31.12.12

Clint Eastwood não gosta da Geração Y

Uma geração de homens criados por mulheres. Crescem paparicados, cheios de amor e ternura. São compelidos a buscar um amor incessante, insaciável, de um seio que nunca realmente abandonaram, de onde nunca largaram suas bocas sugadoras. O mundo está tomado por mimados.

Os homens de hoje ousam. Quando erram, choram e buscam a saia de uma mulher, a que estiver mais próxima, tanto faz se é branca, negra, ruiva ou japonesa, para que possam ter reafirmados seus valores mais frágeis. Se não conseguem, esperneiam. São frustradinhos. Esse é o mundo em que vivo.

Eu também cresci cercado por mulheres, aprendendo seus valores e ganhando seu afeto. Sabendo seus cheiros e suas vozes. Cresci sendo amado, adorado, idolatrado. Isso não foi ruim. Não é ruim se você é criado por um bando de leoas. Os leões são matriarcais, isso são. A juba é só pose, quem caça e manda é a leoa.

O maior desafio para cada humano macho adulto é a conquista da fêmea. Que se dane a carreira profissional, a independência financeira ou o crescimento pessoal. Isso está garantido se ele não for um tapado. Sonhamos sempre com a próxima boceta. Só isso. Não existe maior desafio, aquele da conquista. Isso é tudo o que resta nessa vida social-democrata de "fim da história".

Percebi que existem muitos homossexuais. Mais que existiam antes, mais que existiam anteontem, e mais ainda dos que vi ontem. Estão trabalhando no shopping, nas lojas, nas oficinas, no escritório. Estão em todos os lugares. Somos uma geração criada por mulheres.

Minha mãe disse que a grande tendência é os homens ficarem com os homens e as mulheres ficarem com as mulheres. As coisas se bagunçaram. Os referenciais de Jung já parecem não valer porra nenhuma. As mulheres são homens acabados. Arrotam, cospem e coçam um saco que só existe na cabeça delas. Coitadas.

Os homens são piores. Descobriram que podem ser sensíveis. Choram e assistem novela. Vão à pedicure e acham que com pêlo na bunda nunca vão conquistar uma mulher. Somos uma geração criada por mulheres.

Dia desses entrei em uma loja de ferragens e percebi que sou de uma geração criada por mulheres. Lá existiam ferramentas, muitas delas. Chaves de fenda, philips, atlas, alicates, válvulas, espelhos, padrões antigos e novos, esmerilhadeiras. Falavam de amperagem e disjuntores. Eu não sabia o nome de nada disso, tive de pesquisar no google. Eu não sabia o nome de nada. O vendedor olhava para minha cara e eu fazia mímica para me fazer entender. 

"Boa tarde, posso ajudá-lo?", ele perguntou, polido. "Sim, eu quero aquilo ali". "Aquilo ali o quê?", ele questionou, já percebendo que eu não era macho porra nenhuma. "Aquela coisinha ali. Aquela coisinha com a pontinha assim e o buraco tal".

Eu regredira em termos comunicacionais. Involuíra a ponto de me comunicar com gestos, já que a palavra me faltava. Parecia um retardado tentando explicar algo que representa o ápice da razão humana: a ferramenta. A pedra e o osso na mão dos macaquinhos são de maior valia que os gestos mudos da minha ausência de habilidade. Eu não aprendi a ser o homem que outros homens já foram. Há um vazio entre gerações, um vazio que faz falta a esses homens de muitas mães e poucos pais.

Então eu decidi que eu precisava saber o nome das ferramentas e me parecer mais com o Clint Eastwood. Passei a portar uma carranca no lugar da cara e a me importar menos com a histeria feminina. "Nunca leve uma mulher a sério", ouvi alguém dizer. Achei bonito e comecei a colocar em prática. Mas essa é outra história e eu não estou a fim de dar muito valor às mulheres nesse texto.


Quando a chance de ser um macho provedor chegou, eu não tive dúvida. No banquete de fim de ano, para saudar o ano novo que chega, a família precisava de algo para se alimentar. Eu, como um homem à la Eastwood, provi. É isso que um homem faz, ele provê. Então comprei um grande e suculento pernil para todos. Para a família, a base da sociedade. Eu. Eu provi. Eu, com o meu dinheiro. Com o dinheiro que vem de uma geração criada por mulheres, essa geração que gosta de especulações de alto risco. 



O pernil... Queria tê-lo caçado. Queria tê-lo matado com as minhas próprias mãos, assim ninguém veria fraqueza no homem, porque é isso que um homem faz: ele mata e provê. Ele impõe e protege.

No entanto, ninguém entende isso. O pernil é só um prato, as ferramentes são só engenhocas, e os homossexuais são só homossexuais. O homem agora é um perdido: não pode ser o que foi, não sabe ser o que é e não tem ideia do que será. Nesse mundinho bagunçado, gênio é o brega, que com muita simplicidade já cantava a bola: "Homem é homem, menino é menino, macaco é macaco e viado é viado".

29.12.12

Manual sobre como superar um grande amor

O casal entrou no café. Não eram um casal no sentido romântico que a palavra evoca, senão dois amigos de longa data: um, homem, a outra, mulher. Sentaram-se defronte um doutro. Ele pediu cappuccino italiano, desgostoso que era das adaptações tropicais. Ela, por sua vez, ordenou uma soda italiana, por nenhum motivo específico, exceto que a aprazia. Então, concedendo a licença requerida pela garçonete, e percebendo-se a sós com ela, ele principiou a falar.

- Bárbara, devo agradecer novamente que tenha aceitado o convite. Realmente preciso da sua ajuda.
- Dá para ver que não anda bem, Lucas. Aliás, você está péssimo!
- Não durmo há três noites.
- E o que aconteceu?
- Sério? Você não está sabendo?
- Não... aconteceu algo sério?
- Terminei com a Ale.
- Ah...
- É...
- Poxa, achei que fosse algo mais sério.
- É sério! É seriíssimo! Como ainda não sabia disso tudo? Não tem acompanhado meu perfil?
- Estou por fora, desinformada. Quase não entro na internet, só para checar meus e-mails e fazer algumas compras...
- A coisa é séria sim. Você pode ver meu estado. Estou sofrendo.
- Claro que está. Essas coisas são assim mesmo. Você sabe, relacionamentos humanos.
- Bem, é o ponto. Você sempre me pareceu tranquila com a vida, eu nunca a vi sofrer com essas... com essas coisas.
- Levam-se alguns tombos até aprender essa arte, meu querido.
- Eu sei, e além disso, você não tem qualquer tipo de contato com a Ale, o que me faz confiar mais em você para encontrar um jeito de sair dessa. Eu sei que você é assim. Sempre presente na hora de ajudar. É razoável, ponderada, sensível. Você é perfeita para me ajudar.
- Eu sou?
- É.
- Como vocês terminaram?

Lucas e Alessandra eram um casal no sentido amoroso, deveras. Um namoro meteórico, de cinema, com beijos longos, pais atentos e escapulidas bem orquestradas. Durou da adolescência até aquela idade onde se pensa que é adulto. Mas não é. O amor chegou ao seu ápice por volta dos 23 anos de Lucas. A paixão atingiu o zênite antes, aos 19. A paixão morreu aos 20, com os apelidos carinhosos e a monotonia, inimiga das aventuras e irmã do cotidiano. O amor morreu aos 25, quando Alessandra se encantou com o sorriso de Marcel, dito Celinho. Ela quis experimentar o beijo de Celinho antes de terminar com Lucas, como se pretendesse contrapor o frescor de uma nova paixão à segurança e comodidade de um primeiro amor. Quando se extirparam as dúvidas sobre as habilidades de Celinho, Lucas foi convidado a se retirar da vida amorosa de Alessandra.

- É, eu sou mesmo perfeita para te ajudar, sentenciou Bárbara, indignada.
- Claro que é.
- Você obviamente está em maus lençóis, meu amigo. Vou ajudá-lo.
- Sim!
- Você terá de aprender algumas regras básicas.
- Escuta, eu já conversei com meio milhão de pessoas sobre a Ale. Nossos amigos, bem, cada um diz uma coisa diferente e isso me deixa perdido. Um diz: reatem! Outros: larguem de vez! Para alguns, tanto faz. E quanto a você?
- Aí está o primeiro erro. Amizades em comum, nesses momentos, são como tias solteironas dando conselhos sobre como você deve proceder no seu casamento. Coloque essas pessoas na geladeira por ora. Elas estão envolvidas. Muito envolvidas! Algumas estão pensando em como você ficará melhor solteiro, seja para dar em cima de você ou ter alguém com quem sair de sexta-feira. E os que te querem namorando, podem estar apenas querendo companhia nos encontros de casais ou só o colo do casal legal nos momentos de carência. Alguns podem querer seu bem, mas é mais fácil crer no egoísmo de cada um, não?
- Bem, você tem razão, eu percebi uma certa parcialidade em alguns deles. Foram muitos pitacos. Alguns, mesmo eu nada perguntando, já se apressavam em dizer que ela está bem, ótima, que está apaixonada por um tal de Marcel, isso é odioso.
- Afaste esses. Você não precisa dessas versões de Nelson Rubens fofocando sobre cada detalhe inútil da vida da sua ex. Esses gostam de te ver em agonia. Serão realmente seus amigos?
- Não creio... é que eu penso tanto nela que qualquer notícia já me põe em alerta.
- Não seja bobo, Lucas, pensar nela não vai adiantar nada. O que seria de um viciado em crack na rehab se ele dedicasse cada pensamento seu às queridas pedrinhas? Dá para imaginar. Você não pode dedicar sua mente à Ale, Sr. Lucas.
- É difícil quando o rosto dela surge o tempo todo na minha rede social, não dá para segurar, eu acabo olhando tudo. Eu sei, sou idiota, não me controlo!

Bárbara ia se desesperando com a autocomiseração de Lucas quando procurou afastar o desânimo meneando a cabeça.

- Não, não, não! Deleta essa bosta, dá um tempo, sei lá, mas não investiga a vida dela na internet. O mesmo viciado em crack que quer largar o vício não fica visitando o mocó para ver como andam seus amigos viciados, quantas pedras restaram ou o que o traficante anda compartilhando ou curtindo.
- Mas...
- E, por Cristo, não me fale que ligou para ela bêbado.

Lucas puxou a gola, suando.

- Bem...
- Me poupe dos detalhes. Ela deve ter sentido, no mínimo, piedade ante isso. Francamente, Lucas.
- Falávamo-nos todos os dias!
- E agora você não vai falar nenhum dia. Ou vai falar só uma vez por ano, para desejar feliz natal ou aniversário. Acabou e pronto. Você sabe que é o fim. Ou vai querer virar o amigo gay, pronto para qualquer conversinha? Talvez ela conte sobre o comprimento do pau do Ricardão ou, como ele chama mesmo? Amaral?
- Não exagera, Ba. Eu não quero pensar nisso. Na real, não quero pensar nada sobre a Ale, nem um pouco.
- Você não tem como jogar fora o seu cérebro, então vai precisar ocupar esse seu cabeção com outros pensamentos ou praticar algumas atividades. Você continua compondo?
- Não consigo mais me concentrar, sei lá.
- Aproveita o momento! A fossa é a melhor das inspirações! Você pode ver, dos corações partidos surgem as melhores canções, veja só o caso do Lupicínio Rodrigues. Quem sabe você não acaba fazendo sucesso? Se até as gordinhas conseguem, por que não você? E também pode ir malhar, e pegar uma cor. Você está parecendo um vampiro raquítico.

Lucas olhou com olhos de peixe morto para os próprios braços.

- Eu sei, estou trabalhando nisso. No entanto, repito, é difícil. Eu pego um lápis e lembro que foi ela quem me emprestou. Toco o violão e lembro das noites em que tocava só para ela. Eu tomo água e lembro dela. Respirar me faz recordar dela!
- Junte todos os presentes, as cartinhas, as coisinhas, enfim, todos os objetos que minimamente possam te fazer se lembrar dela e...
- ... jogo tudo fora?
- Não. Guarde-os. Em um local escuro e pelo qual você só esbarre uma vez a cada dez anos, quando decidir limpar mais a fundo algum cômodo. Será uma lembrança e uma lembrança amarga, cuja finalidade será mostrar a você que as pessoas mudam, que não dominamos o outro, que tudo que é ótimo pode decair. Vai servir para te alertar e te prevenir a encarar melhor o próximo desafio. O próximo amor.
- Parece algo bom de se tentar...

O sorriso triste estampado no rosto dele fez Bárbara sentir algo dentro de si.

- Lucas...
- Oi?
- Fique longe dos apelos. De todos eles. O álcool vai te deixar estúpido. Drogar-se por causa dela parece dramático demais. Não vai ficar batendo punheta com vídeo da internet também, isso é patético.

Ele não pôde evitar de esgarçar a boca.

- Ah! estou vendo um sorrisinho aí, estou sim! Seu punheteiro!

Agora ele abria a boca e mostrava os dentes, coisa que não fazia há meses.

- Brincadeiras à parte, mantenha a sanidade e a cabeça ocupada com coisas úteis. São nesses momentos de dor que você deve se conhecer, se analisar, saber seus limites. Entender o que você acertou e o que você errou vão te tornar uma pessoa melhor, já que a culpa nunca é exclusiva, você deve ter errado com essa garota também, em algum ponto. Para se gostar, você precisa se olhar no espelho e entender que você é maior que tudo isso. E só se gostando para que outra pessoa goste também de você.

Eles ficaram uns segundos em silêncio e então ela arrematou.

- E tudo isso leva tempo. Tempo é a chave de tudo, Lucas.

Nesse ponto, a soda e o cappuccino já haviam findado, os copos soltando pesadas gotas de água sobre a mesa de madeira. Pagaram a conta e passearam caminhando pelo bairro iluminado. A casa dele era mais perto e ela não era mulher que se deixava acompanhar por cavalheirismo. Eles riam cobertos de sinceridade, gozando a companhia benfazeja um do outro, naquela noite de tempo morno e terno.

Ele estacou na portaria do prédio, já subindo um degrau, enquanto rodava o molho de chaves na mão esquerda. Voltou-se. E revirou-se, subindo mais um degrau, atrapalhado. Depois volveu novamente, assegurando-se de que ela ainda não se fora e estava ali, a encará-lo. Ela, Bárbara, a amiga. Razoável, ponderada e sensível.

Então olhou demoradamente as horas no relógio e propôs:

- Quer subir um pouco?

20.12.12

O mundo dos anônimos

Com as bolsas ao redor do mundo reproduzindo quedas após quedas, e se mantendo nessa atividade depressora de maneira sádica, com o Welfare State indo pelo ralo na maioria dos países dito desenvolvidos, com fome, miséria e suicídios sendo noticiados cotidianamente, uma ideia surgiu, em algum lugar, de alguma forma, e os revoltados passaram a expressar sua angústia “ocupando” um espaço público, exigindo, demandando, sem saber bem de quem. Não era um grupo político, econômico e muito menos terrorista. Eram pessoas comuns, tão díspares entre si quanto um advogado pode ser de um pedreiro, mas se orgulhavam de ser a voz dos 99%. Os 99% desprovidos da riqueza do 1%.

Esse evento se espalhou pelo mundo. Do Occupy Wall Street, chegamos a ter, e falo agora por uma voz regionalizada, o Ocupa Londrina, que de motivação econômica nada tinha, mas procurava parar as bizarras intervenções urbanísticas num bosque localizado no centro da cidade.

Esses “standers” são todos anônimos. O mundo é agora dos anônimos. Ninguém mais possui a força necessária para ser um rosto e um corpo, uma presença física ou imagética que forneça um pensamento para as pessoas, como o foram o construído Jesus Cristo, Che Guevara, Mao Tsé-Tung, Ayrton Senna, Lula, Mandela, entre outros. O mundo está fraco e um mundo fraco não tem corpo físico para se sustentar, para inspirar algo nos demais.

Diante disso, o mundo ficou anônimo. Não há escritores que prestem, mas todo adolescente tem um blog onde destila seu talento. Os muros estão todos pichados com mensagens contra o capital, contra a obrigatoriedade do voto, contra a violência praticada em âmbito doméstico, contra a opressão e até mesmo contra a fugacidade das relações promíscuas. Mas quem os pichou?

“Quem vigia os vigilantes?”, ironizava o muro da faculdade, anos atrás. Mas quem vigia aquele que ironiza os vigilantes? É um anônimo. Desconhecido, inimaginável, ininteligível. Ainda assim, ele foi como as ideias.

A ideia é anônima por sua natureza, surge em nossa cabeça quando menos esperamos, sem face nem voz, apenas um estalo, seguido daquela euforia própria da autoria. E quem disse que a ideia é nossa? A ideia é coletiva, porquanto sejamos um animal social.

E tão logo conseguimos apreender que a ideia é de todos, e não de nosso profundo umbigo, notamos que a vida se estabelece num ambiente coletivo, partilhando uma consciência que age individual e coletivamente.

Não é difícil pensar, sob esse ângulo, que a vida em sociedade reproduz nossa estrutura psíquica mais básica, consistindo em um aspecto consciente (estudo, trabalho, produtividade, consumo, etc), um aspecto repressivo (leis, moral, polícia, etc) e outro aspecto, esquecido e abandonado, que consiste justamente no surgimento desses elementos urbanos que nos cercam, que não sabemos de onde vêm, como surgem, mas que estão sempre presentes, toda vez que fechamos nossas pálpebras e deixamos o mundo escapar de nossas mãos por apenas um segundo. São as pichações, as festas que ninguém sabe quem organizou, os acidentes e incidentes que surgiram pela manhã, os acontecimentos inexplicáveis, entre outros.

Com o mundo demasiadamente cansado, tirando férias de si mesmo por mais tempo do que devia, surgiu o anonimato, este que poupa energia desnecessária ao peso do nome e age nas sombras, escondido dos excessivos olhos que nos cercam.

A quantidade de olhos, naturais e artificiais, que são postos sobre nós, também explica que os anônimos queiram dominar este planeta. Um mundo onde cada rosto equivale a um R.G., a um CPF e a um cadastro junto ao SERASA precisa, por óbvio, de um rosto sem face para não se calar. A voz vigiada é a voz sem potência. O escritor que se deixa conhecer é aquele cujo livro o vestibulando não precisa ler para acertar a questão na prova. É uma voz morta nas entrelinhas.

No mundo anônimo, a consciência (coletiva) se firma sem orientação alguma. Relações sociais, religião, economia, História, tudo se funde e desaparece, como se fugissem de responsabilidades milenares. As estruturas, fracas e complexas, ao invés de burocratizarem o mundo e torná-lo inteligível, acabam por reproduzir o caos natural, num malfadado simulacro, por demais artificial e insensível, que deixa a todos perdidos e desesperados. Por assim dizer, cada conduta de cada indivíduo (anônimo) é pautada de forma egoísta, não no sentido liberal, mas na tentativa de resgatar um pouco da ordem que outrora (e da qual ninguém se lembra) imperou.

Não obstante essas ponderações, o mundo anônimo está fadado ao fracasso, haja vista nossa necessidade primal de se esconder do estranho, do desconhecido. Os eventos anônimos, como as pegadas feitas com tinta branca caminhando por mais de cinco quilômetros em Londrina, são raciocinados e armenzados num canto esquecido de nossos cérebros, dada nossa incapacidade de torná-los inteligíveis. Viram uma referência usual, incapaz de sustentar a reflexão que buscaram causar no seu momento primitivo.

O anonimato perdeu sua ousadia de tempos antigos, quando representava revolta, incômodo e elegância, para se tornar uma parte grande demais, visceralmente ligada a todos os outros componentes do mundo, razão pela qual sem o anonimato, cairíamos na pior das pasmaceiras e seríamos autômatos, socialmente falando. O anonimato se tornou um ativo do capitalismo, uma ação para o socioólogo estudar e mais uma notícia estampada nas capas dos jornais que estão para falir.

Crente de que as ideias ainda voltarão a ter um rosto e um corpo, eu resisto ao mundo anônimo e divulgo meu nome, para que ele seja lembrado e refletido, raciocinado e divulgado, mesmo depois que o mundo for mais caos que ordem, e ninguém mais lembrar quem é que vigia quem: Victor Hugo de Araujo Barbosa.

18.12.12

Estilo de vida

mudanca

Vida de cigano. Eu bem que esperava poder acender uma fogueira no meio dessas caixas e dançar e beber a noite inteira. Ver as saias bailarem e os cigarros baratos serem arremessados em meio à balbúrdia da música acelerada. Acordar em meio à sujeira e descobrir-me com a maior das ressacas, nos braços de uma mulher gorda e calorosa. Pelo menos assim é que eu imagino que um cigano de roupas coloridas viva. Mas eu só resido em meio à bagunça, e me dei conta que os ciganos não são tão “errados” assim. Errar é bom. É instrutivo. Errar de errante, já que eu detesto errar de errado.

Disseram-me que eu tenho vida de escritor nova-iorquino, decadente e apreciador das coisas igualmente decaídas. Deve ser verdade.

Veja só o estado deste computador. Está amassado, quebrado, estronchado e desmontado. Absolutamente em nenhum ângulo – e eu já procurei olhar de todos - é capaz de lembrar um computador em sua forma original, e no entanto, eu não dou a mínima. O computador quebrou e eu não dou a mínima.

Eu quase me deixei consumir. Quase quis comprar o sofá com o tecido que não esquenta e amacia sua bunda com a mesma delicadeza com que se trata a dama (aquela que você quer trepar). Em algum momento, eu lembro, fiz questão de adquirir um quadro expressionista para impressionar os visitantes. A cor do receptáculo do detergente já foi uma preocupação real. E uma olhadinha na Casa Cláudia pode trazer alguma ideia inovadora. Ah eles vão amar.

E apesar disso tudo, quando dentro das caixas, e não fora, em cima, do lado ou em baixo, essas coisas perdem completamente o sentido, assim como tudo o mais. As maravilhas que as caixas de papelão fazem para não ir parar nos montes dos catadores de recicláveis. Um pouco de fita crepe e, voilà, minhas posses (e um pouco de mim mesmo) foram encaixotados, empilhados e esquecidos. Não sem antes passarem pelo rigoroso registro da caneta atômica.

No espaço livre acho que meu cérebro se expandiu um pouco mais. Deve ser a vista alta e os móveis ainda jogados aqui e acolá. Talvez tudo só sirva para realmente acender uma fogueira. Embora eu devesse seguir o conselho da imobiliária e fazer um seguro contra incêndio, que mal teria um pouco de histórias de terror ao redor de uma fogueira? um pouco de dança em volta do fogaréu? um pouco de marshmallows? um charque não faria mal a um boi sequer. Eu não tenho mesmo um fogão, só combustível. E eu não dou a mínima para isso.

Acho que aquele sonho antigo de destruir o computador foi realizado, pela via transversa.

Mudanças, dizem, são o prelúdio de algo, ainda maior e mais vasto. Que perda de tempo. Sempre que vemos um espaço vazio, procuramos preenchê-lo. Por que precisamos preencher o vazio? Por que não esvaziamos o espaço cheio? Que implicância temos com o zero e que amor temos pelo um milhão.

Preenche e esvazia, empacota e desencaixa, lacra e rompe. Sobe e desce! Vou tentar não me esquecer que o espaço vazio é preenchido pela nossa mente cheia de … (preencha a seu critério).

Uma mente de escritor cheia de nova-iorquices decadentes. E eu não dou a mínima para isso.