25.10.12

Elo(s)

Todos têm uma tupperware em casa. Não é bem o nome do recipiente de plástico vagabundo que você comprou no supermercado da esquina. Mas todos chamam de tupperware. Todos têm uma tupperware. Muito provavelmente mais de uma. As pessoas guardam alimentos em suas tupperwares. Aquela cebola cortada ao meio, não utilizada no bife acebolado. Dentro da tupperware ela rende mais alguns dias. Na geladeira, claro. A tupperware conserva os alimentos, isolando-os do ambiente externo. Na geladeira, claro. Com a tupperware, o conteúdo fica isolado, hermeticamente isolado, claro. Nossos alimentos. Isolados. Conservados. Prontos. Fechados. A cebola, o patê, o molho, o arroz, a almôndega, claro.

E eu pego o professor explicando:

“O procedimento do pedido de falência é definido a partir do artigo 94 da Lei n. 11.101/05, a petição inicial com o pedido de falência do devedor será apresentada no foro do local do principal estabelecimento do devedor, o centro nervoso da empresa, pois, é que definirá o juízo competente nesse caso. Os legitimados a pleitear a falência são aqueles do artigo 97, e é importante ressaltar o credor nesse caso, porquanto só aqueles com crédito maior de quarenta salários mínimos é que poderão pedir a falência, exceto se formarem os credores litisconsórcio, caso em que se poderá somar os créditos”.

As palavras saem como uma torrente da boca dele. Um jorro interminável de saber inútil. O que ele está falando? Nada para dentro dele. Falência, títulos de créditos, credor quirografário, obrigações sinalagmáticas. Qual a fonte de todas essas letras, palavras, sentenças, artigos, parágrafos, incisos e alíneas? Ele nunca perde o fôlego?

Começo a ficar nauseado. Minha cabeça está longe, aérea, quase espacial. Meu estômago, por outro lado, decidiu se entregar à gravidade. Cai, pula, retorce-se. Vítima da física newtoniana, sucumbe a algo que eu não lembro exatamente o que é. Pode ser pão sírio, alface, batata ou carne de carneiro. Pode ser leite, açúcar. Cerveja e salame, quem sabe.

É frequente que os alimentos saiam das tupperwares para mudar de recipiente. Da embalagem hermética de plástico (carbono) acabam parando em outro recipiente de carbono (e água): eu. Tudo dentro do meu estômago, remexido e revirado, misturado e revolvido.

O corpo humano é um invólucro. Frágil e tênue (pergunte a um serial killer se não…). Osso, carne, sangue e pele. Muito sangue e pele principalmente. Como plástico e molho. O corpo humano é uma tupperware com um design arrojado.

“A ordem dos créditos vai estabelecer o rol do artigo 83. Primeiro receberão os créditos trabalhistas e aqueles oriundos de acidente do trabalho. Depois os com garantia real. Vocês sabem, hipoteca, penhor… depois, os tributários. Em seguida, os com privilégio, especial e depois os gerais. Após, os quirografários…”

Se ele soubesse como minha barriga está doendo, pararia de falar tanto. Eu quero aguentar. Eu vou aguentar. Mas ele não para de falar… e se eu precisar pedir licença para ir ao banheiro? E se não aguentar, e se botar tudo para fora aqui mesmo? Mal aguentarei quatro passos até cair e despejar tudo na frente dos colegas. Vai ser embaraçoso.

Talvez sete dias seja tempo demais para um alimento na geladeira, mesmo dentro de uma tupperware. Raramente se encontra um sistema estável e isolado. Os sistemas tendem a se comunicar, eu acho. Tudo tem um elo e um ciclo. O movimento peristáltico, por exemplo, um ciclo contínuo que leva o alimento da boca até o estômago. Mas os ciclos podem se inverter claro.

Quando vomito no chão da sala de aula, o professor não percebe. Ele fala alto e gesticula, explicando a falência. Não se deu conta de que sou eu que preciso de recuperação. Sento no fundo, sozinho, ninguém percebeu. Um milagre. O cheiro acre me chega às narinas. Enjoo-me novamente. Outro jato. Alguém vira a cabeça, procurando aquele som primal em meio ao palavreado jurídico do professor.

“O brasileiro precisa aprender a sair do Judiciário. Qualquer probleminha e se está na Justiça. Nos EUA, um país muito mais avançado que o nosso, já há centros de solução de litígios não estatais. Os juízes devem cuidar só do que é urgente. A falência mesmo, deveria ser discutida só entre devedor e credores!”.

A gravidade do meu estômago me joga ao chão. Agora eu estou prostado de quatro, evacuando, esvaziando. O líquido marrom-amarelado está nas minhas mãos, no chão da sala, empastado, exalando um odor cítrico. Escorrego minhas mãos e perco o equilíbrio, caindo de cara no produto da minha digestão.

Finalmente se deparam comigo tendo espasmos terríveis, pálido, sem o menor charme.

O professor, percebendo um certo agito, fala ainda mais alto. Falência, crédito, bancos, extrajudicial, empresários, juízo competente, prescrição, ex officio, stay period. Hei, prestem atenção!!! O palavrório se assoma, despejado em cima de todos. Os perdigotos parecem munições de uma metralhadora liberal.

Ninguém se aproxima de mim. Decerto, temerosos de que eu esteja infectado. O líquido verte sem parar de dentro do meu âmago. O meu conteúdo se esvazia. Os sistemas falham. Não se pode acreditar que algo é de fato isolado. Tudo é energia. E energia se perde por aí…

Tupperware, falência, vômito. Tenho certeza que tudo tem um elo entre si. Tenho certeza que a vida toda é mantida por um grande elo ou por pequenos e numerosos elos. Ah, se são.

Bem, agora digo adeus, professor, pois preciso injetar um pouco de soro nessas veias. E depois ir para casa lavar as tupperwares com água sanitária.

14.10.12

O tamanho dos meus pulmões

Num dia quente de primavera, andava ao lado do meu amigo Fernando em uma calçada suja quando um sujeito de terno folgado e desbotado brotou no meio do nosso caminho. Trazia no pescoço uma gravata curta demais para seu aspecto de garoto que cresceu rápido demais. Sua pele era parda e oleosa. Seu sorriso, um poço amarelo. Olhou para mim e para Fernando com a pressa de um viciado em cocaína e borrifou algo em nossos narizes.

“Senhores, o meu nome é José. Prazer em conhecê-los. O que acham desse doce perfume? Perfeito para presentear vossas namoradas! Não? O que acham?”.

Falava rápido e, enquanto repetia seu mantra, balançava vorazmente uma embalagem gasta, com uns dizeres ilegíveis. O cheiro no ar era de matar um diabético.

“Meu amigo, mas que merda é essa? Como sai espirrando isso no meu nariz? Eu não estou interessado!”, objetei, mais incomodado com o cabelo curto e espetado cheio de gel daquele autônomo aproveitador que com sua evidente falta de educação.

Entretanto, ele não reparava em mim. Deve ter notado desde o início que eu era carta fora do baralho. Ao invés de ouvir minha reclamação, arregalava seus olhos para Fernando, um tipo desses mais melancólicos, que andam de cabeça baixa entre seus semelhantes e, por isso mesmo, causam um certo espanto quando se surpreendem com algo e revelam seu íntimo para o resto do mundo, o que é raro.

E aquela reação era sem dúvida uma raridade. Fernando andava deprimido. E confesso que o tirei de casa aquele dia por não suportar mais suas lamúrias. Agora, contudo, seu rosto era uma explosão de êxtase. Um sorriso que não se continha nos lábios finos.

“Colega, quanto custa esse perfume?”, ele questionou o vendedor.

“Cinquenta mangos, patrão”, tornou o sujeitinho, fingindo desinteresse.

“E onde eu consigo mais disso aí?”, ele insistiu.

“Peraí, Fernando, tá falando sério? Essa parada fede”.

O olhar que ele reservou a mim não foi dos mais condescendentes.

Saímos daquele encontro medíocre com Fernando carregando dois frascos do perfume fedorento e o número do celular do nosso colega de terno.

Então ele me confidenciou:

“Esse é o cheiro dela”.

“Dela quem?”, indaguei.

“Dela…”.

Compreendi que ele falava da ex-namorada. Umazinha qualquer.

“Cara, esse não é o perfume dela, eu lembro que ela usava o mesmo perfume de uma garota pela qual fui apaixonado, e não era esse, tenho certeza!”.

“Eu não estou falando do perfume dela! Estou falando do cheiro, esse é o cheiro dela, a essência, aquilo que eu sentia quando beijava os cabelos dela, ou quando lambia seus seios, aquilo que ficava no meu travesseiro no dia seguinte”.

E senti pena do coitado. Deprimido daquele jeito, vendo cheiro em qualquer canto. Amaldiçoei a garota, por fazê-lo sofrer daquela maneira, e tentei tocar a bola para a frente.

“Vamos, você não precisa de cheiro nenhum. Vamos olhar uns discos”.

Não adiantou. Nem ter encontrado uma cópia rara do Depeche Mode funcionou para que ele tirasse aquela expressão de lunático drogado do rosto. Nem o filme de ação superficial e repleto de efeitos especiais. Nem o lanche gorduroso e cheio de bacon. Nem a bunda da garota bonita que eu apontei na rua. Nem a ligação de sua mãe reclamando que ele não ligava fazia tempo. Nada. Ficara lacônico, cheio de reminiscências.

Apelei para uma cerveja gelada no boteco preferido dele, que também não ia surtindo os efeitos desejados. Tinha ao meu lado o amigo mais insuportável da cidade. Fiquei quieto também, irritado com tudo aquilo. Ele pediu licença para ir ao banheiro, já de pé, como se se importasse com a resposta. Aquiesci. Cinco minutos, dez minutos. Tamborilava a mesa e olhava ao redor. Quinze minutos. Será que ele foi cagar? Vinte minutos. A porra da cerveja dele está esquentando! Trinta minutos. Caramba, o que tá acontecendo? Quarenta minutos. Fui atrás dele.

Com a cabeça margeando uma latrina, desacordado e pálido, ele babava um líquido incolor. O banheiro, apertado, sujo como um esgoto, tinha um cheiro diferente. Não era acre como urina. Nem embrulhava o estômago como o cheiro da merda dos outros. Tinha um cheiro profundo. Fortemente doce e calidamente azedo. Cheiro de sexo e castidade ao mesmo tempo. Cheiro de banho e cheiro de suor. Tinha o cheiro da ex-namorada do Fernando.

Quando ele recebeu alta do hospital, dei um tapa em seu rosto.

“Não faça mais isso, seu idiota”.

Ele deu um sorriso fraco e depois jogou videogame comigo.

A verdade é que aquela cena me assustou. Vê-lo se entregar a um abismo, por algo que julguei de início banal… Não sabia bem como encará-lo. Como lidar com aquela loucura. O meu amigo, o meu verdadeiro amigo, aquele parecia morto, substituído por um zumbi, consumido em perfume. Comecei a encontrá-lo menos. A falar menos. A vê-lo menos. A saber menos dele. Ao mesmo tempo, ele se isolou mais e passou a evitar o mundo. Era um relacionamento que se rompia. Uma amizade masculina, dessas  que morrem em silêncio. Diferentemente dos relacionamentos com as mulheres, que demandam palavras para serem rompidos, os relacionamentos entre homens acabam com um olhar que se desvia.

O silêncio habitava o lugar que antes era ocupado pelo meu amigo Fernando. Junto do silêncio, eu julgava poder sentir o cheiro da ex-namorada dele, rondando-me, como numa emboscada.

Perdi finalmente todo o contato que tinha com Fernando. Arranjara um novo trabalho. Novos amigos. Novas conquistas. Até comecei a aprender violão. Fernando era a menor das minhas preocupações, mas ainda existia na minha mente. Incomodei-me. Não poderia jogar aquela amizade assim no lixo. Eu pensava estar feliz, mas a lembrança de um certo cheiro não me deixava esquecer. Demorei, mas percebi que precisava dele, e que talvez ele esperasse meu apoio para tudo aquilo.

Mas ele sumira.

Os amigos em comum não ouviam falar dele há semanas. A mãe e o pai acreditavam que ele estava numa fase rebelde, pois insistira que estava bem há apenas algumas semanas. Devia ter ido viajar com alguma garota…

O peso se abateu sobre meus ombros. Eu falhara. Conhecia aquela sensação, ele não viajara coisa nenhuma. Devia estar jogado em alguma valeta, babando perfume, ou pior, devia ter voltado para a fonte de seu sofrimento, a garota do cheiro.

Caminhei, matutando, maquinando um pensamento que me levasse até ele. Pensava nas risadas que compartilhamos, nas mulheres que desejamos, nas partidas de futebol que jogamos, nas fraquezas que ousamos revelar um ao outro. Temi profundamente ter perdido um verdadeiro amigo. Mas ele devia estar por aí, ele tinha de estar por aí! Passei a acreditar que se saísse andando pelas ruas da cidade, mais hora menos hora ele apareceria, e me cumprimentaria como se tivéssemos nos visto há menos de duas horas.

E meu desejo de revê-lo foi tão imenso, andando numa calçada manchada, suja como a vida fora dos lares, que eu não reparei, naquela penumbra toda, quando um sujeitinho num terno folgado, três vezes maior que seu corpo magricela, brotou do concreto e do asfalto, sorrindo um sorriso amarelo, e borrifando algo direto nas minhas narinas.

Era cheiro de invencibilidade, de amparo, de carinho. Um cheiro cheio de contradições, exalando um fedor de suor e um odor de vigor, cheiro de ordem. Inspirei com toda força que pude, e desejei continuar inspirando para não mais esquecê-lo, para não mais deixá-lo escapar, mas esbarrei no tamanho dos meus pulmões. Quando expirei o ar, vermelho e sem fôlego,  e olhei fundo nos olhos gananciosos daquele vendedor, abri minha carteira e tirei tremendo as notas de dentro. Compraria de volta o cheiro do meu amigo Fernando.