28.1.13

A arte da briga

Fui encontrá-lo no terraço do nosso prédio, olhando para baixo, para os carros e pessoas que se movimentavam incessantemente. Sabia que o encontraria ali, em seu refúgio, onde ninguém mais pensaria em procurá-lo, exceto eu.

Aproximei-me e me recostei na parede, deslizando até o chão, onde sentei sem maiores preocupações. Percebendo minha presença, ele não esboçou reação alguma, limitando-se a me imitar, até estar sentado como eu. Estávamos de costas para o mundo.

Acendi um cigarro e ofereci a ele.

“Não conta para sua mãe”, recomendei.

Ele me olhou com aqueles grandes olhos expressivos e curiosos, como fazia desde os dois anos de idade. Em cada olho também estavam marcados hematomas do tamanho de bolas de tênis. Seu lábio, inchado na parte inferior, junto do roxo escuro dos olhos, fazia-o parecer uma fruta desfigurada. Pegou desajeitadamente o cigarro da minha mão e o tragou. Tossiu, o que me alegrou.

“Devia ter imaginado que era o seu primeiro”.

“Mamãe não aceitaria”.

“E essas marcas? O que ela diria sobre isso?”.

Ele ficou em silêncio, olhando para os próprios tênis sujos.

Eu dei mais umas três tragadas.

“Vou te contar uma história, moleque”. E de novo ele virou aqueles olhos para mim.

“É uma história sobre o meu primeiro soco. Tanto o que eu dei quanto o que eu levei. Foi na época da escola, claro. Quinze anos eu tinha. Naquela época isso significava que eu já devia ser maduro o suficiente para ter um emprego e um objetivo na vida, mas a verdade é que eu não sabia nada e fingia saber tudo”.

A atenção dele se redobrou.

“Márcio era o nome do meu amigo. Doido. Ele se esmerava em arranjar confusão. Onde tivesse que se manter distante, lá estava ele metendo o bedelho. Eu já vi ele pregar peça em padre, aprontar com seus irmãozinhos e deixar de queixo caído todas as garotas que não tiveram o bom senso de aceitar um beijo dele. Acontece que, com quinze anos, Márcio se apaixonou pela Rita, a namoradinha do José. José era um cara com 1,90 e barba na cara, enquanto que a gente comemorava cada pelo novo no saco no alto de nossos 1,75”.

“Márcio não ligava para nada disso. Para ele, era mais divertido sair por aí pichando os muros com o nome dele e o dela, um coração rodeando-os e uma flecha atravessando o coração. Ele preferia entregar uma flor a ela, arrancada do jardim de um velho chato vizinho nosso na época, todo santo dia. Ele fazia muito sucesso com todas as amigas da Ritinha, e eu acho que é por isso que não demorou muito tempo para que ela soltasse risinhos e piscadinhas para ele. Você conhece esse tipo de situação?”.

Ele balançou a cabeça para cima e para baixo, enfático, como se estivesse visualizando cada palavra que escapava da minha boca.

“Homem nenhum vence um coração balançado, e não foi por menos que o José viu que estava perdendo terreno. Tudo era motivo de briga para a Ritinha, ela parecia sempre entediada, e os beijos não tinham mais aquele suspiro no final. Ele viu que ela estava balançando pelo Márcio. E a partir daí, em qualquer cenário, ele iria perder, porque o desejo dentro de uma mulher é algo que não se domina. Ele só faz crescer, até não ter mais para onde escapar”.

“O José não era dado às análises do comportamento feminino e decidiu resolver tudo de uma forma bem masculina: descendo a porrada no Márcio e, de quebra, em mim, já que eu sempre andava junto dele. Na verdade, ele ficou sabendo que eu tinha feito uma festinha em casa e a convidado. Era só um pretexto para meu amigo poder ficar perto da menina. Ele suspeitou e me incluiu na matança”.

“Eu fiquei sem ar quando um fofoqueirozinho veio correndo me contar que eu tava ferrado, que eu e o Márcio estávamos marcados para tomar a maior surra no fim daquele dia. Ele sabia onde morávamos, onde jogávamos bola, onde estudávamos, enfim, não tinha para onde correr, mais cedo ou mais tarde iríamos apanhar. O Márcio riu: ‘eu quero ver esse baitola me pegar!’. Eu já suava frio. E ele, calmo. Nunca participara de uma briga e não tinha qualquer curiosidade a respeito dessas coisas. Lembre-se, eu achava que sabia tudo. Mas eu não sabia muita coisa. E dentre as coisas que eu não sabia e não tinha nem como fingir saber estava justamente a arte de brigar”.

“O Márcio, aquele filho-da-puta, continuou caçoando de mim, dizendo que eu era um viadinho, que devia ser mais homem e encarar o Zé. ‘Ele é grande mas não é dois!’, ele saiu espalhando para metade da vizinhança. Não aguentei aquilo. Não bastasse o fato de eu ter sido envolvido numa história que não me dizia respeito, um romancezinho de meia tijela que não significava nada para mim, ainda era feito de trouxa por meu melhor amigo, que não enxergava a gravidade da situação. Eu não apanharia só do José (o que por si só já seria de extrema gravidade). Eu seria provavelmente espancado por meu pai, por ter me envolvido em tamanha baixeza. Ouviria impropérios da minha mãe, que ‘não me criara para aquilo’. E ainda teria de ver o riso de prazer dos meus irmãos, que não me tinham em conta e adoravam ver eu me dar mal. Tudo por causa da Ritinha, seu rostinho angelical, e por causa do meu amigo inconsequente”.

“Eu corri até o meu esconderijo. Uma casa abandonada no fim do bairro, depois de um pasto num morro. Ali tentei me esconder. Estava disposto a ficar dias no lugar, se fosse preciso. Com certeza o José esqueceria aquela baboseira. Mas em compensação, o que pensariam de mim? ‘Covarde!!!’, exclamariam. Ouviria sons de galinha por todo lado que eu passasse. No fim das contas, minha própria ansiedade tornava aquele esconderijo um suplício, de maneira que saí dali antes que eu mesmo perdesse a fé em mim”.

Enquanto a história prosseguia, começou a chover. Com os pingos lambendo nossas faces, o rapaz fez menção de se levantar. Eu o segurei e o puxei para baixo novamente.

“Espera aí, vou terminar essa história, deixa essa chuva lavar esses seus ferimentos”.

E prossegui:

“Depois fui encontrar a Ritinha andando pela rua. Ela estava sozinha e isso era perfeito. Abordei-a e fui logo mandando: ‘Ritinha, que tá acontecendo? Você viu no que me meteram? Eu não tenho nada a ver com essa história do José!’. Ela me olhou com um pouco mais do que desdém: ‘Isso é problema seu. O Márcio disse que iria vencer o José por mim. Eu quero ver isso. Você pode sumir, não tem nada a ver. Todos sabem que está com medo’. Aquilo doeu, eu admito. A menina era uma vaquinha, vendo de camarote o duelo pelo coração dela. Eu não passava de um escudeiro. Talvez pior que Sancho”.

Ele gostava de ler e riu.

“Depois fui para casa. Minha mãe mal botou o olho em mim, já percebeu que algo se passava. Me abraçou, me beijou as bochechas, me apertou, fez um bolo para mim, suco, empada e cafuné. Você sabe como sua avó gosta de mimar os outros. Ela perguntava: ‘o que está acontecendo com meu príncipe’. Eu ficava quieto e ela continuava murmurando sua canção preferida e falando de amenidades que passavam reto pelos meus ouvidos. Eu poderia ficar ali em casa. Grande parte dentro de mim queria ficar ali, nos braços dela, escondido, cheio de ternura, só esperando a tempestade passar. No entanto, as palavras da Ritinha ainda ecoavam na minha cabeça. Todos sabiam que eu estava com medo. Todos”.

“Eu fui achar meu pai no escritório dele. Ocupado. Cara de bravo. Quando falei que precisava de ajuda, ele continuou remoendo algum pensamento ruim de trabalho durante uns três minutos antes de virar para a secretária e falar que era para anotar os recados, que iria sair comigo. Ele colocou seu paletó e foi me empurrando em direção ao elevador. No pastel da esquina, ele foi logo querendo saber o que é que eu tinha que estava com aquela cara de morto-vivo. Contei para ele”.

“Ele continuou comendo o pastel dele, sem responder nada. Comeu um pastel quente, soltando vapor e tudo, de carne e queijo, em um minuto, e depois matou o caldo de cana em cinco segundos. Pagou a tia do pastel, me levou para a saída, abriu a carteira e me deu uma grana: ‘olha, vê se esse moleque não quer uma grana, não vale a pena um olho roxo’. E foi embora”.

“Aquela ideia me parecia mais razoável. Pagar o José. Talvez ele aceitasse o dinheiro e me deixasse em paz. Mas sei lá, tinha algo no jeito do meu pai, a cara de enfastio com que me olhou quando viu o medo nos meus olhos, e olha que eu escolhi todas as palavras cuidadosamente, para que nenhum medo fosse notado. Eu tentei agir como homem, e ele só me viu como um menininho”.

“Eu estava decidido a visitar meu avô, que era homem meio biruta, mas bondoso. O sol já estava querendo se por e quando eu virei a esquina para seguir até a casa dele, eu me deparei com dois corpos se atracando, o som surdo de um soco atingindo carne humana. Era o Márcio levando a maior das porradas”.

O garoto abaixou a cabeça, lembrando de algo ruim.

“Fiquei paralisado. Parte de mim queria correr, a outra parte queria gritar. Nenhuma pensava em entrar naquela loucura. O Zé sozinho dera conta de quebrar um dente do Márcio e de deixá-lo mole como maria-mole. Ele mal se mantinha de pé. Infelizmente, minha paralisia me denunciou e, notando-me, o Zé ficou lívido de felicidade: ‘Ah! O medroso chegou! Me falaram que você correu para todo lado hoje tentando se esconder. Mas aqui está você. Tomou coragem! Vem cá que seu amigo aqui quer dividir a surra’”.

“Juro que minhas pernas tremiam. Ele se aproximava de mim devagar, saboreando o odor de terror que eu exalava. O Márcio estava rebocado em algum desconhecido que o tentava fazer voltar a si. A Ritinha, se alguma vez devotara algum sentimento mais nobre ao Márcio, agora olhava-o com espanto e incredulidade, quase se podia ler no seu rosto a desculpa que estava procurando para fugir dos cuidados que ele merecia. A turba ao redor nada fazia, eram apenas espectadores querendo ver o circo pegar fogo, e eu era a próxima atração: o cãozinho que anda sobre duas patas, o domador de leões fracassado, o palhaço sem graça”.

“O punho cerrado do Zé já estava quase no meu nariz quando ele se conteve com o grito histérico da Ritinha. Ele se virou. Ela: ‘Seu doido! Você viu o que fez com o Márcio? Nós iríamos sair hoje à noite! Era para você ter perdido, seu bruto, grosso, seu babaca! Eu nunca iria ficar com você, nem que você espancasse meio mundo! Some daqui’”.

“Parecia que o ponto fraco do nosso amigo era esse. Com o desprezo público, ele murchou como uma flor podre. Pelo jeito, aquele brutamontes morria mesmo de amores pela Ritinha. Ela era realmente bonitinha e ele, convenhamos, era um paspalhão, era o melhor que conseguiria em séculos. Os punhos matadores dele não deram conta da rejeição e ele vacilou. Ficou sem saber o que fazer”.

“Ver ele daquele jeito, bem, antes de tudo me encheu de pena. Mas eu não sou bobo. Aquilo me deu coragem. Se ele sofria, que mal tinha o meu medo? Eu sentia medo de uma fera ferida. Ele se esqueceu de mim, ali atrás dele, e isso me deu tempo de me posicionar, de treinar umas três vezes a melhor posição, de puxar o ar e ter a coragem de gritar: ‘ZÉ!’. Quando ele se virou, se deparou com meu punho bem no meio da fuça dele. Pof! Foi incrível. Todos seguraram a respiração. Infelizmente eu era fraco e ele não sentiu muita coisa. Deu uns três passos para trás, mal se desequilibrou, mas a audácia pegou fundo na alma dele. Ele me deu um único soco, na testa, e eu caí para trás, tonto. Mas foi só. Ele estava chorando. Chorando! Você imagina isso de um valentão, aos olhos de todos, da própria namorada? Ele soltava grandes lágrimas e, completamente envergonhado, saiu abrindo caminho entre o público, gritando “Seus idiotas! Seus idiotas! Saiam!”.

“Quando me levantei, dei um grande suspiro e percebi que os olhares em minha direção eram menos desrespeitosos. Não dei bola para ninguém. Fui olhar meu amigo. Ele se fingia de quase-morto no colo da Ritinha, todo dengoso. Depois de um tempo fomos gastar o dinheiro do meu pai tomando uma coca. E foi assim que acabou essa grande história. Você entendeu a moral, rapaz?”.

“Que história chata, achei que ia ter mais violência. Achei que ia ter uma reviravolta”.

“Mas, veja só, seu abusado, essa sua geração…”.

Ele se levantou, virou-se novamente para o parapeito e continuou olhando para os carros e as pessoas. Formiguinhas embaçadas pelos pingos de chuva.

“Eu vou ter que voltar para a escola amanhã, né?”.

“Você pode apostar que sim”.

Levantei-me também e joguei a bituca lá embaixo, assistindo-a desaparecer. Observei o moleque e não vi mais vazio naqueles olhos. Na boca, ele tinha um meio sorriso.

“É… eu vou!, eu vou sim, pai!”, meu filho exclamou.

2 comentários:

Karen. disse...

"porque o desejo dentro de uma mulher é algo que não se domina. Ele só faz crescer, até não ter mais para onde escapar."

Me identifiquei totalmente.

re disse...

Momento importante este: - quando descubro que posso ser o meu próprio pai...acolher os meus medos e cuidar das minhas feridas.