29.12.12

Manual sobre como superar um grande amor

O casal entrou no café. Não eram um casal no sentido romântico que a palavra evoca, senão dois amigos de longa data: um, homem, a outra, mulher. Sentaram-se defronte um doutro. Ele pediu cappuccino italiano, desgostoso que era das adaptações tropicais. Ela, por sua vez, ordenou uma soda italiana, por nenhum motivo específico, exceto que a aprazia. Então, concedendo a licença requerida pela garçonete, e percebendo-se a sós com ela, ele principiou a falar.

- Bárbara, devo agradecer novamente que tenha aceitado o convite. Realmente preciso da sua ajuda.
- Dá para ver que não anda bem, Lucas. Aliás, você está péssimo!
- Não durmo há três noites.
- E o que aconteceu?
- Sério? Você não está sabendo?
- Não... aconteceu algo sério?
- Terminei com a Ale.
- Ah...
- É...
- Poxa, achei que fosse algo mais sério.
- É sério! É seriíssimo! Como ainda não sabia disso tudo? Não tem acompanhado meu perfil?
- Estou por fora, desinformada. Quase não entro na internet, só para checar meus e-mails e fazer algumas compras...
- A coisa é séria sim. Você pode ver meu estado. Estou sofrendo.
- Claro que está. Essas coisas são assim mesmo. Você sabe, relacionamentos humanos.
- Bem, é o ponto. Você sempre me pareceu tranquila com a vida, eu nunca a vi sofrer com essas... com essas coisas.
- Levam-se alguns tombos até aprender essa arte, meu querido.
- Eu sei, e além disso, você não tem qualquer tipo de contato com a Ale, o que me faz confiar mais em você para encontrar um jeito de sair dessa. Eu sei que você é assim. Sempre presente na hora de ajudar. É razoável, ponderada, sensível. Você é perfeita para me ajudar.
- Eu sou?
- É.
- Como vocês terminaram?

Lucas e Alessandra eram um casal no sentido amoroso, deveras. Um namoro meteórico, de cinema, com beijos longos, pais atentos e escapulidas bem orquestradas. Durou da adolescência até aquela idade onde se pensa que é adulto. Mas não é. O amor chegou ao seu ápice por volta dos 23 anos de Lucas. A paixão atingiu o zênite antes, aos 19. A paixão morreu aos 20, com os apelidos carinhosos e a monotonia, inimiga das aventuras e irmã do cotidiano. O amor morreu aos 25, quando Alessandra se encantou com o sorriso de Marcel, dito Celinho. Ela quis experimentar o beijo de Celinho antes de terminar com Lucas, como se pretendesse contrapor o frescor de uma nova paixão à segurança e comodidade de um primeiro amor. Quando se extirparam as dúvidas sobre as habilidades de Celinho, Lucas foi convidado a se retirar da vida amorosa de Alessandra.

- É, eu sou mesmo perfeita para te ajudar, sentenciou Bárbara, indignada.
- Claro que é.
- Você obviamente está em maus lençóis, meu amigo. Vou ajudá-lo.
- Sim!
- Você terá de aprender algumas regras básicas.
- Escuta, eu já conversei com meio milhão de pessoas sobre a Ale. Nossos amigos, bem, cada um diz uma coisa diferente e isso me deixa perdido. Um diz: reatem! Outros: larguem de vez! Para alguns, tanto faz. E quanto a você?
- Aí está o primeiro erro. Amizades em comum, nesses momentos, são como tias solteironas dando conselhos sobre como você deve proceder no seu casamento. Coloque essas pessoas na geladeira por ora. Elas estão envolvidas. Muito envolvidas! Algumas estão pensando em como você ficará melhor solteiro, seja para dar em cima de você ou ter alguém com quem sair de sexta-feira. E os que te querem namorando, podem estar apenas querendo companhia nos encontros de casais ou só o colo do casal legal nos momentos de carência. Alguns podem querer seu bem, mas é mais fácil crer no egoísmo de cada um, não?
- Bem, você tem razão, eu percebi uma certa parcialidade em alguns deles. Foram muitos pitacos. Alguns, mesmo eu nada perguntando, já se apressavam em dizer que ela está bem, ótima, que está apaixonada por um tal de Marcel, isso é odioso.
- Afaste esses. Você não precisa dessas versões de Nelson Rubens fofocando sobre cada detalhe inútil da vida da sua ex. Esses gostam de te ver em agonia. Serão realmente seus amigos?
- Não creio... é que eu penso tanto nela que qualquer notícia já me põe em alerta.
- Não seja bobo, Lucas, pensar nela não vai adiantar nada. O que seria de um viciado em crack na rehab se ele dedicasse cada pensamento seu às queridas pedrinhas? Dá para imaginar. Você não pode dedicar sua mente à Ale, Sr. Lucas.
- É difícil quando o rosto dela surge o tempo todo na minha rede social, não dá para segurar, eu acabo olhando tudo. Eu sei, sou idiota, não me controlo!

Bárbara ia se desesperando com a autocomiseração de Lucas quando procurou afastar o desânimo meneando a cabeça.

- Não, não, não! Deleta essa bosta, dá um tempo, sei lá, mas não investiga a vida dela na internet. O mesmo viciado em crack que quer largar o vício não fica visitando o mocó para ver como andam seus amigos viciados, quantas pedras restaram ou o que o traficante anda compartilhando ou curtindo.
- Mas...
- E, por Cristo, não me fale que ligou para ela bêbado.

Lucas puxou a gola, suando.

- Bem...
- Me poupe dos detalhes. Ela deve ter sentido, no mínimo, piedade ante isso. Francamente, Lucas.
- Falávamo-nos todos os dias!
- E agora você não vai falar nenhum dia. Ou vai falar só uma vez por ano, para desejar feliz natal ou aniversário. Acabou e pronto. Você sabe que é o fim. Ou vai querer virar o amigo gay, pronto para qualquer conversinha? Talvez ela conte sobre o comprimento do pau do Ricardão ou, como ele chama mesmo? Amaral?
- Não exagera, Ba. Eu não quero pensar nisso. Na real, não quero pensar nada sobre a Ale, nem um pouco.
- Você não tem como jogar fora o seu cérebro, então vai precisar ocupar esse seu cabeção com outros pensamentos ou praticar algumas atividades. Você continua compondo?
- Não consigo mais me concentrar, sei lá.
- Aproveita o momento! A fossa é a melhor das inspirações! Você pode ver, dos corações partidos surgem as melhores canções, veja só o caso do Lupicínio Rodrigues. Quem sabe você não acaba fazendo sucesso? Se até as gordinhas conseguem, por que não você? E também pode ir malhar, e pegar uma cor. Você está parecendo um vampiro raquítico.

Lucas olhou com olhos de peixe morto para os próprios braços.

- Eu sei, estou trabalhando nisso. No entanto, repito, é difícil. Eu pego um lápis e lembro que foi ela quem me emprestou. Toco o violão e lembro das noites em que tocava só para ela. Eu tomo água e lembro dela. Respirar me faz recordar dela!
- Junte todos os presentes, as cartinhas, as coisinhas, enfim, todos os objetos que minimamente possam te fazer se lembrar dela e...
- ... jogo tudo fora?
- Não. Guarde-os. Em um local escuro e pelo qual você só esbarre uma vez a cada dez anos, quando decidir limpar mais a fundo algum cômodo. Será uma lembrança e uma lembrança amarga, cuja finalidade será mostrar a você que as pessoas mudam, que não dominamos o outro, que tudo que é ótimo pode decair. Vai servir para te alertar e te prevenir a encarar melhor o próximo desafio. O próximo amor.
- Parece algo bom de se tentar...

O sorriso triste estampado no rosto dele fez Bárbara sentir algo dentro de si.

- Lucas...
- Oi?
- Fique longe dos apelos. De todos eles. O álcool vai te deixar estúpido. Drogar-se por causa dela parece dramático demais. Não vai ficar batendo punheta com vídeo da internet também, isso é patético.

Ele não pôde evitar de esgarçar a boca.

- Ah! estou vendo um sorrisinho aí, estou sim! Seu punheteiro!

Agora ele abria a boca e mostrava os dentes, coisa que não fazia há meses.

- Brincadeiras à parte, mantenha a sanidade e a cabeça ocupada com coisas úteis. São nesses momentos de dor que você deve se conhecer, se analisar, saber seus limites. Entender o que você acertou e o que você errou vão te tornar uma pessoa melhor, já que a culpa nunca é exclusiva, você deve ter errado com essa garota também, em algum ponto. Para se gostar, você precisa se olhar no espelho e entender que você é maior que tudo isso. E só se gostando para que outra pessoa goste também de você.

Eles ficaram uns segundos em silêncio e então ela arrematou.

- E tudo isso leva tempo. Tempo é a chave de tudo, Lucas.

Nesse ponto, a soda e o cappuccino já haviam findado, os copos soltando pesadas gotas de água sobre a mesa de madeira. Pagaram a conta e passearam caminhando pelo bairro iluminado. A casa dele era mais perto e ela não era mulher que se deixava acompanhar por cavalheirismo. Eles riam cobertos de sinceridade, gozando a companhia benfazeja um do outro, naquela noite de tempo morno e terno.

Ele estacou na portaria do prédio, já subindo um degrau, enquanto rodava o molho de chaves na mão esquerda. Voltou-se. E revirou-se, subindo mais um degrau, atrapalhado. Depois volveu novamente, assegurando-se de que ela ainda não se fora e estava ali, a encará-lo. Ela, Bárbara, a amiga. Razoável, ponderada e sensível.

Então olhou demoradamente as horas no relógio e propôs:

- Quer subir um pouco?

3 comentários:

Anônimo disse...

Eu ri bastante com este texto, uma leitura gostosa do começo ao fim!
Por falar o fim, adorei a dica da Ba para colocar tudo em uma caixa e deixá-la em um lugar escuro, eu tenho uma dessa. Medonha. Nela estão todas as despedidas que tive, e por vezes, a perda de um bom amigo é mais cruel que a perda de um amor.
No trecho "Se até as gordinhas conseguem", eu pensei na Adela, e na 'crueldade' do Autor ao citá-la. (Risos)
Ótimo texto, no fundo, eu só espero que a Ba tenha sido sensata e respondido 'Quem sabe outra hora'.

Jeniffer V.

re disse...

Ah! Que pena! Estou alguns anos atrasada na minha vontade de pedir presentes ao papai noel. Há poucos dias o natal se foi e mais uma vez perdi a oportunidade...
Papai Noel? Você pode me trazer um amigo (a) Barbara de presente? Ah, como amigos assim fazem falta, mesmo quando repetem todas as frases de efeito que já foram pensadas, escritas e ditas...e que não funcionam claro. Porque quando resolvo fazer merda, não tem amigo que me segura.

Karen. disse...

Aaaah, muito bom. Muito, muito bom!