14.9.12

Começo, meio e fim

Num momento de lucidez, minha mãe solta:

“Você deve ter passado por muita coisa, né? Tanta coisa que você deve ter vivido e me poupado de saber, por se preocupar comigo. Tanta coisa pela qual deve ter passado, e segurado com você!”.

Dei uma risadinha e respondi:

“Pode ser que sim…”.

Mas por dentro eu estava imaginando quanto tempo ela havia levado para reconhecer aquilo. Dez anos ou mais, no mínimo. Não sei se aproveitei bem aquele momento. Não me regozijei. Talvez se tivesse aproveitado o instante, não o escreveria como introdução do meu texto, mas tudo na vida precisa de uma introdução. Mentira. Nem tudo. Minha ideia levaria à conclusão de que tudo é um processo. E por processo vamos acabar imaginando que tudo tem um começo, um meio e um fim, e que esse fim leva necessariamente à uma conclusão. Seria declarar que as coisas evoluem.

E eu tenho certeza que as coisas não evoluem.

Mas é bem verdade que existe um início, em algum lugar, embora raramente possamos identificá-lo. Eu posso lembrar da minha infância, que vai remontar ao meu nascimento, à “noite de amor” entre os meus pais, à “noite de amor” entre os pais deles, e por aí em diante, até o tal início de que ninguém se recorda. A minha infância, contudo, mesmo que por flashes inconstantes, é rememorada aqui e ali, quando bem convém ao meu cérebro.

Veja bem, toda criança já arrumou sua própria mochila e anunciou em tom solene aos membros da família:

“Vou embora dessa casa!”.

Eu fiz isso umas cinco vezes e em todas eu não devo ter passado da portaria do prédio. Quando pouco, passava o batente da porta e já desatava a chorar de saudade da mãe, do carinho, da comida, e de ser o centro das atenções de uma vida conhecida, segura e afetuosa.

Mal imaginamos o que nos aguarda no mundo de “fora”. Temos alguma ideia anos depois, quando com alguns pêlos na cara e outros no saco saímos do aconchego do lar para encarar uma faculdade ou uma viagem ou seja lá o que for que nos obrigue a tomar um rumo na vida.

Quando minha mãe me diz que eu devo ter passado por muita coisa sem ela saber e poder me apoiar, não sei se ela se refere à criança que não consegue abandoná-la quando passa da porta de casa, do adolescente que arranja uma briga para defender uma garota e silencia um hematoma em casa ou se do adulto que fica neurótico e aprende a não levar mais problemas a uma mulher que merece um descanso de todos os problemas que já teve de resolver por ele. É realmente difícil de estabelecer um começo, um meio e um fim.

Algumas “religiões” acreditam que o ser humano possui uma alma, que evolui conforme seu comportamento terreno. Essa alma teve um início, com Deus, passou por um desenvolvimento e obteve a graça, um fim que é um prêmio. É uma ideia eugenista da alma. Uma alma “pedigree”, que atinge um ápice. Gostaria de saber em que estágio de evolução está minha alma. Será que esse texto vai contribuir para eu me tornar um espírito digno ou eu posso aguardar uma próxima vivência em forma de minhoca que chafurda o solo, abissal e obtusa?

É difícil distinguir um começo, um meio e um fim quando temos de lidar com o próprio mal que habita em nós, que mancha as paredes e nos força a tomar conta de nós mesmos, sem auxílio, sem piedade. Só você e o que você é, o que você faz e o que você representa. Talvez a alma involua, passando do fim ao meio e do meio ao começo, até que toda essa ordem caótica se restabeleça.

Quando vejo os pequenos, gostaria de lhes dizer:

“Meu amigo, seja virtuoso, que tudo na sua vida será uma linda evolução”.

Mas não será. Alguns vão morrer, outros vão ficar paraplégicos. A mãe daquele vai ter câncer, e a irmã do outro vai ser a putinha do bairro. Um vai virar gay e não será aceito pelos pais. Aquele ali é negro e todos vão fingir que não têm preconceito contra ele, mas ele nunca vai ser a primeira escolha em nada. E mesmo os branquinhos de bom nascimento e cabelos lisos e fala mansa e tino comercial vão ser ou broxas ou histéricas ou superficiais ou vão morrer na mão de alguém que não suporta a ideia de que a sociedade eleja um representante de virtude.

Não há começo, meio e fim nessa ciranda de infelicidades. E é claro como cristal que a vida não é feita só disso. Não me considero pessimista. Será que alguém já perguntou ao Dostoiévski se ele se considerava pessimista? Acho que debaixo de tantos sobretudos e casacos, ele nem conseguiria mostrar o sorriso de esperança que tinha na humanidade. Um risinho pequeno, sem mostrar muitos os dentes que é para não trincá-los de frio, mas ainda um riso, que só quem não sabe o que fazer da alma pode dar.

Como eu moro em plagas mais quentes, não me dou ao luxo de ficar ocultando sorrisos. Eu sorrio pois é o que há a fazer. Com ou sem começos, meios e fins, quando sua mãe tão gentilmente se dá conta de que você cresceu e está cheio de cicatrizes, não há espaço para remorsos e comiserações. Só há um pequeno sorriso a ser estampado, um que acabe tão mal começou, e que principie sempre que findar. Um sorriso de filho para mãe.

5 comentários:

Ana disse...

Belo texto. Conduz à reflexões.

re disse...

Para parir um filho, músculos do útero se contraem dolorosamente obrigando a expulsão; vê-lo crescer estende estas contrações para o estômago, coração e alma, o sorriso dos lábios pode sair um tanto doído, mas o olhar não esconde a intensidade deste amor...e sorri grande, longo e completo.

re disse...

"Num momento de lucidez, minha mãe solta:"...

Para quem não sabe, a mãe é "a louca".

Natália Oliveira disse...

Eu nunca quis fugir de casa. Aliás, o maior medo da minha mãe era o medo de eu nunca querer sair de lá... Vai entender.

Daniel Ricardo Barbosa disse...

Não me canso de ler esse post. Começo, meio, fim, íntegra...
O seu comentário no meu blog me deu o que pensar. Logo o responderei.
Mudaste o seu perfil no Ruinaria - dei uma risada quando o li. Também eu acreditei! Mas você pode acreditar. As coisas apenas não acontecem como esperávamos, ou muito raramente, mas de alguma outra maneira, acontecem.
Estou há tempos com uma edição de um excelente livro do Aldous Huxley para lhe repassar. Mas sou suspeito para julgar - excelente! -, pois Huxley não descansa na minha estante.
Certa vez você me disse que viria a BH para o casamento de uma amiga ou parente. Separei o livro, mas não soube se cá esteve. E nem sei se gostas de edições antigas (eu persisto, apesar da renite sinusite ou sei lá qual outra alergia também me acomete). :)
Se possível, e não tiver planos de vir a BH por hora, passe-me através de e-mail novamente o seu endereço, para que eu remeta o livro. Os Correios ainda estão em greve?Muitas vezes tenho a sensação de que só nós, a quem chamam (xingam?) "artistas", não estamos em greve, amigo. Abraço!