13.10.13

Eu gosto mesmo é de pobre

1

Algumas classes sociais separam Caco Antibes, aquele do “Sai de Baixo”, do Ruço, de “Pé na Cova”, ambos programas televisivos de humor. De comum, no entanto, está o mesmo homem na pele dos dois, Miguel Falabella.

Que não cogitem aqui que vou me alongar em discussões sociológicas a respeito da sociedade carioca, mesmo porque dela nada sei, dada a sua complexidade, mas o espaço é suficiente para uma constatação básica: eu gosto mesmo é de pobre.

É, isso mesmo, pobre, pé-rapado, zé-ruela, necessitado, carente. Aquele terço da nossa população que habita em sua maioria a periferia das manchas disformes que convencionamos chamar de cidades e cuja mente e modos são também habitados pela periferia.

A origem dessa predileção surgiu sabe-se lá aonde. Não posso dizer aqui que já fui hostilizado pelas classes mais abastadas ou me traumatizei com os nobres. Nada disso, eles me recebem de braços abertos, posso assegurar, mas alguns olhares de desconfiança, cônscios da minha verve média.

Mas não queiram que eu dobre os joelhos para os ricaços. Sobrenome para mim é aquilo que você herda de seus pais e tanto pior para os poderosos se o que carregam traz em si mais do que letras.

Atentem, o texto é sobre a habilidade do carioca Falabella em lidar com os pobres. Versátil, já figurou como um malandro metido a socialite, cuja ojeriza aos de baixo era sua maior fonte de humor. Antes de estigmatizar os subalternos, como querem fazer crer os que o citam, Caco Antibes era um personagem de fina crítica à classe média brasileira. Seu “horror a pobre” era uma caricatura tão decadente de nossa sociedade que esta, sem entender coisa alguma, ria aos montes, não se dando conta de que a piada era ela mesma.

Já com o Ruço o buraco é mais embaixo. Sua ousadia não seria de todo perdoável pelos ricos. Afinal, com “Pé na Cova”, Falabella humaniza os pobres, mostrando que, a despeito de sua falta de modos e do conhecimento acadêmico, buscam os mesmos objetivos de todo e qualquer outro ser humano, independentemente de sua faixa econômica: viver antes de morrer. E viver, creio eu, não depende dos penduricalhos da civilização que tentamos erigir.

Ruço é o “homem médio” a quem tentamos sempre imaginar no ideário popular. Dono de uma funerária (“F.U.I.”, Funerária Unidos do Irajá), sua casa parece um circo de horrores, não pela proximidade com o funesto, mas pela vida que esbanja de seus membros: uma ex-mulher alcoólatra e tanatopraxista (Marília Pêra, sensacional com seus 70 anos), a esposa atual, jovem e voluptuosa, uma filha stripper e lésbica e um filho político e pedante, além da fauna que reside na vizinhança, como a Luz Divina, as irmãs gêmeas de pais diferentes (uma negra, outra branca), o Tamanco (Mart´nália, como “marido” de Odete Roitman, a stripper) e os vizinhos reacionários, obviamente fazendo o papel dos evangélicos mais raivosos de que temos tido notícias ultimamente.

Muito mais que humor, “Pé na Cova” oferece uma visão que vai de encontro com tudo o que a Globo sempre construiu em termos de cultura. Se da manhã até às 22h30 sua programação é voltada para a conformação da personalidade dos brasileiros, de maneira que aceitem a imposição do status quo, como, por exemplo, o papel da mulher tranquila, brincalhona e burra que as donas de casa devem ter pela manhã, passando pela juventude apolitizada e egoísta de “Malhação”, ao sujeito classe média obediente ao grande capital, de todas as novelas do canal, das 18, 19 e 21 horas, sem exceção, é certo que com a exibição de “Pé na Cova” isso se inverte, ainda que de maneira muito dissimulada e tímida, pois é ali que os estereótipos ganham um novo padrão (seria de se esperar muito que o perfil do verdadeiro brasileiro fosse mostrado), permitindo uma demonstração da pulsão de vida e morte a que as classes menos assistidas estão mais habituadas.

Dessa forma, não é sem assombro que a faxineira da trama revela aos patrões que toda sua vizinhança foi exterminada por traficantes na favela em que mora, enquanto ela dava graças-a-deus por ter sobrevivido. As formas esculturais da filha stripper (Luma Costa) se exibem igualmente, sem pudor, provocando os crentes que não suportam a ideia de saber que ela cria uma criança adotada junto de outra mulher. No seriado já fizeram a defesa da PEC das domésticas e do bolsa-família, bem como se expôs ao ridículo parlamentares risíveis como Marco Feliciano, o que não deve agradar sobremaneira Ali Kamel e sua obstinação política.

Com isso, cria-se uma glamurização da pobreza, coisa que “A Grande Família” fazia sem muito empenho. Ruço e sua ex-mulher dançam na sala apertada, ao som de A Whiter Shade of Pale. Ruço, corajoso, beija na boca seu ex-melhor amigo (morto) enquanto este jaz em seu caixão. O ambiente é aconchegante, as amizades imperam na vizinhança, revelando uma matriz de solidariedade no discurso oculto do texto, em contraponto ao ódio exacerbado das reviravoltas novelescas e os amores insossos e irreais dos casais globais, exibidos pouco antes na faixa de horários do canal.

Poderia ficar horas tecendo loas a “Pé na Cova” e a programas similares, como o inglês “Shameless”, que vai ainda mais fundo na representação do lado oculto da sociedade, da imensa sombra que cerca o ponto ínfimo da iluminada riqueza. Cumpre antes, porém, destacar meu papel tão solene nessa predileção, destacando que este aqui, como não poderia deixar de ser, é corinthiano maloqueiro, socialista de botequim, agnóstico por preguiça e admirador de todos os que lutam diariamente para se manter de pé neste planeta.

E é por isso que compreendo a ideia de Falabella com seus trejeitos mesquinhos de Caco Antibes e a brutalidade gentil do Ruço. Há um quê de sujeito perdido num espaço de distorções na obra do carioca, alguém criado em meio a relativo conforto e desacostumado com a pompa dos ambientes “bem-frequentados”. Não muito diferentemente, acho que posso afirmar com carinho que me sinto melhor acolhido no buteco da esquina que no evento dos juízes ou no espaço de comércio das grandes grifes.

É um bicho isso, um desassosego com a diferença e um assombro com a indiferença. Um olhar trêmulo que não se acostumou a vislumbrar a sombra pálida no fundo luxuoso da caverna, mas almeja descer fundo nos grotões, em busca de esperança.

E a esperança, já dizia Winston em 1984, só pode estar nos proles.

17.8.13

Tu és Deus

Leio com a surpresa de um leitor de ficção científica a notícia dos cem mil inscritos como voluntários para colonizar Marte. Uma viagem sem volta. São muitos os que querem se livrar da Terra, deixando tudo para trás a fim de entrar de vez para a História interplanetária.

A notícia me faz lembrar de outra equipe selecionada para visitar Marte. A nave Envoy partiu do planetinha azul direto ao vermelho carregando quatro casais, todos especialistas em algo. Depois de interrompida a comunicação com a base terrestre, outra nave foi enviada para averiguar o que ocorrera. A nova tripulação não encontrou nenhum sobrevivente da Envoy, exceto um rapaz: filho de um dos casais, Valentine Michael Smith. Estou a falar de "Um estranho numa terra estranha”, de Robert Heinlein.

Smith foi trazido à Terra como um tesouro, um objeto a ser dissecado pelo cientistas terráqueos. Criado por marcianos, estava deslocado de toda a lógica e de todas as idiossincrasias humanas. Por isso mesmo, com sua percepção ingênua, acaba por desvelar toda a fragilidade de nossas convenções, aprendendo-as do zero e descartando-as por sua completa ausência de sentido.

O marciano vive sua trajetória um tanto quanto “siddarthiana”, construindo seu próprio entendimento das relações humanas, do sexo, da confiança, da amizade, do sacrifício, do amor, da doação, do afeto. As páginas correm enquanto ele tenta “grokkar” os homens e as mulheres. Marcante o momento em que se escandaliza com um ser humano que o convida a pisar a grama (um ser vivo), até que se dá conta de que a grama está ok com isso.

O momento chave do livro é a criação, por Valentine, da Igreja de Todos os Mundos, cujos dogmas são tão simples quanto o deveriam ser os dogmas de outras igrejas que por aí se proliferam. Sua mensagem é simples: a alteridade é o meio da humanidade se salvar. A empatia, o segredo de nossa coexistência. O “amor ao próximo” levado às últimas consequências.

A parábola não escapa do roteiro tradicional de nossa humanidade: Smith é linchado por uma turba enfurecida, que lhe clama a carne e o sangue enquanto ele resume seu olhar a um gafanhoto. Ao se entreolharem, o marciano proclama, sábio: “Tu és Deus”.

Os terráqueos que querem se ver livres deste nosso planeta, que ainda julgo belo, talvez necessitem construir um novo mundo, longe daqui, oculto de nossas convicções espirituosas. Um mundo de religiosos-políticos, cheio de indiferença, preconceito e segregação. Onde o amor ao próximo esbarra na barreira intransponível da diferença, da distinção, da contrariedade. Religiões totalitárias, incapazes de aceitar o outro. Não estamos a nos expandir, a nos desenvolver. Estamos insistindo em nos dobrar, fetalmente, desejosos de voltar a um útero podre.

Esses seres que daqui querem escapar, eles estão cobertos de razão. Que o planeta vermelho os receba de braços abertos, com toda a sua beleza árida.

Eu continuo no planeta azul, um tanto quanto espantado, olhando para todos e exclamando: “Tu és Deus”.

15.6.13

Strogonoff

“As risadas vão surgindo do pequeno grupo, um amontado de couro e tecido verde que se prosta perante uma chama fraca em meio à vastidão branca, de gelo, e negra, de terra revirada e revolta, da trincheira que chamavam de lar. Era uma distração de boa índole, porque o Oficial, que por sorte era destacado à cozinha, viera a ali se perder e a se isolar com o pequeno grupo da cavalaria, bloqueados pelo avanço dos poloneses e pela densa tempestade que os atingira duas semanas atrás. Os cavalos foram minguando, seja pela fraqueza, pelo frio, ou, o que mais irritava o Oficial, pela sua lâmina, que agora se dispunha a pelar o animal, atrás de sua carne negra e gelada. Era gostoso ouvir o som entrecortado dos risos curtos, mas longos o suficiente para quebrantar o frio”.

Eu cortava a cebola, as mãos salpicadas de pedacinhos do fruto e os olhos de lágrimas, quando ele me abraçou por trás, beijando minha nuca e apertando meu seio esquerdo. Um tremor de repulsa percorre minha espinha e ele confunde isso com um prazer incontido, me dando um tapa na bunda.

- Estou cozinhando, protesto.

Ele me pega o queixo e analisa meus olhos.

- Por favor, não chore. Sei que sentiu minha falta, mas aqui estou.

- Bobo.

Deixando a cebola de lado, esparramo os bifes de alcatra sobre a tábua. A faca dezliza pela fibra sem resistência, separando gordura de músculo. Ele me vê executando a tarefa e começa um papo sobre um programa de TV.

- … precisa ver o que ele faz com os cachorros, é inacreditável!

- Eu imagino.

Ele apanha uma cerveja da geladeira, não sem antes apalpar minha bunda novamente, e ressalta que fico muito gostosa de calça de lycra. Põe-se ao meu lado enquanto eu fatio a carne vermelha em tiras.

- O que você tem hoje? Parecia fria.

Olho para ele com pena. Com a faca na mão, beijo-o no canto da boca. Não, não sou mais capaz de sentir paixão por este homem. Ele não me traiu, não me fez mal, não me bateu. Ele me escreve uma música pelo menos uma vez por ano e me elogia e me dá flores. Seu sorriso é bonito. Mas …

- Estou com cólica.

- Ok, estressadinha. E me aperta a bochecha.

Depois que a margarina derrete, jogo a cebola na panela. O delicioso cheiro invade a cozinha enquanto ela doura. Já translúcida, é a vez de acrescentar as tiras de carne. Sambo a colher de pau, fritando-as. O barulho da carne crepitando é o sinal de que preciso.

- Tenho uma surpresa para você, querida, ele me diz, empolgado.

- O quê.

Ele me mostra uma fotografia de uma praia e diz que é o nosso próximo destino. Sorrio e viro a cara.

- Espera, amor, senão perco o ponto.

Despejo conhaque sobre a carne, o cheiro de álcool invadindo as narinas. Ele ainda me encarando, como um cachorro aguardando aprovação. Seguro um fósforo. Acendo-o e o jogo à panela. As chamas sobem altas, mais atrativas que todo o resto do mundo.

“Conhaque aquece o mundo e faz esquecer que a guerra nos espreita, dizia algum comdiv a eles, e entre um gole e outro, o Oficial olhou a garrafa e o creme azedo que tinha à sua frente, e por uma decisão impensada derramou o líquido sobre a caçarola, onde fervia a carne do trotador orloff, cortada em tiras para render mais. O cheiro animou seus companheiros. Rodion deu-lhe tapinhas nas costas pelo prato que prometia um banquete em meio ao inferno. Qualquer alegria era a maior das alegrias. Qualquer esperança era a porta do Céu”.

Sentados à mesa, ele me explica que o vento e o mar vão nos fazer bem, que sente saudade em me ver de bikini, e que mal pode esperar pelas caipirinhas. Eu gosto dele? Insisto? Ele teima em sorrir, mostrando os dentes, e talvez eu me arrependa de seguir adiante o plano. Quando prova o prato, fecha os olhos e se finge de dramático, elogiando até a terceira geração da minha família, congratulando-os pela genialidade em ter me gerado. Um prato tão simples esse…

Ele me assistindo encarar a panela, pergunta o que foi.

- E se estivesse envenenado?, questiono.

Ele ri.

- Hein.

- Para de brincar assim… não é legal.

Fico séria.

Ele larga o garfo e coça a garganta.

- Você …?

Explodo em risadas e ele me segue, voltando a comer. Mas eu não acho graça. Meus músculos da face estão tensos, minha boca se escancara, há um som repetido saindo das minhas cordas vocais, mas não há graça alguma.

“… o lobo encosta o focinho na tigela congelada e fareja a novidade. Funga de desgosto. Uma pata sua verifica a consistência da carne congelada. Mas para chegar até ela… tantas indumentárias, tanto couro e metal! O banquete nada tem de digno de uma fera. Uiva para o nada, para o branco da neve”.

- Felipe.

- Oi, querida?

- Eu quero a separação.

24.2.13

Gatos

Um homem feliz é um homem que se dá conta de todos os processos de sua vida. Ele sabe porque o sol nasce, o despertador toca, o porquê do barulho do motor do barbeador. Ele entende quando o ônibus sacoleja e o motivo dos olhares se cruzarem. Ele entende a fúria do chefe, a indiferença dos “um qualquer aí” e a medida exata entre a água gelada e a natural dentro do copinho de plástico. Ele compreende o cansaço e o suor e conhece a pontinha de esperança que o invade toda vez que a lua cerra o tempo pretérito. E ele faz tudo isso sorrindo. Eis o homem feliz.

E não obstante esse homem feliz se encontre com seus vizinhos e exclame bom-dia-boa-tarde-boa-noite com a expressividade de uma criança de quatro anos, por mais que ele supere os gracejos inconvenientes e as tristezas que martelam covardemente seu ímpeto, ainda assim, mais hora menos hora, ele cede.

Mas antes de ceder, ele só não entende uma coisa: por que tantos gatos mortos?

É coisa que ele reparou por acaso. Em uma calçada florida por uma primavera atrasada, jazia um gato rajado, o crânio amassado e a massa encefálica colorindo o granito disfarçada de pétalas. Estava deitado como se fosse um desses gatos egípcios régios, do tempo do Faraó. Registrado simplesmente como mais uma obra de arte urbana, mais uma peça perdida desse quebra-cabeça complexo de bilhões de peças.

Depois, ainda, outra ocorrência: um gato esmagado pelo peso de mil rodas, esfacelado pela impressão digital de empresas como Bridgestone ou Pirelli, tão explícito como os calendários de modelos seminuas financiados por estas corporações, alegria de mecânicos de todas as partes. A mecânica, contudo, não favorecendo o ser felino, acabou por provar-lhe, por todos os meios científicos e classicamente físicos, que o peso é peso, que o impacto é impacto, que a velocidade é velocidade e que dois corpos não ocupam o mesmo espaço. E foi-se o gato.

A estes se juntaram outros tantos bichanos: o gato pendurado por uma pata na única árvore da rua de pedra. O gato cortado em dois. A gata empalada. O filhote afogado. A gata enforcada. O siamês escalpelado. O himalaio prensado em máquinas. O maine que levou uma flechada. Até mesmo uma pantera entrou no jogo. Morta por uma espadada. Digna em seu luto.

Na cidade, os casos eram tantos, e tão inexplicáveis, que num nível de subconsciência mal justificado e de comprovação duvidosa, o impacto da onda de assassinatos de gatinhos corroeu a certeza do homem. Não é bem a certeza sobre algo, mas a certeza em si. Um homem, antes de feliz, tem de ser certo. E por ser certo, não pretendo que ele não seja errado. Se é que me entendem. Ele deve ter, por atributo, a certeza. E eu digo, sem pudor algum, que sem a certeza, o homem nada é e nem poderia ter sido. Neanderthais padeceriam. Cro-magnons não atiçariam a curiosidade dos outros. E nós, sapiens sapiens sapiens sapiens, não reproduziríamos nem metade desta sapiência toda. A incerteza é, via de regra, a causa mortis preferida da natureza. Pergunte aos gatos.

Atente-se para esta dissociação do protagonista. Ele sorri, ele trabalha, ele toma seu iogurte grego, joga bola e dá tapinhas nas costas dos queridos. Ele namora, noiva e até pensa em casar. Mas nalgum canto obscuro do seu cérebro, incomunicável (há não ser pela ponte que a própria incomunicabilidade cria), está o fato brutal e sacralizado de que algo ou alguém está matando gatos em um beco escuro da cidade.

De sorte que se na superfície um sorriso é estampado, nas profundezas deste homem jaz uma gélida incerteza.

Nestas horas, a cidade passou a se tornar paranoica. A venda de gatos diminuiu drasticamente, para uma cotação de apenas 1,4 gatos para cada grupo de 100.000 habitantes. O preço do gato subiu às alturas, impulsionado por um processo inflacionário escorchante, calcado no risco-gato, já embutido o preço do seguro-gato, dos mecanismos de segurança anti-matança de felinos, bem como na cobertura pela tanatopraxia e pelo enterro dos bichanos. Taxidermia sempre sendo cobrada à parte. O mercado de gatos sofria. Whiskas se tornou uma destas marcas anacrônicas, rememoradas como se fosse parte de um passado mítico.

O assunto “gato” foi se tornando algo secundado, proibido por normas de conveniência, originadas de algum gabinete oculto (ou ocultista), muito semelhante ao que se faz com organizações criminosas poderosas. Se ninguém falasse de gatos, ninguém pensaria em gatos. Se ninguém visse gatos e suas vísceras, ninguém suspeitaria das bestialidades.

Nos bastidores, um exército de ratos fora contratado a infestar a cidade, corrompendo a fábula por via inversa. Não se tratava mais o problema dos ratos com mais gatos, mas o problema dos poucos gatos com mais ratos. A lógica advinha de alguma mente brilhante, geniosa, formada pela USP e com doutorado na Europa, que calculara que para cada rato existente, de alguma forma providencial deveriam se fazer surgir tantos outros gatos, a fim de caçá-los.

E assim a cidade, cheia de ratos e cheia de incertezas, viu-se alarmada, silenciosamente, pela queda simétrica e sequencial desse jogo de dominó, iniciada pela matança singela e elaborada de gatinhos.

O homem, incerto, dificilmente continuava a compreender os processos de sua vida. Onde antes havia um sorriso e uma medida exata de água gelada e natural num copo de plástico, agora havia um rato. A ciência era humilhada pela cidade, pois se antes para cada evento existia um gato morto e um gato vivo, agora só existiam gatos mortos e milhões de ratos vivos.

Nesse ambiente nada salutar, o homem, incerto, por fim se tornou infeliz, destacado de seus processos cotidianos, imerso em caos. Aos seus questionamentos, correspondiam nada menos que resposta alguma.

Incerto, infeliz e ignorante de seus processos, ele se recordou de uma coisa boba, que aprendera na faculdade: lembrou que na bandeira de seu país, onde estava escrito “ordem e progresso”, muito perniciosamente fora omitada a palavra “amor”. Homens mais espertos, mais inteligentes, mais felizes, certos e cientes, deliberadamente, criando algo imenso e bonito, com uma pitada de semideuses, alijaram o amor da nossa pátria.

E na cidade isso grassou, pensou o homenzinho. Uma cidade onde outrora ordem e progresso evoluíam e lhe tornavam alguém, sem o comando do amor se tornou ratos famintos e gatos mortos.

Estava sozinho, caminhando laboriosamente por uma rua abandonada, de luz de poste queimada, quando, passando ao lado de um beco, ouviu algo. Era um som fino, uma linha tênue entre um rumor e o silêncio. O suficiente para lhe chamar a atenção. Esse som se repetiu, perdido no escuro e entre as latas de lixo do beco. Miau, miau e miau, dizia, pedindo socorro. Um resquício de amor num mundo louco, incerto e infeliz. Acudiu ao chamado. Procurou entre as latas, entre o lixo, entre os mendigos. Procurou até que encontrou. Acima de si, trepado num muro pouco mais alto que toda sua altura, um gato negro, não mais que um filhote, faminto e assustado, clamando por salvação, os olhos azuis estampados no homenzinho.

Agarrou-o, sabendo que aquilo sim era um sinal de esperança. Podia ouvir os ratos amontoados entre as paredes, ouvindo, correndo, em sinal de disputa política. Ratos mais fracos exclamando que deveriam ir embora, que o primado do gato voltaria. Ratos mais fortes querendo estabelecer uma nova ordem, uma ordem de ratos sobre gatos. A noite silenciosa agora inteira de miados esquecidos e chiados de ratos em polvorosa.

Com o gatinho em suas mãos, o homem, muito certo e meio feliz, foi tomando corpo de algo que estava entranhado em si. Ele sabia o que era aquilo. Ele sabia que sensação era aquela, de ter leves garras arranhando suas mãos, os pelos sedosos garantindo um afeto louco, a ânsia de agarrar, apertar, chacoalhar. A ânsia de matar.

Ele conhecia aquele processo. E ele o faria de novo e de novo, sempre com um sorriso no rosto.

28.1.13

A arte da briga

Fui encontrá-lo no terraço do nosso prédio, olhando para baixo, para os carros e pessoas que se movimentavam incessantemente. Sabia que o encontraria ali, em seu refúgio, onde ninguém mais pensaria em procurá-lo, exceto eu.

Aproximei-me e me recostei na parede, deslizando até o chão, onde sentei sem maiores preocupações. Percebendo minha presença, ele não esboçou reação alguma, limitando-se a me imitar, até estar sentado como eu. Estávamos de costas para o mundo.

Acendi um cigarro e ofereci a ele.

“Não conta para sua mãe”, recomendei.

Ele me olhou com aqueles grandes olhos expressivos e curiosos, como fazia desde os dois anos de idade. Em cada olho também estavam marcados hematomas do tamanho de bolas de tênis. Seu lábio, inchado na parte inferior, junto do roxo escuro dos olhos, fazia-o parecer uma fruta desfigurada. Pegou desajeitadamente o cigarro da minha mão e o tragou. Tossiu, o que me alegrou.

“Devia ter imaginado que era o seu primeiro”.

“Mamãe não aceitaria”.

“E essas marcas? O que ela diria sobre isso?”.

Ele ficou em silêncio, olhando para os próprios tênis sujos.

Eu dei mais umas três tragadas.

“Vou te contar uma história, moleque”. E de novo ele virou aqueles olhos para mim.

“É uma história sobre o meu primeiro soco. Tanto o que eu dei quanto o que eu levei. Foi na época da escola, claro. Quinze anos eu tinha. Naquela época isso significava que eu já devia ser maduro o suficiente para ter um emprego e um objetivo na vida, mas a verdade é que eu não sabia nada e fingia saber tudo”.

A atenção dele se redobrou.

“Márcio era o nome do meu amigo. Doido. Ele se esmerava em arranjar confusão. Onde tivesse que se manter distante, lá estava ele metendo o bedelho. Eu já vi ele pregar peça em padre, aprontar com seus irmãozinhos e deixar de queixo caído todas as garotas que não tiveram o bom senso de aceitar um beijo dele. Acontece que, com quinze anos, Márcio se apaixonou pela Rita, a namoradinha do José. José era um cara com 1,90 e barba na cara, enquanto que a gente comemorava cada pelo novo no saco no alto de nossos 1,75”.

“Márcio não ligava para nada disso. Para ele, era mais divertido sair por aí pichando os muros com o nome dele e o dela, um coração rodeando-os e uma flecha atravessando o coração. Ele preferia entregar uma flor a ela, arrancada do jardim de um velho chato vizinho nosso na época, todo santo dia. Ele fazia muito sucesso com todas as amigas da Ritinha, e eu acho que é por isso que não demorou muito tempo para que ela soltasse risinhos e piscadinhas para ele. Você conhece esse tipo de situação?”.

Ele balançou a cabeça para cima e para baixo, enfático, como se estivesse visualizando cada palavra que escapava da minha boca.

“Homem nenhum vence um coração balançado, e não foi por menos que o José viu que estava perdendo terreno. Tudo era motivo de briga para a Ritinha, ela parecia sempre entediada, e os beijos não tinham mais aquele suspiro no final. Ele viu que ela estava balançando pelo Márcio. E a partir daí, em qualquer cenário, ele iria perder, porque o desejo dentro de uma mulher é algo que não se domina. Ele só faz crescer, até não ter mais para onde escapar”.

“O José não era dado às análises do comportamento feminino e decidiu resolver tudo de uma forma bem masculina: descendo a porrada no Márcio e, de quebra, em mim, já que eu sempre andava junto dele. Na verdade, ele ficou sabendo que eu tinha feito uma festinha em casa e a convidado. Era só um pretexto para meu amigo poder ficar perto da menina. Ele suspeitou e me incluiu na matança”.

“Eu fiquei sem ar quando um fofoqueirozinho veio correndo me contar que eu tava ferrado, que eu e o Márcio estávamos marcados para tomar a maior surra no fim daquele dia. Ele sabia onde morávamos, onde jogávamos bola, onde estudávamos, enfim, não tinha para onde correr, mais cedo ou mais tarde iríamos apanhar. O Márcio riu: ‘eu quero ver esse baitola me pegar!’. Eu já suava frio. E ele, calmo. Nunca participara de uma briga e não tinha qualquer curiosidade a respeito dessas coisas. Lembre-se, eu achava que sabia tudo. Mas eu não sabia muita coisa. E dentre as coisas que eu não sabia e não tinha nem como fingir saber estava justamente a arte de brigar”.

“O Márcio, aquele filho-da-puta, continuou caçoando de mim, dizendo que eu era um viadinho, que devia ser mais homem e encarar o Zé. ‘Ele é grande mas não é dois!’, ele saiu espalhando para metade da vizinhança. Não aguentei aquilo. Não bastasse o fato de eu ter sido envolvido numa história que não me dizia respeito, um romancezinho de meia tijela que não significava nada para mim, ainda era feito de trouxa por meu melhor amigo, que não enxergava a gravidade da situação. Eu não apanharia só do José (o que por si só já seria de extrema gravidade). Eu seria provavelmente espancado por meu pai, por ter me envolvido em tamanha baixeza. Ouviria impropérios da minha mãe, que ‘não me criara para aquilo’. E ainda teria de ver o riso de prazer dos meus irmãos, que não me tinham em conta e adoravam ver eu me dar mal. Tudo por causa da Ritinha, seu rostinho angelical, e por causa do meu amigo inconsequente”.

“Eu corri até o meu esconderijo. Uma casa abandonada no fim do bairro, depois de um pasto num morro. Ali tentei me esconder. Estava disposto a ficar dias no lugar, se fosse preciso. Com certeza o José esqueceria aquela baboseira. Mas em compensação, o que pensariam de mim? ‘Covarde!!!’, exclamariam. Ouviria sons de galinha por todo lado que eu passasse. No fim das contas, minha própria ansiedade tornava aquele esconderijo um suplício, de maneira que saí dali antes que eu mesmo perdesse a fé em mim”.

Enquanto a história prosseguia, começou a chover. Com os pingos lambendo nossas faces, o rapaz fez menção de se levantar. Eu o segurei e o puxei para baixo novamente.

“Espera aí, vou terminar essa história, deixa essa chuva lavar esses seus ferimentos”.

E prossegui:

“Depois fui encontrar a Ritinha andando pela rua. Ela estava sozinha e isso era perfeito. Abordei-a e fui logo mandando: ‘Ritinha, que tá acontecendo? Você viu no que me meteram? Eu não tenho nada a ver com essa história do José!’. Ela me olhou com um pouco mais do que desdém: ‘Isso é problema seu. O Márcio disse que iria vencer o José por mim. Eu quero ver isso. Você pode sumir, não tem nada a ver. Todos sabem que está com medo’. Aquilo doeu, eu admito. A menina era uma vaquinha, vendo de camarote o duelo pelo coração dela. Eu não passava de um escudeiro. Talvez pior que Sancho”.

Ele gostava de ler e riu.

“Depois fui para casa. Minha mãe mal botou o olho em mim, já percebeu que algo se passava. Me abraçou, me beijou as bochechas, me apertou, fez um bolo para mim, suco, empada e cafuné. Você sabe como sua avó gosta de mimar os outros. Ela perguntava: ‘o que está acontecendo com meu príncipe’. Eu ficava quieto e ela continuava murmurando sua canção preferida e falando de amenidades que passavam reto pelos meus ouvidos. Eu poderia ficar ali em casa. Grande parte dentro de mim queria ficar ali, nos braços dela, escondido, cheio de ternura, só esperando a tempestade passar. No entanto, as palavras da Ritinha ainda ecoavam na minha cabeça. Todos sabiam que eu estava com medo. Todos”.

“Eu fui achar meu pai no escritório dele. Ocupado. Cara de bravo. Quando falei que precisava de ajuda, ele continuou remoendo algum pensamento ruim de trabalho durante uns três minutos antes de virar para a secretária e falar que era para anotar os recados, que iria sair comigo. Ele colocou seu paletó e foi me empurrando em direção ao elevador. No pastel da esquina, ele foi logo querendo saber o que é que eu tinha que estava com aquela cara de morto-vivo. Contei para ele”.

“Ele continuou comendo o pastel dele, sem responder nada. Comeu um pastel quente, soltando vapor e tudo, de carne e queijo, em um minuto, e depois matou o caldo de cana em cinco segundos. Pagou a tia do pastel, me levou para a saída, abriu a carteira e me deu uma grana: ‘olha, vê se esse moleque não quer uma grana, não vale a pena um olho roxo’. E foi embora”.

“Aquela ideia me parecia mais razoável. Pagar o José. Talvez ele aceitasse o dinheiro e me deixasse em paz. Mas sei lá, tinha algo no jeito do meu pai, a cara de enfastio com que me olhou quando viu o medo nos meus olhos, e olha que eu escolhi todas as palavras cuidadosamente, para que nenhum medo fosse notado. Eu tentei agir como homem, e ele só me viu como um menininho”.

“Eu estava decidido a visitar meu avô, que era homem meio biruta, mas bondoso. O sol já estava querendo se por e quando eu virei a esquina para seguir até a casa dele, eu me deparei com dois corpos se atracando, o som surdo de um soco atingindo carne humana. Era o Márcio levando a maior das porradas”.

O garoto abaixou a cabeça, lembrando de algo ruim.

“Fiquei paralisado. Parte de mim queria correr, a outra parte queria gritar. Nenhuma pensava em entrar naquela loucura. O Zé sozinho dera conta de quebrar um dente do Márcio e de deixá-lo mole como maria-mole. Ele mal se mantinha de pé. Infelizmente, minha paralisia me denunciou e, notando-me, o Zé ficou lívido de felicidade: ‘Ah! O medroso chegou! Me falaram que você correu para todo lado hoje tentando se esconder. Mas aqui está você. Tomou coragem! Vem cá que seu amigo aqui quer dividir a surra’”.

“Juro que minhas pernas tremiam. Ele se aproximava de mim devagar, saboreando o odor de terror que eu exalava. O Márcio estava rebocado em algum desconhecido que o tentava fazer voltar a si. A Ritinha, se alguma vez devotara algum sentimento mais nobre ao Márcio, agora olhava-o com espanto e incredulidade, quase se podia ler no seu rosto a desculpa que estava procurando para fugir dos cuidados que ele merecia. A turba ao redor nada fazia, eram apenas espectadores querendo ver o circo pegar fogo, e eu era a próxima atração: o cãozinho que anda sobre duas patas, o domador de leões fracassado, o palhaço sem graça”.

“O punho cerrado do Zé já estava quase no meu nariz quando ele se conteve com o grito histérico da Ritinha. Ele se virou. Ela: ‘Seu doido! Você viu o que fez com o Márcio? Nós iríamos sair hoje à noite! Era para você ter perdido, seu bruto, grosso, seu babaca! Eu nunca iria ficar com você, nem que você espancasse meio mundo! Some daqui’”.

“Parecia que o ponto fraco do nosso amigo era esse. Com o desprezo público, ele murchou como uma flor podre. Pelo jeito, aquele brutamontes morria mesmo de amores pela Ritinha. Ela era realmente bonitinha e ele, convenhamos, era um paspalhão, era o melhor que conseguiria em séculos. Os punhos matadores dele não deram conta da rejeição e ele vacilou. Ficou sem saber o que fazer”.

“Ver ele daquele jeito, bem, antes de tudo me encheu de pena. Mas eu não sou bobo. Aquilo me deu coragem. Se ele sofria, que mal tinha o meu medo? Eu sentia medo de uma fera ferida. Ele se esqueceu de mim, ali atrás dele, e isso me deu tempo de me posicionar, de treinar umas três vezes a melhor posição, de puxar o ar e ter a coragem de gritar: ‘ZÉ!’. Quando ele se virou, se deparou com meu punho bem no meio da fuça dele. Pof! Foi incrível. Todos seguraram a respiração. Infelizmente eu era fraco e ele não sentiu muita coisa. Deu uns três passos para trás, mal se desequilibrou, mas a audácia pegou fundo na alma dele. Ele me deu um único soco, na testa, e eu caí para trás, tonto. Mas foi só. Ele estava chorando. Chorando! Você imagina isso de um valentão, aos olhos de todos, da própria namorada? Ele soltava grandes lágrimas e, completamente envergonhado, saiu abrindo caminho entre o público, gritando “Seus idiotas! Seus idiotas! Saiam!”.

“Quando me levantei, dei um grande suspiro e percebi que os olhares em minha direção eram menos desrespeitosos. Não dei bola para ninguém. Fui olhar meu amigo. Ele se fingia de quase-morto no colo da Ritinha, todo dengoso. Depois de um tempo fomos gastar o dinheiro do meu pai tomando uma coca. E foi assim que acabou essa grande história. Você entendeu a moral, rapaz?”.

“Que história chata, achei que ia ter mais violência. Achei que ia ter uma reviravolta”.

“Mas, veja só, seu abusado, essa sua geração…”.

Ele se levantou, virou-se novamente para o parapeito e continuou olhando para os carros e as pessoas. Formiguinhas embaçadas pelos pingos de chuva.

“Eu vou ter que voltar para a escola amanhã, né?”.

“Você pode apostar que sim”.

Levantei-me também e joguei a bituca lá embaixo, assistindo-a desaparecer. Observei o moleque e não vi mais vazio naqueles olhos. Na boca, ele tinha um meio sorriso.

“É… eu vou!, eu vou sim, pai!”, meu filho exclamou.

15.1.13

Grandes expectativas

#1

Eu entro no carro e o amigo, com as mãos no volante, diz:

“Eu não vou mentir, as expectativas sobre o próximo texto são muito grandes. Todos esperam que você fale algo sobre o término”.

“Eu não sou tão previsível”, respondo.

“É que seria natural…”.

“Eu queria escrever um texto sobre verdades duras e mentiras reconfortantes. Seria algo no estilo “’Te Pego Lá Fora’”.

“Esse filme é demais. Mas sabe o que você deveria fazer? Você devia colocar um título que todos fossem pensar se tratar de algo meloso, mas o texto seria sobre futebol ou sobre a FIFA”.

“Qualquer coisa que eu escreva, vão entender mal”.

Então começo a recordar que o único texto que escrevi sobre futebol foi sobre um juiz assassinado no espaço de tempo de uma moeda que gira no ar, sem revelar nada: se é cara ou se é coroa.

#2

Eu almoço sozinho. E almoço rápido. Se em algum dia de sua vida (que me dá saudades) minha avó pretendeu que eu almoçasse bem e tirasse proveito disso, e ficasse feliz, e saboreasse cada alimento, e comesse muito, sempre com alguém para repor colheradas e colheradas no meu prato, bem, a vida e seus ritmos se encarregaram de que isso não acontecesse.

Eu almoço rápido, mas eu tive tempo de ver o casal que se aproximava. Ele, alto, cabelo branco, boca mole e voz pastosa, um terno folgado a cobrir seu corpo asqueroso. Ela, magra, alta, de cabelos cacheados. Bonita o suficiente para me chamar a atenção.

Casal? Pai e filha? Patrão e empregada? O que eles são?

Enquanto engulo meu risoto de legumes ele fala algo com sua boca de molusco e ela se enclina sobre o prato, virando a cabeça de lado e brincando com um de seus cachinhos entre o indicador e o polegar. Ela é linda. Uma conhecida passa por eles, ele sorri para ela e a chama de “garota”. Ele é nojento.

Ela repara em mim e fica sem graça. Nos seus olhos, a vergonha de fazer um papel que não lhe pertence. De ser um fetiche sem alma. De não estar no meu mundo, mas no mundo de um velho. A que preço? É o que quero saber.

Meu almoço perde e o sabor. No lugar, o azedo do ódio toma lugar. Ódio por todas as mulheres e seus planos e suas tramas e suas maquinações. Ódio pela incapacidade delas de viver algo em plenitude, mas tão somente calculando dez passos à frente, dez passos de vantagem, onde quem que estejam. Ódio de sua inabilidade em ser feliz, senão sugando a felicidade de outro ou de outros.

Um ódio que não desce nem com Coca-Cola.

Esse ódio dura só um segundo. E então ela volta a sorrir. Não sei para quem.

#3

Alguém declara que somente o homem forte é um homem. Eu contrario. Eu sempre acreditei que o fraco pisa no forte, mas tudo que vejo é o inverso, o fraco sendo esmagado. É um pensamento estranho, mas o pensamento é meu.

Ação. Todos ligam tanto para a ação. O homem tem que agir. Fazer algo. Ganhar algo. Transformar algo. Criar algo. Aceito que o homem é aquilo que faz e não aquilo que é ou o que traz seu nome ou seu passado. Pensam que perdi o debate, que aceitei o argumento final: homem é aquele que coça o saco e acena a mão para o mundo todo. É o que o contendor acredita.

Não, não, não. O fraco se transforma. O forte é opressor. O forte só existe para dar sentido à vida do fraco. O fraco se supera. O fraco supera o forte. E o fraco se torna o forte. Então, o homem fraco também é um homem.

Palavras. A discussão não tem fim. No que é melhor acreditar: que só é homem aquele que traz a caça para dentro de casa ou aquele que nunca foi nada, não é nada e não será nada, exceto quando todos menos esperarem e a adversidade exigir?

Os homens fracos e os fortes discutem, mas onde quer que se olhe, eles só pisam uns nos outros.