18.11.12

República de homens e ratos

ratoBem no começo eu pensei que Aline fosse a mulher da minha vida. Simples assim mesmo. “Aline, o amor da minha vida”, tenho certeza que foi isso que meu cérebro pensou em algum instante entre o momento em que a vi e o momento do primeiro beijo, aquele que sela as nossas escolhas amorosas. Ela vestia botas pretas e camiseta rasgada até um pouco abaixo dos seios. Tinha uma pinta perto da boca e uma bunda que pelas proporções métricas se adequava perfeitamente ao tamanho da minha mão. Eu não ligava para os peitos pequenos dela, se é que essa foi a preocupação de alguém, em algum momento.

Aline estudava Letras, tocava violão, tinha um labrador, lia Guy de Maupassant e falava palavrão. Pela ordem de preferência em que eu analisava suas qualidades, casaria com ela no mesmo dia em que a conheci, se a garota consentisse.

Aline só tinha um problema: trazia enraizada em si todos os valores da classe média que a criou. Não é por mal que o digo, mas era filha de advogado com decoradora.

O sonho de Aline era visitar Veneza. Quando completamos três meses de namoro, após transar comigo no sofá da casa de sua melhor amiga – que fora comprar cigarros – , ela jogou a isca, esperando que o grande peixe mordesse o anzol:

- Imagino um dia a gente junto, meu amor, viajando pela Itália, quero conhecer Veneza, passear pelos canais, entrar nos museus, sentir o ar da História, jogar uma moeda para um gondoleiro… o que você acha?

Aline era católica e rezava para Deus e Jesus todo Domingo. Nas eleições votava no PSDB porque não gostava nem da Direita nem da Esquerda e não queria se envolver com “esse povo”. Dizia a si mesma que precisava virar vegetariana e tomar uma taça de vinho todo dia. Um dia brigou comigo porque eu discordara de uma matéria da Veja.

Com o tempo, eu percebi que as botas e a camiseta rasgada embaixo dos seios eram só uma cópia de um modelito que ela vira nas páginas da Marie Claire. De rock, ela conhecia o Legião Urbana e o Capital Inicial, para ela bastava. O Guy de Maupassant era mais a lembrança de um nome que abria portas entre os cultos que uma paixão indissociável de seu criado-mudo.

Eu disse para ela o que eu achava:

- No futuro, Veneza irá sumir. A cidade enfrenta suas piores enchentes. É uma cidade que olha para o relógio e sabe que sua hora está chegando.

Aline vivia uma sensação de injustiça gritante. “Esse governo aí”, dizia ela, “é só privilégio, privilégio, privilégio… tudo o que sabem é dar privilégio, cota, bolsa. Se você é preto e pobre, tá feito, vai se dar bem. Se é branco e paga imposto, tá fudido”. Um dia, ela me alertou para uma ameaça comunista. Algo como a companheirada está tomando geral, coisa assim. Creio que ela falou em República Sindicalista. Aline adorava pregar o amor ao próximo, o fim da discriminação, mas bem que eu sentia ela se encolher em meus braços toda vez que um mano passava perto de nós. Várias vezes a ouvi dizer “Graças a Deus não tenho porte de arma”.

Veneza e seus canais. Que bela cidade. Mas cá entre nós. Tenho comigo que as cidades antigas são cheias de ratos. Quando a água começa a subir, acredito que nem mesmo os ratos, que são exímios nadadores, aguentam muito tempo mergulhados no caos. Só aguentam o tempo necessário para encher a água com a ameaça da leptospirose. Como todo mamífero terrestre, eles emergem. Quando 70% da bela Veneza está sob a água, e resta 30% de espaço para todos os seres humanos, como acomodar os ratos entre os seres pensantes?

Quando Veneza submerge, vira uma cidade de homens e ratos. Será que coexistem? Será que contratam gatos? Ou chamam o flautista? Não creio que os ratos, como uma classe de notável saber, fiquem parados, esperando a primeira reação dos humanos. Provável que possuam um sindicato. Dois ou três, quem sabe, o que depende do nível de consciência social e isso varia de roedor para roedor. Em suas assembleias, os ratos expõem e discutem seus problemas: “A cidade está tomada pela água! O que fazer com esses humanos?! Eles trancam seus armazéns, suas despensas, seus armários, onde está a comida?!”.

Bem penso ser inviável a contratação de algum exterminador de humanos por parte dos ratos. Acho que em sua simplicidade de roedores, só lhes resta torcer por uma melhor distribuição de comida, restos, lixo. E, claro, menos vassouras, venenos, ratoeiras! Eles detestam a política de queijo e roda.

Em homenagem ao meu grande amor, eu deixei crescer um longo e espesso bigode. Quando ela não olhava, eu mostrava a ela os meus dentinhos sarcásticos e roía em silêncio um suculento pedaço de queijo. Desilusão é um assunto funesto para um rato. Veja bem, um rato sempre procura o lado bom das coisas, afinal, não é simples viver entre a sujeira e correr o risco de tomar vassourada por aí. Eu posso ter me apaixonado por uma Veneza, de bunda farta e pinta na boca, mas eu acabei com uma República de Homens e Ratos, engalfinhada em ratoeiras mesquinhas e traiçoeiras. Sorte a minha.