20.12.12

O mundo dos anônimos

Com as bolsas ao redor do mundo reproduzindo quedas após quedas, e se mantendo nessa atividade depressora de maneira sádica, com o Welfare State indo pelo ralo na maioria dos países dito desenvolvidos, com fome, miséria e suicídios sendo noticiados cotidianamente, uma ideia surgiu, em algum lugar, de alguma forma, e os revoltados passaram a expressar sua angústia “ocupando” um espaço público, exigindo, demandando, sem saber bem de quem. Não era um grupo político, econômico e muito menos terrorista. Eram pessoas comuns, tão díspares entre si quanto um advogado pode ser de um pedreiro, mas se orgulhavam de ser a voz dos 99%. Os 99% desprovidos da riqueza do 1%.

Esse evento se espalhou pelo mundo. Do Occupy Wall Street, chegamos a ter, e falo agora por uma voz regionalizada, o Ocupa Londrina, que de motivação econômica nada tinha, mas procurava parar as bizarras intervenções urbanísticas num bosque localizado no centro da cidade.

Esses “standers” são todos anônimos. O mundo é agora dos anônimos. Ninguém mais possui a força necessária para ser um rosto e um corpo, uma presença física ou imagética que forneça um pensamento para as pessoas, como o foram o construído Jesus Cristo, Che Guevara, Mao Tsé-Tung, Ayrton Senna, Lula, Mandela, entre outros. O mundo está fraco e um mundo fraco não tem corpo físico para se sustentar, para inspirar algo nos demais.

Diante disso, o mundo ficou anônimo. Não há escritores que prestem, mas todo adolescente tem um blog onde destila seu talento. Os muros estão todos pichados com mensagens contra o capital, contra a obrigatoriedade do voto, contra a violência praticada em âmbito doméstico, contra a opressão e até mesmo contra a fugacidade das relações promíscuas. Mas quem os pichou?

“Quem vigia os vigilantes?”, ironizava o muro da faculdade, anos atrás. Mas quem vigia aquele que ironiza os vigilantes? É um anônimo. Desconhecido, inimaginável, ininteligível. Ainda assim, ele foi como as ideias.

A ideia é anônima por sua natureza, surge em nossa cabeça quando menos esperamos, sem face nem voz, apenas um estalo, seguido daquela euforia própria da autoria. E quem disse que a ideia é nossa? A ideia é coletiva, porquanto sejamos um animal social.

E tão logo conseguimos apreender que a ideia é de todos, e não de nosso profundo umbigo, notamos que a vida se estabelece num ambiente coletivo, partilhando uma consciência que age individual e coletivamente.

Não é difícil pensar, sob esse ângulo, que a vida em sociedade reproduz nossa estrutura psíquica mais básica, consistindo em um aspecto consciente (estudo, trabalho, produtividade, consumo, etc), um aspecto repressivo (leis, moral, polícia, etc) e outro aspecto, esquecido e abandonado, que consiste justamente no surgimento desses elementos urbanos que nos cercam, que não sabemos de onde vêm, como surgem, mas que estão sempre presentes, toda vez que fechamos nossas pálpebras e deixamos o mundo escapar de nossas mãos por apenas um segundo. São as pichações, as festas que ninguém sabe quem organizou, os acidentes e incidentes que surgiram pela manhã, os acontecimentos inexplicáveis, entre outros.

Com o mundo demasiadamente cansado, tirando férias de si mesmo por mais tempo do que devia, surgiu o anonimato, este que poupa energia desnecessária ao peso do nome e age nas sombras, escondido dos excessivos olhos que nos cercam.

A quantidade de olhos, naturais e artificiais, que são postos sobre nós, também explica que os anônimos queiram dominar este planeta. Um mundo onde cada rosto equivale a um R.G., a um CPF e a um cadastro junto ao SERASA precisa, por óbvio, de um rosto sem face para não se calar. A voz vigiada é a voz sem potência. O escritor que se deixa conhecer é aquele cujo livro o vestibulando não precisa ler para acertar a questão na prova. É uma voz morta nas entrelinhas.

No mundo anônimo, a consciência (coletiva) se firma sem orientação alguma. Relações sociais, religião, economia, História, tudo se funde e desaparece, como se fugissem de responsabilidades milenares. As estruturas, fracas e complexas, ao invés de burocratizarem o mundo e torná-lo inteligível, acabam por reproduzir o caos natural, num malfadado simulacro, por demais artificial e insensível, que deixa a todos perdidos e desesperados. Por assim dizer, cada conduta de cada indivíduo (anônimo) é pautada de forma egoísta, não no sentido liberal, mas na tentativa de resgatar um pouco da ordem que outrora (e da qual ninguém se lembra) imperou.

Não obstante essas ponderações, o mundo anônimo está fadado ao fracasso, haja vista nossa necessidade primal de se esconder do estranho, do desconhecido. Os eventos anônimos, como as pegadas feitas com tinta branca caminhando por mais de cinco quilômetros em Londrina, são raciocinados e armenzados num canto esquecido de nossos cérebros, dada nossa incapacidade de torná-los inteligíveis. Viram uma referência usual, incapaz de sustentar a reflexão que buscaram causar no seu momento primitivo.

O anonimato perdeu sua ousadia de tempos antigos, quando representava revolta, incômodo e elegância, para se tornar uma parte grande demais, visceralmente ligada a todos os outros componentes do mundo, razão pela qual sem o anonimato, cairíamos na pior das pasmaceiras e seríamos autômatos, socialmente falando. O anonimato se tornou um ativo do capitalismo, uma ação para o socioólogo estudar e mais uma notícia estampada nas capas dos jornais que estão para falir.

Crente de que as ideias ainda voltarão a ter um rosto e um corpo, eu resisto ao mundo anônimo e divulgo meu nome, para que ele seja lembrado e refletido, raciocinado e divulgado, mesmo depois que o mundo for mais caos que ordem, e ninguém mais lembrar quem é que vigia quem: Victor Hugo de Araujo Barbosa.

Um comentário:

Daniel Ricardo Barbosa disse...

Tendo o post em mente, presumo que você gostaria muito de ler Jean Baudrillard. "Simulacro e Simulação". Não sei se já o leu. Não é sempre que se consegue encontrar um exemplar, mas na Estante Virtual de vez em quando aparece algum.