8.8.12

La petit mort

Nossa vida cotidiana se caracteriza pela nostalgia do estilo, por sua ausência e pela procura obstinada que dele empreendemos. Ela não tem estilo e, apesar dos esforços para se servir dos estilos antigos ou de instalar nos restos, ruínas e lembranças desses estilos, fracassa na tentativa de criar um estilo próprio.

(Henri Lefebvre, “A vida cotidiana no mundo moderno”).

Por um movimento involuntário qualquer, depois de se satisfazerem com um sexo rápido e sem charme, ele ligou a televisão, mais para que a cabeça não criasse ideias que para qualquer outro fim instrutivo. Ela, alheia à decisão, não reparou na conjuntura que o levara a apertar o botão do controle remoto e, ainda de pernas moles e levemente trêmulas, passou a ouvir a notícia de fundo.

Falava-se em uma chacina, com uma dezena ou duas de mortos, os corpos inescrupulosamente exibidos na tela, o sangue já escuro no asfalto, helicópteros panoramizando as melhores visões da tragédia.

- O que vamos comer?, ela perguntou, sentindo o estômago reclamar.

Ele não estava com fome. Ficava sem apetite depois de gozar.

- Não estou com fome agora. Olha lá na geladeira o que tem.

Ela se levantou com uma dificuldade bíblica, queixando-se da calcinha que havia sumido entre os lençois. Com um olho, ele fitava a repórter com traços de Barbie entrevistar um porco fardado, que grunhia desculpas estatais. Com outro, olhou a bunda de seu par, ainda meio vermelha. A nudez despreocupada da garota atraía sua atenção de maneira involuntária. E por mais que se esforçasse para não fazê-lo, seu instinto o traía.

Ela voltou com um pacote de salgadinhos fedorentos e se deitou majestosamente na cama ao lado dele.

- Você realmente vai comer na cama?, perguntou, indignado pela insistência dela em desrespeitar as leis da casa dele.

Ela continuou comendo em cima da cama suada, despreocupada em responder ao homem que ainda não decidira se era uma transa passageira ou um caso mais sério. Se a dúvida persistia, por que obedecê-lo cegamente? Não fazia isso mesmo com seu pai, quanto mais com ele… Com a mão amarela de conservantes, segurou o queixo dele e o beijou displicentemente.

Mas os barulhos lá fora prosseguiam. Iniciaram cedo aquele dia, perduraram durante o coito e seguiam agora, mesmo na relativa paz do aposento nupcial.

- Será que eles vão fazer essa barulheira a semana inteira?, ele questionou, sem esperança de que ela soubesse a resposta.

Ela deu de ombros. Não sabia por que se protestava lá fora, onde o mundo era repleto de poeira e cartazes e as mulheres exibiam os seios (o que de alguma maneira chamava a atenção dos meios de comunicação para a revolta). Gritos de ordem e a presença ostensiva da polícia também eram uma constante.

Ainda comendo, ela se dirigiu à janela e olhou para baixo, para a massa em movimento, em protesto. Viu uns sete pares de seios. E, ainda comendo, olhou para os seus próprios seios. Quis conseguir enxergar se os seios das protestantes também eram levemente desiguais. Não sabia bem explicar porque o fato de um bico apontar mais para a esquerda a incomodava tanto. Talvez fosse a assimetria, que desrespeitava regras básicas de composição, aprendidas desde pequena e cultivadas no olhar artificial para os corpos humanos. Quanto a ele, bem, aparentemente ele nem reparara no fato, e a julgar pela voracidade com que brincava com eles, ela não se preocupou em perguntar.

Preguiçoso na cama, só agora ele tirava a camisinha do pau e a desenrolava, já seca. O pênis dele era sempre um espetáculo para ela. Ela não entendia bem a graça de ver um membro crescer ou diminuir a depender do fluxo de sangue, mas sabia que gostava de presenciá-lo. Agora estava flácido e caído de lado, acamado pelos pêlos negros dele. E mesmo assim ela não desviava o olhar.

Ele deu um nó na camisinha e a jogou para o lado da cama, sem cerimônia.

A televisão contava a história de uma família pobre de algum canto esquecido do país.

- Mas que saco, esse povo não ganha ajuda do governo? Por que não param de encher o saco na tv?, ele grunhiu, enquanto recolhia pentelhos no colchão.

Ela não comentou. Não era sadio dar azo às investidas antissociais dele.

- Você quer tomar um banho comigo?, questionou ao revés.

Ele estava do saco cheio de sexo (muito embora anatomicamente ele estivesse agora vazio) e a ideia o repugnou.

- Não. Depois eu vou.

- Mas você está fedido…

- Você não pareceu se preocupar há pouco. E além do mais, o que está cheirando forte assim é o cheiro do sexo. Eu não tenho culpa se nossos hormônios deixam o ambiente perfumado assim.

- Isso não tem nada a ver.

- Claro que tem. Estranho para a natureza é essa necessidade de higienização que temos. Para mim não há nada melhor do que um cheiro natural, e eu garanto que o seu é perfeito.

Ela bem que tentou se regozijar, mas a ideia ainda lhe parecia estranha.

Quando voltou para a cama, obrigou-o a chupar os dedos dela, lambendo o pó deixado pelo salgadinho. Depois, aninhou-se entre os braços dele, enfiando a cara em seu peito e sentindo um estimulante conforto.

Depois, sem saber precisar que pensamentos teria, ou com preguiça de pensá-los, ou com a ansiedade natural de afastá-los, quis fazer sexo novamente. Parecia certo.

Como sabia que o pinto mole dele não subiria sozinho, começou a cheirar seu pescoço. Ela sabia o que tinha que fazer, onde lamber, que partes tocar, que gemidos deixar escapar. Não demorou muito, o sangue começou a circular. Observou de esguelha seu espetáculo particular. Um pequeno espasmo, seguido de outro e outro, o diâmetro aumentando, o comprimento triplicando. Ela compreendeu qual era a graça de ser homem.

Quando o agarrou já duro, seu parceiro estacou e passou a olhar perdidamente um ponto fixo, com uma feição de preocupação no rosto. A isso seguiu-se uma careta. Afastou-a de perto de si.

- O que foi, meu bem?, ela indagou, sem entender.

Ele se levantou, ainda indeciso. Parecia consternado, sem saber como proceder perante um problema insolúvel.

Brevemente, ela passou a sentir algo desagradável. Veio silente, sem aviso, mas a atingiu em cheio. O ambiente fedia. Cheirava a podridão, aquilo que os livros mais velhos grafam como “pivete”.

- Preciso cagar, ele anunciou.

E saiu correndo em direção ao banheiro.

Ela se deixou recostar nos travesseiros suados, visivelmente contrariada. Na televisão, rostos bonitos noticiavam no mesmo tom cordial e despretensioso que o mundo estava em crise.

2 comentários:

re disse...

Assassinou a elegância.
Teimamos em achar que pode ser diferente, quando é somente isso.

Helena disse...

Sexy! ;)