eu sou aquela frase do outro protagonista (com licença, eu vou citá-la com pompa):

"Nós somos os filhos do meio da história, sem propósito ou lugar. Não tivemos Grande Guerra, não tivemos Grande Depressão. Nossa grande guerra é a guerra espiritual, nossa grande depressão é a nossa vida."

E é isso mesmo. Nunca fiz nada de útil nessa vida que não fosse tentar decorar coisas absurdas para uma prova ainda mais sem sentido. Eu não espero sensibilizá-lo com essa ladainha. Mas a minha guerra é com o cotidiano, o da gemada e dos socos, da preguiça e do rosto, da quitinete e do pijama.

Os episódios dessa guerra me são sempre memoráveis. Cito alguns.

Na festa de um riquinho qualquer que se acha meu amigo, uma garota (estúpida, coitada) inventa de me achar “fofo” e vem puxar papo comigo. Ela não é bonita (nem feia). Olho para ela e acho que minhas punhetas são mais atraentes, mas mesmo assim prossigo a conversa. Depois do bla bla bla inicial, eu pergunto o que ela faz.

“Eu sou consultora ambiental”. Ela diz com olhos esguios, como se tivesse treinado aquela resposta umas quinhentas vezes, para parecer tão misteriosa como foi.

E aí sempre vem o xeque-mate.

“E você?".

“Euestudoparaconcursos”.

“Desculpa, não ouvi, você pode falar mais alto?”. E ela até aproxima os ouvidos.

“Eu estudo para concursos…”.

“Ah…”.

Ninguém precisa estudar tantas horas por dia como eu para se dar conta de que continuei na punheta aquela noite.

Outro fantástico capítulo dessa guerra diária foi quando decidi jogar bola com uma turma de desconhecidos (mentira, eu os conhecia, mas hoje finjo que nunca os vi). Com absoluta certeza fui o mais pato em campo e me arrependo amargamente daquele esforço físico, pelas duas semanas seguintes em que meus músculos se queixaram veementemente. O pior, contudo, foi o pós-futebol. Aquele momento em que os homens, que em outros tempos, sem esforço físico e sem rudeza alguma, apenas teriam se reunido para o brandy, e falado cinicamente de política, bem, agora eles se reúnem para beber como porcos (se é que os porcos se embriagam) e mostrar quem tem o pinto maior e mais grosso. E antes que vocês pensem que alguém realmente sacou sua jeba para fora, vou logo avisando que usei de linguagem metafórica para designar o instante em que aqueles escrotos quiseram, cada um a seu tempo e com sua própria linguagem, gabar-se de seus empregos, de seus carros, de seus relógios, de suas esposas-modelos, e de suas amantes biscateiras.

Que me perdoe o Rei Arthur, mas a Távola Redonda nada era perto daquele manancial de sucesso e conquista. O séquito de empresários, analistas, programadores, esportistas, gerentes e, até um burguês que vivia apenas de renda, era o suficiente para levar qualquer cúpula de poder aos mais altos escalões da glória e do Sagrado. É bom provável que cheguem ao sétimo nível do Paraíso antes que eu atinja o sétimo círculo do Inferno (em vida).

Quando chegou a minha vez de falar, pois bem, que pintinho miserável eu tinha na minha mão. Depois da minha resposta, o silêncio, dos constrangedores, só foi quebrado pelo comentário acerca de uma tal estagiária gostosa que algum deles estava para conseguir levar para a cama.

Eu poderia prosseguir falando desses episódios cotidianos que me impelem à guerra, como os relacionados ao imposto de renda cujos fiscais não entendem como eu ainda não estou contribuindo com nada; aos alugueres que aumentam desproporcionalmente em relação à minha renda; à vizinhança do prédio que deve achar que sou algum tipo de maníaco e aos parentes que meneiam a cabeça negativamente toda vez que ouvem meu nome (e de fato eu acredito que o título de ovelha negra da família é merecido por mim, já que meu primo recentemente deixou o semiaberto e passou a trabalhar honestamente, depois de virar crente).

Mas não prosseguirei. E não é porque me falte material para descrever essa vida cinza que se arrasta há cinco anos sem me levar a lugar algum, não é porque me falta papo para debater com meu terapeuta que muito mais novo que eu, já me manda fazer isso e aquilo, e tampouco porque eu colho pequenos sucessos ao invés de escancarar que minha vida é um tremendo fracasso. Não é por nada disso.

É apenas porque agora já é 17h30 e eu prometi a mim mesmo que hoje terminaria um simulado e iria ao supermercado fazer a compra da semana.

8.8.12

La petit mort

Nossa vida cotidiana se caracteriza pela nostalgia do estilo, por sua ausência e pela procura obstinada que dele empreendemos. Ela não tem estilo e, apesar dos esforços para se servir dos estilos antigos ou de instalar nos restos, ruínas e lembranças desses estilos, fracassa na tentativa de criar um estilo próprio.

(Henri Lefebvre, “A vida cotidiana no mundo moderno”).

Por um movimento involuntário qualquer, depois de se satisfazerem com um sexo rápido e sem charme, ele ligou a televisão, mais para que a cabeça não criasse ideias que para qualquer outro fim instrutivo. Ela, alheia à decisão, não reparou na conjuntura que o levara a apertar o botão do controle remoto e, ainda de pernas moles e levemente trêmulas, passou a ouvir a notícia de fundo.

Falava-se em uma chacina, com uma dezena ou duas de mortos, os corpos inescrupulosamente exibidos na tela, o sangue já escuro no asfalto, helicópteros panoramizando as melhores visões da tragédia.

- O que vamos comer?, ela perguntou, sentindo o estômago reclamar.

Ele não estava com fome. Ficava sem apetite depois de gozar.

- Não estou com fome agora. Olha lá na geladeira o que tem.

Ela se levantou com uma dificuldade bíblica, queixando-se da calcinha que havia sumido entre os lençois. Com um olho, ele fitava a repórter com traços de Barbie entrevistar um porco fardado, que grunhia desculpas estatais. Com outro, olhou a bunda de seu par, ainda meio vermelha. A nudez despreocupada da garota atraía sua atenção de maneira involuntária. E por mais que se esforçasse para não fazê-lo, seu instinto o traía.

Ela voltou com um pacote de salgadinhos fedorentos e se deitou majestosamente na cama ao lado dele.

- Você realmente vai comer na cama?, perguntou, indignado pela insistência dela em desrespeitar as leis da casa dele.

Ela continuou comendo em cima da cama suada, despreocupada em responder ao homem que ainda não decidira se era uma transa passageira ou um caso mais sério. Se a dúvida persistia, por que obedecê-lo cegamente? Não fazia isso mesmo com seu pai, quanto mais com ele… Com a mão amarela de conservantes, segurou o queixo dele e o beijou displicentemente.

Mas os barulhos lá fora prosseguiam. Iniciaram cedo aquele dia, perduraram durante o coito e seguiam agora, mesmo na relativa paz do aposento nupcial.

- Será que eles vão fazer essa barulheira a semana inteira?, ele questionou, sem esperança de que ela soubesse a resposta.

Ela deu de ombros. Não sabia por que se protestava lá fora, onde o mundo era repleto de poeira e cartazes e as mulheres exibiam os seios (o que de alguma maneira chamava a atenção dos meios de comunicação para a revolta). Gritos de ordem e a presença ostensiva da polícia também eram uma constante.

Ainda comendo, ela se dirigiu à janela e olhou para baixo, para a massa em movimento, em protesto. Viu uns sete pares de seios. E, ainda comendo, olhou para os seus próprios seios. Quis conseguir enxergar se os seios das protestantes também eram levemente desiguais. Não sabia bem explicar porque o fato de um bico apontar mais para a esquerda a incomodava tanto. Talvez fosse a assimetria, que desrespeitava regras básicas de composição, aprendidas desde pequena e cultivadas no olhar artificial para os corpos humanos. Quanto a ele, bem, aparentemente ele nem reparara no fato, e a julgar pela voracidade com que brincava com eles, ela não se preocupou em perguntar.

Preguiçoso na cama, só agora ele tirava a camisinha do pau e a desenrolava, já seca. O pênis dele era sempre um espetáculo para ela. Ela não entendia bem a graça de ver um membro crescer ou diminuir a depender do fluxo de sangue, mas sabia que gostava de presenciá-lo. Agora estava flácido e caído de lado, acamado pelos pêlos negros dele. E mesmo assim ela não desviava o olhar.

Ele deu um nó na camisinha e a jogou para o lado da cama, sem cerimônia.

A televisão contava a história de uma família pobre de algum canto esquecido do país.

- Mas que saco, esse povo não ganha ajuda do governo? Por que não param de encher o saco na tv?, ele grunhiu, enquanto recolhia pentelhos no colchão.

Ela não comentou. Não era sadio dar azo às investidas antissociais dele.

- Você quer tomar um banho comigo?, questionou ao revés.

Ele estava do saco cheio de sexo (muito embora anatomicamente ele estivesse agora vazio) e a ideia o repugnou.

- Não. Depois eu vou.

- Mas você está fedido…

- Você não pareceu se preocupar há pouco. E além do mais, o que está cheirando forte assim é o cheiro do sexo. Eu não tenho culpa se nossos hormônios deixam o ambiente perfumado assim.

- Isso não tem nada a ver.

- Claro que tem. Estranho para a natureza é essa necessidade de higienização que temos. Para mim não há nada melhor do que um cheiro natural, e eu garanto que o seu é perfeito.

Ela bem que tentou se regozijar, mas a ideia ainda lhe parecia estranha.

Quando voltou para a cama, obrigou-o a chupar os dedos dela, lambendo o pó deixado pelo salgadinho. Depois, aninhou-se entre os braços dele, enfiando a cara em seu peito e sentindo um estimulante conforto.

Depois, sem saber precisar que pensamentos teria, ou com preguiça de pensá-los, ou com a ansiedade natural de afastá-los, quis fazer sexo novamente. Parecia certo.

Como sabia que o pinto mole dele não subiria sozinho, começou a cheirar seu pescoço. Ela sabia o que tinha que fazer, onde lamber, que partes tocar, que gemidos deixar escapar. Não demorou muito, o sangue começou a circular. Observou de esguelha seu espetáculo particular. Um pequeno espasmo, seguido de outro e outro, o diâmetro aumentando, o comprimento triplicando. Ela compreendeu qual era a graça de ser homem.

Quando o agarrou já duro, seu parceiro estacou e passou a olhar perdidamente um ponto fixo, com uma feição de preocupação no rosto. A isso seguiu-se uma careta. Afastou-a de perto de si.

- O que foi, meu bem?, ela indagou, sem entender.

Ele se levantou, ainda indeciso. Parecia consternado, sem saber como proceder perante um problema insolúvel.

Brevemente, ela passou a sentir algo desagradável. Veio silente, sem aviso, mas a atingiu em cheio. O ambiente fedia. Cheirava a podridão, aquilo que os livros mais velhos grafam como “pivete”.

- Preciso cagar, ele anunciou.

E saiu correndo em direção ao banheiro.

Ela se deixou recostar nos travesseiros suados, visivelmente contrariada. Na televisão, rostos bonitos noticiavam no mesmo tom cordial e despretensioso que o mundo estava em crise.