18.12.12

Estilo de vida

mudanca

Vida de cigano. Eu bem que esperava poder acender uma fogueira no meio dessas caixas e dançar e beber a noite inteira. Ver as saias bailarem e os cigarros baratos serem arremessados em meio à balbúrdia da música acelerada. Acordar em meio à sujeira e descobrir-me com a maior das ressacas, nos braços de uma mulher gorda e calorosa. Pelo menos assim é que eu imagino que um cigano de roupas coloridas viva. Mas eu só resido em meio à bagunça, e me dei conta que os ciganos não são tão “errados” assim. Errar é bom. É instrutivo. Errar de errante, já que eu detesto errar de errado.

Disseram-me que eu tenho vida de escritor nova-iorquino, decadente e apreciador das coisas igualmente decaídas. Deve ser verdade.

Veja só o estado deste computador. Está amassado, quebrado, estronchado e desmontado. Absolutamente em nenhum ângulo – e eu já procurei olhar de todos - é capaz de lembrar um computador em sua forma original, e no entanto, eu não dou a mínima. O computador quebrou e eu não dou a mínima.

Eu quase me deixei consumir. Quase quis comprar o sofá com o tecido que não esquenta e amacia sua bunda com a mesma delicadeza com que se trata a dama (aquela que você quer trepar). Em algum momento, eu lembro, fiz questão de adquirir um quadro expressionista para impressionar os visitantes. A cor do receptáculo do detergente já foi uma preocupação real. E uma olhadinha na Casa Cláudia pode trazer alguma ideia inovadora. Ah eles vão amar.

E apesar disso tudo, quando dentro das caixas, e não fora, em cima, do lado ou em baixo, essas coisas perdem completamente o sentido, assim como tudo o mais. As maravilhas que as caixas de papelão fazem para não ir parar nos montes dos catadores de recicláveis. Um pouco de fita crepe e, voilà, minhas posses (e um pouco de mim mesmo) foram encaixotados, empilhados e esquecidos. Não sem antes passarem pelo rigoroso registro da caneta atômica.

No espaço livre acho que meu cérebro se expandiu um pouco mais. Deve ser a vista alta e os móveis ainda jogados aqui e acolá. Talvez tudo só sirva para realmente acender uma fogueira. Embora eu devesse seguir o conselho da imobiliária e fazer um seguro contra incêndio, que mal teria um pouco de histórias de terror ao redor de uma fogueira? um pouco de dança em volta do fogaréu? um pouco de marshmallows? um charque não faria mal a um boi sequer. Eu não tenho mesmo um fogão, só combustível. E eu não dou a mínima para isso.

Acho que aquele sonho antigo de destruir o computador foi realizado, pela via transversa.

Mudanças, dizem, são o prelúdio de algo, ainda maior e mais vasto. Que perda de tempo. Sempre que vemos um espaço vazio, procuramos preenchê-lo. Por que precisamos preencher o vazio? Por que não esvaziamos o espaço cheio? Que implicância temos com o zero e que amor temos pelo um milhão.

Preenche e esvazia, empacota e desencaixa, lacra e rompe. Sobe e desce! Vou tentar não me esquecer que o espaço vazio é preenchido pela nossa mente cheia de … (preencha a seu critério).

Uma mente de escritor cheia de nova-iorquices decadentes. E eu não dou a mínima para isso.